We need to talk about Kevin

We need to talk about Kevin“, da inglesa Lynne Ramsay, é um filme complexo sobre coisas complexas.

Se gostam de narrativas lineares, com princípio, meio e fim, não vão ver este filme.

Mas se, pelo contrário, gostam de histórias complexas, com personagens fortes, então não deixem de ver! Tilda Swinton não é a personagem central deste filme; Tilda Swinton é o filme! Toda a narrattiva é vista pela mente complexa de uma mãe com complexo de culpa. E corre à medida desordenada e aparentemente desconexa das memórias. Daí a complexidade. O filme passa-se dentro da mente de uma mãe perturbada; e é precisamente aí que nós o vemos.

Não sei qual é a estrutura do romance, mas o filme tem essa complexidade adicional a juntar à da própria temática e da própria história. E – claro – Tilda Swinton é simplesmente brilhante.

Vão ver. Mas não esperem sair de lá mais esclarecidos do que entraram.

 

[ADENDA]

Faltou dizer uma coisa importante.

Na minha opinião este filme só tem um erro grave: a realizadora não resiste a tentar pôr um fim numa narrativa que não tem fim, nem meio, nem principio. Devíamos saír de dentro da mente da protagonista da mesma forma que entrámos: sorrateiramente e sem aviso prévio. Aquela pergunta básica – “Porquê?” – era desnecessária e fútil.

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The social network

Acabei de vir da ante-estreia do “The Social Network” – “A Rede Social” (Obrigado, Espadinha!), a aguardada “história” não autorizada do Facebook e de Mark Zuckerberg. E há dois ou três aspectos que gostaria de destacar:

1. Gostei do emaranhado da narrativa e da forma como os diálogos, os planos e a trama vão evoluindo de rápidos para lentos. Começa com um ritmo tão frenético que quase custa a acompanhar e termina, simbolicamente, com um longo plano de Zukerberg frente ao computador. É uma espécie de desconstrução e decomposição do ritmo acelerado da realidade de forma a permitir-nos focar-mo-nos nos seus componentes de base. Bom.

2. Uma das mensagens fortes do filme – mais uma vez simbolizada no plano final – é a enésima representação do aforismo “it’s lonely at the top”.  Não é o primeiro nem será o último filme a fazê-lo. Tantos acontecimentos depois, Zuckerberg acaba tão sozinho como começou e a pedir amizade à ex-namorada em nome de quem tudo começou. O vencedor está sempre sozinho, mesmo quando está rodeado de gente. Essa é a grande ironia do sucesso.

3. Outra das mensagens fortes do filme é esta: o sucesso só é atingível com persistência. Uma ideia realmente boa merece antes de tudo o respeito de nela persistirmos.  No filme, Zuckerberg perde namoradas, amigos e até ídolos para conseguir materializar aquilo que ao longo de boa parte do filme não passa de uma “boa ideia”. Mas consegue! Uma lição para todos nós.

4. Este é um filme sobre “nerdness”. Afinal o que é um “nerd” informático? A resposta está no filme. É preciso perceber – para quem ainda não percebeu -que um “nerd” da informática programa (digo eu que não sei código…) com o mesmo envolvimento com que um poeta escreve poemas ou um pintor pinta quadros. Não sei se o episódio é verídico, mas é por isso que Zuckerberg diz que criou um programa para a Microsoft ainda na adolescência e que fez o respectivo upload “porque sim”.  Um poeta escreve poemas mesmo que ninguém os publique. Um programador programa mesmo que seja só pelo gozo de fazer coisas. É esse “gozo” que transparece no filme e dá a mais completa definição do que é um “nerd”. É preciso perceber isso para perceber o estado actual da indústria informática.

5. É impressão minha ou a determinado ponto traduziram “Linux” por “Linus”? Daah!

(adenda) Outra coisa: É interessante (não disse significativo, disse apenas interessante) que a maior rede social do nosso tempo tenha sido inventada por um inepto social. É incontornável que isso diga algo sobre a sua rede (mais precisamente que está “em vez de”, a maior crítica que lhe é feita, e que aliás o filme também veicula), mas, sobretudo, questiona-nos sobre a natureza destas redes sociais face às redes cara-a-cara e sobre a relação entre as duas. Estes é um fenómeno que – parece-me – ainda está por compreender na sua plenitude.

Once – Glen Hansard

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Às vezes ainda vale a pena fazer zapping…

Descobri este filme – “Once” – por mero acaso numa noite destas no TVCine 2. Calhou passar por lá precisamente no momento em que, no filme, os protagonistas estão numa loja de instrumentos musicais a cantar a canção principal do filme e que lhes deu o Oscar de melhor canção original.

Obviamente, não o larguei mais até ao final fiquei maravilhado com o filme – que, ao que parece passou ao lado do circuito comercial português – e com a música, que encontrei à venda na Amazon (ainda não o descobri em Portugal, mas sou todo ouvidos…).

São – tanto o filme, de John Carney, como a música, de Glen Hansard – cheios de sentimento, de uma simplicidade absolutamente bela e profundamente tristes e alegres. Enfim, uma daquelas coisas que os grandes estúdios e os grandes músicos são incapazes de fazer. Vale a pela ver e ouvir.

Eis o link para a canção em causa, com imagens do filme.