Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg

Em Setembro de 2017, na semana anterior às eleições gerais na Alemanha, Mark Zucjkerberg fez um “live” no Facebook para explicar em detalhe o que estava a ser feito internamente para combater as chamadas “fake news”. Um trecho que passou despercebido à maioria das pessoas no seu longo discurso, mas que tanto Helen Lewis como Julia Lefkowitz  prontamente apontaram foi esta frase ao mesmo tempo irónica e assustadora: “Temos estado a trabalhar para garantir a integridade das eleições alemãs do próximo fim de semana.” O que é irónico é o facto de estarmos perante um executivo de uma multinacional de Menlo Park, California, a dizer que pretende assegurar a integridade das eleições num país estrangeiro. O que é assustador é que ele está a falar a sério!

Esta frase ilustra na perfeição tudo o que está errado no estado atual da relação entre estas novas poderás plataformas de informação da era digital e os tradicionais poderes reguladores dos países e da sociedade. Sejamos claros: o Facebook PRECISA urgentemente de ser regulado; mas a verdade é que NÃO PODE ser regulado pelos métodos tradicionais. Claro que haverá sempre alguém que possa dizer que devíamos voltar à era analógica e abandonar de todo o digital ou que, como outros monopólios nos passado, o Facebook devia simplesmente ser decomposto em empresas mais pequenas para aumentar a competitividade. Mas isso, claro, não passa de fantasias! O problema é que, se olharmos para o conjunto de notícias e artigos de opinião que têm vindo a circular a propósito da regulação do Facebook, reparamos que a maior parte deles apontam precisamente nesse sentido. E isso denunciam uma incapacidade quase generalizada de perceber até que ponto o Facebook é algo diferente de tudo o que conhecemos no passado. Eu acredito que primeiro precisamos entender realmente aquilo em que o Facebook é diferente para podermos sequer começar a pensar em como o devemos regular. A seguir explico porquê.

Há pelo menos quatro coisas fundamentais que hoje em dia já são perfeitamente claras sobre o Facebook e que precisamos integrar no nosso debate sobre como ele pode e deve ser regulado (coisa que raramente acontece).

1. O Facebook é uma plataforma. Ele existe para que outros agentes possam usá-lo para fazer determinadas coisas, quer seja partilhar as fotos dos seus gatos, propagar o conhecimento ou espalhar “fake news” acerca de alguma coisa. Tal como acontece numa plataforma de caminhos de ferro ou numa praça pública, cada agente é responsável pelos seus atos, dentro das limitações e constrangimentos da plataforma. Claro que esses constrangimentos influenciam aquilo que cada agente pode ou não pode fazer na plataforma, mas não o determinam. Essa é uma prerrogativo dos próprios agentes. Se nós atribuirmos ao Facebook o direito – ou, pior ainda, a missão – de permitir ou proibir determinados tipos de conteúdo, na prática o que estamos a fazer é a transferir a nossa própria agência no processo para uma entidade externa que não controlamos. Uso a palavra “agente” propositadamente: o “agente” tanto pode ser um indivíduo como um grupo ou uma fação. Quando celebramos as tecnologias digitais porque elas tornam mais fácil aos indivíduos e aos grupos ter uma voz ativa, estamos a incluir tanto os seus usos positivos como os seus usos negativos. Eu, por exemplo, sempre tive um posicionamento político mais à esquerda e sigo várias páginas grupos de Facebook associados à esquerda política em Portugal. Algumas delas poderão até ser o equivalente nacional (e esquerdista) do site norte-americano Breibart, frequentemente associado às “fake news” pro-Trump. Mas eu sei disso e integro esse elemento valorativo nas minhas escolhas informativas. Eu sei aquilo em que posso ou não posso confiar e sei como verificar se uma informação ou uma perspetiva é verdadeira ou fundamentada quando tenho dúvidas. Se permitirmos que seja o Facebook a decidir se determinados agentes ou os seus conteúdos são permitidos na plataforma, temos que possa vir a perder essas visões de esquerda, alguma delas radicais. Tal qual como acontece com um norte-americano de direita a propósito do Breitbart, por exemplo.

Infogram by Vanessa Otero.
Infogram by Vanessa Otero.

 

2. O Facebook é uma rede. Num sistema de distribuição de informação linear, nós podemos exercer regulação e controlo num qualquer ponto específico desse linear. No mundo dos mass media, a maior parte da regulação e controlo é exercida sobre os próprios media, ao nível do código de ética dos jornalistas, da lei da imprensa ou da televisão e até da lei da publicidade. Todas essas instâncias de regulação estão ausentes num sistema de distribuição de informação em rede, que estejamos a falar o Facebook especificamente ou da World Wide Web em geral. É verdade que atualmente o Facebook é quase tão grande como a própria internet. E isso devia preocupar-nos! Mas a verdade é que ainda não o é! Ainda continuam a existir nós da rede que estão fora do Facebook, assim como fluxos de informação entre eles.  Isso que significa que regular o Facebook, seja de forma for, seria ineficaz para qualquer coisa que aconteça fora do Facebook. Além de que, para o próprio Facebook – e de resto para qualquer outra plataforma de distribuição de informação –  ser objecto de regulação num quadro em que outras plataformas concorrentes não o são, seria naturalmente uma desvantagem competitiva a considerar. Ou seja, nós não podemos regular o Facebook – assim como as outras plataforma em rede – da mesma forma que regulávamos os mass media e o seu fluxo de informação linear.  Vivemos num novo paradigma de informação e comunicação e não podemos ignorar esse facto quando pensamos e debatemos novas formas de regular o Facebook e as restantes plataformas de distribuição de informação que funcionam na sociedade em rede.

regulação

desregulacao3. O Facebook opera em escala (global). Nós temos tendência a olhar para o Facebook (e para as restantes plataformas) numa perspetiva nacional, esquecendo que a rede é global e a plataforma é a mesma em todos os países. As formas e os valores segundo os quais um país poderia querer regular o Facebook são necessariamente diferentes do que seria propostos por outro país. Porque cada país tem os seus valores sociais, o seu sistema económico e, claro, as suas próprias leis e regulamentos. Face a alguns países o Facebook até pode acatar essa regulação, mas face a outros países isso poderá não acontecer. Claro que é possível argumentar que o Facebook tem as competências técnicas suficientes para servir a cada país a sua própria versão da plataforma. Mas é igualmente lógico argumentar que, quantas mais versões diferentes do Facebook existirem, mais difícil se torna para a plataforma operar da forma simples e intuitiva como faz hoje. Ou seja, as especificações nacionais para o Facebook apenas são concebíveis na medida em que não interfiram com a escala global na qual o Facebook opera. Porque a escala é um elemento central da forma como esta plataforma opera. As eventuais especificações nacionais ou regionais devem ocorrer “sobre” a plataforma (tal como acontece hoje) e não “na” plataforma.

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3. O Facebook depende da escala (global). Como comunidade, nós ficamos particularmente preocupados quando o Facebook acaba por ter influencia em importantes decisões políticas  de âmbito coletivo devido às chamadas “fake news”. Mas a influência do Facebook vai muito para além disso. Aquilo que está fundamentalmente errado com o Facebook é a forma como o seu modelo económico incentiva as “fake news” tanto quanto o “clickbait” ou o jornalismo sensacionalista. Devemos recordar que os miúdos da Macedónia que parecem ter tido uma influência tão decisiva na eleição presidencial norte-americana o fizeram, não em nome de qualquer objetivo político, mas estritamente por motivos económicos. Por cada exemplo de “fake news” que nos possa indignar no Facebook, existem múltiplos exemplos de publicidade enganosa e títulos “clickbait” (muitos com origem nos meios de comunicação social) destinados a levar-nos a ver os anúncios num determinado site. O ecossistema comercial do Facebook incentiva isso mesmo e os utilizadores irão certamente continuar a fazê-lo, em primeiro lugar porque as ferramentas o permitem e em segundo porque é do seu interesse. O detalhe decisivo para entendermos esse ecossistema é que também é do interesse do Facebook que eles continuem a fazê-lo. Nós temos tendência a ver o Facebook como uma empresa gigantesca e extremamente lucrativa. E é-o de facto. Mas, se considerarmos todos o valor económico que foi desviado dos media tradicionais pela “disrupção” provocada pelo Facebook, então teremos que concluir que o Facebook devia ser ainda mais rico do que é. Dito de outra forma, o rendimento médio por utilizador do Facebook é significativamente mais baixo que o de qualquer meios de comunicação social no passado (o assunto foi objecto de uma tese de mestrado que pode ser lida aqui). O que isso significa é que: a) o Facebook precisa ser comercialmente agressivo na monetização das suas audiências se quiser ficar à frente da concorrência; e b) precisa da escala global para o conseguir. Ou seja, para o Facebook a escala global na qual opera não é apenas uma característica da sua tecnologia; é também uma condição dos eu modelo de negócio. E, portanto, enquanto for assim – e tudo indica que continuará a ser – o Facebook depende do próprio ecossistema que produz as “fake news”, o “clickbait” e o sensacionalismo que a sociedade deseja regular.

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O que tudo isto significa é que o Facebook não pode ser regulado como uma empresa normal. Porque não é uma empresa normal. É uma plataforma, é global e depende dessa escala global para funcionar e ser rentável. A sua regulação tem que ter em consideração o facto de que o Facebook deve ser capaz de proporcionar determinadas funcionalidades para os seus utilizadores sejam eles individuais ou coletivos, mais instruídos ou menos instruídos e localizados em Silicon Valley ou no Bangladesh. Cada tipo de conteúdo ou funcionalidade que um utilizador valoriza poderá não ser o mesmo ou a mesma a que outro utilizador dá valor. Por isso, regular esse tipo de conteúdo pode ser positivo para um utilizador, mas també pode ser uma forma de censura para outros.

Tal como a Alphabet, a  Amazon, a Tencent ou a Alibaba, o Facebook é um tipo de empresa diferente das que nós conhecíamos e opera em premissas distintas (opera segundo um paradigma diferente, para ser preciso). Doc Searls acertou em cheio num episódio recente do poscast “The Gillmor Gang”. Eis o excerto:

A maior parte da tentativas para regular o Facebook  e outras plataformas de informação semelhantes abordam a questão como se estas empresas fossem a NBC ou a Philip Morris, ignorando o facto de que se trata de plataformas (nas quais a agência dos utilizadores deve ser preservada), que são globais (e portanto devem servir diferentes culturas e legislações) e, sobretudo, que funcionam num ecossistema de distribuição de informação que é também um ecossistema de distribuição de valor e que, portanto, deve gerar lucro para as empresas que nele operam e para as próprias plataformas. É por não considerarem um ou mais destes fatores que a maioria dessas tentativas de regulação acabam por falhar.

No entanto, a questão subsiste: Como devemos fazer a regulação de entidades como o Google ou o Facebook, tendo em consideração que alguma forma de regulação é necessária?

Bem, de momento estamos apenas a começar a pensar no assunto. O Facebook, tal como outras plataformas de distribuição de informação, tem algo de valioso a oferecer aos seus utilizadores em termos de ferramentas e recursos sociais. Se não tivesse, não teria a massiva quantidade de utilizadores que reúne hoje em dia. Se quisermos regular o seu funcionamento sem pôr em causa as suas potencialidades, temos que ter em conta as suas características e a sua função social. Há três aspetos que, como já deve ter ficado claro, devem ser tomados em consideração nessa regulação:

a) Primeiro que tudo, a instância de regulação do Facebook tem que ser global ou tendencialmente global. Não faz sentido o Congresso dos Estados Unidos pretender regular o Facebook (ou a Google ou o Twitter) quando a maior parte dos seus utilizadores não vive nos Estados Unidos e muitos nem sequer falam inglês. Se uma plataforma como o Facebook existe e opera na maior parte dos países no mundo, então tem que ser uma instância transnacional correspondente a fazer a respetiva regulação. O problema é que não parece existir uma entidade ou instância supranacional que esteja legitimada ou mandatada para o fazer. Temos que criar essa legitimação supranacional.

b) Em segundo lugar, numa rede com a dimensão e o fluxo de informação que hoje passa pelo Facebook, não é de todo possível implementar controlos humanos para todos os conteúdos, sob pena de tornar a plataforma inoperativa. Ou seja, se muitos dos comportamentos “desviantes” dentro do Facebook são iniciados ou propagados através de automatismos de rede, então têm que ser implementados os mesmos tipos de automatismos para fazer o respetivo “policiamento”. Isso significa permitir ou autorizar que a inteligência artificial por detrás de sistemas como o Facebook possa tomar decisões em nome dos utilizadores e segundo algoritmos de policiamento funcionando autonomamente e automaticamente. Por mais assustadora que a ideia possa parecer, ela é a única compatível com uma rede com a complexidade do Facebook.

c) Por fim – “the last but not the least” – o modelo económico em que o Facebook funciona (assim como outras plataformas) também é parte do problema mais do que parte da solução. Se for verdade que o Facebook reduz o valor económico da informação – confirmando assim a tese de que, em situação de abundância digital, o valor da informação, enquanto bem económico, tende para zero – então o modelo económico no qual se baseia não pode deixar de ser considerado insustentável no futuro e em termos teóricos. A manifestação prática disso é a forma como já hoje o Facebook depende da escala global e da sua exploração comercial agressiva para ser lucrativo. Ou seja, estamos perante uma dissonância entre o valor social óbvio de uma plataforma de comunicação e interação social como o Facebook (que incrementa o capital social dos indivíduos e dos grupos) e a apropriação privada dos seus benefícios económicos. Essa dissonância precisa ser resolvida com um modelo económico diferente para o Facebook e para as plataformas globais de distribuição de informação semelhantes a ele. Que tipo de modelo económico é esse? Isso permanece uma incógnita. Mas esta é, obviamente, a questão mais complexa das três aqui enunciadas e aquela que, de certa forma, ainda nem sequer começou realmente a ser discutida.

O Facebook é provavelmente a mais visível e a mais questionada das novas plataformas globais de distribuição de informação. Mas não é a única. As soluções que forem encontradas para o Facebook serão certamente também implementadas nas outras plataformas semelhantes, como a Google ou o Twitter. Mas, mais uma vez, não devemos esperar que as soluções de regulação do passado nos sirvam neste caso e – de certa maneira – é um desperdício perder tempo com elas. Não produzirão os efeitos desejados e até poderão pôr em causa aquilo que de bom estas plataformas têm para nos oferecer enquanto comunidade. Por isso, temos que ter a coragem de perceber que precisamos de soluções novas para problemas novos.

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Eu sempre trabalhei nos media, do lado da produção de informação, e sempre tive muito respeito pela função social dos jornais e dos jornalistas, em sentido lato. Creio que essa função social não é menor nos dias que correm, embora deva ser reavaliada.

Mas também olhei sempre com muita atenção – e alguma participação – para os novos media: os blogues, as plataformas de video, as redes sociais, etc. E desde cedo me pareceu que havia aqui um potencial de revolução e desregulação enorme, com o qual os media, os jornalistas e a função social dos meios de comunicação social teriam que lidar.

Esses são os antecedentes longínquos desta reflexão. Os antecedentes próximos são uma participação num congresso da WAN-IFRA realizado em Madrid em que o assunto foi aflorado, as reflexões sobre o assunto difícil mas interessante da neutralidade da rede e o frenesim das apps, que ainda decorre.

O que proponho nesta reflexão é um novo modelo de negócio para os media. Um modelo de negócio que permita conciliar os conteúdos “gratuitos” na internet, tal como actualmente os temos, com a remuneração dos conteúdos de qualidade que associamos aos media profissionais e que – muita gente o diz e eu concordo – é necessário para o funcionamento democrático das sociedades complexas.

No modelo de negócios tradicional dos jornais e revistas, o preço pago pelos consumidores pelo jornal ou revista em suporte físico alimentava toda a cadeia de produção: a distribuidora, os transportadores, o papel e, obviamente, os produtores de informação. No modelo de negócios actualmente praticado na internet, as fornecedoras de acesso cobram aos seus clientes uma tarifa assinalável por esse acesso, mas não partilham essas receitas com quem fornece os conteúdos, nomeadamente quando eles são produzidos por estruturas empresariais e profissionais qualificados que não podem subsistir essa remuneração.  Este modelo de negócio explica como é que essa remuneração pode ser feita, por acordo directo entre os media e os fornecedores de acesso, sem que a navegação seja afectada e sem que o consumidor tenha que pagar mais por qualquer conteúdo  (e muito menos negociá-lo caso a caso com cada um dos media que pretende “consumir”).

Subjacente ao modelo de negócio proposto está esta ideia base fundamental: falta inteligência na rede! Com os sistemas de monitorização de que dispomos actualmente não há nenhuma razão para que a rede de distribuição digital não seja suficientemente inteligente para “perceber” que tipo de conteúdos estão a ser processados, em que quantidade e que remuneração lhes deve ser atribuída.

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Esta crónica de Pacheco Pereira publicada no jornal Público- o já famoso TDACHSR, Transtorno do Déficit de Atenção Cívica com Hiperactividade Social – é obviamente uma cortina de fumo. José Pacheco Pereira empenhou-se fortemente neste ciclo de eleições e desenhou uma estratégia ganhadora que até tinha uma líder com o “perfil” certo para a levar por diante. Mas,ao que parece, a “actriz” não esteve à altura do argumento (um plot à volta da um PM autoritário e asfixiante) e até os realizadores eram fracos. Se Manuela Ferreira Leite saiu queimada, JPP saiu pelo menos muito chamuscado. Esta é uma forma de desviar as atenções e tentar reconquistar o seu prestígio de “analista” (e como a palavra se adequa neste caso…).

Por isso, analisar a substância do que ele escreve é um exercício enganador. Mas não é fútil. JPP olha a questão como um problema de política nacional, mas é claro que o problema é muito mais do que isso. Como sabe qualquer especialista em novos media, há muitas consequências dúbias e alguma perigosas destas novas plataformas de comunicação. Levantaram-no pessoas 1.0 ou mesmo 0.0, mas até alguns analistas “de dentro” do sistema, como Andrew Keen. É nesse plano que a questão se coloca (não é um problema nacional e muito menos de política nacional, como sugere JPP).

O mais curioso é que a crónica de JPP surge no mesmo jornal em cujo editorial @JMF1957 critica – e com razão! – a forma irracional e inexplicável como uma futilidade como um video feito há 2 anos por Maitê Proença entrou no topo da agenda e até no mainstream media. Aparentemente, esse seria o melhor exemplo para sustentar a tese de JPP.

Talvez… Mas a mim parece–me que este video – e a forma como ele se propagou – não tem na realidade uma função informativa, mas sim uma função fática: propagou-se porque através dele uma comunidade “testou” os seus laços comunicativos e assegurou-se de que todos falam da mesma coisa. É um “está lá?”; “Está.” colectivo. As pessoas não falam do video da Maitê por acharem que isso é importante; falam nele para confirmarem que continuam a falar umas com as outras e que continuam a falar todas do mesmo.

O problema com a tese de JPP é que isso já acontecia muita antes do Twitter, do Facebook ou até dos sms. Há anos recordo-me perfeitamente de as conversas de manhã no trabalhos serem o concurso ou o programa de humor de prime time da noite anterior. Também aí a primeira função da discussão era a própria discussão, ou seja, a partilha. E os temas não eram menos “alienados” nem “alienantes” que o video da Maitê.

Talvez essa necessidade seja mais premente agora que cada pessoa tem ao seu dispor um leque muito mais alargado de canais de informação e temas de interesse. Talvez isso torne mais necessário exercer a função fática da colectividade com mais frequência (ou com menos frequência mas – por isso mesmo – de uma forma mais visível). Talvez…

Mas isso não é o que JPP escreveu. E não tem nada a ver com política nacional…

P.S. À atenção de JPP: esta “reflexão” foi suscitada pelo, escrita no e distribuída através do twitter…

Last.fm adopta modelo pago

Isto é realmente uma péssima notícia, da qual só agora tomei conhecimento.

Se tivesse que eleger um site, de todos os que conheço, que , na minha opinião, corporiza o melhor da internet, provavelmente seria este.

Agora, menos de um ano depois de ter sido comprado pela CBS, o Last.fm vem anunciar que, devido a questões de direitos, terá que passar a ser pago fora dos EUA, Reino Unido e Alemanha.

A explicação para esta distinção entre o “primeiro mundo” e o “resto do mundo” já é bastante estranha: alegam que só têm serviços de vendas de publicidade nesses mercados e que só nesses países conseguem gerar rendimentos publicitários suficientes para pagar os direitos de autor das músicas. Isto significa que não querem que os visitantes de países “terceiros” desfrutem de um serviço que eles não conseguem monetizar, mesmo sem custos adicionais relevantes.  O que é bastante mesquinho. Claramente não se trata de uma situação em que o serviço não pudesse continuar como está; trata-se obviamente de uma situação em que os novos donos procuram novas formas de ganhar mais dinheiro com um site de sucesso.

E é aqui que bate o ponto, como diz o povo. Eu já recomendei muitas vezes o Last.fm e não sei quantos novos ouvintes angariei para esta “rádio” online. Trata-se, repito, do melhor site do mundo, na minha opinião. Mas obviamente não pagarei os míseros 3 dólares por mês que  irá custar. Por uma questão de princípio. Primeiro porque a explicação para o “uns” e “outros”  não apaga a injustiça de base. Segundo, porque  o modelo de negócio não pode ser este; tem que ser outro. Algo que a CBS irá certamente descobrir dentro de pouco tempo (dou-lhe um ano ou menos).

Portanto, tenho pena da CBS, cujas “vistas curtas” nasta matéria são tipicas dos grandes media e não pressagiam nada de bom para eles, e tneho algum desprezo pelso fundadores do site, que se aburguesaram e  quiseram “engordar” à conta do site que tão excelentemente produziram. Espero que estejam envergionhados do que fizeram!

Nós, os utilizadores da internet, conitnuaremos com a nossa vida e rapidamente encontraremos um substitutuo para o last.fm (play.fm, spotify.com e grovveshark.com são alguns dos candidatos). Será que o CBS também irá comprar algum deles? Isso não sei, mas uma coisa sei: o dinherio da CBS há-de acabar um dia…

Sobre a Feira do Livro

Sobre a polémica da Feira do Livro tenho apena duas dúvidas: um pequena e uma grande.

Uma pequena dúvida: Porque razão é que a CML se pôs do lado da Leya? Foi apenas por “respeito” por uma grande “empresa” ou foi por algo mais. Foi apenas porque não quis afrontar um major player económico, ou foi por alguma das outras razões que costumam ligar as empresas e a política.

Uma grande dúvida: Que raio leva um empresário como Pais do Amaral a decidir investir nos livros? Nos livros???  Por favor… Os negócios de Pais do Amaral antes eram na televisão!!! Fazia sentido que ele investisse no futebol, na medicina privada,  no turismo para a terceira idade, nos telemóveis, etc. Mas… nos livros? Não entendo. Percebo que tem havido alguma recomposição da paisagem da edição no nosso país (a “modernidade” chegou com os livros de Cristiano Ronaldo, Carolina, Bobona e afins) e não percebo porque razão é que os livros não hão-de ser um negócio como qualquer outro. Mas serão mesmo um negócio de futuro? Pelos vistos Pais do Amaral acha que sim e eu continuo  convencido que não.  Se calhar é por isso que ele é empresário e eu sou assalariado…

Sobre a Feira do Livro propriamente dita, se finalmente se realizar, claro que vou visitar,  como todos os anos. Mas vou fazer questão de não ir aos stands do grupo Leya. Por causa da prepotência!

O fim da periodicidade

Em mais um dos seus lançamentos de extensão de marca, a Visão anunciou a edição da Visão Link, que será distribuída pela primeira vez com a Visão do próximo dia 21 de Maio.

A publicação em si é interessante, mas o que despertou a minha atenção foi o facto de – apesar de a primeira capa trazer a inscrição ”Maio 2008″ – os seus responsáveis afirmarem que a nova publicação não tem uma periocidade fixa.

Não sei até que ponto isto é uma estratégia ou apenas uma forma de defesa, mas suscita uma reflexão: que sentido faz hoje em dia a periodicidade dos media?

É fácil perceber que, desde que existem jornais e revistas, a periodicidade não é mais do que a marcação dadata e hora de um encontro entre o media e o leitor num lugar específico, o quiosque. É por causa da periodicidade que sabemos que devemos is buscar a revista mensal no final do mês (ou no meio ou mesmo início do mês…), a semanal num dado dia da semana e o diário pela manhã ou  pela tarde, consoante seja um matutino ou um vespertino.  Isso, naturalmente, faz sentido num mundo de informação escassa, mas faz muito menos sentido num mundo de informação abundante. Se, na paisagem de media clássica o máximo a que podíamos aspirar era um jornal diário, talvez complementado por uma revista semanal ou mensal, hoje temos inúmeros canais de informação em fluxo permanente (ou ou informação permanentemente disponível), na maior parte dos casos em luta feroz pela nossa atenção. Neste quadro, a periodicidade dos media não é mais do que um resquício do passado, um daqueles elementos estruturantes da paisagem dos media que temos que nos habituar que vai desaparecer em breve, como a relação jornalista-leitor e outros. Tal como não faz qualquer sentido colocar informações num site de internet a horas ou dias específicos, também não é razoável, no mundo de hoje, esperar por um dia certo do mês para lançar um revista. O que faz sentido, sobretudo nas periodicidades mais espaçadas, é lançar um novo suporte quendo há condições para o fazer rentavelmente (equilibrando produção de informação para fazer o número de páginas suficiente e retorno suficiente para pagar os respectivos custos). Dificilmente isso acontece a uma cadência mensal regular ao longo de todo o ano (aliás, há muitas revistas que não são lançadas em Agosto, por exemplo), ou mesmo a uma cadência regular na semana. Quantas vezes terá uma newsmagazine tido “vontade” de publicar um novo número a meio da sua semana por causa de um acontecimento extraórdinário? Como de resto foi feito muitas vezes. Hoje isso faz mais sentido do que nunca e deve ser regra em vez de excepção.

Não sei se subjacente à a-periodicidade da Visão Linke está um raciocíonio deste tipo (duvido…), mas suspeito que tenderemos conviver com mais casos deste no futuro.

Campanha inovadora

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Esta campanha, criada pela Draft FCB e produzida pela Garage para promover as Gamebox (bilhetes de época) do Sporting, está realmente espectacular e ilustra bem o tipo de interactividade que pode resultar da utilização destes meios. O filme pede a introdução de alguns dados pessoais iniciais e depois interage com o visitante/adepto em função desses dados. Mais personalizado é difícil.

(notícia Meios & Publicidade)

Olhos nos olhos

A CNN teve a infeliz ideia – parece que o fazem de 3 em 3 anos - de convidar Michael Moore para um directo em estúdio a propósito do lançamento do seu novo filme Sicko.  Moore aproveitou a oportunidade para dizer olhos nos olhos o que devia ser dito à  CNN e a todos os grandes media americanos:

“Why don’t you tell the truth to the american people. I wish that CNN and the other mainstream media would just for once tell the truth about what’s going on in this country, whether it’s about health care – I don’t care what it is – you guys have such a poor track record. (…) You are the ones that are forging the facts. You’ve forged the facts to the american people for I don’t know how long, about this issue, about the war. I’m just curious: when are you going to stand there anda apologise to the american people for not bringing the truth to them that isn’t sponsored by some major corporation. I’ll seat here for as long as it takes.”

Vale a pena ver:

A questão e mesmo a indignação de Michael Moore são muito pertinentes e vão ao encontro do que é também o essencial do mais recente livro de Al Gore, The Assault on Reason (que espero que a Amazon me entregue rapidamente…). Os media falharam historicamente no seu papel nos últimos anos. Simplesmente não fizeram as perguntas certas quando o deviam ter feito porque estavam demasiado comprometidos. E o resultado está à  vista. Ao deslocar o enfoque para os media e para a forma como o “quarto poder” falhou rotundamente em fazer o que lhe competia, Moore e Gore, elevam a análise para o patamar acima e provavelmente ficam mais perto da verdade.

O futuro das revistas

O futuro dos media impressos é incerto, mas, passe por onde passar, estes são dois bons exemplos de estratégias interessantes, que não conhecia e descobri recentemente numa visita a França. Não sei quais os resultados reais de cada uma destas estratégias, mas parecem-me dois passos no caminho certo.

attitude.jpg A Attitude Rugby é uma revista mensal dedicada ao Rugby, na qual o lado estético e emocional do jogo é o que mais interessa. As fotos são muito cuidadas, as reportagens são extremamente elaboradas e a abordagem é sempre pelo lado humano. Há imagens de acção, claro, mas são uma minoria. Assim, a Attitude Rugby consegue levar ao leitor fiel de Rugby um “pacote” diferente daquele a que ele tem acesso nos sites de internet, ou nos jornais desportivos ou mesmo nos semanários sobre o tema. Aqui a actualidade é residual, e o que importa é a abordagem criativa dos assuntos e o aprofundamento das matérias. O papel é de alta qualidade e o site cumpre os mínimos (é discutível que tenha que fazer mais do que isso).

Não conheço nada da realidade do Rugby em França nem sou particularmente adepto do desporto, mas depois de folhear a Attitude fiquei com vontade de o ser. Se existisse uma revista destas em Portugal não tenho dúvidas de que seria comprador esporádico. Imagino o gesto cool que seria abrir e folhear a Attitude na esplana do clube antes de um jogo importante. Diz algo sobre quem lê. E isso é talvez o mais importante.

Perante a crise da imprensa alguém disse há pouco tempo que, provavelmente, “the last print media standing will be a magazine“. A Attitude Rugby ilustra bem essa previsão.

 sport.jpg

O outro exemplo é a Sport, uma revista semanal de distribuição gratuita sobre todos os desportos. Trata de actualidades, com uma leitura leve, mas o desenho típico de uma revista, com muitas infografias e leitura fácil. O papel é reciclado para ser barato e a distribuição é nacional.

Mas o que realmente se destaca nesta revista é o facto de estar associada a um supersite – myfreesport - com várias ligações com a edição em papel. Neste site há notícias na hora, há videos, há complementos à edição de papel, há todas as informações úteis, há temáticas de lazer (como na revista), há uma comunidade bem construída onde os próprios leitores podem criar os seus blogues. Enfim, tudo para que na realidade a edição de papel seja… um complemento do site. Além disso há também a possibilidade de descarregar em PDF a edição corrente assim como todas as anteriores (Pauleta já foi capa). Não tem vendas em banca, é certo, mas no conjunto do site e da edição em papel vive inteiramente de uma facturação publicitária que deve ser  importante.

Não acompanho a realidade desportiva francesa e não conheço a maior parte das pessoas e assuntos que são notícia na edição que folheei (excepto Zidane), mas se uma revista/site semelhante existissem em Portugal, certamente seria cliente e – à borla – era capaz de estacionar o carro de manhã de propósito para ir buscar um exemplar da Sport. Depois, quando chegasse ao emprego, quase de certeza que quereria ver online o video do tema que me despertou interesse ou comentá-lo no meu blogue desportivo. Eis como se faz um semanário temático na era da web 2.0!

O culto do amador

cultamateur.jpgDescobri este livro numa referência do Engrenagem já com algum tempo. Mas vale a pena recuperar a recomendação: trata-se de um contraponto ao aparente unanimismo acerca do “culto” do amadorismo nos conteúdos dos novos media. Curiosamente – e talvez isso torne este contraponto ainda mais interessante – feito por alguém ligado aos novos media. 

Se tivéssemos que escolher alguém para debater com Andrew Keen, provavelmente seria Chis Anderson. Nem de propósito, os dois foram reunidos em debate pelo San Francisco Chronicle, num evento que deu origem a um podcast (parte 1 e parte 2).

 Vale a pena ler/ouvir, assim como vale a pena fazer desde já a encomenda do livro, cuja publicação nacional parace neste momento um incógnita.

Sobre o futuro dos media

Sobre o futuro dos media, vale a pena ouvir esta sequência de dois podcasts (1 e 2) que retratam uma espécie de mesa redonda organizada por Eric Schartzmann, do On the Record… Online, com um punhado de representantes dos media tradicionais. Como habitualmente neste debates, emergem mais perguntas do que respostas (o que é sintomátrico…), mas no geral abordam-se aqui algumas matérias bem interessantes para os profissionais dos media.

O futuro das revistas

monkey.jpgEditada pela Dennis Media, a Monkey Magazine é uma revista masculina semanal que só existe online e é inteiramente grátis. Mas o que realmente a torna diferente é a forma como, com o processamento da Ceros Media (que adiciona aos PDFs do editor outros media que se lhe queiram juntar) e alojada nos sesu servidores, proporciona uma experiência completamente inovadora quando é “folheada”, não só para os leitores como também para os anunciantes.

Não tenho dúvidas: um dia todas as “revistas” serão assim. Pelo menos em parte…