Facebook is watching you! (II)

Alm disso, em adio ao post anterior, h uma anlise fundamental que preciso fazer: que tudo o que escrevemos, dizemos ou fazemos no Facebook publico, no privado! A empresa Facebook s permite o acesso e mesmo a destruio desses dados e informao para respeitar “the ways of the past”. Mas tenho a certeza que, para a maior parte dos autores do Facebook, isso no faz sentido porque contrrio prpria natureza da rede social. Aquilo que dizemos ou escrevemos no Facebook to privado e to nosso como aquilo que dizemos e fazemos no espao pblico, uma praa, um caf ou outro lugar qualquer. A diferena que este espao publico tem potencialmente 800 milhes de pessoas.

Jeff Jarvis, jornalista da velha guarda e um dos analistas dos new media que sigo com mais ateno, partilhou informaes muito privadas acerca do seu cancro do clon media que o ia tratando. E, depois, escreveu o livro “Public Parts” sobre as novas configuraes da privacidade. Esta a abordagem correcta. Algo est a mudar profundamente; temos que perceber o qu e como.

A este propsito talvez seja interessante tambm seguir esta entrevista recente de Eric Schmidt no LeWeb2011(sobretudo a partir do min. 19). Ela retoma – est sempre em fundo em vrias partes da entrevista – um tema recorrente entre os “geeks” e “no -geek” que o da “digital divide“. E a “divide”, aqui, no entre as populaes pobres sem acesso s novas tecnologias e as populaes ricas com acesso a ela; entre as pessoas “antigas” que no as entendem e entre as pessoas “modernas” que as entendem. Vejam o video porque no s por isso que ele interessante.

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Facebook is watching you!

Num artigo recente publicado no Expresso online e no Arrasto, com o ttulo “Facebook is watching you“, Daniel Oliveira faz um paralelo entre as modernas redes sociais e o estado totalitrio de George Orwell. O thread de comentrios no Facebook tambm tem pontos de interesse.

Eu leio sempre com muita ateno o Daniel Oliveira, normalmente concordo com ele e muitas vezes fico surpreendido pelo perspiccia e criatividade das suas opinies. , provavelmente, no panorama comentarista nacional, a voz que acompanho com mais assiduidade e ateno. Mas este texto suscita-me alguma reflexes:

1. Em primeiro lugar surpreendenteque um analista e comentador normalmente to arrojado do ponto de vista das ideias como o Daniel Oliveira seja neste aspecto to conservador. Isso, de certa forma, no atpico. A maior parte das pessoas olha para estes fenmenos novos com um olhar fixado nas categorias de anlise habituais, que claramente so insuficientes para os explicar ou analisar. Por outro lado, tambm interessante notar como, neste aspecto, a extrema-esquerda consegue ser to conservadora como a extrema-direita. Isso d bem uma imagem da magnitude das transformaes que esto a ocorrer na paisagem meditica e social.

2. Descartemos primeiro a questo da legalidade face aos termos de uso do Facebook. Toda a gente tem direito a reaver os seus dados e apagar a sua conta do Facebook. Se no caso em concreto tal no aconteceu, isso contrrio s regras da prpria rede social. Isso para mim muito claro.

3. Depois descartemos a informao – recorrentemente repetida – de que o Facebook “vende” as informaes aos estados ou s empresas sem autorizao dos utilizadores. H muitos rumores sobre essas acusaes e “est na cara” que isso uma tentao para qualquer rede social desta dimenso. Mas eu ainda no vi isso provado ou demonstrado com clareza. Suponho que isso est acautelado nos termos de uso e que estes so respeitados, mas nem disso tenho a certeza. Mudarei de opinio se me o demonstrarem. Outra coisa diferente se isso se refere publicidade que surge nas pginas do Facebook e que obviamente, contextualizada em funo dos dados pessoais de cada um. Esses dados foram de facto usados no “targeting” dessa publicidade, mas foram-no nos mesmos termos (mais ou menos…) em que a publicidade da Google contextualizada. Ou seja, isso algo bastante diferente e muito, muito mais complexo. Mas inevitvel como manifestao de inteligncia artificial. Resistir a essa contextualizao da informao seria mais uma forma de conservadorismo.

4. Passemos ento “matria de facto”. Na minha opinio, as redes sociais, tal como hoje existem so incompatveis com as nossas leis em termos de bases de dados e proteco da privacidade. Podemos mudar as leis ou mudar as redes sociais, mas suspeito bem que vamos ter que mudar as leis. No possvel, em termos prticos, usar uma rede como o Facebook e ao mesmo tempo cumprir todos os formalismos da lei portuguesa em termos de proteco de dados e autorizao de divulgao dos mesmos. Pensem s neste acto to simples que eu partilhar com todos os meus amigos o post em que algum diz que foi ao cinema e gostou do filme. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais luz de um novo conceito de privacidade.

5. Por outro lado, h a questo do copyright em sentido lato. Os dados, informaes e opinies que ns veiculamos no Facebook so nossos, no so do Facebook. Se quisermos podemos retirar toda a nossa informao. Mas que sentido faz isso numa rede que vive da partilha dessa informao? Como eu comentei no post do Daniel Oliveira , os meus comentrios a um post, por exemplo, so meus. Coloco-os de livre vontade e de certa forma dizem algo sobre mim a qualquer pessoa que os leia. Se eu amanh decidir deixar o Facebook, devo lev-los comigo?Se sim, isso torna o post onde eles surgiram mais pobre porque torna o dilogo irracional. Se no, uma violao bvia do meu direito a dispor dos meus dados. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais com um conceito diferente de copyright.

6. Como todos os paradoxos acima demonstram, oproblema bastante mais vasto e mais profundo do que o mero cumprimento da lei nacional (j para no falar do facto de o Facebook, omesmoFacebook, operar em praticamente todos os pases do mundo). A abundncia e instantaneidade de informao nos dias que correm no pode seno deixar de ter consequncias, tanto a nvel do nosso entendimento da privacidade e do copyright como da forma como os enquadramos politicamente (as leis que protegem ambas as coisas). Para a maior parte dos jovens dos nossos dias o conceito de privacidade e de propriedade j profundamente diferente do nosso. E s-lo- ainda mais no futuro. Alis, nenhum dos conceitos foi alguma vez fixo no tempo,mesmoquando plasmado em lei. Basta pensar que h 50 anos seria considerado inadequado – do ponto de vista da sua privacidade – que um casal de namorados se beijasse em pblico e hoje estamos no ponto de aceitar que duas pessoas do mesmo sexo o faam! Alis, h 50 anos o casal de namorados seria provavelmente sancionado por conduta imprpria e hoje nem isso se pode apontar a um casal do mesmo sexo, mesmo que a muitos apetecesse faz-lo.

7. O que isto quer dizer que os nossos conceitos de privacidade e copyright (em sentido lato, mas tambm em sentido estrito) esto a transformar-se rapidamente e as nossas leis no os esto a acompanhar. Para mim, pessoalmente, do ponto de vista prtico, o Facebook no uma empresa. No sequer um servio. uma espcie de praa ou caf onde encontro gente conhecida e gente conhecida de quem eu conheo. O que digo ou escrevo no Facebook esgota-se no momento. E no tenho qualquer interesse – a no ser por curiosidade – em saber o que pensei ou afirmei h 6 meses atrs. Claro que, se eu escrever que odeio o Jos Scrates e depois o Jos Scrates aparecer morto, isso provavelmente vai-se voltar contra mim (bem, talvez no porque nesse caso haveria muitos suspeitos…). Mas isso no muito diferente de eu dizer no caf da vila que odeio o Z Barnab e depois ele aparecer morto. A diferena – significativa! – que as apalavras leva-as o vento ou morrem com as testemunhas e aquilo que escrevo numa rede social perene e dura para sempre.

8. Por isso que eu acho fundamentalmente conservadoras as posies como aquela que foi acima expressa pelo “revolucionrio” Daniel Oliveira. Ns no sabemos de que forma a transformao que est a ocorrer nas tecnologias de transmisso e acumulao de informao vai modificar a sociedade, as leis, a poltica ou at a psique do ser humano. Mas podemos ter a certeza que vai impactar todos esses aspectos. A nossa responsabilidade intelectual – penso eu – sermos capazes de olhar para estes fenmenos com uma mente aberta e tentarmos perceber para onde eles nos levam e no de onde eles nos trazem!

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O problema do euro, do PIB, da Europa e da democracia europeia.

Quando ouvirem falar de “crise do euro” ou “crise das dvidas soberanas” (e vo ouvir falar muito nas prxima horas!) mudem de canal! Quem falar de qualquer dessas coisas nos media demonstra que no sabe do que est a falar.

Esta crise poltica antes de ser geopoltica, geopoltica antes de ser econmica e econmica antes de ser financeira.

A crise poltica porque a integrao europeia esbarrou na insuficincia das instituies europeias para a aprofundar. A ideia europeia estava correcta quando nasceu e continua correcta hoje. O mundo globalizado no “pede” instncias de governao supra-nacionais. Ele “impe” essas instncias! Elas surgiram ao longo dos anos e vo continuar a surgir, independentemente de a Unio Europeia se conseguir ou no materializar como tal. Infelizmente, a Europa no soube aprofundar-se do ponto de vista democrtico. No soube oferecer ao europeus algo mais do que burocracia para contrapor s suas democracias nacionais. bvio que foram sempre os europeus – em referendos e eleies – que resistiram (e ainda hoje resistem) ao aprofundamento da Europa. Mas nunca saberemos qual seria o envolvimento das populaes no projecto europeu se eletivessesido mais democrtico. Mais “de baixo para cima” do que “de cima para baixo”.

Alis, do ponto de vista poltico, quando se fala tantas vezes de uma possvel Europa a duas velocidades, quase sempre esquecemos que essa Europa a duas velocidades j existe h muito tempo, materializada nos pases do euro, por um lado, e nos que continuaram com as suas moedas nacionais, por outro lado. Do ponto de vista da integrao poltica (j nem falo da integrao econmica e financeira) no faz qualquer sentido que haja pases que usam uma moeda nica e outros que no a usam. Esse foi, de certo modo, o primeiro pecado capital da integrao poltica europeia. Foi o primeiro momento de insuficincia. Foi o precedente.

A crise geopoltica porque aascensodas novas potncias (os BRIC, mas no s) se fez – como inevitavelmente se faria – custa das velhas potncias, sobretudo Europa e Estados Unidos. O fim da guerra fria e a expanso livre da globalizao trouxe esta realidade absolutamente nova: as potncias mdias ascenderam ao primeiro plano do concerto das naes. Num quadro de desregulao poltica (fim dos blocos) e econmica (que necessariamente se lhe segue) era de esperar que a China, a ndia, o Brasil, a Rssia, etc, pases com recursosimportantes, se modernizassem e crescessem do ponto de vista econmico. E crescimento econmico significa peso geopoltico. Quando temos pases cuja riqueza cresce a dois dgitos por ano ao longo de mais de uma dcada e outros cujo produto cresce em mdia 1 ou 2% no mesmo perodo, inevitavelmente os primeiros ficam mais eimportantese os segundos tornam-se menosimportantes. A Europa podia evitar isto? No podia. Mas podia fazer duas coisas: crescer mais para defender a sua posio econmica no mundo e tornar-se mais forte para conter com diplomacia poltica e econmica o peso geopoltico dos novos actores. Foi isso que os EUA fizeram com a ndia, por exemplo. O falhano da Europa em se integrar politicamente tornou-se mais fraca, tanto do do ponto de vista poltico como econmico. Por isso que o problema poltico antes de ser geopoltico.

Mas a crise tambm econmica. O problema no est apenas no facto de as economias europeia e americana crescerem muito menos que as economias emergentes. Est tambm no facto de os mercados tradicionais dos pases desenvolvidos encolherem enquanto os mercados dos pasesemergentes se expandem, tanto do ponto de vista demogrfico como do ponto de vista de acesso ao consumo. Tambm isso era inevitvel. Mas uma Europa com mais peso geopoltico teria conseguidoimpormais restries expanso dos pases emergentes e sobretudo teria imposto um acesso mais fcil aos seus mercados emergentes. Por isso que a crise geopoltica antes de ser econmica.

claro que a crise tambm financeira. Mas muitas outras coisas antes de ser financeira. E -o devido a essas outras coisas. Os “mercados” necessariamente ilustram em nmeros aquilo que os polticos decidem nos gabinetes e as populaes escolhem nas eleies. Os polticos e as populaes “escolheram” uma Europa politicamente fraca e economicamente dbil; os mercados limitam-se a expressar esse “desejo” em nmeros, com o rating das dvidas e o consequente aumentos dos juros. Perante pases em dificuldades, os “mercados” tm amesma candura que um predador perante o antlope!

aqui – e s aqui – que a crise se torna a “crise do euro” ou “das dvidas soberanas”. Mas torna-se isso em consequncia do fraco crescimento econmico, por causa da emergncia de novas potncias mundiais e devido ao beco sem sada em que se meteu a construo poltica europeia. Falar da “crise do euro” ou “das dvidas soberanas” e ignorar tudo o que est para trs ignorar o essencial. E, na realidade, duvido muito que a resoluo da “crise do euro” ou “das dvidas soberanas” resolva realmente o problema. Ou, melhor dito, os problemas.

Pode at acontecer que os dirigentes europeus saiam da cimeira de amanh com decisesimportantespara defender a sua moeda e proteger as dvidas dos seus pases, talvez a criao de um ministrio das finanas federal, talvez a emisso de dvida ou outras medidas que se tm falado. Mas estaro mal se essa for a sua nica ambio. Porque, mesmo que essas medidas resultem – o que em si j muito duvidoso – no tocaro nas causas profundas da decadncia europeia.O problema seriamelhorresolvido ao contrrio, comeando pelas causas e no pelas consequncias!

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Aproveitando que h amanh uma cimeira europeia, deixo aqui a minha sugesto para a soluo da crise na Europa.

Os chefes de estado e de governorenem-se e, nofinal, o presidente da comisso europeia ou o presidente da Europa, com os chefes de estado e de governo atrs, comunicam as seguintes decises:

1. Vai haver eleies europeias no dia 31 de Janeiro para eleio de uma assembleia constituinte. Essa assembleia ter como funes nicas redigir a constituio da Europa, com duas cmaras, uma de representao poltica, outra de representao regional, e empossar um governo de transio;
2. Os pases que no participarem nesta eleio no faro parte da Europa unida;
3. O ingls ser a lngua oficial da Europa, as restantes lnguas nacionais sero a 2 lngua de cada regio;
4. Para proteger o euro, que ser a nica moeda da Europa, ficam proibidos todos os fluxos financeiros para fora da zona euro at posse do primeiro governo eleito da Europa.

muito simples, no?

(publicado originalmente no Facebook)

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Henrique Monteiro partilhou este artigo deJan-Werner Mueller publicado no dirio Pblico acerca da crise europeia, da histria do sculo XX e do que pode ser o futuro da democracia.

O artigo muito interessante e tem a coragem de ter mais perguntas que respostas. Mais dvidas do que certezas. Esse um bom princpio. O futuro da poltica permanece uma grande incgnita. Fazer perguntas a primeira condio para sobre ela fazer luz.

Sobre este artigo isto foi o que comentei:

Eu sempre achei muito interessante o conceito de “fim da histria” de Fukuyama e sempre me pareceu que ele foi tomado demasiado literalmente. O que acabou quando Fukuyama disse que tinha acabado no foi “a histria” mas sim um paradigma histrico. A geopoltica mudou muito desde que deixaram de existir dois blocos com capacidade de aniquilao mtua. A emergncia de novas potncias intermdias foi uma das (muitas) coisas que o “fim da histria” tornou possvel. E o nosso mundo, hoje, em boa parte uma decorrncia disso. At a crise econmica euro-americana.
Mas o mundo ocidental debate-se com problemas prprios que no decorrem do “fim” dessa histria, mas – parece-me – do “princpio” da prxima. muito pouco provvel que as mudanas tecnolgicas que se tm registado no nosso mundo – nomeadamente em termos abundncia e instantaneidade de informao – no tenham consequncias no processo de mediao e representao poltica. E isso que verdadeiramente este artigo aborda, nas entrelinhas. Ns achamos que no nos sentimos representados pelos actuais polticos, mas na realidade no nos sentimos representados pela actual poltica, entendida como o conjunto de mecanismos e instituies que definem o nosso caminho colectivo.
Eu j li vrios livros procura de uma resposta para essa questo, mas ainda no encontrei um nico cuja resposta, sinceramente, me parea satisfatria. Neste aspecto, acho que estamos todos apenas a arranhar a superfcie do problema. Mas uma questo desarmante e desafiante. E muito pertinente(…)!

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Al povo que gosta de msica:

Deixem de adorar esse dinossauros – Bruce Springsteen, Rolling Stones, Queen, Pink Floyd, REM, Yes, Bryan Adams, Gloria Gaynor, entre muitos outros – e prestem ateno ao que trazem os ovos novos que estalam. s vezes so prolas!

A evoluo da msica no parou no jurssico!

(via Queremos ver Bon Iver em Portugal)

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Por uma estranha coincidncia, a Zon e a Meo lanaram quase ao mesmo tempo um novo servio que permite aos assinantes ver os canais contratados no seu computador, no seu tablet ou no seu smartphone. Ao que parece, num caso gratuitamente, no outro com um custo residual s cobrado a partir de 2012.

A ideia parece interessante, mas a pergunta que se impe pode ser incmoda: se, tecnicamente, tanto a Meo como a Zon podem permitir a visualizao dos seus canais no PC, porque no o inverso? Porque no permitir que qualquer contedo escolhido no PC seja transmitido no televisor da sala?

Eu respondo: a questo no tem nenhuma limitao tcnica e puramente comercial. As operadoras no o permitem porque no lhes convm! Permitir ver os canais de TV no PC j em si mesmo uma forma de defesa (e no de ataque, como parece), porque a realidade que quem quer j v a maior parte dos canais que interessam no PC.

Mas, mais significativo ainda, a Meo e a Zon no permitem o inverso da sua maisrecenteproposta comercial porque isso alteraria radicalmente o seu modelo de negcio. Mais precisamente, tornaria abundante aquilo que actualmente escasso. S podemos ver nos crs “da Zon” ou “da Meo” aquilo que a Zon ou a Meo querem. Sepudssemosligar l os nossos portteis (eu sei que podemos, mas quero dizer como servio), poderamos ver nos “nossos” ecrs aquilo que ns quisssemos. E isso seria – ser! – uma revoluo!

Isso no interessa Zon nem Meo. Zon e Meo interessa que aquilo que distribuem continue a parecer um bem escasso, porque s sendo escasso podero por ele cobrar um preo. claro que essa uma luta votada ao fracasso, mas enquanto no fracassa, vai-lhes permitindo ganhar dinheiro, muito dinheiro! Pensem assim: o que era a Zon h 20 anos?

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Manuel Falco, atravs do twitter, alertou-me para esta frase de Adriano Moreira:

“Parece ter-se trocado o valor das coisas pelo preo das coisas”

A frase est aqui, mas a tese que a sustenta est, entre outrosstios, neste artigo de opinio publicado no DN com o ttulo “O relativismo e a decadncia”.

Duas observaes acessrias antes de chegar ao essencial: 1) A lucidez do professor Adriano Moreira (posso – e devo! – trat-lo assim porque foi meu professor) espantosa e pe-me sempre a pensar que, ao contrrio do que acontecia nas sociedades tradicionais, damos aos nossos ancios menos ateno do que devamos; 2) Adriano Moreira um conservador de direita de corpo inteiro. No existem muitos conservadores de direita em Portugal (provavelmente menos que liberais de direita), mas Adriano Moreira -o com uma verticalidade e uma coerncia de princpios e valores que muitas vezes me recorda – imagine-se! – lvaro Cunhal. Esto (estavam) nos antpodas em termos das ideias que defendem, mas so (eram) parecidos na coerncia, verticalidade e at generosidade com que o fazem. At fisicamente so parecidos!

Mas o essencial esta ideia de que, nas nossas sociedades, o preo das coisas est a tomar o lugar do valor das coisas. E que muitas das nossas perplexidades resultam desse facto. uma ideia brilhante porque, se pensarmos bem, vale para muitos dos fenmenos que aparentemente no conseguimos explicar: desde a compra e venda da dignidade individual nos reality shows televisivos at cedncia de soberania nacional em troco de “tranches” de crdito, passando pela ocupao do espao pblico por interessas privados, entre muitas outras coisas. O ltimo destes fenmenos provavelmente criticado pela esquerda, o segundo obviamente pela direita conservadora e o primeiro por ambas, por razes diferentes. E, no entanto, estamos provavelmente perante causas comuns. Os jovens que expem a sua intimidade e vendem a sua dignidade a troco de dinheiro (ou de fama seguida de dinheiro, o que vai dar ao mesmo) nos reality shows televisivos, acabaram de dar um preo a uma coisa que dantes tinha valor e no tinha preo. A maneira como aceitamos que nos dem crdito a troco de mandarem nas nossas decises polticas no mais do que uma forma de atribuir um preo a algo que nunca antes tnhamos ousado sequer quantificar: a soberania nacional. Dantes tinha um valor, agora tem um preo. Por fim, quando vemos uma praa, um jardim ou um equipamento social comum – um parque de diverses, por exemplo (sim, estou a pensar na Feira Popular) - definitiva ou temporariamente ocupado por um produto ou empresa privada, isso significa que uma parte do nosso espao comum de convivncia social foi “vendido”. Ou seja, tinha um valor para todos, mas passou a ter um preo para as entidades envolvidas na transaco. Basta olharmos para as cidades com esta perspectiva nos olhos para percebermos o quanto temos transferido espao pblico para o domnio privado. Todo o espao pblico que tem valor acaba mais cedo ou mais tarde por ter um preo. Exemplo, que – repito – ilustra apenas uma tendncia que poderia ser ilustrada por muitos outros.

Esta a viso conservadora do problema. Conservadora de direita, de esquerda, ou de direita e de esquerda, consoante cada uma dos exemplos. Mas h outra viso possvel, menos “poltica”, menos prxima da realidade, mas mais capaz – parece-me – de a explicar integralmente.

Essa tese sobre “o valor das coisas” versus “o preo das coisas” parte de uma distino bsica entre “valor” e “preo”: tem valor aquilo que no mensurvel e tem um preo aquilo que mensurvel. Como se mede o preo de um bem comum primrio, como um quilo de batatas, por exemplo? Mede-se, obviamente, com uma balana, carregando batatas at chegar ao quilo, e cobrando pouco mais de um euro, o “preo” de um quilo de batatas. Um preo de um bem secundrio- um televisor por exemplo – obtido somando as matrias-primas empregues, a depreciao das mquinas que o produzem e o tempo gasto pelos operrios. Um servio, por fim, tem um preo calculado em funo de pouco mais do que o tempo empregue pelo “servidor” para prestar o servio.

Nos exemplos anteriores, muito provvel que haja muitos jovens na casa dos 20 anos que acham intolervel a exposio e mercantilizao da dignidade nos reality shows televisivos. Para eles a dignidade tem valor, mas no tem preo. No entanto, j existe um preo de referncia para dignidade. Se os produtores desse tipo de programas tivessem a coragem de falar abertamente sobre eles saberamos que resulta – provavelmente – do cruzamento entre o mais recente preo praticado para a mesma transaco (o mais recente reality show) e as audincias, medidas em share, previsivelmente conseguidas com esse “produto”. Os jovens aludidos noinciodo pargrafo podem continuar a recusar vender a sua dignidade, seja qual for o preo. Mas sabem – no podero no saber – que no dia em quedecidiremvender haver um preo para isso. Alis, h uma nota curiosa a destacar sobre este assunto em particular: quanto mais gente estiver disposta a vender a sua dignidade, menor o preo unitrio de cada uma. Curioso, no ?

Tambm h muitas pessoas – o professor Adriano Moreira, por exemplo- que acham intolervel que se venda a Ptria por 70 mil milhes de euros. Para elas, a independncia e soberania nacional no tm preo. Mas tm! E esse preo expressa-se num conjunto complexo de indicadores financeiros e econmicos (PIB, dvida externa, dvida pblica, etc), mediados pelos chamados “mercados” (especialistas na “mensurabilidade” dos indicadores economico-financeiros) dando origem a conceitos estranhos como “dvida soberana” ou “default”. estranho ouvir dizer que a China comprou X% da nossa dvida soberana porque nos parece que isso significa que comprou X% de Portugal. E o facto que comprou mesmo! Por isso que nos parece estranho!

A Feira Popular, por exemplo, era um conjunto de equipamentos de lazer disponveis ao pblico localizados numa zona geogrfica da cidade onde o metro quadrado de edificao comercial tem um alto preo mdio. Para os habitantes da cidade, a existncia daquele parque tinha certamente algum “valor” (nota: no estou a falar da relao individual de cada utilizador com cada divertimento do parque; essa uma relao comercial individual que tinha um preo. Estou falar do espao em si). Mas esse valor no era facilmente mensurvel. Era to mensurvel como o valor atribudo existncia da um jardim. coisa que tem valor, mas no coisa que tenha preo. priceless! Mas, para os edificadores imobilirios privados, tem certamente um preo muito mensurvel. E por isso que, como em tantos outros lugares da cidade, o espao pblico com valor acabou por dar lugar a empreendimentos privados com preo.

Ou seja: de um lado temos sempre um valor no mensurvel e do outro um preo bem mensurvel. Talvez a correspondncia no seja totalmente exacta, mas, primeira vista, at se pode dizer que todo o valor que puder ser medido se transforma num preo.

O que nos traz – finalmente! – ao ponto essencial da minha tese: a quantificao do valor das coisas uma consequncia fatal do manto de inteligncia com que o ser humano cobre toda a realidade que o circunda. Ou seja, no uma escolha; uma fatalidade determinstica. O ser humano usa a sua inteligncia sempre e a todo o tempo. E ao faz-lo torna a realidade que o rodeia coerente com a sua inteligncia. O que significa quantificar tudo o que puder e quiser quantificar.Incluindocoisas – “valores”, por exemplo – que dantes no eram quantificadas. A diferena entre o passado e o presente, portanto, no que dantes era tudo bom e agora tudo mau. A diferena que h coisas que dantes no conseguamos medir e agora – devido ao avano do conhecimento acumulado, da cincia e das tecnologias – j conseguimos. Aparentemente, a dignidade, a soberania e o espao pblico (e repito que os exemplos poderiam ser muitos outros…) so trs dessas coisas.

Seria concebvel um programa como a “Casa dos Segredos” se no houvesse aparelhos para medir as audincias? Ser-nos-ia possvel aceitar que um qualquer grupo de funcionrios estrangeiros nos impusesse um programa de austeridade se no houvesse o complexo sistema de contabilidade pblica que hoje existe? Seria possvel tornar o espao pblico em espao privado se no houvesse um mercado imobilirio a funcionar? Quantificao matemtica. A quantificao faz parte da inteligncia e hoje quantificamos – cobrimos de inteligncia – muitas coisas que antes no quantificvamos. Isso muitas vezes parece-nos um problema e torna-nos a todos conservadores, sejamos de direita ou de esquerda. alis muito significativo que o fenmeno afecte igualmente a esquerda e a direita. Isso s prova que ele verdadeiro.

Temos tendncia a resistir ao futuro. Mas, quando olhamos para o passado, vemos que o futuro nunca nos foi prejudicial. A crescente interdependncia econmica e financeira entre muitos pases diferentes – que tem tudo a ver com a chamada “crise das dvidas soberanas” por exemplo – apenas mais uma manifestao da globalizao, ou seja, o movimento de integrao dos fluxos de mercadorias, de trabalho, de informao e de dinheiro a nvel mundial, um movimento que – naturalmente – todo ele alimentado pela cincia, a acumulao de conhecimentos e a tecnologia. A resposta no – no pode ser! – resistir. A resposta s pode ser encontrar mecanismos de organizao social e colectiva que sejam transnacionais ou internacionais. A Unio Europeia isso.

Jeff Jarvis, um dos melhoresjornalistasque euconheoa acompanhar a questo dos novos media, publicou recentemente um livro chamado “Public Parts” no qual analisa os problemas da privacidade no mundo moderno e que surge na sequncia da extensa descrio que Jarvis foi fazendo – por vezes com detalhes mesmo muito “privados” – da sua prpria experincia de um cancro do clon. Uma das teses do livro que precisamos de novos conceitos de privacidade. E – digo eu – precisamos de olhar tambm para outros conceitos que – presunosos – achvamos que eram imutveis, como o de “dignidade”. Nenhum conceito imutvel e portanto, por definio, nenhum valor o tambm. Alis, basta olharmos nossa volta para o percebermos. H 100 anos seria impensvel – para os prprios! – que um casal de namorados se beijasse em pblico. Hoje estamos no ponto de aceitar que sejam do mesmo sexo!

Por fim, o problema do espao pblico face ao espao privado. Basta olhar para trs para perceber que desde as primeiras terras atribudas pelos reis aos senhores feudais vimos percorrendo um caminho sempre no mesmo sentido. O espao pblico vai ganhando preo e tornando-se privado. H duas vises possveis para conjugar esse movimento com o interesse pblico: salvaguardar mecanismos de utilizao pblica de bens privados; ou – que me parece mais promissor – encontrar outras formas mais evoludas de medir o valor das coisas, que venham a respeitar a ideia – que nos parece to clara – de que o interesse pblico tem tanto ou mais “valor” que o interesse privado. O mundo d muitas voltas…

Ou seja, a primeira tentao que temos sempre a de reagirmos de forma conservadora a esta oposio dinmica entre o preo das coisas e o valor das coisas. Mas essa pode no ser a reaco mais correcta. Temos que nos pr no ponto correcto da escala do tempo – o nosso minsculo pontinho – e percebermos que se h muito tempo para trs, h ainda mais para frente. E que se muita coisa mudou – e sempre para melhor – atrs de ns, ainda mais coisas havero de mudar para a frente de ns. E tudo leva a crer que para melhor!

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“UM POST POR DIA, D SADE E ALEGRIA!”

Este um ditado muito antigo – e verdadeiro – que eu esqueci durante algum tempo, por causa da vertigem do twiiter, facebook e afins, mas que agora redescobri.

Stay tuned.

 

 

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Testa o teu benfiquismo!

Eu conheo bem os benfiquistas! Com rara satisfao e frequente relutncia, convivo com eles h 44 anos. Na verdade, posso dizer que os conheo to bem como conheo os sportinguistas.

H muitas maneiras de identificar o verdadeiro benfiquista, aquele cujo benfiquismo vem mesmo l do fundo. E que d generalizao “benfiquistas” o seu tom to caracterstico e que os adversrios to bem conhecem. s vezes basta um pequeno detalhe para identificar o “verdadeiro benfiquista”!

A propsito do recente (e quente!) derby, lembrei-me de vos propor, aos benfiquistas, este pequeno testepara avaliar a pureza do vosso benfiquismo. Demora apenas 2 segundos:

 

TESTE

Independentemente de se saber se verdade ou no – isso para o teste irrelevante – consta que alguns dos stewards que estavam a revistar os adeptos do Sporting – pelo menos 2 – tinham ao pescoo cachecis do Benfica.

O que tu achas disso?

 

E pronto! este o teste. Como eu tinha dito muito simples. Mas infalvelpara identificar o verdadeiro benfiquista!

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Fim de imprio

Ontem um amigo fez este post no Facebook:

Bailouts, Riots and poverty !!! Thank you Capitalism and Democracy! Thank You so much.

O post interessante por muitas razes, mas sobretudo porque junta “no mesmo saco” os motins, a crise das dvidas e a degradao da situao econmica das pessoas e atribui tudo – com lacinho – ao capitalismo e democracia.

A primeira tentao seria dizer que este um raciocnio muito perigoso. E ! Porque se, para o capitalismo, no se vislumbra na realidade alternativa, para a democracia ocorre-nos logo uma bem conhecida e que, alis, no incompatvel com o prprio capitalismo.

Mas vamos por partes. Primeiro os motins. H certamente razes bem diferentes para as cenas que vimos ontem em Totenham, h uns dias em Atenas e h alguns anos em Paris (e, j agora, em 1992 em Los Angeles). Mas tambm h algo em comum. No sabemos muito bem o que , ao certo, que os amotinados querem – provavelmente eles tambm no – mas quase de certeza que todos concordariam com a frase acima. As pessoas, sobretudo os jovens, sentem-se trados por uma sociedade que jurou proteg-los e falhou. Sentem-se sem futuro e voltam-se contra o sistema na primeira oportunidade que tm de lhe pegar fogo. Qualquer jovem africano tem menos condies que um jovem europeu; mas tem tambm como muito provvel que – ao contrrio do europeu – o seu futuro ser melhor que o seu passado. S h uma coisa pior que um jovem desocupado, revoltado e descrente; muitos jovens desocupados, revoltados e descrentes! Percebemos agora, provavelmente, que as manifestaes anti-globalizao que tantos carros incendiaram nos ltimos anos (e que agora, curiosamente, parecem ter desaparecido) s eram anti-globalizao por convenincia. Ou seja, o seu revestimento poltico era muito menos importante do que os sentimentos profundos da gerao que as levava a cabo.

Depois, a degradao da situao econmica. Provavelmente o desemprego, a precariedade e os salrios baixos durante anos a fio so 3 factores que, isolados ou combinados, levam muitos jovens para rua, primeiro apenas para “partir umas montras”, mas depois para pilhar, incendiar e roubar. E o que irnico que o Estado de Bem-Estar a que estes jovens aspiram afinal a razo pela qual no o podem ter. Os empregos de que eles precisam so aqueles que esto ocupados pela gerao anterior e os benefcios sociais a que aspiram so aqueles que j esto no limite do socialmente suportvel. Percebo que os europeus – jovens ou velhos – gostariam muito de manter o estilo de vida afluente de que tm desfrutado ao longo de anos (sculos?). Mas pode acontecer que isso simplesmente no seja possvel. Claro que todo o idoso devia ter direito a uma reforma digna. Mas, afinal, o que significa aqui o qualificativo “digna”? Esse qualificativo ser um “direito adquirido”? A prpria reforma – qualquer reforma – ser um direito adquirido, quando sabemos que muitos seres humanos no tm qualquer reforma, muito menos “digna”? O nosso dia-a-dia adequa-se s nossas circunstncias, mas muitas vezes f-lo com tumultos e revoltas. E as circunstncias dos europeus esto a mudar muito rapidamente. Porque – sejamos claros! – a economia europeia (e a norte-americana tambm) est estagnada h pelo menos uma dcada. Estagnada! No cresce. Nada! Assim, ser difcil evitar que a situao econmica se degrade…

Por fim, a crise das dvidas. Mais uma vez, no podemos saber ao certo o que pensam os jovens amotinados sobre o assunto, mas parece seguro prever que sejam contra. A “crise do Euro” deu origem a motins na Grcia. E os motins em Londres? Foram provocados pelas medidas de austeridade para proteger a Libra? Em parte, sim. E se existisse um Marco? Estaria ele a salvo da desvalorizao, da austeridade e dos motins? As agncias de rating atacam a soberania da pases fracos, como Portugal, Grcia e Irlanda. Mas tambm atacam pases “fortes”, como os EUA, a Espanha ou a Itlia. Mais uma vez a pergunta torna-se pertinente: estar a Alemanha a salvo do downgrade? Ou seja: temos que deixar de olhar para rvore para conseguirmos ver a floresta. No Portugal ou a Alemanha ou os EUA que esto em causa. o imprio europeu, de que o sculo americano no mais do que um complemento histrico. Comeou por volta de 1500, quando uns malucos se fizeram ao mar na ponta ocidental da Europa, e acabou – ou est a acabar – na segunda dcada do sculo XXI. Provavelmente com vrias dcadas de atraso devido ao “interldio histrico” que foi a Guerra Fria e a confrontao entre ideologias. Findo esse “interldio histrico” (que Fukuyama obviamente confundiu com o “fim da histria”), o mundo segue o seu caminho e velhos imprios se desmoronam para outros tomarem o seu lugar. O fim da Guerra Fria teve muitas consequncias, mas uma das mais esquecidas o exponencial desenvolvimento (alis, permitido pela globalizao…) de muitos pases fora do “imprio euro-americano”: China, ndia, Brasil, Rssia, Coreia, etc.

Como j tinha escrito aqui, cheira a fim de imprio. E os motins em Inglaterra so apenas mais uma “acha” para essa “fogueira” (achei que a metfora era adequada…). Ao ver imagens como as que nos chegam de Londres, pergunto-me como veriam os romanos o fim do seu prprio imprio? Um imprio que durou sculos e parecia – mesmo quando rua – a materializao da excelncia do gnero humano. Provavelmente v-lo-iam mais ou menos como ns vemos as sociedades em que hoje vivemos, quer habitemos em Lisboa, Atenas, Londres ou Nova Iorque. Como o vrtice de uma evoluo que parece no poder regredir e que, no entanto, todas as evidncias demonstram estar em acelerada decadncia. Precisamos de humildade para olharmos para ns prprios como apenas mais um punhado de seres humanos.

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A coisa mais importante do mundo! Hoje! Agora!

Quanto tempo, meu Deus? Quanto tempo mais poderemos continuar a olhar para o lado? O que so as nossas pequenas tragdias ao p disto?

Lembrei-me da fome em frica quando vi a final do Peso Pesado, em que um concorrente ganha porque perde 10, 15, 20 por cento do seu peso. E continua GORDO!

O que eu estou aqui a fazer? O que que eu vim c fazer?

Esta a coisa mais importante do mundo. Hoje! Agora! Tudo o resto muito pouco.

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A economia precisa de ir ao psicanalista!

Parece que ontem os mercados – e imagino que as agncia de rating tambm – reagiram positivamente ao acordo norte-americano para o aumento do plafond da dvida.

Ora, considerando que o aumento da dvida no a soluo do problema mas sim “O” problema, este mais um indcio da irracionalidade do sistema econmico global em que vivemos. Recuperando conceitos dos princpios gerais da filosofia, o funcionamento do sistema pode at ter lgica interna, mas carece, manifestamente, de qualquer lgica externa!

Definitivamente, algum devia levar a Economia ao psicanalista!

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No dia em que o Governo anunciou um quadro negro para a economia e medidas excepcionais de austeridade, as noticias realmente importantes no esto em Portugal nem sequer na Europa.

As notcias realmente importantes do dia so estas:

1. A Moody’s ameaa cortar o rating dos EUA se no for aprovado um aumento do plafond da dvida.

2. PIB da China cresceu 9,5% no segundo trimestre de 2011, depois de j ter crescido 9,7% no primeiro trimestre.

At crise de 2008, a Europa (mandada pelos alemes) enfrentou o crescimento anmico da economia com um controlo acrrimo do dfice. E isso valorizou – sempre – a sua moeda. O Euro foi sempre mais pujante que o Dlar. Os norte-americanos, ao contrrio, passaram muitos anos a imprimir dinheiro para compensar a falta de crescimento. Ambos esto a pagar a factura agora: a Europa cobrando ao sul aquilo que o norte lhe emprestou; os EUA cobrando a si prprios os juros da criao artificial de riqueza. O sentimento “the party is over” o mesmo dos dois lados do Atlntico.

Pode-se dizer muito sobre o Dlar e pode-se dizer muito sobre o Euro. Podem-se escrever milhares de artigos sobre os problemas de cada uma das moedas, dos seus respectivos imprios e das relaes tensas entre ambas. Mas isso ser sempre “peanuts” perante a evidncia de que h dois blocos econmicos a cresceram a ou ou dois por cento ao ano durante dcadas e outros que crescem a 10 ou 12% ao ano ano mesmo perodo. Isto no pode seno ter consequncias enormssimas em todas as formas de equlibio global: econmico, social, poltico, etc.

Este o verdadeiro problema e com ele que nos devemos preocupar (na verdade “preocupar” parece neste contexto um termo presunsosamente “europeu”…). No quadro do enriquecimento rpido dos chineses e do emprobecimento relativo (e sustentado) dos europeus e dos norte-americanos, o Euro e o Dlar parecem cada vez mais dois nugrafos a disputarem o ltimo colete salva-vidas do navio. Que andem bulha (ou tenham a tentao de andar bulha) pode ser divertido, mas no resolve o problema. Se que ele tem soluo!

Cheira a fim de imprio!

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Network intelligence will end information chaos

In an interesting recent article called “Why we need the news to be chaotic“, Clay Shirky examines the future of news and concludes that media will have to try very diverse approaches, some profitable, some not.

I agree with him in most part, but I do not see the chaos as necessary but rather as a transitional period. It’s really not “the media” that are searching for a new business model; it’s society as a whole (even the civilization, if you want) that needs it, in order to maintain the “public good” of information spreading. And once it finds it, the “chaos” will be over!

Again, for me it all boils down to this basic idea: our information networks should be (and will be) – in fact CAN be! – inteligent enough to measure the value of the information they carry and reward it accordingly. This is what I commented on Clay Shirky’s website:

 

The “Gutemberg Parentesis” hypotesis – don’t know if ou heard of it – is propably the most fresh idea I heard recently about the future of news. The special report published yesterday by The Economist folows that same route. It’s possible that the business of news is not really the natural condition of news and that the end of scarcity on the offer side really puts an end to any viable possibility of a news business model.

But – that’s the main flaw of the The Economist’s report – we must not look at the past to forsee the future. We will not go back to coffee shops! Twitter and Facebook are the new cofee-shops and the conversation we had with a couple of friends we now have with hundreds chatting and thousands hearing and spreading the news. The conversations we had oraly we will now have digitally. And that is a huge difference! It´s all the difference really!

Our digitally coded and digitally transmited information allows us to “embed” meta-information on that stream. That is how the search engines work, that’s how the social graph works. The network is increasingly intelligent enough to know what I want when I want it. Make no mistake: it will be more inteligent in the future. Not the same, nor less; it will be more intelligent, I repeat! It’s not crazy to predict that one day it will be intelligent enough to measure the value of the information it carries and pay for it accordingly, without the intervention of humans. Our forefathers who discussed public issues in coffe-shops gained prestige when they had valuable opinions to put forth. In those days, that “value” could not be measured. It the future it will.

That rationale is the basis for my rough proposal of a “New Business Model for the Media”, that can be read in detail here: http://josemoreno.posterous.com/a-new-business-model-for-the-media. The media are now in dire need of it. But it really transcends the media, in the way that it allows a new range of possbilities for content creation and information transmission in the future.

 

 

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The article is a worldview

“When people say they like newspapers and books they aren’t just talking about the physical form of them: the feel and smell, the portability and tangibility. They are talking about the finiteness of them. Articles and books have beginnings and ends; they have boundaries and limits; they are packaged neatly in boxes with bows on top; they are a product of scarcity. Abundance is unsettling. That is precisely why the internet is disruptive not only to business and government but to culture and cognition. Threatening the dominion of the article is to threaten our very worldview. “
Jeff Jarvis – “The Storyteller strikes back”

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Reflexes eleitorais

Mais de duas semanas depois das eleies, acho que j tenho condies psicolgicas para dizer duas ou trs coisas sobre o assunto:

1. Afinal onde anda o povo de esquerda? Num quadro de condies econmicas deterioradas e de imperialismo econmico anunciado – a troika pode ser vista de muitas maneiras, mas tambm desta! – era de esperar que o pas inclinasse para a esquerda. Como reaco ao que j conhece, mas tambm como acto de defesa em relao ao que se anuncia. Esse era alis o pressuposto por causa do qual nunca acreditei numa maioria de direita. Mas a realidade desmentiu totalmente esse pressuposto. Se o resultado do PS foi aquele que se esperava, nem mais nem menos, o PSD (e mesmo o CDS) tiveram resultados inesperados, acredito, at para os prprios. O CDS est no patamar superior do seu eleitorado natural (entre 5 e 15%) e o PSD chegou a um bom resultado depois de uma primeira metade de campanha carregada de gaffes e indecises (a este ttulo, curioso notar que a inverso se deu aps o debate com Scrates, o que – mais do que da importncia dos debates – nos d uma medida da importncia da gesto das expectativas no combate poltico). O BE regrediu com estrondo, o PCP manteve-se estagnado e os pequenos partidos de esquerda no canalizaram o voto de protesto de uma maioria de desiludidos (em parte s o partido dos animais o conseguiu fazer). Ou seja, a esquerda, facto inslito e raro em Portugal, ficou em minoria.

2. O que aconteceu ao Bloco de Esquerda? natural de esteja tudo ao soco dentro do BE. Afinal parece bvio que o partido responsvel no s pelo seu sbito emagrecimento, como at pela subida ao poder de uma maioria de direita em Portugal. Dois grandes erros so apontados ao BE, um tctico e outro estratgico. O erro tctico foi a apresentao de uma moo de censura ao governo. Esse era um nus que, na melhor das hipteses, devia ter sido deixado ao PSD, e, na pior da hipteses, devia ter sido activamente bloqueado pelo prprio BE caso percebesse – como parecia bvio – que uma queda do governo, naquelas condies e com um presidente de direita, conduziria inevitavelmente a uma vitria do PSD em eleies. Ou seja: devia ter sido a direita e no a esquerda a despoletar a crise poltica. O erro estratgico do BE foi o de nunca ter assumido perfil de governo. Foi isto que verdadeiramente o povo portugus no lhe perdoou. O BE foi inconsequente e deixou que essa inconsequncia lhe fosse apontada durante demasiado tempo. Uma coisa ser inconsequente com 4 ou 5% dos votos. Outra coisa s-lo com 10%. Porque 10% j servem para fazer uma maioria. Mas, na verdade – e espero que isto contribua para arrefecer as pulses fratricidas dentro do BE… – qual era a alternativa? Poderia o BE sequer ponderar viabilizar um governo de Scrates (no por causa de Scrates, mas por causa das polticas de Scrates)? Claro que no podia! s vezes esquecemos-nos que so precisos dois para danar o tango (para usar uma expresso famosa…). E a deriva direitista de Scrates foi, ao longo destes 6 anos, de tal ordem que na verdade no havia pontes possveis entre a margem direita do bloco e a margem esquerda do PS. To simples como isso. Se isso vai mudar agora? Claro que vai. Talvez do lado do PS, talvez do lado do BE, ou, mais provavelmente, do lado de ambos.

3. Mas, afinal, porque que Passos Coelho ganhou as eleies? Esta a grande incgnita sobre a qual – acredito – at dentro da equipa de Passos Coelho algum mais lcido estar a meditar. Ao longo da nossa histria recente temos tido muitos lderes cujo poder lhes caiu no colo e poucos que o tenham conquistado. Passos Coelho apenas mais um. Mas h aqui algo de diferente, embora ainda no suficientemente definido: a viragem direita. H muito tempo que fazia falta, em Portugal, um grande partido liberal. Eu j escrevi aqui sobre isso por vrias vezes, como aqui e aqui. Ser o PSD de Passos Coelho esse grande partido liberal de direita? E ter sido por isso que ganhou as eleies com tamanha clareza? mais fcil responder sim primeira do que segunda! Que existe o espao ideolgico para um grande partido liberal de direita, isso parece evidente. E isso, em si, j uma novidade. No podemos ter para sempre um pas ideologicamente inclinado esquerda e salutar que do outro lado haja ideias poltica ideologicamente sustentadas. O PSD de Passos Coelho tem sido coerente e arrojado nas suas posies liberais. Resta saber se o velho PSD clientelar e apoltico est pelo ajustes, o que s poderemos confirmar quando acabar o estado de graa (porque em “casa onde h po, todos esto contentes e tm razo”). Mas ter sido por isso que o PSD ganhou? Isto est definitivamente por confirmar. O que eu acho, sinceramente, que, uma vez mais como tantas vezes ao longo da sua histria, o povo portugus foi maricas e meteu o rabinho entre as pernas. Votou massivamente na troika e no no PSD. Votou com medo e por medo e pediu encarecidamente aos senhores estrangeiros para tratarem dele. Para o porem na ordem. O que o povo portugus disse em 5 de Junho foi que ns no sabemos tratar de ns e preciso que venham uns tipos do estrangeiro tomar conta do pedao. E para isso escolheram aqueles que lhes pareciam mais perfilveis para capatazes: Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Se sim ou no os portugueses quiseram experimentar uma ideologia liberal de direita e se sim ou no vo gostar do que ela vai trazer (se Passos Coelho a conseguir materializar em polticas…), isso o que veremos nos prximos anos. Uma coisa certa: parece quase paradoxal diz-lo no quadro de dificuldades com que nos debatemos, mas esta pode ser a grande oportunidade liberal em Portugal!

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Defend… or attack?

In a recent post on GigaOm, Mathew Ingram looks at what he thinks traditional media companies need to learn from startups (following an also rich piece by Anil Dash and his presentation. Its a very interesting perspective.

The media business is not disapearing; it’s “just” completely changing. We live in a world that has much more information fluxes than any era in our past. And the role of media companies has always been to “mediate” the information fluxes. That mediation is more necessary now than ever was before. The problem is that other companies than the media are doing it, launching services that take advantage of technology to curate and filter information to meet the need of information consumers.

Why can’t media companies do it? Mathew Ingram lists some of the reasons. Most media companies are more focused on defending it’s past than conquering it’s future. They are like old animals in a jungle crowded with lethal predators (that don´t want the pray but only it’s nourish). The more they try to preserve its traditional profits in the new media landscape, the more they loose new ones. The other reason is that even the efforts many media companies do to stay ahead with change are limited by the constraints its internal bureaucracy imposes on them. Media should create fully independent teams or even new outside companies with none but one tie to the old: full acess to it’s content.

The content media companies have at its disposal, either archived or daily produced, is its great advantage in today’s highly competitive media landscape. The problem is that many times they just don´t know how to use it other than in it’s paper or website formats. In some cases they don’t even suspect there can be other uses for it.

An independent or outside unit, hoghy focused on inovation through technology, would call most today media companies its paradise. They just call it their hell!

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Na sua pgina no Facebook, Jos Manuel Fernandes comenta as sondagens de hoje, que indicam uma descolagem do PSD em relao ao PS, e conclui com esta frase “assassina: “J s faltam seis dias“.

J s faltam seis dias” – deduz-se – para que consigam “correr com Scrates”. A frase nada teria de extraordinrio se fosse proferida por um militante do PSD ou mesmo por um cidado comum sem partido. Mas, num jornalista (e sobretudo num jornalista que foi durante a maior parte dos mandatos de Scrates director do mais importante dirio portugus) a frase diz muito mais do que devia. Diz, basicamente, que Jos Manuel Fernandes acha que o fim poltico de Scrates uma ddiva para o pas. Como cidado, tem direito sua opinio. Mas, como jornalista e director de jornal, essa opinio lana alguma luz sobre a obsesso com que sempre perseguiu Scrates e o socratismo. Numa altura em que fazemos as suas exquias, tambm ser interessante observar o jbilo de alguns jornalistas e comentadores da nossa praa e meditar na influncia que tero tido no desfecho final desta histria.

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A Alemanha “comprou” Portugal

A Alemanha “comprou” Portugal! Ou achvamos, porventura, que os fundos europeus que ns desperdimos vinham a custo zero? A Troika no mais do que o cobrador do fraque da Angela Merkl! A questo o que que o povo portugus vai fazer quanto a isso. E nem sequer so precisas revolues ou manifestaes de rua; por uma feliz coincidncia vamos votar para decidir o que fazer e j sabemos com clareza tudo o que precisamos saber. Esta eleio afinal um referendo Troika e, implicitamente, nossa vontade de independncia. E temo o pior!

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