Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg

Em Setembro de 2017, na semana anterior às eleições gerais na Alemanha, Mark Zucjkerberg fez um “live” no Facebook para explicar em detalhe o que estava a ser feito internamente para combater as chamadas “fake news”. Um trecho que passou despercebido à maioria das pessoas no seu longo discurso, mas que tanto Helen Lewis como Julia Lefkowitz  prontamente apontaram foi esta frase ao mesmo tempo irónica e assustadora: “Temos estado a trabalhar para garantir a integridade das eleições alemãs do próximo fim de semana.” O que é irónico é o facto de estarmos perante um executivo de uma multinacional de Menlo Park, California, a dizer que pretende assegurar a integridade das eleições num país estrangeiro. O que é assustador é que ele está a falar a sério!

Esta frase ilustra na perfeição tudo o que está errado no estado atual da relação entre estas novas poderás plataformas de informação da era digital e os tradicionais poderes reguladores dos países e da sociedade. Sejamos claros: o Facebook PRECISA urgentemente de ser regulado; mas a verdade é que NÃO PODE ser regulado pelos métodos tradicionais. Claro que haverá sempre alguém que possa dizer que devíamos voltar à era analógica e abandonar de todo o digital ou que, como outros monopólios nos passado, o Facebook devia simplesmente ser decomposto em empresas mais pequenas para aumentar a competitividade. Mas isso, claro, não passa de fantasias! O problema é que, se olharmos para o conjunto de notícias e artigos de opinião que têm vindo a circular a propósito da regulação do Facebook, reparamos que a maior parte deles apontam precisamente nesse sentido. E isso denunciam uma incapacidade quase generalizada de perceber até que ponto o Facebook é algo diferente de tudo o que conhecemos no passado. Eu acredito que primeiro precisamos entender realmente aquilo em que o Facebook é diferente para podermos sequer começar a pensar em como o devemos regular. A seguir explico porquê.

Há pelo menos quatro coisas fundamentais que hoje em dia já são perfeitamente claras sobre o Facebook e que precisamos integrar no nosso debate sobre como ele pode e deve ser regulado (coisa que raramente acontece).

1. O Facebook é uma plataforma. Ele existe para que outros agentes possam usá-lo para fazer determinadas coisas, quer seja partilhar as fotos dos seus gatos, propagar o conhecimento ou espalhar “fake news” acerca de alguma coisa. Tal como acontece numa plataforma de caminhos de ferro ou numa praça pública, cada agente é responsável pelos seus atos, dentro das limitações e constrangimentos da plataforma. Claro que esses constrangimentos influenciam aquilo que cada agente pode ou não pode fazer na plataforma, mas não o determinam. Essa é uma prerrogativo dos próprios agentes. Se nós atribuirmos ao Facebook o direito – ou, pior ainda, a missão – de permitir ou proibir determinados tipos de conteúdo, na prática o que estamos a fazer é a transferir a nossa própria agência no processo para uma entidade externa que não controlamos. Uso a palavra “agente” propositadamente: o “agente” tanto pode ser um indivíduo como um grupo ou uma fação. Quando celebramos as tecnologias digitais porque elas tornam mais fácil aos indivíduos e aos grupos ter uma voz ativa, estamos a incluir tanto os seus usos positivos como os seus usos negativos. Eu, por exemplo, sempre tive um posicionamento político mais à esquerda e sigo várias páginas grupos de Facebook associados à esquerda política em Portugal. Algumas delas poderão até ser o equivalente nacional (e esquerdista) do site norte-americano Breibart, frequentemente associado às “fake news” pro-Trump. Mas eu sei disso e integro esse elemento valorativo nas minhas escolhas informativas. Eu sei aquilo em que posso ou não posso confiar e sei como verificar se uma informação ou uma perspetiva é verdadeira ou fundamentada quando tenho dúvidas. Se permitirmos que seja o Facebook a decidir se determinados agentes ou os seus conteúdos são permitidos na plataforma, temos que possa vir a perder essas visões de esquerda, alguma delas radicais. Tal qual como acontece com um norte-americano de direita a propósito do Breitbart, por exemplo.

Infogram by Vanessa Otero.
Infogram by Vanessa Otero.

 

2. O Facebook é uma rede. Num sistema de distribuição de informação linear, nós podemos exercer regulação e controlo num qualquer ponto específico desse linear. No mundo dos mass media, a maior parte da regulação e controlo é exercida sobre os próprios media, ao nível do código de ética dos jornalistas, da lei da imprensa ou da televisão e até da lei da publicidade. Todas essas instâncias de regulação estão ausentes num sistema de distribuição de informação em rede, que estejamos a falar o Facebook especificamente ou da World Wide Web em geral. É verdade que atualmente o Facebook é quase tão grande como a própria internet. E isso devia preocupar-nos! Mas a verdade é que ainda não o é! Ainda continuam a existir nós da rede que estão fora do Facebook, assim como fluxos de informação entre eles.  Isso que significa que regular o Facebook, seja de forma for, seria ineficaz para qualquer coisa que aconteça fora do Facebook. Além de que, para o próprio Facebook – e de resto para qualquer outra plataforma de distribuição de informação –  ser objecto de regulação num quadro em que outras plataformas concorrentes não o são, seria naturalmente uma desvantagem competitiva a considerar. Ou seja, nós não podemos regular o Facebook – assim como as outras plataforma em rede – da mesma forma que regulávamos os mass media e o seu fluxo de informação linear.  Vivemos num novo paradigma de informação e comunicação e não podemos ignorar esse facto quando pensamos e debatemos novas formas de regular o Facebook e as restantes plataformas de distribuição de informação que funcionam na sociedade em rede.

regulação

desregulacao3. O Facebook opera em escala (global). Nós temos tendência a olhar para o Facebook (e para as restantes plataformas) numa perspetiva nacional, esquecendo que a rede é global e a plataforma é a mesma em todos os países. As formas e os valores segundo os quais um país poderia querer regular o Facebook são necessariamente diferentes do que seria propostos por outro país. Porque cada país tem os seus valores sociais, o seu sistema económico e, claro, as suas próprias leis e regulamentos. Face a alguns países o Facebook até pode acatar essa regulação, mas face a outros países isso poderá não acontecer. Claro que é possível argumentar que o Facebook tem as competências técnicas suficientes para servir a cada país a sua própria versão da plataforma. Mas é igualmente lógico argumentar que, quantas mais versões diferentes do Facebook existirem, mais difícil se torna para a plataforma operar da forma simples e intuitiva como faz hoje. Ou seja, as especificações nacionais para o Facebook apenas são concebíveis na medida em que não interfiram com a escala global na qual o Facebook opera. Porque a escala é um elemento central da forma como esta plataforma opera. As eventuais especificações nacionais ou regionais devem ocorrer “sobre” a plataforma (tal como acontece hoje) e não “na” plataforma.

facebook

3. O Facebook depende da escala (global). Como comunidade, nós ficamos particularmente preocupados quando o Facebook acaba por ter influencia em importantes decisões políticas  de âmbito coletivo devido às chamadas “fake news”. Mas a influência do Facebook vai muito para além disso. Aquilo que está fundamentalmente errado com o Facebook é a forma como o seu modelo económico incentiva as “fake news” tanto quanto o “clickbait” ou o jornalismo sensacionalista. Devemos recordar que os miúdos da Macedónia que parecem ter tido uma influência tão decisiva na eleição presidencial norte-americana o fizeram, não em nome de qualquer objetivo político, mas estritamente por motivos económicos. Por cada exemplo de “fake news” que nos possa indignar no Facebook, existem múltiplos exemplos de publicidade enganosa e títulos “clickbait” (muitos com origem nos meios de comunicação social) destinados a levar-nos a ver os anúncios num determinado site. O ecossistema comercial do Facebook incentiva isso mesmo e os utilizadores irão certamente continuar a fazê-lo, em primeiro lugar porque as ferramentas o permitem e em segundo porque é do seu interesse. O detalhe decisivo para entendermos esse ecossistema é que também é do interesse do Facebook que eles continuem a fazê-lo. Nós temos tendência a ver o Facebook como uma empresa gigantesca e extremamente lucrativa. E é-o de facto. Mas, se considerarmos todos o valor económico que foi desviado dos media tradicionais pela “disrupção” provocada pelo Facebook, então teremos que concluir que o Facebook devia ser ainda mais rico do que é. Dito de outra forma, o rendimento médio por utilizador do Facebook é significativamente mais baixo que o de qualquer meios de comunicação social no passado (o assunto foi objecto de uma tese de mestrado que pode ser lida aqui). O que isso significa é que: a) o Facebook precisa ser comercialmente agressivo na monetização das suas audiências se quiser ficar à frente da concorrência; e b) precisa da escala global para o conseguir. Ou seja, para o Facebook a escala global na qual opera não é apenas uma característica da sua tecnologia; é também uma condição dos eu modelo de negócio. E, portanto, enquanto for assim – e tudo indica que continuará a ser – o Facebook depende do próprio ecossistema que produz as “fake news”, o “clickbait” e o sensacionalismo que a sociedade deseja regular.

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O que tudo isto significa é que o Facebook não pode ser regulado como uma empresa normal. Porque não é uma empresa normal. É uma plataforma, é global e depende dessa escala global para funcionar e ser rentável. A sua regulação tem que ter em consideração o facto de que o Facebook deve ser capaz de proporcionar determinadas funcionalidades para os seus utilizadores sejam eles individuais ou coletivos, mais instruídos ou menos instruídos e localizados em Silicon Valley ou no Bangladesh. Cada tipo de conteúdo ou funcionalidade que um utilizador valoriza poderá não ser o mesmo ou a mesma a que outro utilizador dá valor. Por isso, regular esse tipo de conteúdo pode ser positivo para um utilizador, mas també pode ser uma forma de censura para outros.

Tal como a Alphabet, a  Amazon, a Tencent ou a Alibaba, o Facebook é um tipo de empresa diferente das que nós conhecíamos e opera em premissas distintas (opera segundo um paradigma diferente, para ser preciso). Doc Searls acertou em cheio num episódio recente do poscast “The Gillmor Gang”. Eis o excerto:

A maior parte da tentativas para regular o Facebook  e outras plataformas de informação semelhantes abordam a questão como se estas empresas fossem a NBC ou a Philip Morris, ignorando o facto de que se trata de plataformas (nas quais a agência dos utilizadores deve ser preservada), que são globais (e portanto devem servir diferentes culturas e legislações) e, sobretudo, que funcionam num ecossistema de distribuição de informação que é também um ecossistema de distribuição de valor e que, portanto, deve gerar lucro para as empresas que nele operam e para as próprias plataformas. É por não considerarem um ou mais destes fatores que a maioria dessas tentativas de regulação acabam por falhar.

No entanto, a questão subsiste: Como devemos fazer a regulação de entidades como o Google ou o Facebook, tendo em consideração que alguma forma de regulação é necessária?

Bem, de momento estamos apenas a começar a pensar no assunto. O Facebook, tal como outras plataformas de distribuição de informação, tem algo de valioso a oferecer aos seus utilizadores em termos de ferramentas e recursos sociais. Se não tivesse, não teria a massiva quantidade de utilizadores que reúne hoje em dia. Se quisermos regular o seu funcionamento sem pôr em causa as suas potencialidades, temos que ter em conta as suas características e a sua função social. Há três aspetos que, como já deve ter ficado claro, devem ser tomados em consideração nessa regulação:

a) Primeiro que tudo, a instância de regulação do Facebook tem que ser global ou tendencialmente global. Não faz sentido o Congresso dos Estados Unidos pretender regular o Facebook (ou a Google ou o Twitter) quando a maior parte dos seus utilizadores não vive nos Estados Unidos e muitos nem sequer falam inglês. Se uma plataforma como o Facebook existe e opera na maior parte dos países no mundo, então tem que ser uma instância transnacional correspondente a fazer a respetiva regulação. O problema é que não parece existir uma entidade ou instância supranacional que esteja legitimada ou mandatada para o fazer. Temos que criar essa legitimação supranacional.

b) Em segundo lugar, numa rede com a dimensão e o fluxo de informação que hoje passa pelo Facebook, não é de todo possível implementar controlos humanos para todos os conteúdos, sob pena de tornar a plataforma inoperativa. Ou seja, se muitos dos comportamentos “desviantes” dentro do Facebook são iniciados ou propagados através de automatismos de rede, então têm que ser implementados os mesmos tipos de automatismos para fazer o respetivo “policiamento”. Isso significa permitir ou autorizar que a inteligência artificial por detrás de sistemas como o Facebook possa tomar decisões em nome dos utilizadores e segundo algoritmos de policiamento funcionando autonomamente e automaticamente. Por mais assustadora que a ideia possa parecer, ela é a única compatível com uma rede com a complexidade do Facebook.

c) Por fim – “the last but not the least” – o modelo económico em que o Facebook funciona (assim como outras plataformas) também é parte do problema mais do que parte da solução. Se for verdade que o Facebook reduz o valor económico da informação – confirmando assim a tese de que, em situação de abundância digital, o valor da informação, enquanto bem económico, tende para zero – então o modelo económico no qual se baseia não pode deixar de ser considerado insustentável no futuro e em termos teóricos. A manifestação prática disso é a forma como já hoje o Facebook depende da escala global e da sua exploração comercial agressiva para ser lucrativo. Ou seja, estamos perante uma dissonância entre o valor social óbvio de uma plataforma de comunicação e interação social como o Facebook (que incrementa o capital social dos indivíduos e dos grupos) e a apropriação privada dos seus benefícios económicos. Essa dissonância precisa ser resolvida com um modelo económico diferente para o Facebook e para as plataformas globais de distribuição de informação semelhantes a ele. Que tipo de modelo económico é esse? Isso permanece uma incógnita. Mas esta é, obviamente, a questão mais complexa das três aqui enunciadas e aquela que, de certa forma, ainda nem sequer começou realmente a ser discutida.

O Facebook é provavelmente a mais visível e a mais questionada das novas plataformas globais de distribuição de informação. Mas não é a única. As soluções que forem encontradas para o Facebook serão certamente também implementadas nas outras plataformas semelhantes, como a Google ou o Twitter. Mas, mais uma vez, não devemos esperar que as soluções de regulação do passado nos sirvam neste caso e – de certa maneira – é um desperdício perder tempo com elas. Não produzirão os efeitos desejados e até poderão pôr em causa aquilo que de bom estas plataformas têm para nos oferecer enquanto comunidade. Por isso, temos que ter a coragem de perceber que precisamos de soluções novas para problemas novos.

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A polémica tomou de assalto a internet desde que a Google anunciou para Março a alteração das suas politicas da privacidade. De repente, não se fala de outra coisa nos podcasts que costumo seguir – as últimas edições do This Week in Google e do Gillmor Gang são disso exemplo – e nos blogues de referência.

Em geral, a discussão acaba sempre com a pergunta: será que a Google se tornou maléfica? O que não é uma maneira lá muito correcta de colocar a questão. Primeiro porque os conceitos de Bem e de Mal não se aplicam necessariamente (ou pelo menos não da mesma forma) aos negócios e às empresas. E depois porque – parece-me – por detrás deste movimento da Google, há uma reflexão mais profunda e importante que é preciso fazer.

Em primeiro lugar, convém perceber porque é que a Google decidiu unificar todas as políticas de privacidade dos seus variados produtos, permitindo assim gerar sinergias entre eles. Na minha opinião, a Google está assustada -muito assustada – com o sucesso do Facebook. Porque não o esperava. É óbvio que o modelo publicitário associado à pesquisa parecia à partida mais eficaz do que o mesmo modelo associado a uma rede social. Porque quem usa a pesquisa procura algo – e portanto a publicidade é altamente relevante – e quem se diverte numa rede social não procura senão estar com os amigos. São dois contextos muito diferentes e – parecia – com um potencial comercial muito díspar. Por isso é que a Google não se preocupou muito – de certa forma até desdenhou – os primeiros tempos de crescimento do Facebook. As primeiras redes sociais da Google (o Buzz, o Wave) pareciam mais instrumentos de trabalho do que de lazer.

Acontece que – com a chegada das marcas ao Facebook – Mark Zuckerberg criou um ecossistema comercial altamente atractivo quando combinado com os seus agora mais de 800 milhões de utilizadores (845 milhões, anunciado hoje). E de repente a Google percebeu que aquela conversa fiada do social pr’aqui e dos social pr’ali afinal… não era conversa fiada. E nesse momento o Google+ já estava demasiado atrasado em relação ao Facebook para poder ser “a” plataforma social tal como o You Tube é “a” plataforma de videos ou o Google Search é “o” motor de busca. Aliás, o atraso da Google no lançamento do Google+ é bem a imagem das suas hesitações nesta matéria.

Por isso, o que a Google pretende agora é utilizar o único trunfo que – olhando para a mão – lhe parece ainda ter: o potencial de integração do Google+ com os seus restantes serviços e sobretudo com a força do Google Search. Não é uma atitude de ataque; é uma atitude de defesa. A Google não quer conquistar algo; quer é não perder o que tem. E, por isso, vai favorecer os seus produtos na integração com o G+ e o Search. Tal como faria qualquer outra empresa na mesma situação.

Será que – tornando-se menos “neutra” – a pesquisa do Google se vai tornar menos “inteligente”? É uma boa questão. E suspeito que pensá-lo foi precisamente o erro da Google. De certa forma, todos os produtos da Google – dentro do espírito do motor de busca original – são manifestações de “inteligência”, ao contrário de uma rede social, que é (ou era vista), de certa maneira, como uma “coisa menor”. Se aplicarmos ao desenvolvimento das tecnologias de informação este quadro de análise – mais informação na rede e mais gestão dessa informação é mais inteligência colectiva – então podemos ter uma de duas opiniões: ou consideramos que o “social” fica fora desse quadro de análise (que foi o que pensaram os tipos da Google); ou achamos que a “inteligência social” de um programa como o Facebook é também uma forma de inteligência (que foi o que percebeu – se é que percebeu! – Mark Zuckerberg). O Facebook lembra-me quando é que os meus amigos fazem anos, diz-me que livros estão a ler, que filmes foram ver, como estão os filhos, etc. E isso é, provavelmente, muito mais importante do que saber que figuras históricas nasceram nesta data e quais os livros mais vendidos ou os filmes mais vistos. Porque nós somos sociais antes de sermos racionais. Na verdade – pensado no paradoxo da galinha e do ovo – de certa maneira já éramos sociais antes de sermos racionais.

Mas há outro aspecto – completamente separado deste – em que este alvoroço em torno da Google suscita reflexões interessantes. Que é este: para mim é sempre muito curioso ver a agressividade com que estas empresas – Google, Facebook, Twitter – procuram manter ou conquistar territórios negociais. Como se não soubessem muito bem o que é que na realidade fazem ou estarão a fazer daqui a 5 anos. E na verdade é isso mesmo que acontece. A Google é utilizada universalmente, o Facebook tem mais de 800 milhões de utilizadores e o Twitter está presente em todos os continentes e em todas as latitudes. No entanto, nenhuma as 3 empresas parece ter um modelo de negócio seguro (na verdade, o Twitter ainda está à procura dele). O Facebook, por exemplo, só hoje entrou em bolsa. E todas as valorizações incrementais que ao longo dos últimos anos lhe foram sendo atribuídas não eram mais afinal do que “expectativas de valor”, tal como, de certa forma, ainda são hoje, mesmo com a cotação em bolsa. Ou seja: percebe-se que qualquer destas empresas tem um potencial enorme, mas percebe-se pior qual é realmente o seu negócio do dia-a-dia, por comparação com essa expectativa. Mesmo no caso da Google. Claro que a Google faz milhões em publicidade, mas faz esses milhões com biliões de utilizadores e triliões de utilizações. Como sabe bem quem explora um media tradicional e o respectivo website, ganha-se mais dinheiro por cada “eyeball” no papel, por exemplo, do que com 100 na web. O que isso significa é que só a escala salva a Google (e o Facebook, que tem o mesmo modelo de negócio). Se não fosse a escala enorme em que estas empresas se movimentam – Google, Facebook, Twitter, etc – qualquer delas seria um insucesso económico. Porque é que não há concorrentes (reais) da Google ou do Facebook ou do Twitter? Já pensaram? É por isso mesmo: porque concorrentes mais pequenos não têm escala para serem rentáveis! Para termos uma noção da situação basta imaginarmos o que seria uma BP ou um Wal-Mart com mais de 800 milhões de clientes! É esta a escala a que operam estes gigantes com pés de barro!

Por isso é um erro dizer que estas empresas estão a mudar o modelo de negócio. Wrong! Elas estão a “pulverizar” o modelo de negócio! Isso sim! Como aliás os media tradicionais sabem muito bem.  É óbvio que elas estão a “desregular” algo, mas não é claro que estejam a “regular” o que quer que seja! Provavelmente ainda iremos descobrir que no futuro os negócios estarão organizados de uma maneira muito diferente. Ou até que não haverá negócios, apenas serviços sem fins lucrativos! Não sabemos como será o futuro. Mas sabemos que provavelmente não é isto que hoje temos: um gigante em cada sector, com uma escala enormíssima e uma rentabilidade minúscula.

O que parece – hoje – é que estes gigantes – Google, Facebook, Twitter — são mais plataformas do que empresas; são mais um serviço público do que um negócio. E é por isso – só por isso! – que esperamos que elas estejam do lado do Bem e não do lado do Mal! E é por isso que tantas vezes nos incomodamos e revoltamos com os seus “termos de serviço” e as suas “políticas de privacidade”. Alguém alguma vez procurou saber quais são os Termos de Serviço e a Política de Privacidade do Pingo Doce?

Isto está mesmo a mudar. Muito e depressa. Não sabemos é para onde!

Facebook is watching you!

Num artigo recente publicado no Expresso online e no Arrastão, com o título “Facebook is watching you“, Daniel Oliveira faz um paralelo entre as modernas redes sociais e o estado totalitário de George Orwell. O thread de comentários no Facebook também tem pontos de interesse.

Eu leio sempre com muita atenção o Daniel Oliveira, normalmente concordo com ele e muitas vezes fico surpreendido pelo perspicácia e criatividade das suas opiniões. É, provavelmente, no panorama comentarista nacional, a voz que acompanho com mais assiduidade e atenção. Mas este texto suscita-me alguma reflexões:

1. Em primeiro lugar é surpreendente que um analista e comentador normalmente tão arrojado do ponto de vista das ideias como o Daniel Oliveira seja neste aspecto tão conservador. Isso, de certa forma, não é atípico. A maior parte das pessoas olha para estes fenómenos novos com um olhar fixado nas categorias de análise habituais, que claramente são insuficientes para os explicar ou analisar. Por outro lado, é também interessante notar como, neste aspecto, a extrema-esquerda consegue ser tão conservadora como a extrema-direita. Isso dá bem uma imagem da magnitude das transformações que estão a ocorrer na paisagem mediática e social.

2. Descartemos primeiro a questão da legalidade face aos termos de uso do Facebook. Toda a gente tem direito a reaver os seus dados e apagar a sua conta do Facebook. Se no caso em concreto tal não aconteceu, isso é contrário às regras da própria rede social. Isso para mim é muito claro.

3. Depois descartemos a informação – recorrentemente repetida – de que o Facebook “vende” as informações aos estados ou às empresas sem autorização dos utilizadores. Há muitos rumores sobre essas acusações e “está na cara” que isso é uma tentação para qualquer rede social desta dimensão. Mas eu ainda não vi isso provado ou demonstrado com clareza. Suponho que isso está acautelado nos termos de uso e que estes são respeitados, mas nem disso tenho a certeza. Mudarei de opinião se me o demonstrarem. Outra coisa diferente é se isso se refere à publicidade que surge nas páginas do Facebook e que obviamente, é contextualizada em função dos dados pessoais de cada um. Esses dados foram de facto usados no “targeting” dessa publicidade, mas foram-no nos mesmos termos (mais ou menos…) em que a publicidade da Google é contextualizada. Ou seja, isso é algo bastante diferente e muito, muito mais complexo. Mas inevitável como manifestação de inteligência artificial. Resistir a essa contextualização da informação seria mais uma forma de conservadorismo.

4. Passemos então à “matéria de facto”. Na minha opinião, as redes sociais, tal como hoje existem são incompatíveis com as nossas leis em termos de bases de dados e protecção da privacidade. Podemos mudar as leis ou mudar as redes sociais, mas suspeito bem que vamos ter que mudar as leis. Não é possível, em termos práticos, usar uma rede como o Facebook e ao mesmo tempo cumprir todos os formalismos da lei portuguesa em termos de protecção de dados e autorização de divulgação dos mesmos. Pensem só neste acto tão simples que é eu partilhar com todos os meus amigos o post em que alguém diz que foi ao cinema e gostou do filme. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais à luz de um novo conceito de privacidade.

5. Por outro lado, há a questão do copyright em sentido lato. Os dados, informações e opiniões que nós veiculamos no Facebook são nossos, não são do Facebook. Se quisermos podemos retirar toda a nossa informação. Mas que sentido faz isso numa rede que vive da partilha dessa informação? Como eu comentei no post do Daniel Oliveira , os meus comentários a um post, por exemplo, são meus. Coloco-os de livre vontade e de certa forma dizem algo sobre mim a qualquer pessoa que os leia. Se eu amanhã decidir deixar o Facebook, devo levá-los comigo? Se sim, isso torna o post onde eles surgiram mais pobre porque torna o  diálogo irracional. Se não, é uma violação óbvia do meu direito a dispor dos meus dados. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais com um conceito diferente de copyright.

6. Como todos os paradoxos acima demonstram, o problema é bastante mais vasto e mais profundo do que o mero cumprimento da lei nacional (já para não falar do facto de o Facebook, o mesmo Facebook, operar em praticamente todos os países do mundo). A abundância e instantaneidade de informação nos dias que correm não pode senão deixar de ter consequências, tanto a nível do nosso entendimento da privacidade e do copyright como da forma como os enquadramos politicamente (as leis que protegem ambas as coisas). Para a maior parte dos jovens dos nossos dias o conceito de privacidade e de propriedade já é profundamente diferente do nosso. E sê-lo-á ainda mais no futuro. Aliás, nenhum dos conceitos foi alguma vez fixo no tempo, mesmo quando plasmado em lei. Basta pensar que há 50 anos seria considerado inadequado – do ponto de vista da sua privacidade – que um casal de namorados se beijasse  em público e hoje estamos no ponto de aceitar que duas pessoas do mesmo sexo o façam! Aliás, há 50 anos o casal de namorados seria provavelmente sancionado por conduta imprópria e hoje nem isso se pode apontar a um casal do mesmo sexo, mesmo que a muitos apetecesse fazê-lo.

7. O que isto quer dizer é que os nossos conceitos de privacidade e copyright (em sentido lato, mas também em sentido estrito) estão a transformar-se rapidamente e as nossas leis não os estão a acompanhar. Para mim, pessoalmente, do ponto de vista prático, o Facebook não é uma empresa. Não é sequer um serviço. É uma espécie de praça ou café onde encontro gente conhecida e gente conhecida de quem eu conheço. O que digo ou escrevo no Facebook esgota-se no momento. E não tenho qualquer interesse – a não ser por curiosidade – em saber o que pensei ou afirmei há 6 meses atrás. Claro que, se eu escrever que odeio o José Sócrates e depois o José Sócrates aparecer morto, isso provavelmente vai-se voltar contra mim (bem, talvez não porque nesse caso haveria muitos suspeitos…). Mas isso não é muito diferente de eu dizer no café da  vila que odeio o Zé Barnabé e depois ele aparecer morto. A diferença – significativa! – é que as apalavras leva-as o vento ou morrem com as testemunhas e aquilo que escrevo numa rede social é perene e dura para sempre.

8. Por isso é que eu acho fundamentalmente conservadoras as posições como aquela que foi acima expressa pelo “revolucionário” Daniel Oliveira. Nós não sabemos de que forma a transformação que está a ocorrer nas tecnologias de transmissão e acumulação de informação vai modificar a sociedade, as leis, a política ou até a psique do ser humano. Mas podemos ter a certeza que vai impactar todos esses aspectos. A nossa responsabilidade intelectual é – penso eu – sermos capazes de olhar para estes fenómenos com uma mente aberta e tentarmos perceber para onde eles nos levam e não de onde eles nos trazem!

Por uma estranha coincidência, a Zon e a Meo lançaram quase ao mesmo tempo um novo serviço que permite aos assinantes ver os canais contratados no seu computador, no seu tablet ou no seu smartphone. Ao que parece, num caso gratuitamente, no outro com um custo residual só cobrado a partir de 2012.

A ideia parece interessante, mas a pergunta que se impõe pode ser incómoda: se, tecnicamente, tanto a Meo como a Zon podem permitir a visualização dos seus canais no PC, porque não o inverso? Porque não permitir que qualquer conteúdo escolhido no PC seja transmitido no televisor da sala?

Eu respondo: a questão não tem nenhuma limitação técnica e é puramente comercial. As operadoras não o permitem porque não lhes convém! Permitir ver os canais de TV no PC já é em si mesmo uma forma de defesa (e não de ataque, como parece), porque a realidade é que quem quer já vê a maior parte dos canais que interessam no PC.

Mas, mais significativo ainda, a Meo e a Zon não permitem o inverso da sua mais recente proposta comercial porque isso alteraria radicalmente o seu modelo de negócio. Mais precisamente, tornaria abundante aquilo que actualmente é escasso. Só podemos ver nos écrãs “da Zon” ou “da Meo” aquilo que a Zon ou a Meo querem. Se pudéssemos ligar lá os nossos portáteis (eu sei que podemos, mas quero dizer como serviço), poderíamos ver nos “nossos” ecrãs aquilo que nós quiséssemos. E isso seria – será! – uma revolução!

Isso não interessa à Zon nem à Meo. À Zon e à Meo interessa que aquilo que distribuem continue a parecer um bem escasso, porque só sendo escasso poderão por ele cobrar um preço. É claro que essa é uma luta votada ao fracasso, mas enquanto não fracassa, vai-lhes permitindo ganhar dinheiro, muito dinheiro! Pensem assim: o que era a Zon há 20 anos?

Eu sempre trabalhei nos media, do lado da produção de informação, e sempre tive muito respeito pela função social dos jornais e dos jornalistas, em sentido lato. Creio que essa função social não é menor nos dias que correm, embora deva ser reavaliada.

Mas também olhei sempre com muita atenção – e alguma participação – para os novos media: os blogues, as plataformas de video, as redes sociais, etc. E desde cedo me pareceu que havia aqui um potencial de revolução e desregulação enorme, com o qual os media, os jornalistas e a função social dos meios de comunicação social teriam que lidar.

Esses são os antecedentes longínquos desta reflexão. Os antecedentes próximos são uma participação num congresso da WAN-IFRA realizado em Madrid em que o assunto foi aflorado, as reflexões sobre o assunto difícil mas interessante da neutralidade da rede e o frenesim das apps, que ainda decorre.

O que proponho nesta reflexão é um novo modelo de negócio para os media. Um modelo de negócio que permita conciliar os conteúdos “gratuitos” na internet, tal como actualmente os temos, com a remuneração dos conteúdos de qualidade que associamos aos media profissionais e que – muita gente o diz e eu concordo – é necessário para o funcionamento democrático das sociedades complexas.

No modelo de negócios tradicional dos jornais e revistas, o preço pago pelos consumidores pelo jornal ou revista em suporte físico alimentava toda a cadeia de produção: a distribuidora, os transportadores, o papel e, obviamente, os produtores de informação. No modelo de negócios actualmente praticado na internet, as fornecedoras de acesso cobram aos seus clientes uma tarifa assinalável por esse acesso, mas não partilham essas receitas com quem fornece os conteúdos, nomeadamente quando eles são produzidos por estruturas empresariais e profissionais qualificados que não podem subsistir essa remuneração.  Este modelo de negócio explica como é que essa remuneração pode ser feita, por acordo directo entre os media e os fornecedores de acesso, sem que a navegação seja afectada e sem que o consumidor tenha que pagar mais por qualquer conteúdo  (e muito menos negociá-lo caso a caso com cada um dos media que pretende “consumir”).

Subjacente ao modelo de negócio proposto está esta ideia base fundamental: falta inteligência na rede! Com os sistemas de monitorização de que dispomos actualmente não há nenhuma razão para que a rede de distribuição digital não seja suficientemente inteligente para “perceber” que tipo de conteúdos estão a ser processados, em que quantidade e que remuneração lhes deve ser atribuída.

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“The empathic civilization”, por Jeremy Rifkin

Ora aqui está um livro que me deixou muito surpreendido (foi uma compra por impulso…) e que vai certamente ficar na lista reduzida dos mais importantes que li nos últimos anos.

Hoje em dia há muita coisa a mudar muito rapidamente e este livro (não é pequeno, são 600 páginas) fornece explicações para quase tudo. Eu sempre gostei de explicações holistas (desde Hegel…) e não concebo a realidade explicada de outra forma que não seja em todas as suas interdependências.

Claro que, como em todas as explicações holistas, a “civilização empática” de Rifkin tende a ser apresentada como o estado final de evolução da espécie humana (o autor nunca o diz, mas “sente-se” em vários pontos do livro), esquecendo todas as “explicações” anteriores que cometeram o mesmo erro.

A tese fundamental de Jeremy Rifkin (elegantemente explicada neste video aqui em baixo) é que estamos no início de um novo estádio da civilização humana, a que ele chama “civilização empática” e que se caracteriza pela comunhão entre todos os seres humanos, o ambiente e a bioesfera em geral. Argumenta que isso se deve à conjugação de revoluções combinadas nos subsistemas de comunicação (a internet…) e de energia (o fim dos combustíveis fósseis). E que essas mudanças terão consequências a todos os níveis da nossa vida, da sociabilidade à psicologia, da organização política à organização económica, etc. E este é o ponto mais profícuo do livro. Porque o que se sente, ao ler este “The empathic civilization”, é que estamos apenas a começar a vislumbrar todas as formas pelas quais o nosso mundo está a mudar radicalmente. E que todas as coisas que nos deixam perplexos no mundo actual (da manifestação “à rasca” de dia 12 aos movimentos de libertação do Norte de África) já têm ser explicadas à luz de quadros de análise profundamente diferentes (em que o Estado-Nação, por exemplo, desempenha um papel fundamentalmente diferente, mas as estruturas de representação política estão fundamentalmente iguais).

Enfim, este é um livro muito “food for thought” que recomendo a quem se interessa por explicações do mundo que não deixam nada de fora.

O Público anunciou a intenção de passar a cobrar pelos conteúdos online e o comentário de Henrique Monteiro (ex-director do Expresso e actual responsável pelas novas plataformas do grupo Impresa) no Facebook foi: “Não há outro caminho…

Ora, eu tenho sérias dúvidas que dizer que não há outro caminho seja a melhor forma de apontar um caminho… Por razões óbvias! Essa é uma posição essencialmente conservadora em que os jornalistas caem frequentemente quando abordam esta temática. A posição típica dos jornalistas neste debate dá-nos mais uma razão para alimentar a ideia fundamentalmente revolucionária de que não se pode prever o futuro olhando para o passado e que, pelo contrário, provavelmente a melhor forma de compreender o passado (e o fugaz presente, já agora) é olhando para o futuro.

Henrique Monteiro e António Granado estiveram recentemente num interessante debate online organizado pelo Contraditório sobre “O futuro dos jornais – os conteúdos online devem ser pagos pelo leitor?“. Obviamente, o “não” de António Granado ganhou. Mas esse é o resultado óbvio independente da argumentação. Aqui, a posição difícil era – é – a do Henrique Monteiro.

Nesse debate eu contribui com duas ideias:

1. A informação – ao contrário de um peça de fruta ou qualquer outro bem material – não pode ser roubada, pela simples razão de que o conceito de roubo implica que a pessoa roubada seja privada do bem roubado. O que não acontece no caso da informação. É o “princípio wikileaks” e o raciocínio fundamental que está na base dos movimentos anti-copyright (“information wants to be free”, lembram-se…). Ora, se a informação não pode ser roubada, também não pode ser vendida, pelas mesmíssimas razões. Portanto, quando estamos a falar de pagar pela informação online, não estamos a falar de um produto, provavelmente nem sequer de um conteúdo (que tenha uma existência física autónoma); estamos a falar de direitos de autor, ou seja, de copyright. Essa é a razão técnica pela qual não é possível, hoje, implementar uma estratégia paga online com condições de sucesso.

2. Ao contrário do que possa custar a aceitar aos jornalistas, é possível que uma boa parte do seu “valor” tradicional não seja resultado do seu trabalho, mas mero efeito de “gate-keeping”. Na paisagem media pré-digital, o efeito de “gate-keeper” (que está relacionado com a “escassez” do suporte físico jornal) explicava uma boa parte da proposta de valor do jornalismo. Hoje, no mundo digital, a abundância tomou o lugar da escassez e o “gate-keeping” foi… pulverizado. É por isso que vemos tantos “utilizadores” da internet a dizerem que não pagam por informação online. Não pagam porque a informação é abundante (na realidade é até excessivamente abundante, “pedindo” mecanismos de enquadramento e filtragem que, ironicamente, era o que os jornais deviam estar a fazer…) e há um número infinito de canais com um número infinito de solicitações informativas simultâneas. Essa é a razão de mercado para que só em casos muito específicos seja viável cobrar por conteúdos online.

Obviamente, ambas as coisas – as razões técnicas e as razões de mercado – se ligam com a ideia de que há apenas “um único caminho”. Contradizem-na, mais precisamente! Não há apenas um caminho e parece cada vez menos que seja esse!

Moral da história: o jornalismo é um elemento fundamental do funcionamento das sociedades modernas e, provavelmente, a abundância informativa em que vivemos torna-o ainda mais necessário e não menos. Mas o conservadorismo fundamental (para não dizer fundamentalista) da maioria dos jornalistas tende a cegá-los perante a revolução em curso que desfila à sua frente. É inútil pensar que podemos continuar a fazer, daqui a 5 anos, aquilo que fazemos hoje mas num suporte diferente. Isto não é apenas uma mudança de suporte. Isto é uma revolução! E quanto mais depressa o percebermos, mais depressa seremos capazes de “inventar” o papel essencial do jornalismo no admirável mundo novo que aí vem.

The social network

Acabei de vir da ante-estreia do “The Social Network” – “A Rede Social” (Obrigado, Espadinha!), a aguardada “história” não autorizada do Facebook e de Mark Zuckerberg. E há dois ou três aspectos que gostaria de destacar:

1. Gostei do emaranhado da narrativa e da forma como os diálogos, os planos e a trama vão evoluindo de rápidos para lentos. Começa com um ritmo tão frenético que quase custa a acompanhar e termina, simbolicamente, com um longo plano de Zukerberg frente ao computador. É uma espécie de desconstrução e decomposição do ritmo acelerado da realidade de forma a permitir-nos focar-mo-nos nos seus componentes de base. Bom.

2. Uma das mensagens fortes do filme – mais uma vez simbolizada no plano final – é a enésima representação do aforismo “it’s lonely at the top”.  Não é o primeiro nem será o último filme a fazê-lo. Tantos acontecimentos depois, Zuckerberg acaba tão sozinho como começou e a pedir amizade à ex-namorada em nome de quem tudo começou. O vencedor está sempre sozinho, mesmo quando está rodeado de gente. Essa é a grande ironia do sucesso.

3. Outra das mensagens fortes do filme é esta: o sucesso só é atingível com persistência. Uma ideia realmente boa merece antes de tudo o respeito de nela persistirmos.  No filme, Zuckerberg perde namoradas, amigos e até ídolos para conseguir materializar aquilo que ao longo de boa parte do filme não passa de uma “boa ideia”. Mas consegue! Uma lição para todos nós.

4. Este é um filme sobre “nerdness”. Afinal o que é um “nerd” informático? A resposta está no filme. É preciso perceber – para quem ainda não percebeu -que um “nerd” da informática programa (digo eu que não sei código…) com o mesmo envolvimento com que um poeta escreve poemas ou um pintor pinta quadros. Não sei se o episódio é verídico, mas é por isso que Zuckerberg diz que criou um programa para a Microsoft ainda na adolescência e que fez o respectivo upload “porque sim”.  Um poeta escreve poemas mesmo que ninguém os publique. Um programador programa mesmo que seja só pelo gozo de fazer coisas. É esse “gozo” que transparece no filme e dá a mais completa definição do que é um “nerd”. É preciso perceber isso para perceber o estado actual da indústria informática.

5. É impressão minha ou a determinado ponto traduziram “Linux” por “Linus”? Daah!

(adenda) Outra coisa: É interessante (não disse significativo, disse apenas interessante) que a maior rede social do nosso tempo tenha sido inventada por um inepto social. É incontornável que isso diga algo sobre a sua rede (mais precisamente que está “em vez de”, a maior crítica que lhe é feita, e que aliás o filme também veicula), mas, sobretudo, questiona-nos sobre a natureza destas redes sociais face às redes cara-a-cara e sobre a relação entre as duas. Estes é um fenómeno que – parece-me – ainda está por compreender na sua plenitude.

Google: the new media mogul

Nobody really knows why Google partnered with Verizon with such a blast. The text of the proposal is confusing (you have to read it three times to figure out you can’t figure it out…) and all the alleged reasons commentators and bloggers are advancing are nothing more really than speculation. I guess we will have to wait a couple of weeks to ear some clearer explanation – possibly from the founders themselves – on why Google took such a move. That will be a clarifying moment.

We may not know the reasons why Google chose this path, but we can be pretty sure that it was a careful meditated stand. Why? It’s so obviously “un-google”, so contrary to its recent history, to its core values and even to its motto, that it is impossible do have been taken lightly. Google most surely must have thought deeply about this decision and its consequences before moving on. It’s impossible to have not foreseen all de shock waves something like this would provoke. We don’t know what Google is doing, but – rest assured – Google knows what is doing! That’s why I’m so curious to fully understand what it is.

It’s true that Google is an engineering company, but it has proven to be a very intelligent one. There’s more than enough intelligence in the company to allow us to understand this decision, whatever the reasons, as a strategic move to position itself favorably in the future media landscape (if we can even call it “media”…). And that is what really interests me.

It’s pretty obvious that traditional media have had its days and that few, if any, will be able to make the shift to the new media world unfolding before them. I should know because I’m a traditional media guy. Not only the actors will be different, also its role will change. Will there be content companies like a newspaper, a magazine or a TV station? Will regular people be producers of information or entertainment as well as consumers? Will there be such a thing as a social consumption of information content? What is going to be the balance between the producers of the content and its distributors? These are just a minor fraction of the numerous questions all media companies are (or should be…) asking themselves. Well, there you go, an answer to some or even all of these questions is implicit in this strategic move by Google. And, once we know or understand its reasons, we will know what those answers are. In a way (even somewhat ironical…) Google is really answering the question Jeff Jarvis put: “What would Google do?”. Well, apparently, this is what Google would do to prepare itself for the future media landscape. The vision of what landscape is that is the most valuable piece of information and understanding we can all derive from this sudden and confusing upheaval.

Apesar do antetítulo um pouco rídiculo – “Um dos 25 grandes pensadores do mundo inteiro (“25”??? “do mundo inteiro”???), este livro, uma recomendação do Carlos Magno do Contraditório,   foi para mim uma agradável surpresa: arrojado, holístico e arejado nas ideias. E utópico, obviamente (o que seria da vida sem utopias?).

Eis alguns sublinhados:

“Já não é permitido falar de classes, mas a referência pejorativa à classe política é um dos tópicos mais úteis quando alguém deseja poupar o esforço de reflectir sobre como funcionam as nossas democracias”.

“Os políticos fazem mal o que ninguém faz melhor que eles”.

“Se existe representação, é porque o povo é uma realidade suficientemente complexa  para que nenhuma das suas manifestações (…) o possa resumir de maneira satisfatória”.

“Do mesmo modo que as tradições constituem um fundo habitualmente não tematizado  de usos e costumes, os meios de comunicação fornecem um senso comum social cuja imposição é dificilmente perceptível.  A agenda dos meios de comunicação equivale, nas sociedades desenvolvidas, à nova tradição: temas, juízos e esquemas estabelecidos como tácitos e comuns”.

É interessante notar, como consequência desta ideia, que, nas nossas sociedades, muito mais facilmente identificamos  as diversidades do que as uniformidades, quando na realidade são estas e não aquelas que determinam o nosso discurso colectivos. A este título, o funcionamento dos media é exemplar.

“As cidades tornaram-se por isso centros de inovação e assumiram o protagonismo cultural e político nos processo de modernização. A cultura urbana que gradualmente se formou com o aparecimento das cidades é uma mistura específica de estruturas sociais, políticas e económicas”.

De certa forma, a civilização digital globalizada está para a cultura urbana como a civilização urbana está para a civilização rural. É impossível não suspeitar que estamos no limiar de uma viragem civilizacional da maior importância.

“(…) o próprio da grande cidade era a polaridade do público e do privado, em comparação com a indistinção desses dois espaços que caracteriza a vida rural. (…) Neste sentido, podemos afirmar que, por efeito da urbanização, dessa configuração de espaços públicos surge para os indivíduos uma verdadeira vida privada”.

“O espaço público desaparece sob o domínio privado, tanto no extremo mais exclusivo como no mais excluidor. Por um lado há os bairros de exclusão e sem lei; por outro, os espaços comerciais e recreativos de acesso restrito  e as «comunidades cercadas», com os seus sistemas de vigilância e segurança. Poderíamos concluir que o actual espaço público são as vias de trânsito: meros lugares de passagem, simples instrumentos de deslocação”.

“Quando se abandona o modelo centro/periferia, quando o centro está em toda a parte, a implantação local muda de estatuto; cada ponto é um centro nas múltiplas intersecções da rede. Cada ponto local implica a rede global; reciprocamente, esta não é nada sem a multiplicidade dos lugares singulares. As sociedades modernas não necessitam de centralidade espacial. É importante compreender isto para conceber o novo espaço público”.

“A nossa identidade é um assunto histórico e não um acto da vontade. O facto de a identidade ser o resultado de uma acção consciente, de um plano destinado a conseguir precisamente esse produto”.

“(…) boa parte das actuais reflexões acerca [do bem comum] surge precisamente da insatisfação perante um modelo de articulação dos interesses privados com os interesses públicos excessivamente elementar, pouco adequado às actuais transformações sociais”.

A propósito do queijo limiano:

“Só um conceito [como Bem Comum] pode justificar uma visão mais elaborada da política e evitar que os políticos se limitem a beneficiar as suas clientelas como se fossem simples mandatários do seu eleitorado imediato.”

“Vivemos numa época em que o poder político – os estados e os governos – se vêm em apuros perante dificuldades não menos graves que aquelas que, nas origens da era moderna, acompanharam os eu processo constitutivo. A política é fraca perante a poderosa competição dos fluxos financeiros e dos poderes da comunicação social; o seu espaço próprio perde-se nos formatos inéditos da globalização e perante as particulares exigências dos processos de individualização”.

“O estado terá de tornar-se mais cooperativo – o que não equivale a mínimo – se não quiser tornar-se irrelevante. À vista de tais dificuldades, o estado e a política têm de procurar formas alternativas de configurar o espaço social, novas formas de governo”.

“Contrabalançar a dinâmica centrífuga dos sistemas diferenciados constitui o verdadeiro problema de política numa sociedade complexa. A tarefa fundamental da política e do estado na sociedade do conhecimento é a coordenação e mediação dos sistemas sociais, tão complexos, experientes e dinâmicos que excluem o comando estatal autoritário”.

“O que se esgotou não foi a política, mas uma determinada forma da política: em concreto, aquela que corresponde à era da sociedade territorialmente delimitada e politicamente integrada.”

“Neste sentido, governar pode ser caracterizado como a combinação de menos estado e mais política. A novidade desta combinação consiste em ser uma verdadeira alternativa para as conhecidas concepções do estado mínimo (menos estado e mais política) e do estado social tecnocrático e autoritário (mais estado e menos política).”

“A globalização económica é repelida pela maioria dos seus críticos, ao passo que mais ou menos todos eles seriam a favor da mundialização da educação, da solidariedade ou da informação. Boa parte do desgoverno económico provém de o mundo não estar, por assim dizer, suficientemente globalizado e de aquilo que é vendido em zonas de grande consumo poder ser produzido em sítios onde não há direitos sindicais.”

“A verdadeira urgência do nosso tempo consiste em cosmopolitizar a globalização. Sempre assim aconteceu ao longo da história; um dos seus vectores de progresso tem sido precisamente o politizar, isto é, transformar âmbitos que estavam confinados à «naturalidade» (da tradição, da autoridade e da imposição) em questões sobre as quais se deve discutir e chegar a acordo: do trabalho doméstico à relações internacionais, passando pelos diversos códigos de comportamento ou pelas formas de organização social. Todos os impulsos democratizadores partiram do escândalo de haver decisões vinculativas que não tinham sido tomadas por todos. E assim acontece também no caso da mundialização.”

“O processo político de integração europeia é uma resposta inédita – e talvez um dia exemplar – às circunstâncias que hoje condicionam o exercício da soberania no mundo.”

” (…) uma Europa cosmopolita é hoje a última utopia política efectiva.”

“Essa velocidade [de circulação da informação na internet] vai provocar a perda de memória. E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.”

Umberto Eco, à Folha de S.Paulo, citado pelo A Informação 

 

Tubemogul: o Google Analytics do Video

Muito interessante este serviço.

Chama-se Tubemogul e permite controlar as visualizações, comentários e classificações dos videos alojados na internet. Ao mesmo tempo é possível configurar o Tubemogul para fazer o upload de videos para as várias plataformas de alojamento em simultâneo. Se o futuro da internet passa pelo video, o futuro dos media online depende de um sistema de informação como este.

Este video explica bem como tudo funciona.

(uma dica 2.0 Webmania)

O traseiro mais belo do mundo

sloggi.jpgPara além do seu interesse específico…, a campanha “Show me your Sloggi“ demonstra como as empresas estão a aprender a lidar com a web 2.0. O concurso destina-se a eleger o “mais belo traseiro” do mundo (em primeiro lugar está presentemente a Simona, de Turim) e qualquer pessoa pode fazer o upload das suas fotos, entrando nesse momento numa espécie de comunidade com os restantes participantes. Os votantes, claro, são os internautas registados. O prémio é atraente para os potenciais participantes – o início de uma carreira de modelo – e associado à campanha está um hino – pela cantora Aida (quem…?) – e uma coreografia específica. Tudo orquestrado com sabor a Verão.

(via Meios & Publicidade)

O futuro das revistas

O futuro dos media impressos é incerto, mas, passe por onde passar, estes são dois bons exemplos de estratégias interessantes, que não conhecia e descobri recentemente numa visita a França. Não sei quais os resultados reais de cada uma destas estratégias, mas parecem-me dois passos no caminho certo.

attitude.jpg A Attitude Rugby é uma revista mensal dedicada ao Rugby, na qual o lado estético e emocional do jogo é o que mais interessa. As fotos são muito cuidadas, as reportagens são extremamente elaboradas e a abordagem é sempre pelo lado humano. Há imagens de acção, claro, mas são uma minoria. Assim, a Attitude Rugby consegue levar ao leitor fiel de Rugby um “pacote” diferente daquele a que ele tem acesso nos sites de internet, ou nos jornais desportivos ou mesmo nos semanários sobre o tema. Aqui a actualidade é residual, e o que importa é a abordagem criativa dos assuntos e o aprofundamento das matérias. O papel é de alta qualidade e o site cumpre os mínimos (é discutível que tenha que fazer mais do que isso).

Não conheço nada da realidade do Rugby em França nem sou particularmente adepto do desporto, mas depois de folhear a Attitude fiquei com vontade de o ser. Se existisse uma revista destas em Portugal não tenho dúvidas de que seria comprador esporádico. Imagino o gesto cool que seria abrir e folhear a Attitude na esplana do clube antes de um jogo importante. Diz algo sobre quem lê. E isso é talvez o mais importante.

Perante a crise da imprensa alguém disse há pouco tempo que, provavelmente, “the last print media standing will be a magazine“. A Attitude Rugby ilustra bem essa previsão.

 sport.jpg

O outro exemplo é a Sport, uma revista semanal de distribuição gratuita sobre todos os desportos. Trata de actualidades, com uma leitura leve, mas o desenho típico de uma revista, com muitas infografias e leitura fácil. O papel é reciclado para ser barato e a distribuição é nacional.

Mas o que realmente se destaca nesta revista é o facto de estar associada a um supersite – myfreesport - com várias ligações com a edição em papel. Neste site há notícias na hora, há videos, há complementos à edição de papel, há todas as informações úteis, há temáticas de lazer (como na revista), há uma comunidade bem construída onde os próprios leitores podem criar os seus blogues. Enfim, tudo para que na realidade a edição de papel seja… um complemento do site. Além disso há também a possibilidade de descarregar em PDF a edição corrente assim como todas as anteriores (Pauleta já foi capa). Não tem vendas em banca, é certo, mas no conjunto do site e da edição em papel vive inteiramente de uma facturação publicitária que deve ser  importante.

Não acompanho a realidade desportiva francesa e não conheço a maior parte das pessoas e assuntos que são notícia na edição que folheei (excepto Zidane), mas se uma revista/site semelhante existissem em Portugal, certamente seria cliente e – à borla – era capaz de estacionar o carro de manhã de propósito para ir buscar um exemplar da Sport. Depois, quando chegasse ao emprego, quase de certeza que quereria ver online o video do tema que me despertou interesse ou comentá-lo no meu blogue desportivo. Eis como se faz um semanário temático na era da web 2.0!

“The news business is broken and no one knows how to fix it”

Tim O’Reilly diz ter ouvido rumores de que o San Franciso Chronicle, um dos maiores jornais norte-americanos, está em dificuldades. Numa recente reunião de emergência da direcção, o  director terá dito: the news business “is broken, and no one knows how to fix it.And if any other paper says they do, they’re lying.”

O que suscita o seguinte comentário de Tim O’Reilly:

“We talk about creative destruction, and celebrate the rise of blogging as citizen journalism and Craigslist as self-service advertising, but there are times when something that seemed great in theory arrives in reality, and you understand the downsides. I have faith both in the future and in free markets as a way to get there, but sometimes the road is hard. If your local newspaper were to go out of business, would you miss it? What kinds of jobs that current newspapers do would go undone?”

Arrisco uma resposta: Nenhum…?

(via Techmeme, via Doc Searls)

AssigmentZero: o primeiro projecto de jornalismo participativo de Jay Rosen

Já está em marcha o primeiro projecto de jornalismo participativo de Jay Rosen. Devidamente financiado e com editores atribuídos, o AssigmentZero fica agora aberto à participação de toda a gente no sentido de criar um trabalho informativo de fundo sobre a emergência do crowdsourcing na internet. No site AssigmentZero há uma assigment desk onde podemos escolher a matéria que vamos tratar, uma explicação de como tudo funciona, uma caixa de recursos e a áreas de identificação e de interacção da equipa, os jornalistas editores e os participantes voluntários no projecto. Este projecto conta com o financiamento de várias entidades e a colaboração da Wired, que fornece um editor, previsivelmente para vir a publicar o trabalho depois de estar pronto.

A mecânica é algo complexa, mas não mais complexa do que seria de esperar de um projecto informativo que pretende pôr a colaborar profissionais pagos e amadores não pagos, com códigos profissionais e de ética diferentes, para produzir um resultado final que ninguém sabe perfeitamente qual vai ser. É preciso entender que neste aspecto como noutros, o sector dos media está a tentar coisas novas. Por isso mesmo, esta é uma experiência a acompanhar com atenção.