O Capital

– “Meus senhores o novo presidente do banco, Marc Tourneill!”
– “Estes são todos os principais accionistas. Eis os representantes do Eliseu. Eles esperam muito de si. Diga-lhes o que querem ouvir!”

– “Meus amigos, eu sou o vosso Robin dos Bosques moderno! Nós vamos continuar a tirar aos pobres para dar aos ricos!”

– “São crianças. Crianças grandes! Elas divertem-se. E vão continuar a divertir-se e divertir-se… até que a bolha rebente!”

Sempre me intrigou perceber o que leva alguém que tem muito, mas mesmo MUITO dinheiro a querer mais dinheiro. Afinal, o dinheiro, a partir de certo ponto, é apenas um número numa conta conta bancária.
Este filme (podem revê-lo nas gravações do AXN Black, passou ontem às 18h ou numa versão integral, mas dobrada em brasileiro aqui – para quem gosta do género) dá uma resposta possível: para estas pessoas o dinheiro não é dinheiro, é “currency”; é fichas e mais fichas para jogar num imenso casino. O gozo está no jogo, não naquilo que se ganha ou perde! Isto é o que fazem as crianças muito, muito ricas. Aprendem a jogar desde pequeninas. E nunca mais deixam de jogar.

 

O dinheiro, eis um tema interessante que ainda gostaria de estudar em profundidade um dia. O dinheiro é – como sempre foi – uma convenção. Um símbolo de algo, sem nenhum valor intrínseco. Já disse noutro ponto mas repito: o dinheiro é uma tecnologia de informação. O dinheiro comunica algo. Aquilo que importa no dinheiro não é o dinheiro em si, mas aquilo que ele comunica!

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Ora aí está!

“I like people for whom the world is the only subject, for whom anything less than everything means nothing. That’s what I expect from the people I hang out with and that´s why I spend a lot of time alone.”

John Brockman, em entrevista ao Artnode

Este parece-me um exemplo bem português daquela vontade nacional de tudo regulamentar ao mais pequeno detalhe, o que normalmente acaba no mais risível dos ridículos.

A maior parte das pessoas não saberá, mas quem teve um filho recentemente (foi o meu caso!) poderá ter descoberto que em Portugal existe uma lista dos nomes que são admitidos e não admitidos como nomes próprios no registo de recém-nascidos. A lista é da autoria do Instituto de Registos e Notariado, um organismo dependente do Ministério da Justiça.

Claro que talvez (de certeza…?) algumas regras sejam necessárias para impedir excessos. Mas, como uma consulta à lista de nomes ou (para quem não se quiser dar ao trabalho) uma pesquisa entre sites e blogues nacionais torna imediatamente evidente, esta lista está cheia de exemplos incongruentes, aberrantes ou simplesmente risíveis. Há nomes tradicionais portugueses que não são permitidos, assim como outros estrangeiros, com as grafias mais estranhas, que são autorizados. Há também nomes que só servem parao sexo masculino e outros para o sexo feminino. “Ana Rosário” não é permitido. Para ter “Ana” e “Rosário” no nome tem que ser “Ana do Rosário“. “Kevin” não é permitido. Por causa do “K“, dir-se-ia. Mas não, porque “Kó-Ló“, um nome muito mais comum, já é permitido. “Ana Mar” sim, mas “Ana Lua” não.

Trata-se claramente deum excesso de zelo que só se compreende num país como o nosso: terceiro-mundista e pouco habituado a confiar no bom senso dos cidadãos. Não o tenho confirmado, mas, ao que parece, na Alemanha, “Adolfo” é o único nome proibido. Por razões óbvias e mesmo assim discutíveis (“Salazar” é permitido…).

Pela parte que me toca, “Dinis” é permitido, mas “Diniz” não. Na verdade não tínhamos – a mãe e eu – uma preferência particularmente forte por qualquer das grafias. Mas, ainda assim, porque não entendo porque é que uma é permitida e outra não, resolvi perguntar isso mesmo. Enviei um e-mail para o Portal da Justiça e para o referido Instiuto a dizer mais ou menos isto:

Exmos. Senhores,

 

Venho por este meio solicitar um esclarecimento relativo aos nomes admitidos e não admitidos para o registo civil de recém-nascidos no âmbito  do Instituto dos Registos e Notariado.

 

Recentemente procedi ao registo do meu filho recém-nascido junto da 2ª Conservatória de Registo Civil e descobri nessa altura que podia usar o nome “Dinis” nesse registo, mas não podia usar a grafia “Diniz”. Posteriormente confirmei a correcção da informação dada pela funcionária através da consulta das listas de nomes admitidos e não admitidos publicadas no site do Instituto dos Registos e Notariado. Consultei igualmente a Lei nº 33/99, de 18 de Maio (com as alterações do Decreto-Lei nº 323/2001, de 17 de Dezembro e do Decreto-Lei nº 194/2003, de 23 de Agosto), onde se estipula que os nomes próprios devem respeitar a ortografia oficial.

 

Na sequência dessas consultas, gostaria de obter de V.Exas, se possível, o esclarecimento às duas questões seguintes:

 

1. Porque razão “Dinis” é uma grafia admitida e “Diniz” é uma grafia não admitida?

 

2. Que procedimentos devo adoptar para poder usar “Diniz” como nome próprio do meu filho caso seja essa vontade dos pais?

 

Agradecendo desde já a atenção dispensada, coloco-me ao Vosso dispor para qualquer esclarecimento adicional. 

 

Com os melhores cumprimentos,

 

Claro que não espero qualquer resposta e ficaria surpreendido se a recebesse. Mas acharia muito interessante descobrir qual a justificação para “Dinis” ser permitido e “Diniz” não. Consigo entender muita coisa no mundo. Mas essa não é uma delas.

Na mesma edição da Autêntica, cujo tema é o Dinheiro, vale também a pena ler o artigo de Jorge Fiel.

O título é “179.629,02”

O lead é “Arredondando, estamos a falar de 18o mil euros. É esse o dinheiro que a Sojornal, a sociedade proprietária do Expresso, vai pagar para se ver livre de mim. Ou, dito pelas palavras do advogado que redigiu o documento intitulado Cessação de Contrato de Trabalho por Mútuo Acordo, os 179.692,02 euros são a ‘compensação pecuniária de natureza global’ que ‘a Empregadora’ me paga ‘em contrapartida da cessação do contrato'”.

Alguns excertos:

“‘180 mil  euros? Não é mau…Podia ser pior!’ É a frase que ouço de volta sempre que me perguntam  quanto é que vou receber em troca de conceder ao Expresso o divórcio, amigável e por mútuo consentimento, de um casamento que durava há 17 anos”

“Por este artigo, a Autêntica prometeu pagar-me 600 euros. Não é mau. Podia ser pior. 636,50 euros foi o salário médio mensal recebido em 2006 pelos nortenhos que trabalham por conta de outrém. Eu escrevi este artigo em cinco horas”  

“Eu estou habituado a ganhar por mês aproximadamente o que o Cristiano Ronaldo ganha em quatro horas e meia. Não é mau. Podia ser pior.”

“É quase metade dos mil euros que Pimpinha Jardim pede de cachet para abrilhantar uma festa. A filha de Cinha (que a idade não perdoa, cobra apenas 500 euros para comparecer num evento) ganha esse dinheiro numa noite.”

“Soraia Chaves cobra 3500 euros por aparição num evento, sete vezes o cachet de Cinha e umas seis vezes mais do que vou receber por este artigo”

“23 mil euros era o salário mensal auferido por Paulo Macedo, director geral de impostos.”

“5780 euros é o ordenado máximo mensal  fixado por lei para a administração pública, tendo como referência o vencimento do primeiro ministro.”

“200.000 euros é a remuneração anual de Luis Nazaré, presidente do Conselho de Administração dos CTT.”

“200.000 euros é o valor anual da pensão de reforma que José Salter Cid, 53 anos, número dois da lista PSD candidata à Câmara de Lisboa, recebe na qualidade de aposentado da PT.”

“180 mil euros é o valor aproximado da indemnização que vou receber do Expresso.”

É o que se chama “pôr a boca no trombone”. Já vai sendo tempo de os portugueses porem de parte esse estranho pudor de falar do dinheiro que pagam ou recebem por o que quer que seja que façam. Tudo seria mais claro e transparente sem ele. Eu, como jornalista de topo na minha empresa e director de revista ganho 2000 euros por mês. Às vezes acho que é muito, mas na maior parte das vezes acho que é pouco… 

A nossa cultura, o que resta dela

“Our Culture, what’s left of it”

de Theodore Dalrymple

Descobri este interessante livro na edição original em inglês da Ivan R. Dee  numa loja FNAC.

Theodore Dalrymple é o pseudónimo de Anthony Daniels, um psiquiatra inglês que, motivado pelos ensinamentos da sua profissão,  deu por si a meditar sobre o sentido da vida e os grandes problemas das sociedades modernas. O seu pensamento é profundamente conservador e – talvez  por isso mesmo – é em muitos pontos bastante inovador. Andrew Keen, se não conhece, devia conhecer. Na página da wikipedia há um link para uma interessante entrevista a uma televisão holandesa.

 Vai comigo para férias!

Pago: a nova forma do dinheiro

Este video (dica Meios & Publicidade) foi premiado em Cannes por causa da critividade da campanha associada ao lançamento do Pago, um novo serviço financeiro do banco neozelandês ASB (e que aparentemente nada tem que ver com o serviço alemão com o mesmo nome) que permite criar um porta-moedas electrónico ao qual se pode aceder via internet ou telemóvel, o que significa que, usando as tecnologias de segurança que são usadas nos bancos, passa a ser possível fazer pagamentos em dinheiro directamente de telemóvel a telemóvel.

É verdade que já se podem fazer muitas operações financeiras por telemóvel, mas ainda assim este é um passo importante no sentido da wirelessização (agradeço alternativas…) da nossa vida quotidiana. Um dia, todas as operações serão assim tão simples. Porque, bem vistas as coisas, hoje começa a ser evidente que não há nada que façamos através de fios que não possamos fazer sem fios. E essa diferença não pode deixar de ter consequências sociais e mesmo civilizacionais.

A revista online Business 2.0 Magazine tem um longo artigo sobre a Web Semântica, recomendado por Nova Spivack, da Radar Networks, que aliás é abundantemente citado e referido no mesmo. Vale a pena ler e guardar para explicar aquilo que na realidade não é fácil de explicar: o que é afinal a Web Semântica?

Em parte – e isso é referido no artigo – já existem múltiplas manifestações de um funcionamento “semântico” na actual Web 2.0. O Netvibes, o Freebase (a propósito, já recebi um convite para testar em beta e estou a começar  trabalhar com ele; irei dando relato disso), algumas funções do Flickr, o próprio algorítmo do Google são bons exemplos. Mas este é um processo que está apenas no princípio e cujas manifestações serão cada vez mais frequentes resultando da combinação entre a Inteligência Artificial (nas máquinas) e a Inteligência Colectiva (entre as máquinas). As múltiplas start-ups que se perfilam no sector da Web Semântica – a Radar Networks é apenas uma delas – vão certamente trabalhar neste sentido.

Afinal, como julgavam que seria a inteligência artificial? Algo como o Hal9000 de “2001 – Uma Odiseia no Espaço“? Não, nada disso. A Inteligência Artificial do futuro é aquilo que já podemos pressentir na actual Web 2.0 e que a Web Semântica irá materializar nos próximos anos. Bem-vindos ao futuro!

Tim como cantor de rua

O que é que este video de Tim para a revista Sábado nos diz sobre a qualidade artística? É o Tim que não convence ou são os cantores de rua que são todos excelentes?

Uma excelente ideia da Sábado que, criando o facto em vez do reportar, está para além do jornalismo. Mas, com isso, indica o caminho ao jornalismo.

Uma ponte simbólica

Fernando Alves, na TSF, com a sua perspicácia habitual, captou o essencial desta história aparentemente comum. Uma ponte, no âmago de um escândalo de corrupção no Brasil conhecido como Operação Navalha, liga “nada” a “lugar nenhum” e assim se converte numa ponte simbólica. Vale a pena ouvir o audio de Fernando Alves, – aqui enquanto se olha para esta insólita imagem.

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(imagem retirada do Castelo dos Destinos Cruzados; o site da Globo tem um video aqui)

Daniel Gilbert, autor do livro “Stumbling on Happiness” vai ser um dos oradores numa conferência sobre o assunto a realizar na Culturgest de 31 de Maio a 2 de Junho, juntamente com outras “estrelas” como Darrin McMahon, Ruut Veenhoven, Gilles Lipovetsky e Eva Illouz.  Um elenco fenomenal para  um evento no qual a entrada é gratuita.

Segundo o Público, que publicou um extenso trabalho sobre Daniel Gilbert no P2 de sábado, o livro será em breve editado em Portugal com o título “Tropeçar na Felicidade”, pela Estrela Polar, da Oficina do Livro. Tem sem dúvida todo o  perfil de um best-seller (embora, segundo o autor, este não seja um livro de auto-ajuda, mas um livro para o qual as pessoas se virarão “quando tiverem comprado um livro de auto-ajuda, feito tudo o que esse livro aconselha e continuarem a sentir-se infelizes” – do referido artigo do Público)

Dan Gilbert foi um dos participantes na TED Condeference de 2004, com uma apresentação que naturalmente já abordava o tema em moldes semelhantes àqueles que será lícito esperar da conferência de Lisboa. Em jeito de antecipação, aqui está o video dessa TED Talk.

Reacção anti-Gore

A teoria do aquecimento global tornou-se tão dominante, que esta reportagem do Channel 4 inglês (1h13m) tem o seu interesse. Este é um video alojado em vários sítios (download de alta definição via bit torrent aqui), mas que eu descobri por ser um dos mais linkados na Viral Video Chart, que o descobriu em primeiro lugar no “nosso” Impertinências. Pode ou não ser aquecimento, mas sem dúvida que é global.

 

As grandes questões

A conferência TED2007, que se realiza entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, em Monterey, California, terá como tema As Grandes Questões:

  • Who are We?
  • What is our place in the Universe?
  • What is Art? – is beauty just a human invention?
  • What is Love – and why are we so bad at it?
  • What is Evil? – and how do we fight it?
  • What are the most Gorgeous New Things being created in our world?
  • Are we inadvertently creating New Forms of Life?
  • What are today’s most significant Cultural Trends?
  • What will the Future be like?
  • What are the Problems I should be most worried about?
  • Who will be the next President? 
  • What will be my Legacy?
  • A ideia foi expressa por Chris Anderson numa conferência Poptech e suscitou o interesse da blogosfera: aqui, aqui, aqui aqui e mais ainda aqui (e, já agora, também aqui). Anderson afirma que no mundo moderno nos aproximamos de um estado de abundância de recursos que altera o paradigma em que funciona a ciência económica. A questão que se coloca é se as leis da economia servem para um estado de abundância da mesma forma que servem para um estado de escassez de recursos. Esta é para mim uma questão em aberto, à qual certamente voltarei, uma vez que me parece crucial para entender o funcionamento moderno da indústria da informação e entretenimento. Este post destina-se, para já, a fixar (e partilhar) os contributos acima. Outros inputs são bem vindos.

    egoista-2.jpgNotável esta edição especial da revista Egoísta, editada pela Estoril-Sol, dedicada à PAZ. São 300 páginas com capa dura, como um livro de luxo, com colaborações de D.José Policarpo, Mário Soares, Kofi Annan, Dalai Lama. Adriano Moreira, Ramos Horta, Bento XVI, Al Gore, Fernando Nobre, Inês Pedrosa, Pesdro Tamen, Elie Wiesel, Francisco José Viegas, Mário Cláudio, Richard Zimler, José Manuel Mendes, Hélia Correia, José Eduardo Agualusa, Fernando Dacosta, João Aguiar, Agustina Bessa-Luís e muitos outros.

    A juntar às reflexões, está lá a excelente pintura (destaco Graça Morais) e a fotografia (notável a série de retratos de mulheres que fizeram a Paz com o seu corpo depois de uma mastectomia;  uma lição de vida).

     A edição é excelente e merece ser guardada. Mas, como sempre acontece quando contacto com a qualidade da Egoísta (desta vez ainda mais), não consigo deixar de reflectir, primeiro,  o quanto a ausência de contingências económicas estimula a manifestação dessa qualidade, e, depois, como isso só podia ser sustentado por um negócio tão àvido de “lavar” dinheiro como o Jogo. Isso ocorre-me quando folheio a Egoísta, mas, é curioso, não consigo deixar de pensar que tanta qualidade, em si mesma, só pode ser um bem.