Paulo Portas e Pedro Passos Coelho: um instantâneo.

portas

(via @poingg, em pic.twitter.com/qqdt0UZFd0)

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Hoje a Grécia enfrenta um momento histórico em que tem que decidir o seu futuro. Mas, bem vistas as coisas, isso pode ser apenas um detalhe – facilmente ultrapassável – no quadro geral das coisas. Como aliás tem acontecido desde sempre, na Europa, com todas as “manifestações de vontade” nacionais.

Desde o início desta crise sempre me perguntei porque razão a Alemanha recusava tão terminantemente desvalorizar a moeda europeia e as razões históricas sempre me pareceram insuficientes para o explicar. Por outro lado, não é plausível que o governo alemão aja por critérios não racionais. Muito pelo contrário: talvez seja difícil de os encontrar ou de os perceber, mas DE CERTEZA de há motivos racionais para a política europeia da Alemanha.

Há algumas semanas li um artigo de opinião num grande jornal europeu – não me lembro de quem nem em que jornal, sorry! – que dizia mais ou menos isto: a razão pela qual a Alemanha quer impor medidas de austeridade nos países do sul é para forçar a redução de salários nesses países e dessa forma aumentar a competitividade do espaço económico europeu face aos países emergentes. Uma espécie de – não “um país, dois sistemas” – mas sim “uma união, várias economias”. Ou, se quisermos, uma Europa a várias velocidades. Claro que se pode dizer que isso não é possível porque não há fronteiras financeiras – a moeda é a mesma e portanto a tendência para o nivelamento de preços e salários é inevitável – ou porque não há fronteiras demográficas – as pessoas podem migrar de um país para outro. Mas, mais uma vez, isso são apenas detalhes, que se resolvem quando e se o problema surgir. Vincular um país a um plano da austeridade que o obriga a pagar regularmente uma dívida monstruosa num prazo de 10 ou 15 anos é garantir que durante esse tempo esse país – a comunidade eleitoral – terá que aceitar politicamente um quadro de excepção com salários mais baixos. É esse o “frame of mind” actualmente vigente em Portugal. Não o é, obviamente, na Grécia. Manter um país dentro da união política mas fora da união monetária – que é o que a Europa vai fazer com a Grécia – é uma “pequena-grande” variante desta estratégia.

Esta parece-me de longe a melhor explicação até hoje para o comportamento aparentemente estranho da Alemanha no quadro europeu. Mas é apenas uma parte da explicação.

Se há coisa que os alemães sabem é que os países emergentes estão e vão continuar a  crescer muito acima média europeia e que isso prejudica a competitividade alemã.  Tradicionalmente, repunha-se a competitividade de um país através da desvalorização da sua moeda, que não é mais do que uma forma de reduzir todos os custos de produção, incluindo os salários. Acontece que, no quadro europeu, isso afectaria também os salários dos trabalhadores alemães. Com os planos de austeridade desenhados para os países do sul da Europa (que, parecendo diferentes são no essencial a mesma coisa: como reduzir massivamente os salários tentando manter a moeda única) a Alemanha procura preservar a competitividade alemã (e europeia!) sem afectar os seus próprios salários.

Mas – e esta é para mim a questão mais interessante – embora pareça uma manobra de ataque às economias do sul, esta é na verdade uma manobra de defesa por parte da Alemanha! Primeiro, é uma manobra de defesa dos salários dos alemães. E, depois, é uma manobra de defesa da integridade da própria Alemanha. Ou seja, a Alemanha está à rasca e  a sua obsessão com os planos de austeridade dos países do sul demonstra-o claramente.

Todos nós suspeitamos o que é que aconteceria se a crise (ou seja, redução de salários) chegasse à Alemanha nos mesmos termos em que chegou à Grécia ou está a chegar a Portugal. Penso que os próprios alemães têm medo disso. Aliás, devemos meditar se o que preservou a democracia e a a paz na Europa foi mesmo a união económica entre os vários países, como tantas vezes é repetido, ou foi afinal o período longo de prosperidade que ela permitiu e cuja factura agora pagamos. Os cínicos dirão que é sempre assim: a paz e a democracia não emergem por si e são sempre fruto da prosperidade. E vice-versa, naturalmente!

É disso que os alemães têm medo! E os outros povos também!

“UM POST POR DIA, DÁ SAÚDE E ALEGRIA!”

Este é um ditado muito antigo – e verdadeiro – que eu esqueci durante algum tempo, por causa da vertigem do twiiter, facebook e afins, mas que agora redescobri.

Stay tuned.

 

 

A economia precisa de ir ao psicanalista!

Parece que ontem os mercados – e imagino que as agência de rating também – reagiram positivamente ao acordo norte-americano para o aumento do plafond da dívida.

Ora, considerando que o aumento da dívida não é a solução do problema mas sim “O” problema, este é mais um indício da irracionalidade do sistema económico global em que vivemos. Recuperando conceitos dos princípios gerais da filosofia, o funcionamento do sistema pode até ter lógica interna, mas carece, manifestamente, de qualquer lógica externa!

Definitivamente, alguém devia levar a Economia ao psicanalista!

Network intelligence will end information chaos

In an interesting recent article called “Why we need the news to be chaotic“, Clay Shirky examines the future of news and concludes that media will have to try very diverse approaches, some profitable, some not.

I agree with him in most part, but I do not see the chaos as necessary but rather as a transitional period. It’s really not “the media” that are searching for a new business model; it’s society as a whole (even the civilization, if you want) that needs it, in order to maintain the “public good” of information spreading. And once it finds it, the “chaos” will be over!

Again, for me it all boils down to this basic idea: our information networks should be (and will be) – in fact CAN be! – inteligent enough to measure the value of the information they carry and reward it accordingly. This is what I commented on Clay Shirky’s website:

 

The “Gutemberg Parentesis” hypotesis – don’t know if ou heard of it – is propably the most fresh idea I heard recently about the future of news. The special report published yesterday by The Economist folows that same route. It’s possible that the business of news is not really the natural condition of news and that the end of scarcity on the offer side really puts an end to any viable possibility of a news business model.

But – that’s the main flaw of the The Economist’s report – we must not look at the past to forsee the future. We will not go back to coffee shops! Twitter and Facebook are the new cofee-shops and the conversation we had with a couple of friends we now have with hundreds chatting and thousands hearing and spreading the news. The conversations we had oraly we will now have digitally. And that is a huge difference! It´s all the difference really!

Our digitally coded and digitally transmited information allows us to “embed” meta-information on that stream. That is how the search engines work, that’s how the social graph works. The network is increasingly intelligent enough to know what I want when I want it. Make no mistake: it will be more inteligent in the future. Not the same, nor less; it will be more intelligent, I repeat! It’s not crazy to predict that one day it will be intelligent enough to measure the value of the information it carries and pay for it accordingly, without the intervention of humans. Our forefathers who discussed public issues in coffe-shops gained prestige when they had valuable opinions to put forth. In those days, that “value” could not be measured. It the future it will.

That rationale is the basis for my rough proposal of a “New Business Model for the Media”, that can be read in detail here: http://josemoreno.posterous.com/a-new-business-model-for-the-media. The media are now in dire need of it. But it really transcends the media, in the way that it allows a new range of possbilities for content creation and information transmission in the future.

 

 

The article is a worldview

“When people say they like newspapers and books they aren’t just talking about the physical form of them: the feel and smell, the portability and tangibility. They are talking about the finiteness of them. Articles and books have beginnings and ends; they have boundaries and limits; they are packaged neatly in boxes with bows on top; they are a product of scarcity. Abundance is unsettling. That is precisely why the internet is disruptive not only to business and government but to culture and cognition. Threatening the dominion of the article is to threaten our very worldview. “
Jeff Jarvis – “The Storyteller strikes back”

Reflexões eleitorais

Mais de duas semanas depois das eleições, acho que já tenho condições psicológicas para dizer duas ou três coisas sobre o assunto:

1. Afinal onde anda o povo de esquerda? Num quadro de condições económicas deterioradas e de imperialismo económico anunciado – a troika pode ser vista de muitas maneiras, mas também desta! – era de esperar que o país inclinasse para a esquerda. Como reacção ao que já conhece, mas também como acto de defesa em relação ao que se anuncia. Esse era aliás o pressuposto por causa do qual nunca acreditei numa maioria de direita. Mas a realidade desmentiu totalmente esse pressuposto. Se o resultado do PS foi aquele que se esperava, nem mais nem menos, o PSD (e mesmo o CDS) tiveram resultados inesperados, acredito,  até para os próprios.  O CDS está no patamar superior do seu eleitorado natural (entre 5 e 15%) e o PSD chegou a um bom resultado depois de uma primeira metade de campanha carregada de gaffes e indecisões (a este título, é curioso notar que a inversão se deu após o debate com Sócrates, o que – mais do que da importência dos debates – nos dá uma medida da importância da gestão das expectativas no combate político). O BE regrediu com estrondo, o PCP manteve-se estagnado e os pequenos partidos de esquerda não canalizaram o voto de protesto de uma maioria de desiludidos (em parte só o partido dos animais o conseguiu fazer). Ou seja, a esquerda, facto insólito e raro em Portugal, ficou em minoria.

2. O que aconteceu ao Bloco de Esquerda? É natural de esteja tudo ao soco dentro do BE. Afinal parece óbvio que o partido é responsável não só pelo seu súbito emagrecimento, como até pela subida ao poder de uma maioria de direita em Portugal. Dois grandes erros são apontados ao BE, um táctico e outro estratégico. O erro táctico foi a apresentação de uma moção de censura ao governo. Esse era um ónus que, na melhor das hipóteses, devia ter sido deixado ao PSD, e, na pior da hipóteses, devia ter sido activamente bloqueado pelo próprio BE caso percebesse – como parecia óbvio – que uma queda do governo, naquelas condições e com um presidente de direita, conduziria inevitavelmente a uma vitória do PSD em eleições. Ou seja: devia ter sido a direita e não a esquerda a despoletar a crise política. O erro estratégico do BE foi o de nunca ter assumido perfil de governo. Foi isto que verdadeiramente o povo português não lhe perdoou. O BE foi inconsequente e deixou que essa inconsequência lhe fosse apontada durante demasiado tempo. Uma coisa é ser inconsequente com 4 ou 5% dos votos. Outra coisa é sê-lo com 10%. Porque 10% já servem para fazer uma maioria. Mas, na verdade – e espero que isto contribua para arrefecer as pulsões fratricidas dentro do BE… – qual era a alternativa? Poderia o BE sequer ponderar viabilizar um governo de Sócrates (não por causa de Sócrates, mas por causa das políticas de Sócrates)? Claro que não podia! Às vezes esquecemos-nos que são precisos dois para dançar o tango (para usar uma expressão famosa…).  E a deriva direitista de Sócrates foi, ao longo destes 6 anos, de tal ordem que na verdade não havia pontes possíveis entre a margem direita do bloco e a margem esquerda do PS. Tão simples como isso. Se isso vai mudar agora? Claro que vai. Talvez do lado do PS, talvez do lado do BE, ou, mais provavelmente, do lado de ambos.

3. Mas, afinal, porque é que Passos Coelho ganhou as eleições? Esta é a grande incógnita sobre a qual – acredito – até dentro da equipa de Passos Coelho alguém mais lúcido estará a meditar. Ao longo da nossa história recente temos tido muitos líderes cujo poder lhes caiu no colo e poucos que o tenham conquistado. Passos Coelho é apenas mais um. Mas há aqui algo de diferente, embora ainda não suficientemente definido: a viragem à direita. Há muito tempo que fazia falta, em Portugal, um grande partido liberal. Eu já escrevi aqui sobre isso por várias vezes, como aqui e aqui. Será o PSD de Passos Coelho esse grande partido liberal de direita? E terá sido por isso que ganhou as eleições com tamanha clareza? É mais fácil responder sim à primeira do que à segunda! Que existe o espaço ideológico para um grande partido liberal de direita, isso parece evidente. E isso, em si, já é uma novidade. Não podemos ter para sempre um país ideologicamente inclinado à esquerda e é salutar que do outro lado haja ideias política ideologicamente sustentadas. O PSD de Passos Coelho tem sido coerente e arrojado nas suas posições liberais. Resta saber se o velho PSD clientelar e apolítico está pelo ajustes, o que só poderemos confirmar quando acabar o estado de graça  (porque em “casa onde há pão, todos estão contentes e têm razão”). Mas terá sido por isso que o PSD ganhou? Isto está definitivamente por confirmar. O que eu acho, sinceramente, é que, uma vez mais como tantas vezes ao longo da sua história, o povo português foi maricas e meteu o rabinho entre as pernas. Votou massivamente na troika e não no PSD. Votou com medo e por medo e pediu encarecidamente aos senhores estrangeiros para tratarem dele. Para o porem na ordem. O que o povo português disse em 5 de Junho foi que nós não sabemos tratar de nós e é preciso que venham uns tipos do estrangeiro tomar conta do pedaço. E para isso escolheram aqueles que lhes pareciam mais perfiláveis para capatazes: Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Se sim ou não os portugueses quiseram experimentar uma ideologia liberal de direita e se sim ou não vão gostar do que ela vai trazer (se Passos Coelho a conseguir materializar em políticas…), isso é o que veremos nos próximos anos. Uma coisa é certa: parece quase paradoxal dizê-lo no quadro de dificuldades com que nos debatemos, mas esta pode ser a grande oportunidade liberal em Portugal!

Defend… or attack?

In a recent post on GigaOm, Mathew Ingram looks at what he thinks traditional media companies need to learn from startups (following an also rich piece by Anil Dash and his presentation. Its a very interesting perspective.

The media business is not disapearing; it’s “just” completely changing. We live in a world that has much more information fluxes than any era in our past. And the role of media companies has always been to “mediate” the information fluxes. That mediation is more necessary now than ever was before. The problem is that other companies than the media are doing it, launching services that take advantage of technology to curate and filter information to meet the need of information consumers.

Why can’t media companies do it? Mathew Ingram lists some of the reasons. Most media companies are more focused on defending it’s past than conquering it’s future. They are like old animals in a jungle crowded with lethal predators (that don´t want the pray but only it’s nourish). The more they try to preserve its traditional profits in the new media landscape, the more they loose new ones. The other reason is that even the efforts many media companies do to stay ahead with change are limited by the constraints its internal bureaucracy imposes on them. Media should create fully independent teams or even new outside companies with none but one tie to the old: full acess to it’s content.

The content media companies have at its disposal, either archived or daily produced, is its great advantage in today’s highly competitive media landscape. The problem is that many times they just don´t know how to use it other than in it’s paper or website formats. In some cases they don’t even suspect there can be other uses for it.

An independent or outside unit, hoghy focused on inovation through technology, would call most today media companies its paradise. They just call it their hell!

Will online news revenue ever reach that of printed news?

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This infographic published in Paidcontent.org (and made by Scout Analytics) is very interesting in various ways.

First because it reflects one of the greatest changes the media landscape has suffered ir recent years (and is still experiencing): the current abundance of information as opposed to its previous scarcity has the effect or lowering the value of each information unit. That is the most solid argument against the possibility of the media ever discovering an alternatively sucessful business model. The problem is that argument departs from the assumption that the social role of the media would be the same in a new information environment. It will not! Maybe the social role of the media in the new world of abundant information will no longer be to carry scarce and valuable information but rather to filter and curate the referred abundance of information, which may turn out to be just as valuable. We’re not sure that is the way we’re heading, but we cannot also be sure it insn’t.

Secondly, that infographic draws its conclusions from the comparison between a reality in which media use printed paper to carry information and another reality in which they use digital processing. The two realities simply aren’t comparable. Why? Because one is “intelligent” and the other isn’t hardly as much (per comparison, it may well be considered “dumb”). The digital processing and distribution of information has been made possible by advancements in science that could not be forseen. Why would not the same advancements in science allow an “intelligent” and efficient allocation of revenue to the bits and pieces of information that flow through the web? If we can control that information in a greater number of its variables why would we not be able to control its cost and attribute its correspondent revenue? We don’t do it today, but I see no reason why we should not do it tomorow. And, of course, on that day the link between the production of content and its monetization will again be established, now in the digital world.

My presentation to WAN-IFRA Iberica 2010

This is my presentation to the WAN-IFRA Iberica 2010, that took place ina Madrid almost an year ago.

In the context of the roundtable regarding “pay per content and revenue generation models in digital markets” (in which there were representatives from El Mundo, ABC e El Confidencial, among others) the debate was very interesting and got me thinking about this issue. The notion that there was money flowing that simply was not paying for the content whose value generated it was the spark to this.

PresWan-IfraMadrid2010http://www.scribd.com/embeds/54171674/content?start_page=1&view_mode=slideshow&access_key=key-1zaat48vx3eymqf3ksf6

A new business model for the media

I’ve been a newspaper guy all my life and I’ve always respected very much the social role of the media in society. And I really think that role is even more crucial today than ever before.

But I’ve always paid extreme attention to the new ways information flows in society and experimented with most of them: blogs, social media of all kind, video and audio sharing, etc. And I really think the freedom of information that is changing society (and the world…) is ultimately a good thing.

 Last year I paneled in a WAN-IFRA international gathering in Madrid in which the issue of online media monetization was debated. And – summing up all the opinions – it became gradually clear to me that if news media really wanted to make money online, they needed a very different approach than the ones they were trying and that neither the paywalls (however sophisticated) nor the apps would be the definitive solution. In the following months I evolved this new business model for the media in the digital age, which I think responds to the needs of information consumers but also of the media companies, as well as those of society as a whole.
 

In the business model of the traditional media – that served well for decades both the consumers and the producers of information – the price paid for those who bought a newspaper or a magazine was redistributed through the chain feeding the necessary professional operations of each and every agent of the process. In the current business model of the digital distribution of  information, the client also pays a fee for the broad spectrum of information he gets, but that money is not redistributed to the chain. This business model proposed explains why and how that should be done.

In the backbone of this new business model for the digital media is this basic ideia: there is not enough intelligence in the network. If we want navigation to me seamless and profitable, we got to have a network that is smarter and capable of measuring and value the content that is channeled. The business model also explains how it can be done.
In this blog I will evolve this issue as a work in progress. I will refer to the posts and documents that led me to this conclusion and will try to illustrate in which ways this business model responds to the ongoing debate about the viability of the media companies in the digital age. That is why I called it SmartMedia!

Of course, all kind of commentaries are welcomed, especially those that point to flaws in the system.


 

A New Business Model for the Mediahttp://www.scribd.com/embeds/54092244/content?start_page=1&view_mode=list&access_key=key-9dldvb5kgkf8abhrvce

Duas expressões cunhadas por Miguel Sousa Tavares no Expresso de ontem que devem ser registadas para referência futura:

1. “prostiuição moral”, a propósito do programa “Casa dos Segredos”, da TVI;
2. “arteriosclerose ideológica”, a propósito da reacção do PCP ao Nobel da Paz.

Nokia N97 Mini: o telefone “amigo” dos jornalistas

Claro que a Nokia nunca pensou nisto nestes termos. Mas, a verdade verdadinha, é que o N97 Mini é bem capaz de ser o melhor amigos dos jornalistas num mundo em transição. Explico porquê:

Eu cá sempre achei piada aos Nokia que se abriam e revelavam um teclado de tamanho quase real com um monitor que ao pé dos restantes telemóveis parecia um plasma. Mas o reverso da medalha era serem tão volumosos e pesados como tijolos. E, na altura, nem sequer havia ecrãs tácteis.

Recordo-me que, na primeira vez que toquei num ecrã táctil, achei a coisa um pouco mágica. Bem, muito mágica, na verdade. Percebi logo na altura – e tenho vindo a solidificar essa opinião desde então – que tocar com o dedo no ecrã ou premir uma tecla eram duas coisas muito diferentes e que este interface seria pouco menos que revolucionário. Hoje, ser visto com um telemóvel sem touchscreen é quase uma vergonha.

Os meus primeiros textos com o jornalismo na ideia foram escritos numa Olivetti com teclado em Azert (“O Mundo em Azert”, recordam-se?) comprada na Feira da Ladra.  Sou por isso, espero que não velho, mas da velha escola. Na altura ainda se escrevia em laudas (o pessoal tecno que vá ao dicionário…).  O que quer dizer que os jornalistas da minha geração, que são a maioria, passou da máquina de escrever ao computador, do papel ao digital e do teclado ao touchscreen num espaço de poucos anos. É assustador e muitos não resistiram.

O Nokia N97 Mini, claro, tem as duas coisas. Tem um touchscreen como todos os outros, mas tem também um teclado… mini. Eu não sou muito de gostar de dar nas vistas, mas confesso que mais do que uma vez dei comigo a abrir vaidosamente o N97 Mini para escrever algo. Como ele tivesse algo a mais – e não a menos – que os outros. É uma sensação pelo menos retemperadora! Aliás, um amigo disse-me já ter visto alguém a teclar num N97 Mini com três dedos de cada mão como se fosse uma máquina de escrever. Se for para ficar, talvez seja de prever uma cadeira de N97 Mini nos cursos da Dactilografia (ainda há cursos de Dactilografia?)! Eu uso sobretudo os polegares. Aberto, com o teclado em baixo e o “monitor” de 3,2 polegadas ligeiramente inclinado, o N97 Mini parece mesmo um mini-computador. É delicioso. E, de certa maneira, reconcilia os jornalistas da velha guarda com o mundo moderno com que se confrontam. “I’m hip” e “i’m hippie”!

É essa, verdadeiramente, a magia do Nokia N97 Mini.

A vida dá muitas voltas e às vezes até nos faz verdadeiras reviengas…

Depois da decisão de suspensão de publicação da Automagazine e da perspectiva de desemprego, eis que surgiu a possibilidade de abraçar um novo projecto dentro da empresa: a sub-direcção do departamento de multimédia. O departamento de multimédia, tem a seu cargo a gestão das plataformas  de toda a presença online das publicações da Motorpres Lisboa. Ou seja, sites, fóruns, blogues, redes sociais, mobile, etc. É todo um mundo que agora vou começar a explorar.

Quem me conhece (e quem me acompanha no facebook…) já percebeu que esta é uma área de trabalho que me interessa muito e que me tem vindo a interessar cada vez mais. E, sinceramente, estou convencido que o futuro dos media passa por aqui. Por isso, o convite da Motorpress para participar na direcção do departamento tornou-se… irrecusável.

Obrigado a todos os que nesta fase conturbada elogiaram a Automagazine e mostraram preocupação pelo futuro profissional dos respectivos trabalhadores. Pela minha parte o futuro está assegurado e continua a passar… pela Motorpress.

Automagazine

Caros amigos,

Como todos certamente já perceberam, a Motorpress, pressionada pela quebra de vendas e de facturação publicitária, decidiu encerrar duas revistas – entre as quais a Automagazine – e fazer o despedimento de 28 pessoas, das quais 11 jornalistas – entre os quais eu.

Naturalmente, esta não é uma decisão que eu tomaria e não concordo com ela. A Automagazine é uma boa revista e, resistindo durante esta fase de crise que atravessamos, tinha condições de continuar a ser a revista de sucesso que sempre foi. Mas a Motorpress, num processo iniciado em Estugarda, decidiu diferentemente. Lamento-o e penso que a Motorpress também o virá a lamentar um dia.

Pela minha parte, levo a mágoa que não ter conseguido conduzir a Automagazine a bom porto. Lamento-o pelos muitos leitores fiéis que nos acompanharam ao longo destes anos, pelos excelentes jornalistas que passaram por esta casa e, sobretudo, pela revista, que merecia mais e melhor.

Mas, olhando para trás, fico orgulhoso do percurso que fizemos. Creio que fizémos uma boa revista, da qual nos podemos orgulhar. O  que a derrubou foram as contingências do mercado e a interpretação – a meu ver errada – que deles foi feita por quem tinha que decidir.

A mim pessoalmente, o tempo passado à frente da Autmagazine, deu-me os melhores momentos profissionais que vivi até hoje! E dá-uma uma experiência de vida que – não o duvido – ser-me-á muito útil no futuro. Para mim, esta é uma oportunidade que abre novas rotas de evolução profissional. Há alguns projectos que gostaria de levar por diante, mas por enquanto são apenas projectos. Quando forem mais do que isso, os meus amigos serão naturalmente os primeiros s saber deles.

O meu obrigado a todos os que me deram uma palavra amiga neste momento difícil. Bem hajam!

Esta crónica de Pacheco Pereira publicada no jornal Público- o já famoso TDACHSR, Transtorno do Déficit de Atenção Cívica com Hiperactividade Social – é obviamente uma cortina de fumo. José Pacheco Pereira empenhou-se fortemente neste ciclo de eleições e desenhou uma estratégia ganhadora que até tinha uma líder com o “perfil” certo para a levar por diante. Mas,ao que parece, a “actriz” não esteve à altura do argumento (um plot à volta da um PM autoritário e asfixiante) e até os realizadores eram fracos. Se Manuela Ferreira Leite saiu queimada, JPP saiu pelo menos muito chamuscado. Esta é uma forma de desviar as atenções e tentar reconquistar o seu prestígio de “analista” (e como a palavra se adequa neste caso…).

Por isso, analisar a substância do que ele escreve é um exercício enganador. Mas não é fútil. JPP olha a questão como um problema de política nacional, mas é claro que o problema é muito mais do que isso. Como sabe qualquer especialista em novos media, há muitas consequências dúbias e alguma perigosas destas novas plataformas de comunicação. Levantaram-no pessoas 1.0 ou mesmo 0.0, mas até alguns analistas “de dentro” do sistema, como Andrew Keen. É nesse plano que a questão se coloca (não é um problema nacional e muito menos de política nacional, como sugere JPP).

O mais curioso é que a crónica de JPP surge no mesmo jornal em cujo editorial @JMF1957 critica – e com razão! – a forma irracional e inexplicável como uma futilidade como um video feito há 2 anos por Maitê Proença entrou no topo da agenda e até no mainstream media. Aparentemente, esse seria o melhor exemplo para sustentar a tese de JPP.

Talvez… Mas a mim parece–me que este video – e a forma como ele se propagou – não tem na realidade uma função informativa, mas sim uma função fática: propagou-se porque através dele uma comunidade “testou” os seus laços comunicativos e assegurou-se de que todos falam da mesma coisa. É um “está lá?”; “Está.” colectivo. As pessoas não falam do video da Maitê por acharem que isso é importante; falam nele para confirmarem que continuam a falar umas com as outras e que continuam a falar todas do mesmo.

O problema com a tese de JPP é que isso já acontecia muita antes do Twitter, do Facebook ou até dos sms. Há anos recordo-me perfeitamente de as conversas de manhã no trabalhos serem o concurso ou o programa de humor de prime time da noite anterior. Também aí a primeira função da discussão era a própria discussão, ou seja, a partilha. E os temas não eram menos “alienados” nem “alienantes” que o video da Maitê.

Talvez essa necessidade seja mais premente agora que cada pessoa tem ao seu dispor um leque muito mais alargado de canais de informação e temas de interesse. Talvez isso torne mais necessário exercer a função fática da colectividade com mais frequência (ou com menos frequência mas – por isso mesmo – de uma forma mais visível). Talvez…

Mas isso não é o que JPP escreveu. E não tem nada a ver com política nacional…

P.S. À atenção de JPP: esta “reflexão” foi suscitada pelo, escrita no e distribuída através do twitter…

O problema do futebol

futebolO problema do futebol é que há muita gente a ver futebol que realmente NÃO GOSTA de futebol!

Na empresa onde trabalho há um tipo de que toda a gente gosta, que é correctíssimo e muito educado no trato com os colegas e que seria incapaz de fazer mal a uma mosca. E, no entanto, sendo adepto de um clube, alinha e faz piadas, algumas delas bastante rasteiras, sobre os adeptos do clube rival como todos os outros,  e  com uma satisfação e gozo evidentes. Eu não sou psicanalista, mas suspeito que, para este meu colega, o futebol tem uma função social e psicológica que está para lá do próprio jogo.  O que o leva a mandar um piada ao vizinho que não mandaria se a piada não fosse sobre futebol está  para lá do próprio futebol.

Suspeito também que á isso que explica que o futebol tantas vezes emerja em reuniões de empresa ou atá em encontros de Estado quando se está a tratar de assuntos muito mais importantes que o futebol. Há algo de social e de psicológico no futebol que o leva a ter um peso anormal na sociedade. Isso nota-se em todo lado, a todo o momento. Basta abrir os olhos ou folhear um jornal. Exemplo: três diários desportivos que tratam sobretudo de futebol; futebol dia sim dia não nas primeiras páginas dos diários generalistas; vários programas de TV em que várias pessoas falam – só falam! – de futebol; etc; etc; etc.

Porque é que o futebol não tem o peso social que tem o andebol ou o atletismo? Porque á que o futebol se transformou neste fenómeno estranho que tudo e todos submerge? Quem olhar para o mapa-mundo do futebol não pode deixar de reparar que, no “mundo cultural”  em que o futebol como desporto está mais implantado, os países mais pobres e atrasados (na América do Sul) são aqueles em que o futebol tem uma relevância social maior, e os países mais desenvolvidos (norte da Europa) são aqueles onde tem menos, onde o futebol  é mais reduzido à  sua significância. Eu tenho uma explicação para isso, mas não é agradável: o futebol tende a assumir uma relevância social parecida com a dos outros desportos (o andebol ou o atletismo, por exemplo), nos paíes onde a racionalidade está mais presente no processo social e, inversamente, tende a ser mais relevante nos países onde a irracionalidade tem mais peso no funcionamento da sociedade. Por isso é que o futebol é o que é na Argentina ou no Brasil; e é o que é na Dinamarca ou na Noruega. Deste ponto de vista Portugal é, provavelmente, o mais sul-americano dos países europeus. Ou seja, o mais irracional!

E chegamos finalmente ao ponto essencial. Nesses países, onde grassa a irracionalidade social e reina o futebol, aquilo que se passa dentro das quatro linhas é apenas uma pequeníssima parte do fenómeno. Nesses países, o futebol tem muitas funções sociais (colectivas) e psicológicas (individuais) que estão para além do futebol. Num país perfeito, o futebol teria a mesma relevância que o andebol ou o xadrês. Claro que esse país não existe, mas…  se existisse seria assim!

Num país imperfeito, o futebol serve para um tipo mandar umas piadolas rasteiras ao parceiro do lado que, por boa educação, não mandaria se o assunto não fosse futebol. Serve também para uns grupos de jovens se juntarem para atirar pedras a outros grupos de jovens em vez de estarem num laboratório a fazer uma experiência de química. Serve ainda para dois ou três trabalhadores das obras falarem à  mesa de café e assim evitarem a evidência psicológica – que é dura… -  de que na realidade não entendem nada do que se está a falar a propósito eleiçoes em quem vão votar no domingo seguinte!

Nem o tipo que diz a piadola, nem os bandos de jovens, nem o grupo de trabalhadores das obras realmente gostam de futebol. Aquilo de que eles gostam é do que o futebol lhes proporciona para lá do futebol. Se fossem colocados na bancada a ver um jogo de veteranos entre o Desportivo da Carris e o Grupo Cultural da EDP ou um jogo de infantis entre o Alverca e o UDAL, quantos ficariam até ao final? Nenhum, provavelmente. E no entanto… é futebol.

Todas as coisas más que rodeiam o futebol – a violência física e verbal, as falcatruas, a falta de ética, os conflitos entre dirigentes, o excesso de protagonismo dos seus actores, a aparente inimputabilidade de tudo e de todos, etc, etc etc (são muitas as coisas más…) – derivam do que, no futebol, está para lá do futebol. O jogo em si mesmo não tem culta disso.

Por isso é que o grande problema do futebol – na minha opinião – é que há muita gente a ver futebol que na realidade NÃO GOSTA  de futebol e que, se tivesse que assistir a um jogo no qual não tivesse qualquer outro envolvimento – emocional, psicológico, social, etc – desistiria e iria fazer outra coisa. Sei lá, ver andebol ou jogar xadrês…

Mas, por outro lado, é também óbvio que é essa mesmo a grande riqueza do futebol: o facto de haver tanta gente – milhões! – a gravitar à  sua volta. É por isso que o futebol é o que é e tem a relevância social – e económica! – que tem. É o “desporto-rei”; é o “maior espectáculo do mundo”; etc. Se não fosse assim o futebol teria, em média, tantos adeptos como o andebol ou o xadrês. Seria perfeito…

[declaração de interesses: eu ADORO futebol, vou todos os domingos ao estádio e também mando a minha piadola de vez em quando. Mas não mando pedras… Bom, pelo menos nunca mandei… Ou seja, sou parte do problema]