A polémica tomou de assalto a internet desde que a Google anunciou para Março a alteração das suas politicas da privacidade. De repente, não se fala de outra coisa nos podcasts que costumo seguir – as últimas edições do This Week in Google e do Gillmor Gang são disso exemplo – e nos blogues de referência.

Em geral, a discussão acaba sempre com a pergunta: será que a Google se tornou maléfica? O que não é uma maneira lá muito correcta de colocar a questão. Primeiro porque os conceitos de Bem e de Mal não se aplicam necessariamente (ou pelo menos não da mesma forma) aos negócios e às empresas. E depois porque – parece-me – por detrás deste movimento da Google, há uma reflexão mais profunda e importante que é preciso fazer.

Em primeiro lugar, convém perceber porque é que a Google decidiu unificar todas as políticas de privacidade dos seus variados produtos, permitindo assim gerar sinergias entre eles. Na minha opinião, a Google está assustada -muito assustada – com o sucesso do Facebook. Porque não o esperava. É óbvio que o modelo publicitário associado à pesquisa parecia à partida mais eficaz do que o mesmo modelo associado a uma rede social. Porque quem usa a pesquisa procura algo – e portanto a publicidade é altamente relevante – e quem se diverte numa rede social não procura senão estar com os amigos. São dois contextos muito diferentes e – parecia – com um potencial comercial muito díspar. Por isso é que a Google não se preocupou muito – de certa forma até desdenhou – os primeiros tempos de crescimento do Facebook. As primeiras redes sociais da Google (o Buzz, o Wave) pareciam mais instrumentos de trabalho do que de lazer.

Acontece que – com a chegada das marcas ao Facebook – Mark Zuckerberg criou um ecossistema comercial altamente atractivo quando combinado com os seus agora mais de 800 milhões de utilizadores (845 milhões, anunciado hoje). E de repente a Google percebeu que aquela conversa fiada do social pr’aqui e dos social pr’ali afinal… não era conversa fiada. E nesse momento o Google+ já estava demasiado atrasado em relação ao Facebook para poder ser “a” plataforma social tal como o You Tube é “a” plataforma de videos ou o Google Search é “o” motor de busca. Aliás, o atraso da Google no lançamento do Google+ é bem a imagem das suas hesitações nesta matéria.

Por isso, o que a Google pretende agora é utilizar o único trunfo que – olhando para a mão – lhe parece ainda ter: o potencial de integração do Google+ com os seus restantes serviços e sobretudo com a força do Google Search. Não é uma atitude de ataque; é uma atitude de defesa. A Google não quer conquistar algo; quer é não perder o que tem. E, por isso, vai favorecer os seus produtos na integração com o G+ e o Search. Tal como faria qualquer outra empresa na mesma situação.

Será que – tornando-se menos “neutra” – a pesquisa do Google se vai tornar menos “inteligente”? É uma boa questão. E suspeito que pensá-lo foi precisamente o erro da Google. De certa forma, todos os produtos da Google – dentro do espírito do motor de busca original – são manifestações de “inteligência”, ao contrário de uma rede social, que é (ou era vista), de certa maneira, como uma “coisa menor”. Se aplicarmos ao desenvolvimento das tecnologias de informação este quadro de análise – mais informação na rede e mais gestão dessa informação é mais inteligência colectiva – então podemos ter uma de duas opiniões: ou consideramos que o “social” fica fora desse quadro de análise (que foi o que pensaram os tipos da Google); ou achamos que a “inteligência social” de um programa como o Facebook é também uma forma de inteligência (que foi o que percebeu – se é que percebeu! – Mark Zuckerberg). O Facebook lembra-me quando é que os meus amigos fazem anos, diz-me que livros estão a ler, que filmes foram ver, como estão os filhos, etc. E isso é, provavelmente, muito mais importante do que saber que figuras históricas nasceram nesta data e quais os livros mais vendidos ou os filmes mais vistos. Porque nós somos sociais antes de sermos racionais. Na verdade – pensado no paradoxo da galinha e do ovo – de certa maneira já éramos sociais antes de sermos racionais.

Mas há outro aspecto – completamente separado deste – em que este alvoroço em torno da Google suscita reflexões interessantes. Que é este: para mim é sempre muito curioso ver a agressividade com que estas empresas – Google, Facebook, Twitter – procuram manter ou conquistar territórios negociais. Como se não soubessem muito bem o que é que na realidade fazem ou estarão a fazer daqui a 5 anos. E na verdade é isso mesmo que acontece. A Google é utilizada universalmente, o Facebook tem mais de 800 milhões de utilizadores e o Twitter está presente em todos os continentes e em todas as latitudes. No entanto, nenhuma as 3 empresas parece ter um modelo de negócio seguro (na verdade, o Twitter ainda está à procura dele). O Facebook, por exemplo, só hoje entrou em bolsa. E todas as valorizações incrementais que ao longo dos últimos anos lhe foram sendo atribuídas não eram mais afinal do que “expectativas de valor”, tal como, de certa forma, ainda são hoje, mesmo com a cotação em bolsa. Ou seja: percebe-se que qualquer destas empresas tem um potencial enorme, mas percebe-se pior qual é realmente o seu negócio do dia-a-dia, por comparação com essa expectativa. Mesmo no caso da Google. Claro que a Google faz milhões em publicidade, mas faz esses milhões com biliões de utilizadores e triliões de utilizações. Como sabe bem quem explora um media tradicional e o respectivo website, ganha-se mais dinheiro por cada “eyeball” no papel, por exemplo, do que com 100 na web. O que isso significa é que só a escala salva a Google (e o Facebook, que tem o mesmo modelo de negócio). Se não fosse a escala enorme em que estas empresas se movimentam – Google, Facebook, Twitter, etc – qualquer delas seria um insucesso económico. Porque é que não há concorrentes (reais) da Google ou do Facebook ou do Twitter? Já pensaram? É por isso mesmo: porque concorrentes mais pequenos não têm escala para serem rentáveis! Para termos uma noção da situação basta imaginarmos o que seria uma BP ou um Wal-Mart com mais de 800 milhões de clientes! É esta a escala a que operam estes gigantes com pés de barro!

Por isso é um erro dizer que estas empresas estão a mudar o modelo de negócio. Wrong! Elas estão a “pulverizar” o modelo de negócio! Isso sim! Como aliás os media tradicionais sabem muito bem.  É óbvio que elas estão a “desregular” algo, mas não é claro que estejam a “regular” o que quer que seja! Provavelmente ainda iremos descobrir que no futuro os negócios estarão organizados de uma maneira muito diferente. Ou até que não haverá negócios, apenas serviços sem fins lucrativos! Não sabemos como será o futuro. Mas sabemos que provavelmente não é isto que hoje temos: um gigante em cada sector, com uma escala enormíssima e uma rentabilidade minúscula.

O que parece – hoje – é que estes gigantes – Google, Facebook, Twitter — são mais plataformas do que empresas; são mais um serviço público do que um negócio. E é por isso – só por isso! – que esperamos que elas estejam do lado do Bem e não do lado do Mal! E é por isso que tantas vezes nos incomodamos e revoltamos com os seus “termos de serviço” e as suas “políticas de privacidade”. Alguém alguma vez procurou saber quais são os Termos de Serviço e a Política de Privacidade do Pingo Doce?

Isto está mesmo a mudar. Muito e depressa. Não sabemos é para onde!

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Facebook is watching you!

Num artigo recente publicado no Expresso online e no Arrastão, com o título “Facebook is watching you“, Daniel Oliveira faz um paralelo entre as modernas redes sociais e o estado totalitário de George Orwell. O thread de comentários no Facebook também tem pontos de interesse.

Eu leio sempre com muita atenção o Daniel Oliveira, normalmente concordo com ele e muitas vezes fico surpreendido pelo perspicácia e criatividade das suas opiniões. É, provavelmente, no panorama comentarista nacional, a voz que acompanho com mais assiduidade e atenção. Mas este texto suscita-me alguma reflexões:

1. Em primeiro lugar é surpreendente que um analista e comentador normalmente tão arrojado do ponto de vista das ideias como o Daniel Oliveira seja neste aspecto tão conservador. Isso, de certa forma, não é atípico. A maior parte das pessoas olha para estes fenómenos novos com um olhar fixado nas categorias de análise habituais, que claramente são insuficientes para os explicar ou analisar. Por outro lado, é também interessante notar como, neste aspecto, a extrema-esquerda consegue ser tão conservadora como a extrema-direita. Isso dá bem uma imagem da magnitude das transformações que estão a ocorrer na paisagem mediática e social.

2. Descartemos primeiro a questão da legalidade face aos termos de uso do Facebook. Toda a gente tem direito a reaver os seus dados e apagar a sua conta do Facebook. Se no caso em concreto tal não aconteceu, isso é contrário às regras da própria rede social. Isso para mim é muito claro.

3. Depois descartemos a informação – recorrentemente repetida – de que o Facebook “vende” as informações aos estados ou às empresas sem autorização dos utilizadores. Há muitos rumores sobre essas acusações e “está na cara” que isso é uma tentação para qualquer rede social desta dimensão. Mas eu ainda não vi isso provado ou demonstrado com clareza. Suponho que isso está acautelado nos termos de uso e que estes são respeitados, mas nem disso tenho a certeza. Mudarei de opinião se me o demonstrarem. Outra coisa diferente é se isso se refere à publicidade que surge nas páginas do Facebook e que obviamente, é contextualizada em função dos dados pessoais de cada um. Esses dados foram de facto usados no “targeting” dessa publicidade, mas foram-no nos mesmos termos (mais ou menos…) em que a publicidade da Google é contextualizada. Ou seja, isso é algo bastante diferente e muito, muito mais complexo. Mas inevitável como manifestação de inteligência artificial. Resistir a essa contextualização da informação seria mais uma forma de conservadorismo.

4. Passemos então à “matéria de facto”. Na minha opinião, as redes sociais, tal como hoje existem são incompatíveis com as nossas leis em termos de bases de dados e protecção da privacidade. Podemos mudar as leis ou mudar as redes sociais, mas suspeito bem que vamos ter que mudar as leis. Não é possível, em termos práticos, usar uma rede como o Facebook e ao mesmo tempo cumprir todos os formalismos da lei portuguesa em termos de protecção de dados e autorização de divulgação dos mesmos. Pensem só neste acto tão simples que é eu partilhar com todos os meus amigos o post em que alguém diz que foi ao cinema e gostou do filme. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais à luz de um novo conceito de privacidade.

5. Por outro lado, há a questão do copyright em sentido lato. Os dados, informações e opiniões que nós veiculamos no Facebook são nossos, não são do Facebook. Se quisermos podemos retirar toda a nossa informação. Mas que sentido faz isso numa rede que vive da partilha dessa informação? Como eu comentei no post do Daniel Oliveira , os meus comentários a um post, por exemplo, são meus. Coloco-os de livre vontade e de certa forma dizem algo sobre mim a qualquer pessoa que os leia. Se eu amanhã decidir deixar o Facebook, devo levá-los comigo? Se sim, isso torna o post onde eles surgiram mais pobre porque torna o  diálogo irracional. Se não, é uma violação óbvia do meu direito a dispor dos meus dados. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais com um conceito diferente de copyright.

6. Como todos os paradoxos acima demonstram, o problema é bastante mais vasto e mais profundo do que o mero cumprimento da lei nacional (já para não falar do facto de o Facebook, o mesmo Facebook, operar em praticamente todos os países do mundo). A abundância e instantaneidade de informação nos dias que correm não pode senão deixar de ter consequências, tanto a nível do nosso entendimento da privacidade e do copyright como da forma como os enquadramos politicamente (as leis que protegem ambas as coisas). Para a maior parte dos jovens dos nossos dias o conceito de privacidade e de propriedade já é profundamente diferente do nosso. E sê-lo-á ainda mais no futuro. Aliás, nenhum dos conceitos foi alguma vez fixo no tempo, mesmo quando plasmado em lei. Basta pensar que há 50 anos seria considerado inadequado – do ponto de vista da sua privacidade – que um casal de namorados se beijasse  em público e hoje estamos no ponto de aceitar que duas pessoas do mesmo sexo o façam! Aliás, há 50 anos o casal de namorados seria provavelmente sancionado por conduta imprópria e hoje nem isso se pode apontar a um casal do mesmo sexo, mesmo que a muitos apetecesse fazê-lo.

7. O que isto quer dizer é que os nossos conceitos de privacidade e copyright (em sentido lato, mas também em sentido estrito) estão a transformar-se rapidamente e as nossas leis não os estão a acompanhar. Para mim, pessoalmente, do ponto de vista prático, o Facebook não é uma empresa. Não é sequer um serviço. É uma espécie de praça ou café onde encontro gente conhecida e gente conhecida de quem eu conheço. O que digo ou escrevo no Facebook esgota-se no momento. E não tenho qualquer interesse – a não ser por curiosidade – em saber o que pensei ou afirmei há 6 meses atrás. Claro que, se eu escrever que odeio o José Sócrates e depois o José Sócrates aparecer morto, isso provavelmente vai-se voltar contra mim (bem, talvez não porque nesse caso haveria muitos suspeitos…). Mas isso não é muito diferente de eu dizer no café da  vila que odeio o Zé Barnabé e depois ele aparecer morto. A diferença – significativa! – é que as apalavras leva-as o vento ou morrem com as testemunhas e aquilo que escrevo numa rede social é perene e dura para sempre.

8. Por isso é que eu acho fundamentalmente conservadoras as posições como aquela que foi acima expressa pelo “revolucionário” Daniel Oliveira. Nós não sabemos de que forma a transformação que está a ocorrer nas tecnologias de transmissão e acumulação de informação vai modificar a sociedade, as leis, a política ou até a psique do ser humano. Mas podemos ter a certeza que vai impactar todos esses aspectos. A nossa responsabilidade intelectual é – penso eu – sermos capazes de olhar para estes fenómenos com uma mente aberta e tentarmos perceber para onde eles nos levam e não de onde eles nos trazem!

Google: the new media mogul

Nobody really knows why Google partnered with Verizon with such a blast. The text of the proposal is confusing (you have to read it three times to figure out you can’t figure it out…) and all the alleged reasons commentators and bloggers are advancing are nothing more really than speculation. I guess we will have to wait a couple of weeks to ear some clearer explanation – possibly from the founders themselves – on why Google took such a move. That will be a clarifying moment.

We may not know the reasons why Google chose this path, but we can be pretty sure that it was a careful meditated stand. Why? It’s so obviously “un-google”, so contrary to its recent history, to its core values and even to its motto, that it is impossible do have been taken lightly. Google most surely must have thought deeply about this decision and its consequences before moving on. It’s impossible to have not foreseen all de shock waves something like this would provoke. We don’t know what Google is doing, but – rest assured – Google knows what is doing! That’s why I’m so curious to fully understand what it is.

It’s true that Google is an engineering company, but it has proven to be a very intelligent one. There’s more than enough intelligence in the company to allow us to understand this decision, whatever the reasons, as a strategic move to position itself favorably in the future media landscape (if we can even call it “media”…). And that is what really interests me.

It’s pretty obvious that traditional media have had its days and that few, if any, will be able to make the shift to the new media world unfolding before them. I should know because I’m a traditional media guy. Not only the actors will be different, also its role will change. Will there be content companies like a newspaper, a magazine or a TV station? Will regular people be producers of information or entertainment as well as consumers? Will there be such a thing as a social consumption of information content? What is going to be the balance between the producers of the content and its distributors? These are just a minor fraction of the numerous questions all media companies are (or should be…) asking themselves. Well, there you go, an answer to some or even all of these questions is implicit in this strategic move by Google. And, once we know or understand its reasons, we will know what those answers are. In a way (even somewhat ironical…) Google is really answering the question Jeff Jarvis put: “What would Google do?”. Well, apparently, this is what Google would do to prepare itself for the future media landscape. The vision of what landscape is that is the most valuable piece of information and understanding we can all derive from this sudden and confusing upheaval.