Adeus Motorpress, olá Motorpress

A vida dá muitas voltas e às vezes até nos faz verdadeiras reviengas…

Depois da decisão de suspensão de publicação da Automagazine e da perspectiva de desemprego, eis que surgiu a possibilidade de abraçar um novo projecto dentro da empresa: a sub-direcção do departamento de multimédia. O departamento de multimédia, tem a seu cargo a gestão das plataformas  de toda a presença online das publicações da Motorpres Lisboa. Ou seja, sites, fóruns, blogues, redes sociais, mobile, etc. É todo um mundo que agora vou começar a explorar.

Quem me conhece (e quem me acompanha no facebook…) já percebeu que esta é uma área de trabalho que me interessa muito e que me tem vindo a interessar cada vez mais. E, sinceramente, estou convencido que o futuro dos media passa por aqui. Por isso, o convite da Motorpress para participar na direcção do departamento tornou-se… irrecusável.

Obrigado a todos os que nesta fase conturbada elogiaram a Automagazine e mostraram preocupação pelo futuro profissional dos respectivos trabalhadores. Pela minha parte o futuro está assegurado e continua a passar… pela Motorpress.

Eu voto Obama!

A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama tem suscitado os maiores equívocos e – muito sinceramente (mas não humildemente…) – parece-me que ainda ninguém percebeu verdadeiramente o que é que está em causa!

A escolha da Academia do Nobel é uma espécie de ponto culminante de um namoro entre os europeus e Obama que começou muito antes da sua eleição e que na verdade já tem antecedentes remotos na simpatia que os europeus nutriam por Clinton ou até por Kennedy. E que, pelo oposto, se manifestou também na ridicularização de Bush.

As épocas são diferentes, as políticas são diferentes e até as pessoas são diferentes, mas o que une Kennedy, Clinton e Obama é a esperança com que cada um foi olhado, no seu tempo (e até depois do seu tempo…), pelos europeus. Esperança em quê? Num mundo melhor, naturalmente! Parece um script de Hollywood (protagonizado por Kevin Costner…), mas não é! A aspiração de “um mundo melhor” é, provavelmente, a primeira e mais profunda aspiração dos europeus. E é tudo menos banal ou romântica. Na realidade é resultado de um entendimento muito preciso – e correcto, digo eu – da realidade global com que hoje somos confrontados.

Os europeus são o povo culturalmente mais evoluído à face da terra. E, provavelmente, são o povo com maior consciência de que o nosso mundo é hoje um mundo global. Não só porque os problemas, quaisquer que eles sejam, têm hoje consequências à escala global, mas também porque, consequentemente,  a solução dos problemas do mundo tem que passar pelo equilíbrio de uma racionalidade global. Não necessariamente (nem desejavelmente)  de um poder factual, sustentando em força militar, mas antes de uma ideia de coexistência pacífica, sustentada numa nova forma – positiva – de dialogar com todos os povos. Foi a mensagem positiva que os Europeus valorizaram em Kennedy ou Clinton e hoje os leva idolatrarem Obama mais ainda que os norte-americanos. A aspiração é difusa – muito difusa – mas não podia ser mais acertada: todos os europeus de bom senso  (e muitos americanos, bastantes asiáticos,  alguns africanos, etc) já perceberam que o futuro do planeta precisa urgentemente de uma racionalidade global. E que os acordos globais (de clima, de comércio, etc) andam muito devagar e não tocam sequer ao de leve na política (na realidade até são quase sempre condicionados e limitados por ela).  E a política – todos o sabemos – é o busílis da questão.

Quando Obama foi eleito pela larga maioria dos norte-americanos, percebeu-se que, se a eleição tivesse ocorrido aqui, teria sido eleito por uma ainda mais larga maioria dos europeus. O que os europeus quiseram dizer com esse engagement foi que gostariam de ter votado na eleição americana e que, humildemente, a consideram o acto democrático decisivo para o futuro da humanidade. Pois bem, o Prémio Nobel da Paz é o voto dos europeus em Obama. É, portanto, o meu voto!

“O Vara”

Fico preocupado quando ouço uma jornalista da direcção de um jornal de referênca referir-se a alguém como “o Vara”.

Na forma de tratar os políticos, os jornais seguem o livro de estilo de cada um, mas obviamente nunca o fazem por “tu”. Não escrevem “o Armando Vara”, nem “o Sócrates” ou “a Manuela Ferreira Leite”. Escrevem – e bem – “Armando Vara”, “José Sócrates” ou “Manuela Ferreira Leite”.

Mas é quando estão fora do seu aquário – fora da redacção e dos seus constrangimentos estilísticos – que os jornalistas tendem a revelar o seu verdadeiro “self”. Nos debates, nos comentários na rádio ou na TV, nos blogues e no twitter. E, quanto à forma de tratar os políticos nestes fóruns, há pelo menos 3 comportamentos típicos da”espécie”:

1. Os institucionalistas. Tratam todos os políticos na terceira pessoa. Nunca dizem “o Sócrates” ou “o Cavaco”, mas sempre e só “Sócrates” ou “Cavaco”. Mesmo que estejam a falar de Mendes Bota! Ou seja, mantêm em relação aos objectos dos seus comentários, posts ou twits a distância institucional devida e que, afinal, é a mesma que se materializa no código estilístico do jornal.

2. Os populistas. Tratam todos os políticos por tu. Para estes jornalistas, não há grande distância entre a conversa de café e o debate político e portanto também não deve haver grande distância entre o café e o parlamento ou os gabinetes ministerias. Todos são “o” qualquer-coisa: “o Manel do talho” ou “o Cavaco e Silva”. Nas redacções aprenderam a seguir o livro de estilo, mas nas conversas mais informais, foge-lhes o discurso para o povo.

3. Os selectivos. São de longe os mais perigosos e tratam alguns políticos por “tu” e outros por “você”. São capazes de dizer “o Vara” como de dizer “Manuela Ferreira Leite” ou “António Vitorino”.  Às vezes na mesma frase. E essa escolha é todo um tratado. Nalguns casos essa familiaridade é elogiosa (“o Soares)”, mas na maior parte dos casos é desdém (“o Vara”). E é por isso que este comportamento é perigoso: porque implica uma ideia pré-concebida sobre uma personagem de que parece que nem o próprio tem consciência. E é isso mesmo que é muito preocupante do ponto de vista da nossa “confiabilidade” nas notícias, opiniões e decisões editoriais dos jornalistas.

O país da irresponsabilidade

Era de esperar que, no quadro de um governo de minoria, no Parlamento se vivesse em instabilidade política. E desde logo parecia um exercício difícil para um governo ex-maioritário efectivar o “jogo de cintura ” necessário a estar bem com Deus e com  o diabo, a célebre “coligação” económica à direita e social à esquerda.

Mas o que se tem passado na Assembleia da República desde que este Governo tomou posse ultrapassas todas as piores expectativas.  É fácil falar de irresponsabilidades da oposição, como aliás o PS tem feito repetidamente, aproveitando o facto de a mesma se “pôr a jeito”. É óbvio que o país não pode ser governado a partir da oposição, algo que certamente até a própria oposição percebe. Mas, se seria admissível que os partidos dos extremos agissem no parlamento com o grau de irresponsabilidade com que o têm feito, era igualmente expectável que o PSD, um partido com aspirações de governo, tivesse uma postura institucionalmente mais fundamentada. A sua falta é o resultado de um partido que  neste momento não tem rumo nem liderança (“Afinal quem manda no PSD?” é hoje uma pergunta muito pertinente).

Mas a irresponsabilidade vai ainda mais longe. Com uma oposição em roda livre, um PSD à deriva e um Presidente diminuído, Sócrates teria todas as condições para passar para as costas da oposição o ónus da “não-governação” e capitalizar descontentamento para ganhar as próximas eleições intercalares. E essa continua certamente a ser a sua estratégia. Mas, num quadro em que tem sido insistentemente acusado de prepotência e “asfixia democrática”, aconselhar ao actual líder da oposição, em pleno parlamento, que tenha “juizinho”, está longe de ser algo que se possa considerar inteligente. Quanto muito, aconselhar-se-ia a Sócrates que mandasse os seus “generais” fazerem esse papel; e que os aconselhasse a não agirem como “soldados de infantaria”, que foi o que fez Vieira da Silva com as acusações de “espionagem política”. Ou seja, o Governo , contra todas as expectativas e condicionalismos da governação, tem agido com o mesmo grau de irresponsabilidade da oposição, começando no Primeiro-Ministro, passando pelos seus ministros e acabando nos dirigentes do partido.

Obviamente, os portugueses de bom senso (ainda há alguns…) olham para este quadro com preocupação. Mas, manda o mesmo bom senso que se diga que foram os portugueses, precisamente, que escolheram esta solução em eleições livres. E mais: foram os mesmos portugueses que, sucessivamente alertados nos últimos anos para a dificuldade de gerar maiorias de governo estáveis, não souberam ou não quiseram exigir dos seus partidos a correspondente alteração do sistema eleitoral. Dir-se-á, com razão, que a instabilidade – e irresponsabilidade – actual manifesta o pior que o nosso sistema eleitoral pode gerar, mas que é possível governar em minoria com um mínimo de estabilidade, como diversos exemplos no passado provam. Ou seja, o estado “minoritário” de governo permite uma amplitude política que depende menos da aritmética eleitoral do que da maturidade e sentido de responsabilidade dos agentes políticos. É isso que faz desta conjuntura um verdadeiro  “worst case scenario” com lições importantes para o nosso presente e futuro coletivos: é que, no actual quadro macroeconómico, a última coisa de que o País precisava era da cultura de irresponsabilidade que une praticamente todos os agentes políticos. A única coisa responsável que cada um de nós pode fazer, na verdade, é pedir-lhes – exigir-lhes – que sejam responsáveis! E isso já não é pouco!

Automagazine

Caros amigos,

Como todos certamente já perceberam, a Motorpress, pressionada pela quebra de vendas e de facturação publicitária, decidiu encerrar duas revistas – entre as quais a Automagazine – e fazer o despedimento de 28 pessoas, das quais 11 jornalistas – entre os quais eu.

Naturalmente, esta não é uma decisão que eu tomaria e não concordo com ela. A Automagazine é uma boa revista e, resistindo durante esta fase de crise que atravessamos, tinha condições de continuar a ser a revista de sucesso que sempre foi. Mas a Motorpress, num processo iniciado em Estugarda, decidiu diferentemente. Lamento-o e penso que a Motorpress também o virá a lamentar um dia.

Pela minha parte, levo a mágoa que não ter conseguido conduzir a Automagazine a bom porto. Lamento-o pelos muitos leitores fiéis que nos acompanharam ao longo destes anos, pelos excelentes jornalistas que passaram por esta casa e, sobretudo, pela revista, que merecia mais e melhor.

Mas, olhando para trás, fico orgulhoso do percurso que fizemos. Creio que fizémos uma boa revista, da qual nos podemos orgulhar. O  que a derrubou foram as contingências do mercado e a interpretação – a meu ver errada – que deles foi feita por quem tinha que decidir.

A mim pessoalmente, o tempo passado à frente da Autmagazine, deu-me os melhores momentos profissionais que vivi até hoje! E dá-uma uma experiência de vida que – não o duvido – ser-me-á muito útil no futuro. Para mim, esta é uma oportunidade que abre novas rotas de evolução profissional. Há alguns projectos que gostaria de levar por diante, mas por enquanto são apenas projectos. Quando forem mais do que isso, os meus amigos serão naturalmente os primeiros s saber deles.

O meu obrigado a todos os que me deram uma palavra amiga neste momento difícil. Bem hajam!

Responsabilidade da minoria

Há uma reflexão associada ao conceito de governação em minoria que não tem passado muito para a opinião pública, mas que é incontornável e ajudará a moldar os próximos meses.

Uma maioria contrária ao Governo só se faz com o PSD. Tem-se falado muito das responsabilidades dos partidos da oposição na estabilidade governativa – inteligentemente, o PS tem-no repetido insistentemente – mas convém não esquecer que, quaisquer que sejam as circunstâncias, o Governo só pode ser derrubado com os votos do PSD. Esta é uma realidade aritmética, com importantes consequências políticas.

O CDS, o PCP e o BE gozam de uma margem de irresponsabilidade muito maior que o PSD. O que significa que podem dizer e fazer em termos políticos aquilo que entenderem. O PSD não. O PSD tem que ter em conta o resultado das suas acções.

Para o maior partido da oposição, qualquer que ele seja (vale agora para o PSD como valeu noutras alturas para o PS), não há nada mais confortável do que fazer oposição a uma maioria. É muito mais difícil fazer oposição a uma minoria. Porque a oposição a uma minoria  pode implicar responsabilidades políticas imediatas e abre a porta às “queixas” do Governo (lembram-se do “deixem-nos trabalhar” de Cavaco, de longe um dos slogans mais fortes do Portugal democrático; o slogan não é forte por causa da sua sintaxe, tornou-se forte porque era profundamente “real”).

É isso que o próximo líder do PSD tem que entender.  A tarefa que terá pela frente é tudo menos fácil. Em minoria, o Governo andará no fio da navalha. Mas o maior partido da oposição também.

Uma reflexão sobre o PSD

PSD

Se alguém me tivesse perguntado, depois das eleições, quem ia viabilizar uma solução governativa com o PS, eu teria dito que seria o PP. Por três razões:

1. O PP é um partido que precisa de estar no poder de tempos a tempos para distribuir cargos pelos seus militantes. O PP precisa de passar pelo poder  tanto quanto os partidos simétricos da esquerda precisam de permanecer afastados dele.  O cimento do PP é a distribuição de poder; o cimentos dos partidos de esquerda é a reivindicação face aos poderes instalados;

2. Um partido na posição que o PP ocupa no espectro partidário pode, em condições normais, valer entre 5 e 15 por cento dos votos. Com uma votação de mais de 10 por cento, o PP de Paulo Portas está mais perto do seu limite máximo do que do seu patamar inferior.

3. Por fim, o CDS teve uma das suas melhores votações de sempre no quadro de um enfraquecimento correspondente do PSD. O que quer dizer que , se o Governo PS porventura caísse nos meses mais próximos, seria muito difícil o PP repetir um resultado tão bom; em primeiro lugar porque este já está no patamar superior (independentemente de tudo o resto é mais provável que desça do que que suba); e em segundo lugar porque, previsivelmente, o PSD vai lamber as suas feridas, fazer as mudanças internas necessárias, e aparecer mais forte daqui a alguns meses.

Por todas estas razões, esperar-se-ia que Paulo Portas – que é suficientemente inteligente e frio para o perceber – fosse o primeiro a querer chegar-se ao poder, usando aliás como trunfo o facto de ser o único que está em condições para o fazer!

Mas não foi isso que Paulo Portas fez! O que O terá levado a agir assim. Será possível que Paulo Portas ache que pode tornar o CDS/PP maior que o PSD? Será que Paulo Portas quer transformar o PP no grande partido liberal de direita que o PSD nunca ousou ser?

Não devemos esquecer que Paulo Portas é um resistente. Já sofreu bastante à frente do CDS/PP e no seu íntimo, estava provavelmente convencido que o partido já não podia chegar ao patamar eleitoral que agora atingiu. Com mais de 10 por cento dos votos no seu regaço, Portas deve ter sentido que era a altura do “vai ou racha”. Olhou para o lado, viu um PSD em frangalhos e ter-se-á convencido que isso era mesmo possível.

E é… se o PSD deixar. Por isso é que esta reflexão é sobre o PSD.

O Partido Social Democrata esteve no poder dois anos nos últimos 20, “queima” dirigentes como os clubes de futebol “queimam” treinadores e está ameaçado de desagregação por múltiplas facções, entre as quais o PSD e o PPD são as únicas que fazem sentido. E, mesmo assim, não juntas.

O Partido Social Democrata está numa encruzilhada. Se passar a ser dirigido por Passos Coelho (e se este confirmar o sentido liberal de algumas das suas intervenções) podemos ter um “novo” PSD (talvez finalmente um PPD…) depois das directas. Provavelmente pode perder o centro (já o perdeu!), mas será uma ameaça ao PP. Se continuar a ser dirigido pelos “velhos”  do costume ou por “novos velhos” com a mesma estratégia de sempre, a sua recuperação irá depender muito da capacidade e visão do  líder que escolher.  Como aconteceu com Manuela Ferreira Leite. O PSD não mudou com Manuela Ferreira Leite; o PSD foi aquilo que Manuela Ferreira Leite conseguiu fazer dele dentro do mesmo quadro estratégico. Ou seja, ignorando o choque essencial entre liberais e sociais-democratas dentro do PSD. O PSD não terá futuro – e provavelmente também não terá presente – enquanto não suplantar ou resolver esse conflito. Suplantar, “inventando” uma proposta política global que integre as duas pulsões, uma espécie de “terceira via”  da direita; ou resolvendo, através de uma cisão ou da vitória definitiva do PPD sobre o PSD. O que não faz sentido é que não exista, em Portugal, um grande partido liberal. É óbvio que, olhando para os eleitores portugueses actualmente – ainda muito posicionados à esquerda – não parece que um partido liberal pudesse ganhar eleições. Mas criá-lo seria um daqueles actos políticos definidores, tanto para o líder que o fizesse como para o quadro político que desse acto emergeria.

A aposta de Paulo Portas é que o PSD continue no rame-rame do costume e que passe por aí o crescimento do CDS/PP. Eu não acredito que o PSD definhe ao ponto de deixar que o partido à sua direita o suplante na representação dessa mesma direita. Mas acredito que Paulo Portas acredite!

A “recuperação” de Pacheco Pereira

Esta crónica de Pacheco Pereira publicada no jornal Público- o já famoso TDACHSR, Transtorno do Déficit de Atenção Cívica com Hiperactividade Social - é obviamente uma cortina de fumo. José Pacheco Pereira empenhou-se fortemente neste ciclo de eleições e desenhou uma estratégia ganhadora que até tinha uma líder com o “perfil” certo para a levar por diante. Mas,ao que parece, a “actriz” não esteve à altura do argumento (um plot à volta da um PM autoritário e asfixiante) e até os realizadores eram fracos. Se Manuela Ferreira Leite saiu queimada, JPP saiu pelo menos muito chamuscado. Esta é uma forma de desviar as atenções e tentar reconquistar o seu prestígio de “analista” (e como a palavra se adequa neste caso…).

Por isso, analisar a substância do que ele escreve é um exercício enganador. Mas não é fútil. JPP olha a questão como um problema de política nacional, mas é claro que o problema é muito mais do que isso. Como sabe qualquer especialista em novos media, há muitas consequências dúbias e alguma perigosas destas novas plataformas de comunicação. Levantaram-no pessoas 1.0 ou mesmo 0.0, mas até alguns analistas “de dentro” do sistema, como Andrew Keen. É nesse plano que a questão se coloca (não é um problema nacional e muito menos de política nacional, como sugere JPP).

O mais curioso é que a crónica de JPP surge no mesmo jornal em cujo editorial @JMF1957 critica – e com razão! – a forma irracional e inexplicável como uma futilidade como um video feito há 2 anos por Maitê Proença entrou no topo da agenda e até no mainstream media. Aparentemente, esse seria o melhor exemplo para sustentar a tese de JPP.

Talvez… Mas a mim parece–me que este video – e a forma como ele se propagou – não tem na realidade uma função informativa, mas sim uma função fática: propagou-se porque através dele uma comunidade “testou” os seus laços comunicativos e assegurou-se de que todos falam da mesma coisa. É um “está lá?”; “Está.” colectivo. As pessoas não falam do video da Maitê por acharem que isso é importante; falam nele para confirmarem que continuam a falar umas com as outras e que continuam a falar todas do mesmo.

O problema com a tese de JPP é que isso já acontecia muita antes do Twitter, do Facebook ou até dos sms. Há anos recordo-me perfeitamente de as conversas de manhã no trabalhos serem o concurso ou o programa de humor de prime time da noite anterior. Também aí a primeira função da discussão era a própria discussão, ou seja, a partilha. E os temas não eram menos “alienados” nem “alienantes” que o video da Maitê.

Talvez essa necessidade seja mais premente agora que cada pessoa tem ao seu dispor um leque muito mais alargado de canais de informação e temas de interesse. Talvez isso torne mais necessário exercer a função fática da colectividade com mais frequência (ou com menos frequência mas – por isso mesmo – de uma forma mais visível). Talvez…

Mas isso não é o que JPP escreveu. E não tem nada a ver com política nacional…

P.S. À atenção de JPP: esta “reflexão” foi suscitada pelo, escrita no e distribuída através do twitter…

O problema do futebol

futebolO problema do futebol é que há muita gente a ver futebol que realmente NÃO GOSTA de futebol!

Na empresa onde trabalho há um tipo de que toda a gente gosta, que é correctíssimo e muito educado no trato com os colegas e que seria incapaz de fazer mal a uma mosca. E, no entanto, sendo adepto de um clube, alinha e faz piadas, algumas delas bastante rasteiras, sobre os adeptos do clube rival como todos os outros,  e  com uma satisfação e gozo evidentes. Eu não sou psicanalista, mas suspeito que, para este meu colega, o futebol tem uma função social e psicológica que está para lá do próprio jogo.  O que o leva a mandar um piada ao vizinho que não mandaria se a piada não fosse sobre futebol está  para lá do próprio futebol.

Suspeito também que á isso que explica que o futebol tantas vezes emerja em reuniões de empresa ou atá em encontros de Estado quando se está a tratar de assuntos muito mais importantes que o futebol. Há algo de social e de psicológico no futebol que o leva a ter um peso anormal na sociedade. Isso nota-se em todo lado, a todo o momento. Basta abrir os olhos ou folhear um jornal. Exemplo: três diários desportivos que tratam sobretudo de futebol; futebol dia sim dia não nas primeiras páginas dos diários generalistas; vários programas de TV em que várias pessoas falam – só falam! – de futebol; etc; etc; etc.

Porque é que o futebol não tem o peso social que tem o andebol ou o atletismo? Porque á que o futebol se transformou neste fenómeno estranho que tudo e todos submerge? Quem olhar para o mapa-mundo do futebol não pode deixar de reparar que, no “mundo cultural”  em que o futebol como desporto está mais implantado, os países mais pobres e atrasados (na América do Sul) são aqueles em que o futebol tem uma relevância social maior, e os países mais desenvolvidos (norte da Europa) são aqueles onde tem menos, onde o futebol  é mais reduzido à  sua significância. Eu tenho uma explicação para isso, mas não é agradável: o futebol tende a assumir uma relevância social parecida com a dos outros desportos (o andebol ou o atletismo, por exemplo), nos paíes onde a racionalidade está mais presente no processo social e, inversamente, tende a ser mais relevante nos países onde a irracionalidade tem mais peso no funcionamento da sociedade. Por isso é que o futebol é o que é na Argentina ou no Brasil; e é o que é na Dinamarca ou na Noruega. Deste ponto de vista Portugal é, provavelmente, o mais sul-americano dos países europeus. Ou seja, o mais irracional!

E chegamos finalmente ao ponto essencial. Nesses países, onde grassa a irracionalidade social e reina o futebol, aquilo que se passa dentro das quatro linhas é apenas uma pequeníssima parte do fenómeno. Nesses países, o futebol tem muitas funções sociais (colectivas) e psicológicas (individuais) que estão para além do futebol. Num país perfeito, o futebol teria a mesma relevância que o andebol ou o xadrês. Claro que esse país não existe, mas…  se existisse seria assim!

Num país imperfeito, o futebol serve para um tipo mandar umas piadolas rasteiras ao parceiro do lado que, por boa educação, não mandaria se o assunto não fosse futebol. Serve também para uns grupos de jovens se juntarem para atirar pedras a outros grupos de jovens em vez de estarem num laboratório a fazer uma experiência de química. Serve ainda para dois ou três trabalhadores das obras falarem à  mesa de café e assim evitarem a evidência psicológica – que é dura… -  de que na realidade não entendem nada do que se está a falar a propósito eleiçoes em quem vão votar no domingo seguinte!

Nem o tipo que diz a piadola, nem os bandos de jovens, nem o grupo de trabalhadores das obras realmente gostam de futebol. Aquilo de que eles gostam é do que o futebol lhes proporciona para lá do futebol. Se fossem colocados na bancada a ver um jogo de veteranos entre o Desportivo da Carris e o Grupo Cultural da EDP ou um jogo de infantis entre o Alverca e o UDAL, quantos ficariam até ao final? Nenhum, provavelmente. E no entanto… é futebol.

Todas as coisas más que rodeiam o futebol – a violência física e verbal, as falcatruas, a falta de ética, os conflitos entre dirigentes, o excesso de protagonismo dos seus actores, a aparente inimputabilidade de tudo e de todos, etc, etc etc (são muitas as coisas más…) – derivam do que, no futebol, está para lá do futebol. O jogo em si mesmo não tem culta disso.

Por isso é que o grande problema do futebol – na minha opinião – é que há muita gente a ver futebol que na realidade NÃO GOSTA  de futebol e que, se tivesse que assistir a um jogo no qual não tivesse qualquer outro envolvimento – emocional, psicológico, social, etc – desistiria e iria fazer outra coisa. Sei lá, ver andebol ou jogar xadrês…

Mas, por outro lado, é também óbvio que é essa mesmo a grande riqueza do futebol: o facto de haver tanta gente – milhões! – a gravitar à  sua volta. É por isso que o futebol é o que é e tem a relevância social – e económica! – que tem. É o “desporto-rei”; é o “maior espectáculo do mundo”; etc. Se não fosse assim o futebol teria, em média, tantos adeptos como o andebol ou o xadrês. Seria perfeito…

[declaração de interesses: eu ADORO futebol, vou todos os domingos ao estádio e também mando a minha piadola de vez em quando. Mas não mando pedras... Bom, pelo menos nunca mandei... Ou seja, sou parte do problema]

O quatro poder é…

Este spot de promoção da SIC Noticias é de uma beleza e profundidade inesperadas. Ao que parece (não confirmado…) as palavras – fortes! -  são de Reinaldo Serrano, as imagens são da estação e a música é de Michael Nyman. No conjunto, são um grande elogio do jornalismo, das suas forças e fraquezas  e revelam uma grande paixão pela profissão. A todos os envolvidos, e em particular ao Reinaldo Serrano, os meus parabéns!

“O quarto poder é um quarto. Com vista sobre a cidade que já não o é; sobre as ruas que já o foram; sobre as casas que deixaram de o ser.

O quarto poder é um pai; e um filho tornado órfão por uma bala certeira; errada no alvo, errada na hora, errada no tempo que faz do lugar a morada última de um quotidiano que se extingue.

O quarto poder é um fogo; ingrato nos modos, ousado na fuga, intenso na cor, injusto nas vítimas.

O quarto poder é um mar; um oceano de raiva, um elemento à deriva, uma ausência de razão, um lamento inconsolável, um ímpeto de sobrevivência.

O quarto poder é um sopro; de espada em forma de pena, de penas em forma de espadas, de imperfeitos pretéritos, de distorcidos desejos, de ódios e iras e túmulos, e vidas e mortes e destinos, e estilhaços e condições desumanas.

O quarto poder é um berço; a inocência do dia primeiro, segundo a segundo; o choro e o riso, o siso e o norte, o sol e o sul, o leste e o oeste, os cardeais preciosos que guiam, precisos, o começo da nova vida.

O quarto poder é um voto; um desejo dobrado em quatro, a esperança feita num oito. Promessas, palavras vãs, ínvios caminhos, passos perdidos, leis e normas e regras e o melhor dos países e os oásis e os pântanos, e a pose a pensar na posse, no quero, no tudo, no mando.

O quarto poder é um piano; as teclas o prolongamento do tacto; a pauta a serenidade literária, a mão, silhueta temerária, e a mente, suavemente brilhante, tem na partitura o efeito, e na causa cheia o aplauso.

O quarto poder é um golo; um passe em profundidade; um drible, um truque, um remate, uma falta como se pecado fosse, um alento, um país, uma forma de vitória, a outra forma da derrota.

O quarto poder é uma luta; um jeito de desespero; a tábua do náufrago, os argumentos do facto, o mais dos que têm menos, o menos quando são demais.

O quarto poder é um acto; as horas que dele decorrem, as vidas que nele se perdem, as incertezas do dia e a inevitabilidade da noite.

O quarto poder é um arbítrio; um acaso disfarçado, um fogo-fátuo do nada, de tudo a fatalidade, de todos a provação, de muitos a privação, de quem a responsabilidade?

O quarto poder é pergunta; e resposta e mais pergunta, e tese e antítese e síntese; e os dias que hão-de vir, a nobreza do dever, a missão de não esconder, de mostrar, de saber, de fazer saber, de saber fazer, olhar e explicar.

O quarto poder é um quarto. Um quarto revisitado, um pai que é baleado, um fogo inacabado, um mar assim tresloucado, um sopro sentenciado, um berço de novo ocupado, um voto mais uma vez escrutinado, um piano a ser tocado, um golo que é celebrado, uma luta que dá brado, um acto premeditado, um arbítrio incontrolado, uma pergunta no estrado.

O quarto poder é um nome: SIC. O orgulho de poder dizer.”

O ovo ou a galinha?

egg

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

A pergunta é mil vezes repetida como se não tivesse resposta. Mas, na realidade tem uma resposta muito simples. É tão óbvio que, antes que saiba qual a resposta que a Scientific Amercian dá à questão na sua edição de Setembro, divulgo a minha visão do “problema”.

Quem nasceu primeiro foi obviamente o ovo. E porquê? Porque o método de reprodução é anterior ao animal reproduzido. É claro! Aliás, é tão claro que custa a perceber porque é que a pergunta acima continua a ser usada como se fosse um paradoxo.

Em abstracto, já existiam animais que nasciam por meio daquilo que nós sem dúvida consideraríamos um “ovo”, antes de existir qualquer animal que nós considerássemos uma “galinha”. Isso quer dizer que, na história da evolução, terá havido muito ovos que deram origem a muitos seres antes que surgisse a galinha. O que quer dizer que necessariamente o ovo existiu antes da galinha.

O paradoxo só existe em concreto. É verdade que para existir “uma” galinha terá que ter existido “um” ovo do qual ela tenha nascido. Mas, se “essa” galinha teria que nascer “desse” ovo, então teria que haver “uma” galinha anterior para pôr o ovo.

Ou seja, o paradoxo na realidade é uma falácia porque só pode existir no concreto. A partir do momento que lhe aplicamos o pensamento abstracto ele deixa de fazer sentido e a resposta é tão óbvia como 2+2 serem 4: quem nasceu primeiro foi o ovo!

O dia de relexão tem destas coisas: damos por nós a pensar em futilidades interessantes…

Uma campanha histórica

Do ponto de vista político, não sabemos como estará o país depois de dia 27. Mas já podemos dizer hoje que, em termos democráticos, estará pior do que estava. Esta campanha eleitoral foi das piores dos últimos anos e pelas piores razões. Basta enumerar três factos – e passar ao lado de todos os outros… – para se perceber porquê.

1. Ainda antes da campanha propriamente dita (mas com consequências pelo menos implícitas nela) o Primeiro Ministro de Portugal foi acusado de corrupção. O processo Freeport deu muitas voltas, há-de dar ainda algumas, mas o que verdadeiramente está em causa é isso: a suspeita de corrupção da mais importante figura do poder executivo. Há quem acredite que sim, há quem acredite que não; mas uma coisa é certa: por muito menos já caíram governos e se perderam eleições. Independentemente das consequências futuras que tenha ou da influência que jogue nesta eleição, o “caso Freeport” pôs em causa um dos pilares do Estado de Direito democrático no sentido em que afectou – quão seriamente não o sabemos – a segunda mais importante figura do Estado. No limite, não saberemos se estamos ou não a eleger um corrupto para o governo deste país.

2. Logo no início da campanha eleitoral, a líder da oposição – e candidata a Primeiro Ministro – acusou o Governo e o partido que o sustenta de criarem um clima de asfixia democrática no país; ou seja, de usarem os instrumentos públicos ao seu dispor para impedirem as pessoas de exercerem livremente os seus direitos cívicos. Podemos concordar ou não com essa acusação (eu acho-a risível…), mas não devemos ignorar a gravidade da mesma nem o facto de que alguma influência ela terá tido no resultado final da eleição. No limite, podemos estar a eleger para nos governar nos próximos 4 anos um partido que não respeita a democracia; ou, em alternativa, um outro, que o acusa levianamente disso mesmo. E nenhuma das coisas é boa.

3. Por fim, a cinco dias da eleições, o Presidente da República, por acção política e omissão de discurso, confirmou não negando, que foi autor (material ou moral) da passagem de informações falsas para a comunicação social de forma a denegrir o Governo e acusá-lo de “espiar” outro órgão de soberania. Ou – visto de outro modo – o mais importante magistrado da Nação recorreu aos media (porque não confia (!!!) nas forças de segurança nem nos serviços de informação nem no Ministério Público) como única forma de denunciar a suspeita de que está a ser “espiado” pelo Governo. Há quem acredite na primeira versão e há quem acredita na segunda. Mas qualquer delas “obriga” à demissão do órgão de sobrania oposto. Se se provar/provasse que o PR tinha agido de uma forma tão baixa em termos políticos, o “impechment” seria a única saída possível. Se, pelo contrário, se provar/provasse que o Governo tinha espiado o Presidente, então a respetiva demissão seria inevitável. No limite, uma das duas coisas terá que acontecer para que o sistema continue a funcionar, sob pena de se instalar uma paz podre entre os dois órgãos de soberania que mais poder têm em Portugal.

Já nem falo da governação ao serviço dos espanhóis, da suspensão da democracia por seis meses ou do regresso do salazarismo por novas formas. Todas as campanhas eleitorais têm os seus exageros no debate político. Mas os 3 pontos enunciados acima são muito mais do que isso. São acusações e suspeitas gravíssimos. São factos que, a confirmarem-se, afectam os fundamentos do regime e deterioram as condições de funcionamento nas nossas instituições democráticas.

Por isso – voltando ao princípio – não sabemos o que vai sair da noite eleitral de 27 de Setembro (Vai haver maioria? Quem vai formar Governo? Coligado com quem?). Mas de uma coisa podemos ter a certeza: a nossa democracia vais acordar mais frágil no dia 28 de Setembro.

A ética e a política

marques_mendes De tempos a tempos, Marques Mendes regressa à ribalta política com o crédito de ter sido, provavelmente, o único líder político recente que teve a coragem de ser consequente em nome da ética na política.

Claro que no estado actual da política ninguém chega a líder partidário sem ter que fazer, por várias vezes, compromissos éticos em nome de resultados políticos. Sócrates e Manuela Ferreira Leite (que perdeu, no “caso Santana”, uma excelente oportunidade de ser eticamente consequente) incluídos. Marques Mendes agarrou-se a essa centelha de capital político como a uma tábua de salvação e sempre que pode vem a tona mostrar que está vivo. Isso de pouco lhe serve, como é óbvio, mas contribui para relançar o debate sobre a relação entre a ética e a política.

A ideia mais comum e mais repetida sobre essa relação é que aos políticos são pedidos padrões éticos mais exigentes (ou exigíveis a eles em primeiro lugar) porque é suposto eles “darem o exemplo”. Daí a proposta esotérica de criar uma lei que imponha padrões éticos no exercício da política, nomeadamente no quadro de candidatos acusados ou arguidos em processos judiciais.

Essa ideia é completamente descabida. Em primeiro lugar, porque a ética está acima da política e não o inverso. É a ética que enforma a feitura das leis e não o contrário. De certa forma, é até a ética que condiciona a política e não o oposto (a tabuazinha de Marques Mendes demonstra isso mesmo). O problema da ética resolve-se com ética e não com política. E muito menos com leis!

Em segundo lugar, essa ideia de uma lei impondo ética aos nossos políticos é errada porque o raciocínio que lhe serve de sustentação é errado.  O nosso grande problema como comunidade é que exigimos de outros o que não somos capazes de exigir de nós próprios. Os políticos não têm que ser “mais” éticos (o que quer que isso seja…) do que qualquer um de nós; nós é que temos que ser “tão” éticos como exigimos deles. É uma inversão de perspectiva e – parece-me – implica uma inversão de valores!

Obviamente, os políticos são uma emanação da sociedade. Que eles sejam “pouco” éticos é coisa que – humildemente – não nos devia surpreender. Porque a comunidade em que vivemos – sejamos honestos – pratica muito pouco essa coisa da ética. O exemplo da Sisa, há uns anos, obviamente é clássico: era eticamente inadmissível que um político não pagasse a Sisa, mas a realidade social é que só a pagava quem era tanso. Obviamente que o problema da fuga à Sisa não estava nos políticos, estava nos cidadãos; e obviamente que esse não era um problema fiscal, era um problema profunda e inapelavelmente ético. A Sisa mudou, entretanto, mas a ética evoluiu pouco ou nada.

Pensar que podemos exigir dos políticos algo de diferente do que exigimos de nós próprios resulta da ideia altamente falaciosa de que os políticos são uma classe (como os motoristas de taxi e os padeiros) a que nós, cidadãos, pagamos para tratarem da política. Os políticos somos nós! Na verdade, “a política” somos nós! Ou nós, ou alguém que nós mandatamos! Achar que podemos “contratar” umas pessoas para fazerem política por nós, e que podemos impôr-lhes regras para esse desempenho, éticas ou outras, é uma forma de nos livrarmos da nossas responsabilidades. E isso não é nada “ético”!

O futuro dos jornalistas

Este artigo da Technology Review do MIT sobre o futuro dos jornais e revistas é muito interessante e tem algumas ideias inovadoras. Merece uma leitura atenta.

Mas, ainda melhor é  reacção virulenta (e desproporcionada, na realidade…) do leitor Duane Pierce. Merece ser transcrita porque, como se diz em português, “parte a loiça toda”:

“You and your ilk are like the monks of Gutenberg’s time. You have been sole owners of the knowledge and tools for so long, you feel it is a natural state and are blind to the fact that you are not God’s special flowers. Your way is not the only way and it is no longer the right way. What’s more, you might not even have a place in the new way.

It turns out that what you do isn’t that special at all. You’re being replaced by economies of scale and “amateurs.” Amateurs who can do your job better and cheaper. Because we care. Because we have the time, and because there are just so damned many of us.

Finally, lest I leave you with any scrap of comfort, let me point you to 1890 and Oliver Wendell Holmes, Sr. Here is a poem entitled “Cacoethes Scribendi” and it is the reason that despite your foolish fancies and desperate tactics, you and yours are very much in trouble.

If all the trees in all the woods were men;
And each and every blade of grass a pen;
If every leaf on every shrub and tree
Turned to a sheet of foolscap; every sea
Were changed to ink, and all earth’s living tribes
Had nothing else to do but act as scribes,
And for ten thousand ages, day and night,
The human race should write, and write, and write,
Till all the pens and paper were used up,
And the huge inkstand was an empty cup,
Still would the scribblers clustered round its brink
Call for more pens, more paper, and more ink.”

Last.fm adopta modelo pago

Isto é realmente uma péssima notícia, da qual só agora tomei conhecimento.

Se tivesse que eleger um site, de todos os que conheço, que , na minha opinião, corporiza o melhor da internet, provavelmente seria este.

Agora, menos de um ano depois de ter sido comprado pela CBS, o Last.fm vem anunciar que, devido a questões de direitos, terá que passar a ser pago fora dos EUA, Reino Unido e Alemanha.

A explicação para esta distinção entre o “primeiro mundo” e o “resto do mundo” já é bastante estranha: alegam que só têm serviços de vendas de publicidade nesses mercados e que só nesses países conseguem gerar rendimentos publicitários suficientes para pagar os direitos de autor das músicas. Isto significa que não querem que os visitantes de países “terceiros” desfrutem de um serviço que eles não conseguem monetizar, mesmo sem custos adicionais relevantes.  O que é bastante mesquinho. Claramente não se trata de uma situação em que o serviço não pudesse continuar como está; trata-se obviamente de uma situação em que os novos donos procuram novas formas de ganhar mais dinheiro com um site de sucesso.

E é aqui que bate o ponto, como diz o povo. Eu já recomendei muitas vezes o Last.fm e não sei quantos novos ouvintes angariei para esta “rádio” online. Trata-se, repito, do melhor site do mundo, na minha opinião. Mas obviamente não pagarei os míseros 3 dólares por mês que  irá custar. Por uma questão de princípio. Primeiro porque a explicação para o “uns” e “outros”  não apaga a injustiça de base. Segundo, porque  o modelo de negócio não pode ser este; tem que ser outro. Algo que a CBS irá certamente descobrir dentro de pouco tempo (dou-lhe um ano ou menos).

Portanto, tenho pena da CBS, cujas “vistas curtas” nasta matéria são tipicas dos grandes media e não pressagiam nada de bom para eles, e tneho algum desprezo pelso fundadores do site, que se aburguesaram e  quiseram “engordar” à conta do site que tão excelentemente produziram. Espero que estejam envergionhados do que fizeram!

Nós, os utilizadores da internet, conitnuaremos com a nossa vida e rapidamente encontraremos um substitutuo para o last.fm (play.fm, spotify.com e grovveshark.com são alguns dos candidatos). Será que o CBS também irá comprar algum deles? Isso não sei, mas uma coisa sei: o dinherio da CBS há-de acabar um dia…

15 minutos

“Hei, senhor Samir, dê-me 15 minutos do seu tempo e verá o que eu tenho para lhe mostrar em troca!”

A frase, um dos muitos sound-bites que se pode tirar desta pequena mas intensa entrevista de Rex Hammock a Samir Husni, o “Sr. Revista“, resume todo um programa de reacção à crise para as pessoas dos media. Na verdade, tudo se resume simplesmente a isso: conseguir retribuir condignamente os 15 minutos  que têm o privilégio de receber deve ser a maior ambição dos media.

Aliás, depois de Warhol, é muito curiosa – e irónica – esta inversão de perspectiva.

O video da entrevista de Samir Husni está aqui (via Foliomag)

Once – Glen Hansard

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Às vezes ainda vale a pena fazer zapping…

Descobri este filme – “Once” – por mero acaso numa noite destas no TVCine 2. Calhou passar por lá precisamente no momento em que, no filme, os protagonistas estão numa loja de instrumentos musicais a cantar a canção principal do filme e que lhes deu o Oscar de melhor canção original.

Obviamente, não o larguei mais até ao final fiquei maravilhado com o filme – que, ao que parece passou ao lado do circuito comercial português - e com a música, que encontrei à venda na Amazon (ainda não o descobri em Portugal, mas sou todo ouvidos…).

São – tanto o filme, de John Carney, como a música, de Glen Hansard - cheios de sentimento, de uma simplicidade absolutamente bela e profundamente tristes e alegres. Enfim, uma daquelas coisas que os grandes estúdios e os grandes músicos são incapazes de fazer. Vale a pela ver e ouvir.

Eis o link para a canção em causa, com imagens do filme.

Sigur Rós em Paris

Esquizofrenia social?

Hoje almoçei no “Café In” (2 pessoas, 160€!!!) e jantei no “O Lavrador” (7 pessoas, 46€!!!).

Não paguei qualquer das refeições…

Journal of Media Sociology

Duas fontes independentes – Mark Deuze e António Granado – recomendam o número inaugural do Journal of Media Sociology. Deve ser bom…

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