Manuel Falcão, através do twitter, alertou-me para esta frase de Adriano Moreira:

“Parece ter-se trocado o valor das coisas pelo preço das coisas”

A frase está aqui, mas a tese que a sustenta está, entre outros sítios, neste artigo de opinião publicado no DN com o tí­tulo “O relativismo e a decadência”.

Duas observações acessórias antes de chegar ao essencial: 1) A lucidez do professor Adriano Moreira (posso – e devo! – tratá-lo assim porque foi meu professor) é espantosa e põe-me sempre a pensar que, ao contrário do que acontecia nas sociedades tradicionais, damos aos nossos anciãos menos atenção do que deví­amos; 2) Adriano Moreira é um conservador de direita de corpo inteiro. Não existem muitos conservadores de direita em Portugal (provavelmente menos que liberais de direita), mas Adriano Moreira é-o com uma verticalidade e uma coerência de princí­pios e valores que muitas vezes me recorda – imagine-se! – Álvaro Cunhal. Estão (estavam) nos antí­podas em termos das ideias que defendem, mas são (eram) parecidos na coerência, verticalidade e atá generosidade com que o fazem. Até fisicamente são parecidos!

Mas o essencial é esta ideia de que, nas nossas sociedades, o preço das coisas está a tomar o lugar do valor das coisas. E que muitas das nossas perplexidades resultam desse facto. É uma ideia brilhante porque, se pensarmos bem, vale para muitos dos fenómenos que aparentemente não conseguimos explicar: desde a compra e venda da dignidade individual nos reality shows televisivos até à cedência de soberania nacional em troco de “tranches” de crédito, passando pela ocupação do espaço público por interessas privados, entre muitas outras coisas. O último destes fenómenos é provavelmente criticado pela esquerda, o segundo obviamente pela direita conservadora e o primeiro por ambas, por razões diferentes. E, no entanto, estamos provavelmente perante causas comuns. Os jovens que expõem a sua intimidade e vendem a sua dignidade a troco de dinheiro (ou de fama seguida de dinheiro, o que vai dar ao mesmo) nos reality shows televisivos, acabaram de dar um preço a uma coisa que dantes tinha valor e não tinha preço. A maneira como aceitamos que nos dêem crédito a troco de mandarem nas nossas decisões políticas não é mais do que uma forma de atribuir um preço a algo que nunca antes tínhamos ousado sequer quantificar: a soberania nacional. Dantes tinha um valor, agora tem um preço. Por fim, quando vemos uma praça, um jardim ou um equipamento social comum – um parque de diversões, por exemplo (sim, estou a pensar na Feira Popular)  - definitiva ou temporariamente ocupado por um produto ou empresa privada, isso significa que uma parte do nosso espaço comum de convivência social foi “vendido”. Ou seja, tinha um valor para todos, mas passou a ter um preço para as entidades envolvidas na transacção. Basta olharmos para as cidades com esta perspectiva nos olhos para percebermos o quanto temos transferido espaço público para o domínio privado. Todo o espaço público que tem valor acaba mais cedo ou mais tarde por ter um preço. Exemplo, que – repito – ilustra apenas uma tendência que poderia ser ilustrada por muitos outros.

Esta é a visão conservadora do problema. Conservadora de direita, de esquerda, ou de direita e de esquerda, consoante cada uma dos exemplos. Mas há outra visão possível, menos “política”, menos próxima da realidade, mas mais capaz – parece-me – de a explicar integralmente.

Essa tese sobre “o valor das coisas” versus “o preço das coisas” parte de uma distinção básica entre “valor” e “preço”: tem valor aquilo que não é mensurável e tem um preço aquilo que é mensurável. Como se mede o preço de um bem comum primário, como um quilo de batatas, por exemplo? Mede-se, obviamente, com uma balança, carregando batatas até chegar ao quilo,  e cobrando pouco mais de um euro, o “preço” de um quilo de batatas. Um preço de um bem secundário- um televisor por exemplo – é obtido somando as matérias-primas empregues, a depreciação das máquinas que o produzem e o tempo gasto pelos operários. Um serviço, por fim, tem um preço calculado em função de pouco mais do que o tempo empregue pelo “servidor” para prestar o serviço.

Nos exemplos anteriores, é muito provável que haja muitos jovens na casa dos 20 anos que acham intolerável a exposição e mercantilização da dignidade nos reality shows televisivos. Para eles a dignidade tem valor, mas não tem preço. No entanto, já existe um preço de referência para dignidade. Se os produtores desse tipo de programas tivessem a coragem de falar abertamente sobre eles saberíamos que resulta – provavelmente – do cruzamento entre o mais recente preço praticado para a mesma transacção (o mais recente reality show) e as audiências, medidas em share, previsivelmente conseguidas com esse “produto”. Os jovens aludidos no início do parágrafo podem continuar a recusar vender a sua dignidade, seja qual for o preço. Mas sabem – não poderão não saber – que no dia em que decidirem vender haverá um preço para isso. Aliás, há uma nota curiosa a destacar sobre este assunto em particular: quanto mais gente estiver disposta a vender a sua dignidade, menor é o preço unitário de cada uma. Curioso, não é?

Também há muitas pessoas – o professor Adriano Moreira, por exemplo- que acham intolerável que se venda a Pátria por 70 mil milhões de euros. Para elas, a independência e soberania nacional não têm preço. Mas têm! E esse preço expressa-se num conjunto complexo de indicadores financeiros e económicos (PIB, dívida externa, dívida pública, etc), mediados pelos chamados “mercados” (especialistas na “mensurabilidade” dos indicadores economico-financeiros) dando origem a conceitos estranhos como “dívida soberana” ou “default”. É estranho ouvir dizer que a China comprou X% da nossa dívida soberana porque nos parece que isso significa que comprou X% de Portugal. E o facto é que comprou mesmo! Por isso é que nos parece estranho!

A Feira Popular, por exemplo, era um conjunto de equipamentos de lazer disponíveis ao público localizados numa zona geográfica da cidade onde o metro quadrado de edificação comercial tem um alto preço médio. Para os habitantes da cidade, a existência daquele parque tinha certamente algum “valor” (nota: não estou a falar da relação individual de cada utilizador com cada divertimento do parque; essa é uma relação comercial individual que tinha um preço. Estou falar do espaço em si). Mas esse valor não era facilmente mensurável. Era tão mensurável como o valor atribuído à existência da um jardim. É coisa que tem valor, mas não é coisa que tenha preço. É priceless! Mas, para os edificadores imobiliários privados, tem certamente um preço muito mensurável. E por isso é que, como em tantos outros lugares da cidade, o espaço público com valor acabou por dar lugar a empreendimentos privados com preço.

Ou seja: de um lado temos sempre um valor não mensurável e do outro um preço bem mensurável. Talvez a correspondência não seja totalmente exacta, mas, à primeira vista, até se pode dizer que todo o valor que puder ser medido se transforma num preço.

O que nos traz – finalmente! – ao ponto essencial da minha tese: a quantificação do valor das coisas é uma consequência fatal do manto de inteligência com que o ser humano cobre toda a realidade que o circunda. Ou seja, não é uma escolha; é uma fatalidade determinística. O ser humano usa a sua inteligência sempre e a todo o tempo. E ao fazê-lo torna a realidade que o rodeia coerente com a sua inteligência. O que significa quantificar tudo o que puder e quiser quantificar. Incluindo coisas – “valores”, por exemplo – que dantes não eram quantificadas. A diferença entre o passado e o presente, portanto, não é que dantes era tudo bom e agora é tudo mau. A diferença é que há coisas que dantes não conseguíamos medir e agora – devido ao avanço do conhecimento acumulado, da ciência e das tecnologias – já conseguimos. Aparentemente, a dignidade, a soberania e o espaço público (e repito que os exemplos poderiam ser muitos outros…)  são três dessas coisas.

Seria concebível um programa como a “Casa dos Segredos” se não houvesse aparelhos para medir as audiências? Ser-nos-ia possível aceitar que um qualquer grupo de funcionários estrangeiros nos impusesse um programa de austeridade se não houvesse o complexo sistema de contabilidade pública que hoje existe? Seria possível tornar o espaço público em espaço privado se não houvesse um mercado imobiliário a funcionar? Quantificação é matemática. A quantificação faz parte da inteligência e hoje quantificamos – cobrimos de inteligência – muitas coisas que antes não quantificávamos. Isso muitas vezes parece-nos um problema e torna-nos a todos conservadores, sejamos de direita ou de esquerda. É aliás muito significativo que o fenómeno afecte igualmente a esquerda e a direita. Isso só prova que ele é verdadeiro.

Temos tendência a resistir ao futuro. Mas, quando olhamos para o passado, vemos que o futuro nunca nos foi prejudicial. A crescente interdependência económica e financeira entre muitos países diferentes – que tem tudo a ver com a chamada “crise das dívidas soberanas” por exemplo – é apenas mais uma manifestação da globalização, ou seja, o movimento de integração dos fluxos de mercadorias, de trabalho, de informação e de dinheiro a nível mundial, um movimento que – naturalmente – é todo ele alimentado pela ciência, a acumulação de conhecimentos e a tecnologia. A resposta não é – não pode ser! – resistir. A resposta só pode ser encontrar mecanismos de organização social e colectiva que sejam transnacionais ou internacionais. A União Europeia é isso.

Jeff Jarvis, um dos melhores jornalistas que eu conheço a acompanhar a questão dos novos media, publicou recentemente um livro chamado “Public Parts” no qual analisa os problemas da privacidade no mundo moderno e que surge na sequência da extensa descrição que Jarvis  foi fazendo – por vezes com detalhes mesmo muito “privados” – da sua própria experiência de um cancro do cólon. Uma das teses do livro é que precisamos de novos conceitos de privacidade. E – digo eu – precisamos de olhar também para outros conceitos que – presunçosos – achávamos que eram imutáveis, como o de “dignidade”. Nenhum conceito é imutável e portanto, por definição, nenhum valor o é também. Aliás, basta olharmos à nossa volta para o percebermos. Há 100 anos seria impensável – para os próprios! – que um casal de namorados se beijasse em público. Hoje estamos no ponto de aceitar que sejam do mesmo sexo!

Por fim, o problema do espaço público face ao espaço privado. Basta olhar para trás para perceber que desde as primeiras terras atribuídas pelos reis aos senhores feudais vimos percorrendo um caminho sempre no mesmo sentido. O espaço público vai ganhando preço e tornando-se privado. Há duas visões possíveis para conjugar esse movimento com o interesse público: salvaguardar mecanismos de utilização pública de bens privados; ou – que me parece mais promissor – encontrar outras formas mais evoluídas de medir o valor das coisas, que venham a respeitar a ideia – que nos parece tão clara – de que o interesse público tem tanto ou mais “valor” que o interesse privado. O mundo dá muitas voltas…

Ou seja, a primeira tentação que temos é sempre a de reagirmos de forma conservadora a esta oposição dinâmica entre o preço das coisas e o valor das coisas. Mas essa pode não ser a reacção mais correcta. Temos que nos pôr no ponto correcto da escala do tempo – o nosso minúsculo pontinho – e percebermos que se há muito tempo para trás, há ainda mais para frente. E que se muita coisa mudou – e sempre para melhor – atrás de nós, ainda mais coisas haverão de mudar para a frente de nós. E tudo leva a crer que para melhor!

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Apesar do antetítulo um pouco rídiculo – “Um dos 25 grandes pensadores do mundo inteiro (“25”??? “do mundo inteiro”???), este livro, uma recomendação do Carlos Magno do Contraditório,   foi para mim uma agradável surpresa: arrojado, holístico e arejado nas ideias. E utópico, obviamente (o que seria da vida sem utopias?).

Eis alguns sublinhados:

“Já não é permitido falar de classes, mas a referência pejorativa à classe política é um dos tópicos mais úteis quando alguém deseja poupar o esforço de reflectir sobre como funcionam as nossas democracias”.

“Os políticos fazem mal o que ninguém faz melhor que eles”.

“Se existe representação, é porque o povo é uma realidade suficientemente complexa  para que nenhuma das suas manifestações (…) o possa resumir de maneira satisfatória”.

“Do mesmo modo que as tradições constituem um fundo habitualmente não tematizado  de usos e costumes, os meios de comunicação fornecem um senso comum social cuja imposição é dificilmente perceptível.  A agenda dos meios de comunicação equivale, nas sociedades desenvolvidas, à nova tradição: temas, juízos e esquemas estabelecidos como tácitos e comuns”.

É interessante notar, como consequência desta ideia, que, nas nossas sociedades, muito mais facilmente identificamos  as diversidades do que as uniformidades, quando na realidade são estas e não aquelas que determinam o nosso discurso colectivos. A este título, o funcionamento dos media é exemplar.

“As cidades tornaram-se por isso centros de inovação e assumiram o protagonismo cultural e político nos processo de modernização. A cultura urbana que gradualmente se formou com o aparecimento das cidades é uma mistura específica de estruturas sociais, políticas e económicas”.

De certa forma, a civilização digital globalizada está para a cultura urbana como a civilização urbana está para a civilização rural. É impossível não suspeitar que estamos no limiar de uma viragem civilizacional da maior importância.

“(…) o próprio da grande cidade era a polaridade do público e do privado, em comparação com a indistinção desses dois espaços que caracteriza a vida rural. (…) Neste sentido, podemos afirmar que, por efeito da urbanização, dessa configuração de espaços públicos surge para os indivíduos uma verdadeira vida privada”.

“O espaço público desaparece sob o domínio privado, tanto no extremo mais exclusivo como no mais excluidor. Por um lado há os bairros de exclusão e sem lei; por outro, os espaços comerciais e recreativos de acesso restrito  e as «comunidades cercadas», com os seus sistemas de vigilância e segurança. Poderíamos concluir que o actual espaço público são as vias de trânsito: meros lugares de passagem, simples instrumentos de deslocação”.

“Quando se abandona o modelo centro/periferia, quando o centro está em toda a parte, a implantação local muda de estatuto; cada ponto é um centro nas múltiplas intersecções da rede. Cada ponto local implica a rede global; reciprocamente, esta não é nada sem a multiplicidade dos lugares singulares. As sociedades modernas não necessitam de centralidade espacial. É importante compreender isto para conceber o novo espaço público”.

“A nossa identidade é um assunto histórico e não um acto da vontade. O facto de a identidade ser o resultado de uma acção consciente, de um plano destinado a conseguir precisamente esse produto”.

“(…) boa parte das actuais reflexões acerca [do bem comum] surge precisamente da insatisfação perante um modelo de articulação dos interesses privados com os interesses públicos excessivamente elementar, pouco adequado às actuais transformações sociais”.

A propósito do queijo limiano:

“Só um conceito [como Bem Comum] pode justificar uma visão mais elaborada da política e evitar que os políticos se limitem a beneficiar as suas clientelas como se fossem simples mandatários do seu eleitorado imediato.”

“Vivemos numa época em que o poder político – os estados e os governos – se vêm em apuros perante dificuldades não menos graves que aquelas que, nas origens da era moderna, acompanharam os eu processo constitutivo. A política é fraca perante a poderosa competição dos fluxos financeiros e dos poderes da comunicação social; o seu espaço próprio perde-se nos formatos inéditos da globalização e perante as particulares exigências dos processos de individualização”.

“O estado terá de tornar-se mais cooperativo – o que não equivale a mínimo – se não quiser tornar-se irrelevante. À vista de tais dificuldades, o estado e a política têm de procurar formas alternativas de configurar o espaço social, novas formas de governo”.

“Contrabalançar a dinâmica centrífuga dos sistemas diferenciados constitui o verdadeiro problema de política numa sociedade complexa. A tarefa fundamental da política e do estado na sociedade do conhecimento é a coordenação e mediação dos sistemas sociais, tão complexos, experientes e dinâmicos que excluem o comando estatal autoritário”.

“O que se esgotou não foi a política, mas uma determinada forma da política: em concreto, aquela que corresponde à era da sociedade territorialmente delimitada e politicamente integrada.”

“Neste sentido, governar pode ser caracterizado como a combinação de menos estado e mais política. A novidade desta combinação consiste em ser uma verdadeira alternativa para as conhecidas concepções do estado mínimo (menos estado e mais política) e do estado social tecnocrático e autoritário (mais estado e menos política).”

“A globalização económica é repelida pela maioria dos seus críticos, ao passo que mais ou menos todos eles seriam a favor da mundialização da educação, da solidariedade ou da informação. Boa parte do desgoverno económico provém de o mundo não estar, por assim dizer, suficientemente globalizado e de aquilo que é vendido em zonas de grande consumo poder ser produzido em sítios onde não há direitos sindicais.”

“A verdadeira urgência do nosso tempo consiste em cosmopolitizar a globalização. Sempre assim aconteceu ao longo da história; um dos seus vectores de progresso tem sido precisamente o politizar, isto é, transformar âmbitos que estavam confinados à «naturalidade» (da tradição, da autoridade e da imposição) em questões sobre as quais se deve discutir e chegar a acordo: do trabalho doméstico à relações internacionais, passando pelos diversos códigos de comportamento ou pelas formas de organização social. Todos os impulsos democratizadores partiram do escândalo de haver decisões vinculativas que não tinham sido tomadas por todos. E assim acontece também no caso da mundialização.”

“O processo político de integração europeia é uma resposta inédita – e talvez um dia exemplar – às circunstâncias que hoje condicionam o exercício da soberania no mundo.”

” (…) uma Europa cosmopolita é hoje a última utopia política efectiva.”

O ovo ou a galinha?

egg

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

A pergunta é mil vezes repetida como se não tivesse resposta. Mas, na realidade tem uma resposta muito simples. É tão óbvio que, antes que saiba qual a resposta que a Scientific American dá à questão na sua edição de Setembro, divulgo a minha visão do “problema”.

Quem nasceu primeiro foi obviamente o ovo. E porquê? Porque o método de reprodução é anterior ao animal reproduzido. É claro! Aliás, é tão claro que custa a perceber porque é que a pergunta acima continua a ser usada como se fosse um paradoxo.

Em abstracto, já existiam animais que nasciam por meio daquilo que nós sem dúvida consideraríamos um “ovo”, antes de existir qualquer animal que nós pudéssemos considerar uma “galinha”. Isso quer dizer que, na história da evolução, terá havido muitos ovos que deram origem a muitos seres animais antes que surgisse uma galinha. O que quer dizer que necessariamente o ovo existiu antes da galinha.

O paradoxo só existe em concreto. É verdade que para existir “uma” galinha terá que ter existido “um” ovo do qual ela possa ter nascido. Mas, se “essa” galinha teria que nascer “desse” ovo, então teria que haver “uma” galinha anterior para pôr o ovo.

Ou seja, o paradoxo na realidade é uma falácia porque só pode existir no concreto. A partir do momento que lhe aplicamos o pensamento abstracto ele deixa de fazer sentido e a resposta é tão óbvia como 2+2 serem 4: quem nasceu primeiro foi o ovo!

O dia de reflexão tem destas coisas: damos por nós a pensar em futilidades interessantes…

A nossa cultura, o que resta dela

“Our Culture, what’s left of it”

de Theodore Dalrymple

Descobri este interessante livro na edição original em inglês da Ivan R. Dee  numa loja FNAC.

Theodore Dalrymple é o pseudónimo de Anthony Daniels, um psiquiatra inglês que, motivado pelos ensinamentos da sua profissão,  deu por si a meditar sobre o sentido da vida e os grandes problemas das sociedades modernas. O seu pensamento é profundamente conservador e – talvez  por isso mesmo – é em muitos pontos bastante inovador. Andrew Keen, se não conhece, devia conhecer. Na página da wikipedia há um link para uma interessante entrevista a uma televisão holandesa.

 Vai comigo para férias!

Daniel Gilbert, autor do livro “Stumbling on Happiness” vai ser um dos oradores numa conferência sobre o assunto a realizar na Culturgest de 31 de Maio a 2 de Junho, juntamente com outras “estrelas” como Darrin McMahon, Ruut Veenhoven, Gilles Lipovetsky e Eva Illouz.  Um elenco fenomenal para  um evento no qual a entrada é gratuita.

Segundo o Público, que publicou um extenso trabalho sobre Daniel Gilbert no P2 de sábado, o livro será em breve editado em Portugal com o título “Tropeçar na Felicidade”, pela Estrela Polar, da Oficina do Livro. Tem sem dúvida todo o  perfil de um best-seller (embora, segundo o autor, este não seja um livro de auto-ajuda, mas um livro para o qual as pessoas se virarão “quando tiverem comprado um livro de auto-ajuda, feito tudo o que esse livro aconselha e continuarem a sentir-se infelizes” – do referido artigo do Público)

Dan Gilbert foi um dos participantes na TED Condeference de 2004, com uma apresentação que naturalmente já abordava o tema em moldes semelhantes àqueles que será lícito esperar da conferência de Lisboa. Em jeito de antecipação, aqui está o video dessa TED Talk.

Recomendação literária

A propósito da esquizofrenia do olhar dos portugueses sobre si próprios: 

“Para o verdadeiro patriotismo, em suma, uma pátria não é apenas um legado que se recebe passivamente, mas também algo que nele se recusa, divergindo e reformulando-o. Ele é amor ao que os nossos majores, os nossos antepassados, os nossos pais constituíram e nos deixaram como legado, mas aceitá-lo é partilhar criticamente , com escolha lúcida e radical  a partir desse património de valores e pedras, de acções e modelos de vida, de feitos e de projectos, de sonhos e de tentames possa haver de vivo, de realmente futurante e de melhor do que somos, de generosamente aberto ao mundo – mau grado os defeitos, as taras, os crimes e as incapacidade patenteadas por dirigentes cegos que, no passado remoto ou presente, conduziram outros cegos – tendo inclusive a coragem de divergir, recusar, enfrentar o erro santificado e inveterado pelo tempo e pelo costume. (…) A questão do patriotismo só tem sentido nesta perspectiva de vivência duma cidadania esclarecida, actuante, aberta ao mundo, generosa na inclusão dos Outros, uma concepção solidária  e universal que se articule com os projectos de paz e de posperidade que a ideia da Europa pós-Estado-Nação eseencialmente contém. Só conhecendo, valorizando e praticando o ‘melhor de nós mesmos’ (…) podemos ter uma cidadania esclarecida, ancorada no melhor do nosso passado como povo, como comunidade particular integrada na unicidade do género humano, projectada para um futuro de progresso, prosperidade e harmonia.”

João Medina, Portuguesismos, página 304

As grandes questões

A conferência TED2007, que se realiza entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, em Monterey, California, terá como tema As Grandes Questões:

  • Who are We?
  • What is our place in the Universe?
  • What is Art? – is beauty just a human invention?
  • What is Love – and why are we so bad at it?
  • What is Evil? – and how do we fight it?
  • What are the most Gorgeous New Things being created in our world?
  • Are we inadvertently creating New Forms of Life?
  • What are today’s most significant Cultural Trends?
  • What will the Future be like?
  • What are the Problems I should be most worried about?
  • Who will be the next President? 
  • What will be my Legacy?
  • A ideia foi expressa por Chris Anderson numa conferência Poptech e suscitou o interesse da blogosfera: aqui, aqui, aqui aqui e mais ainda aqui (e, já agora, também aqui). Anderson afirma que no mundo moderno nos aproximamos de um estado de abundância de recursos que altera o paradigma em que funciona a ciência económica. A questão que se coloca é se as leis da economia servem para um estado de abundância da mesma forma que servem para um estado de escassez de recursos. Esta é para mim uma questão em aberto, à qual certamente voltarei, uma vez que me parece crucial para entender o funcionamento moderno da indústria da informação e entretenimento. Este post destina-se, para já, a fixar (e partilhar) os contributos acima. Outros inputs são bem vindos.

    Espírito hegeliano

    Metcalfe’s Law says that value of a networks grows with the square of the number of nodes. Today’s Web, which is as much about contributing as it is consuming — two-way links, as opposed to the old one-way networks of broadcast and traditional media — allows the same to apply to people. Connecting minds allows our collective intelligence to grow with each person who joins the global conversation. This information propagation process, which was once found in just a few cultures of shared knowledge, such as academic science, is now seen online in everything from hobbies to history. The result, I think, will be the fastest increasing in human knowledge in history.”

    Chris Anderson, no Edge World Question Center

    Se isto não é hegeliano…

    Economia da abundância

    Quase uma contradição nos termos, a “economia da abundância” é algo sobre que Chris Anderson escreveu neste post e promete continuar a desenvolver no seu The Long Tail.

    A ideia é interessante. Em termos convencionais, só tem valor económico aquilo que é escasso, não aquilo que é abundante, o que obriga a repensar todo o enquadramento económico da nova vaga de aplicações, produtos e manifestações da internet, onde a abundância prevalece sobre a escassez.

    Se continuar a desenvolver a sua “economia da abundância”, Chris Anderson encontrar-se-á, a determinado ponto, à procura do modelo de negócio para a web 3.0. E isso é a verdadeira one million dollar question a que toda a gente quer dar uma resposta.

    Um assunto a acompanhar com atenção…

    1. Porque é que a lei fala em 10 semanas e não em 12? Ou em 10? ou em 8 ou 16? Quando é que começa a vida? Do meu ponto de vista, há dois momentos decisivos: a concepção e o nascimento. Atribuir o começo da vida ao momento da concepção é estabelecê-lo demasiado cedo para que permita resolver o problema social. Fixá-lo no nascimento é demasiado tarde para que seja compatível com os valores éticos em que fundamentamos a nossa vida individual e colectiva. O “problema” é que a medicina permite-nos “ver” aquilo que está dentro da barriga. “Antes da medicina” (ou num mundo sem medicina, o exercício é igualmente irreal), a vida humana começava sem dúvida no momento do nascimento e tudo o que se passava antes disso era relativo à  saúde da mãe. Mas a evolução da ciência e da técnica (e portanto da medicina), “obrigou-nos” a criar novos padrões éticos. É por isso que a concepção é demasiado cedo e o nascimento é demasiado tarde e é daí­ que resulta esta discussão.

    2. “Não matarás!” é talvez o mais importante valor ético do mundo ocidental. Mas não está generalizado em todo o mundo nem mesmo no ocidente (o Irão e os EUA, por exemplo, não o respeitam). O que prova que os valores éticos, embora devam “presidir” à sociedade, dependem da realidade social em que surgem e a que se dirigem. E portanto dependem também da evolução da ciência e da técnica.

    3. O progresso da ciência e da técnica não é independente da forma de organização das sociedades humanas, mas é em boa parte autónomo em relação a ela. Ou seja, a investigação científica e técnica produz resultados que nem sempre correspondem exactamente àquilo que se desejava. De cada vez que se lança uma semente, nasce uma planta diferente. É verdade que num determinado momento e local históricos se investiga sobretudo aquilo que interessa à sociedade conhecer ou resolver. Mas a investigação científica e técnica produz mais resultados e mais inesperados do que os inicialmente pedidos. É a evolução da ciência e da técnica que nos permite hoje conhecer melhor o feto humano e estabelecer em relação a ele padrões éticos que não existiam no passado. Mas é também a evolução da ciência e da técnica que nos permite ser capazes de “determinar” a existência de vida, seja através de inseminação artificial, seja através de clonagem, seja através de suspensão criogénica, seja através da… interrupção voluntária da gravidez. De uma coisa não podemos ter dúvidas: a evolução da ciência e da técnica vai continuar a colocar-nos este tipo de problemas e vai-nos confrontar com questões bem mais complexas do que a do aborto. 

    4 . Por isso, no debate do aborto (como em muitos outros debates), parece-me que de um lado estão  os progressistas e do outro estão os conservadores.  De um lado estão os que acreditam que é a evolução da ciência e da técnica (ou seja, do conhecimento tout court) que ilumina o caminho e não só nos coloca desafios como também nos dá respostas; do outro estão os que resistem e acham que o progresso da ciência e a técnica deve ser submetido à vontade colectiva e deve ser limitado pela nossa ética colectiva. Nesta equação – e portanto também na questão do aborto – os progressistas têm sempre razão. Quando não a têm hoje, tê-la-ão amanhã!