O Capital

– “Meus senhores o novo presidente do banco, Marc Tourneill!”
– “Estes são todos os principais accionistas. Eis os representantes do Eliseu. Eles esperam muito de si. Diga-lhes o que querem ouvir!”

– “Meus amigos, eu sou o vosso Robin dos Bosques moderno! Nós vamos continuar a tirar aos pobres para dar aos ricos!”

– “São crianças. Crianças grandes! Elas divertem-se. E vão continuar a divertir-se e divertir-se… até que a bolha rebente!”

Sempre me intrigou perceber o que leva alguém que tem muito, mas mesmo MUITO dinheiro a querer mais dinheiro. Afinal, o dinheiro, a partir de certo ponto, é apenas um número numa conta conta bancária.
Este filme (podem revê-lo nas gravações do AXN Black, passou ontem às 18h ou numa versão integral, mas dobrada em brasileiro aqui – para quem gosta do género) dá uma resposta possível: para estas pessoas o dinheiro não é dinheiro, é “currency”; é fichas e mais fichas para jogar num imenso casino. O gozo está no jogo, não naquilo que se ganha ou perde! Isto é o que fazem as crianças muito, muito ricas. Aprendem a jogar desde pequeninas. E nunca mais deixam de jogar.

 

O dinheiro, eis um tema interessante que ainda gostaria de estudar em profundidade um dia. O dinheiro é – como sempre foi – uma convenção. Um símbolo de algo, sem nenhum valor intrínseco. Já disse noutro ponto mas repito: o dinheiro é uma tecnologia de informação. O dinheiro comunica algo. Aquilo que importa no dinheiro não é o dinheiro em si, mas aquilo que ele comunica!

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Na mesma edição da Autêntica, cujo tema é o Dinheiro, vale também a pena ler o artigo de Jorge Fiel.

O título é “179.629,02”

O lead é “Arredondando, estamos a falar de 18o mil euros. É esse o dinheiro que a Sojornal, a sociedade proprietária do Expresso, vai pagar para se ver livre de mim. Ou, dito pelas palavras do advogado que redigiu o documento intitulado Cessação de Contrato de Trabalho por Mútuo Acordo, os 179.692,02 euros são a ‘compensação pecuniária de natureza global’ que ‘a Empregadora’ me paga ‘em contrapartida da cessação do contrato'”.

Alguns excertos:

“‘180 mil  euros? Não é mau…Podia ser pior!’ É a frase que ouço de volta sempre que me perguntam  quanto é que vou receber em troca de conceder ao Expresso o divórcio, amigável e por mútuo consentimento, de um casamento que durava há 17 anos”

“Por este artigo, a Autêntica prometeu pagar-me 600 euros. Não é mau. Podia ser pior. 636,50 euros foi o salário médio mensal recebido em 2006 pelos nortenhos que trabalham por conta de outrém. Eu escrevi este artigo em cinco horas”  

“Eu estou habituado a ganhar por mês aproximadamente o que o Cristiano Ronaldo ganha em quatro horas e meia. Não é mau. Podia ser pior.”

“É quase metade dos mil euros que Pimpinha Jardim pede de cachet para abrilhantar uma festa. A filha de Cinha (que a idade não perdoa, cobra apenas 500 euros para comparecer num evento) ganha esse dinheiro numa noite.”

“Soraia Chaves cobra 3500 euros por aparição num evento, sete vezes o cachet de Cinha e umas seis vezes mais do que vou receber por este artigo”

“23 mil euros era o salário mensal auferido por Paulo Macedo, director geral de impostos.”

“5780 euros é o ordenado máximo mensal  fixado por lei para a administração pública, tendo como referência o vencimento do primeiro ministro.”

“200.000 euros é a remuneração anual de Luis Nazaré, presidente do Conselho de Administração dos CTT.”

“200.000 euros é o valor anual da pensão de reforma que José Salter Cid, 53 anos, número dois da lista PSD candidata à Câmara de Lisboa, recebe na qualidade de aposentado da PT.”

“180 mil euros é o valor aproximado da indemnização que vou receber do Expresso.”

É o que se chama “pôr a boca no trombone”. Já vai sendo tempo de os portugueses porem de parte esse estranho pudor de falar do dinheiro que pagam ou recebem por o que quer que seja que façam. Tudo seria mais claro e transparente sem ele. Eu, como jornalista de topo na minha empresa e director de revista ganho 2000 euros por mês. Às vezes acho que é muito, mas na maior parte das vezes acho que é pouco…