We need to talk about Kevin

We need to talk about Kevin“, da inglesa Lynne Ramsay, é um filme complexo sobre coisas complexas.

Se gostam de narrativas lineares, com princípio, meio e fim, não vão ver este filme.

Mas se, pelo contrário, gostam de histórias complexas, com personagens fortes, então não deixem de ver! Tilda Swinton não é a personagem central deste filme; Tilda Swinton é o filme! Toda a narrattiva é vista pela mente complexa de uma mãe com complexo de culpa. E corre à medida desordenada e aparentemente desconexa das memórias. Daí a complexidade. O filme passa-se dentro da mente de uma mãe perturbada; e é precisamente aí que nós o vemos.

Não sei qual é a estrutura do romance, mas o filme tem essa complexidade adicional a juntar à da própria temática e da própria história. E – claro – Tilda Swinton é simplesmente brilhante.

Vão ver. Mas não esperem sair de lá mais esclarecidos do que entraram.

 

[ADENDA]

Faltou dizer uma coisa importante.

Na minha opinião este filme só tem um erro grave: a realizadora não resiste a tentar pôr um fim numa narrativa que não tem fim, nem meio, nem principio. Devíamos saír de dentro da mente da protagonista da mesma forma que entrámos: sorrateiramente e sem aviso prévio. Aquela pergunta básica – “Porquê?” – era desnecessária e fútil.

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Inside job

Hoje assisti à ante-estreia de “Inside Job“, o filme-documentário sobre a crise financeira de 2008 realizado por Charles Ferguson premiado em Cannes:

1. Quando virem o filme experimentem trocar “Lehman Brothers” ou “MerrilL Lynch” por “BES” ou “BCP” e onde está “administração Obama”, “administração Bush” ou “administração Clinton” experimentem ler “governo de Sócrates”, “de Durão Barroso” ou “de António Guterres”. Como mesmo no dia anterior tinha acabado de comprar o livro “Donos de Portugal“, o “Inside Job” parecia a versão para cinema do livro, mas em “remake” norte-americano. Um “flash”!! Não arrisco dizer se foi Portugal que plagiou os EUA ou se foram os EUA que plagiaram Portugal, mas estou cada vez mais convencido que nem uma coisa nem outra. Provavelmente o fenómeno – que é o mesmo! – tem as mesmas causas nos dois sítios.

2. Continua a parecer-me irracionalmente surpreendente que, dois anos depois da débacle, nada – nada! – tenha acontecido. Nem aos seus protagonistas, nem às empresas, nem aos países, nem às sociedades, nem às ideologias que engendraram a crise. É muito difícil de compreender. Na realidade apenas concebo que aceitemos que nada aconteça, à luz de alguma mudança que esteja para chegar capaz de transformar definitivamente – revolucionar! – a maneira como funciona o mundo! É a única explicação!

3. Uma das figuras públicas presentes na ante-estreia era o professor João César das Neves, o tal do “não há almoços grátis”… Get it? Seria caso para perguntar quem é que pagava este “almoço”. Mas – sobretudo – gostava de ter estado ao lado dele quando o filme falou dos professores das grandes faculdades de economia norte-americanas e do dinheiro que ganhavam por fora a fazer relatórios favoráveis às instituições financeiras…

4. Aliás, as agência de rating também não saem muito bem do filme. Fixei sobretudo uma frase: “os nossos ratings são apenas opiniões”…

5. Por fim, registo a presença assídua – muito assídua mesmo – de algumas figuras do nosso “jet-set” televisivo nestas ante-estreias à borla. Será que nunca pagam um bilhete de cinema? Mais uma vez seria de perguntar ao professor César das Neves – outra vez! – se afinal há ou não há almoços grátis!!

The social network

Acabei de vir da ante-estreia do “The Social Network” – “A Rede Social” (Obrigado, Espadinha!), a aguardada “história” não autorizada do Facebook e de Mark Zuckerberg. E há dois ou três aspectos que gostaria de destacar:

1. Gostei do emaranhado da narrativa e da forma como os diálogos, os planos e a trama vão evoluindo de rápidos para lentos. Começa com um ritmo tão frenético que quase custa a acompanhar e termina, simbolicamente, com um longo plano de Zukerberg frente ao computador. É uma espécie de desconstrução e decomposição do ritmo acelerado da realidade de forma a permitir-nos focar-mo-nos nos seus componentes de base. Bom.

2. Uma das mensagens fortes do filme – mais uma vez simbolizada no plano final – é a enésima representação do aforismo “it’s lonely at the top”.  Não é o primeiro nem será o último filme a fazê-lo. Tantos acontecimentos depois, Zuckerberg acaba tão sozinho como começou e a pedir amizade à ex-namorada em nome de quem tudo começou. O vencedor está sempre sozinho, mesmo quando está rodeado de gente. Essa é a grande ironia do sucesso.

3. Outra das mensagens fortes do filme é esta: o sucesso só é atingível com persistência. Uma ideia realmente boa merece antes de tudo o respeito de nela persistirmos.  No filme, Zuckerberg perde namoradas, amigos e até ídolos para conseguir materializar aquilo que ao longo de boa parte do filme não passa de uma “boa ideia”. Mas consegue! Uma lição para todos nós.

4. Este é um filme sobre “nerdness”. Afinal o que é um “nerd” informático? A resposta está no filme. É preciso perceber – para quem ainda não percebeu -que um “nerd” da informática programa (digo eu que não sei código…) com o mesmo envolvimento com que um poeta escreve poemas ou um pintor pinta quadros. Não sei se o episódio é verídico, mas é por isso que Zuckerberg diz que criou um programa para a Microsoft ainda na adolescência e que fez o respectivo upload “porque sim”.  Um poeta escreve poemas mesmo que ninguém os publique. Um programador programa mesmo que seja só pelo gozo de fazer coisas. É esse “gozo” que transparece no filme e dá a mais completa definição do que é um “nerd”. É preciso perceber isso para perceber o estado actual da indústria informática.

5. É impressão minha ou a determinado ponto traduziram “Linux” por “Linus”? Daah!

(adenda) Outra coisa: É interessante (não disse significativo, disse apenas interessante) que a maior rede social do nosso tempo tenha sido inventada por um inepto social. É incontornável que isso diga algo sobre a sua rede (mais precisamente que está “em vez de”, a maior crítica que lhe é feita, e que aliás o filme também veicula), mas, sobretudo, questiona-nos sobre a natureza destas redes sociais face às redes cara-a-cara e sobre a relação entre as duas. Estes é um fenómeno que – parece-me – ainda está por compreender na sua plenitude.

Once – Glen Hansard

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Às vezes ainda vale a pena fazer zapping…

Descobri este filme – “Once” – por mero acaso numa noite destas no TVCine 2. Calhou passar por lá precisamente no momento em que, no filme, os protagonistas estão numa loja de instrumentos musicais a cantar a canção principal do filme e que lhes deu o Oscar de melhor canção original.

Obviamente, não o larguei mais até ao final fiquei maravilhado com o filme – que, ao que parece passou ao lado do circuito comercial português – e com a música, que encontrei à venda na Amazon (ainda não o descobri em Portugal, mas sou todo ouvidos…).

São – tanto o filme, de John Carney, como a música, de Glen Hansard – cheios de sentimento, de uma simplicidade absolutamente bela e profundamente tristes e alegres. Enfim, uma daquelas coisas que os grandes estúdios e os grandes músicos são incapazes de fazer. Vale a pela ver e ouvir.

Eis o link para a canção em causa, com imagens do filme.

Como desconhecia, admito que não fosse o único: João Lopes e Nuno Galopim juntos num blogue? Isto é o “dream team” de quem gosta de música e cinema! Já está nos favoritos!

Dois exemplos de manifestações híbridas (incluindo o modelo de negócio) de potenciais momentos de televisão/cinema “transmitidos” online:

Four Eyed Monsters

Descobri este filme - “Four Eyed Monsters” - a partir de um excelente documentário open-source sobre net neutrality. Pois bem, o filme parece ser tão interessante como o documentário. Eis a sinopse:

“They have four eyes, two mouths, eight limbs that wrap around themselves. It’s disgusting!” Arin says, as we see images of couples throughout New York City. “But I can’t help but envy them.”

Arin is a wannabe filmmaker and highly inexperienced with love, despite the fact that he spends most of his time editing wedding videos. In one of the most populous cities in the world, he is alone and tormented by the beautiful women he sees everywhere. He turns to the Internet.

Susan is an art school graduate working as a waitress and suffering from a lack of inspiration. She receives a message from Arin, but since she’s tired of dating, especially online, she suggests that he should just stop by her work.

Arin is too shy to introduce himself. So instead, he follows her home without her knowing and emails her pictures of her mundane daily trudge. She is intrigued.

They decide to meet up, but in an attempt to keep their interaction interesting, they make a pact to not speak to one another. As their romance develops, they only write, draw, email, text, have sex, instant message, and make videos for each other. No talking.

Susan’s creative clouds begin to lift, and Arin’s dry spell has ended. Unfortunately, a new world of more complicated problems is discovered, and they are forced to deal with intimacy as they meld together and create a monster.

O trailer abre na página inicial do filme e recomendo a sua visualização. Mas esta reportagem da Binside TV explica a forma como o filme se enquadra num projecto global com um conjunto de video podcasts, visíveis aqui, que explicam o percurso artístico dos autores do filme na promoção dele em vários festivais.

 

Ou seja, este é um bom exemplo de um projecto fílmico que se desdobra em várias manifestações diferentes e utiliza vários media diversos como forma de contornar os oligopólios da distribuição. Aqui, do outro lado do mundo, fiquei com muita vontade de ver o “Four Eyed Monsters”. Isso deve querer dizer alguma coisa…