Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg

Em Setembro de 2017, na semana anterior às eleições gerais na Alemanha, Mark Zucjkerberg fez um “live” no Facebook para explicar em detalhe o que estava a ser feito internamente para combater as chamadas “fake news”. Um trecho que passou despercebido à maioria das pessoas no seu longo discurso, mas que tanto Helen Lewis como Julia Lefkowitz  prontamente apontaram foi esta frase ao mesmo tempo irónica e assustadora: “Temos estado a trabalhar para garantir a integridade das eleições alemãs do próximo fim de semana.” O que é irónico é o facto de estarmos perante um executivo de uma multinacional de Menlo Park, California, a dizer que pretende assegurar a integridade das eleições num país estrangeiro. O que é assustador é que ele está a falar a sério!

Esta frase ilustra na perfeição tudo o que está errado no estado atual da relação entre estas novas poderás plataformas de informação da era digital e os tradicionais poderes reguladores dos países e da sociedade. Sejamos claros: o Facebook PRECISA urgentemente de ser regulado; mas a verdade é que NÃO PODE ser regulado pelos métodos tradicionais. Claro que haverá sempre alguém que possa dizer que devíamos voltar à era analógica e abandonar de todo o digital ou que, como outros monopólios nos passado, o Facebook devia simplesmente ser decomposto em empresas mais pequenas para aumentar a competitividade. Mas isso, claro, não passa de fantasias! O problema é que, se olharmos para o conjunto de notícias e artigos de opinião que têm vindo a circular a propósito da regulação do Facebook, reparamos que a maior parte deles apontam precisamente nesse sentido. E isso denunciam uma incapacidade quase generalizada de perceber até que ponto o Facebook é algo diferente de tudo o que conhecemos no passado. Eu acredito que primeiro precisamos entender realmente aquilo em que o Facebook é diferente para podermos sequer começar a pensar em como o devemos regular. A seguir explico porquê.

Há pelo menos quatro coisas fundamentais que hoje em dia já são perfeitamente claras sobre o Facebook e que precisamos integrar no nosso debate sobre como ele pode e deve ser regulado (coisa que raramente acontece).

1. O Facebook é uma plataforma. Ele existe para que outros agentes possam usá-lo para fazer determinadas coisas, quer seja partilhar as fotos dos seus gatos, propagar o conhecimento ou espalhar “fake news” acerca de alguma coisa. Tal como acontece numa plataforma de caminhos de ferro ou numa praça pública, cada agente é responsável pelos seus atos, dentro das limitações e constrangimentos da plataforma. Claro que esses constrangimentos influenciam aquilo que cada agente pode ou não pode fazer na plataforma, mas não o determinam. Essa é uma prerrogativo dos próprios agentes. Se nós atribuirmos ao Facebook o direito – ou, pior ainda, a missão – de permitir ou proibir determinados tipos de conteúdo, na prática o que estamos a fazer é a transferir a nossa própria agência no processo para uma entidade externa que não controlamos. Uso a palavra “agente” propositadamente: o “agente” tanto pode ser um indivíduo como um grupo ou uma fação. Quando celebramos as tecnologias digitais porque elas tornam mais fácil aos indivíduos e aos grupos ter uma voz ativa, estamos a incluir tanto os seus usos positivos como os seus usos negativos. Eu, por exemplo, sempre tive um posicionamento político mais à esquerda e sigo várias páginas grupos de Facebook associados à esquerda política em Portugal. Algumas delas poderão até ser o equivalente nacional (e esquerdista) do site norte-americano Breibart, frequentemente associado às “fake news” pro-Trump. Mas eu sei disso e integro esse elemento valorativo nas minhas escolhas informativas. Eu sei aquilo em que posso ou não posso confiar e sei como verificar se uma informação ou uma perspetiva é verdadeira ou fundamentada quando tenho dúvidas. Se permitirmos que seja o Facebook a decidir se determinados agentes ou os seus conteúdos são permitidos na plataforma, temos que possa vir a perder essas visões de esquerda, alguma delas radicais. Tal qual como acontece com um norte-americano de direita a propósito do Breitbart, por exemplo.

Infogram by Vanessa Otero.
Infogram by Vanessa Otero.

 

2. O Facebook é uma rede. Num sistema de distribuição de informação linear, nós podemos exercer regulação e controlo num qualquer ponto específico desse linear. No mundo dos mass media, a maior parte da regulação e controlo é exercida sobre os próprios media, ao nível do código de ética dos jornalistas, da lei da imprensa ou da televisão e até da lei da publicidade. Todas essas instâncias de regulação estão ausentes num sistema de distribuição de informação em rede, que estejamos a falar o Facebook especificamente ou da World Wide Web em geral. É verdade que atualmente o Facebook é quase tão grande como a própria internet. E isso devia preocupar-nos! Mas a verdade é que ainda não o é! Ainda continuam a existir nós da rede que estão fora do Facebook, assim como fluxos de informação entre eles.  Isso que significa que regular o Facebook, seja de forma for, seria ineficaz para qualquer coisa que aconteça fora do Facebook. Além de que, para o próprio Facebook – e de resto para qualquer outra plataforma de distribuição de informação –  ser objecto de regulação num quadro em que outras plataformas concorrentes não o são, seria naturalmente uma desvantagem competitiva a considerar. Ou seja, nós não podemos regular o Facebook – assim como as outras plataforma em rede – da mesma forma que regulávamos os mass media e o seu fluxo de informação linear.  Vivemos num novo paradigma de informação e comunicação e não podemos ignorar esse facto quando pensamos e debatemos novas formas de regular o Facebook e as restantes plataformas de distribuição de informação que funcionam na sociedade em rede.

regulação

desregulacao3. O Facebook opera em escala (global). Nós temos tendência a olhar para o Facebook (e para as restantes plataformas) numa perspetiva nacional, esquecendo que a rede é global e a plataforma é a mesma em todos os países. As formas e os valores segundo os quais um país poderia querer regular o Facebook são necessariamente diferentes do que seria propostos por outro país. Porque cada país tem os seus valores sociais, o seu sistema económico e, claro, as suas próprias leis e regulamentos. Face a alguns países o Facebook até pode acatar essa regulação, mas face a outros países isso poderá não acontecer. Claro que é possível argumentar que o Facebook tem as competências técnicas suficientes para servir a cada país a sua própria versão da plataforma. Mas é igualmente lógico argumentar que, quantas mais versões diferentes do Facebook existirem, mais difícil se torna para a plataforma operar da forma simples e intuitiva como faz hoje. Ou seja, as especificações nacionais para o Facebook apenas são concebíveis na medida em que não interfiram com a escala global na qual o Facebook opera. Porque a escala é um elemento central da forma como esta plataforma opera. As eventuais especificações nacionais ou regionais devem ocorrer “sobre” a plataforma (tal como acontece hoje) e não “na” plataforma.

facebook

3. O Facebook depende da escala (global). Como comunidade, nós ficamos particularmente preocupados quando o Facebook acaba por ter influencia em importantes decisões políticas  de âmbito coletivo devido às chamadas “fake news”. Mas a influência do Facebook vai muito para além disso. Aquilo que está fundamentalmente errado com o Facebook é a forma como o seu modelo económico incentiva as “fake news” tanto quanto o “clickbait” ou o jornalismo sensacionalista. Devemos recordar que os miúdos da Macedónia que parecem ter tido uma influência tão decisiva na eleição presidencial norte-americana o fizeram, não em nome de qualquer objetivo político, mas estritamente por motivos económicos. Por cada exemplo de “fake news” que nos possa indignar no Facebook, existem múltiplos exemplos de publicidade enganosa e títulos “clickbait” (muitos com origem nos meios de comunicação social) destinados a levar-nos a ver os anúncios num determinado site. O ecossistema comercial do Facebook incentiva isso mesmo e os utilizadores irão certamente continuar a fazê-lo, em primeiro lugar porque as ferramentas o permitem e em segundo porque é do seu interesse. O detalhe decisivo para entendermos esse ecossistema é que também é do interesse do Facebook que eles continuem a fazê-lo. Nós temos tendência a ver o Facebook como uma empresa gigantesca e extremamente lucrativa. E é-o de facto. Mas, se considerarmos todos o valor económico que foi desviado dos media tradicionais pela “disrupção” provocada pelo Facebook, então teremos que concluir que o Facebook devia ser ainda mais rico do que é. Dito de outra forma, o rendimento médio por utilizador do Facebook é significativamente mais baixo que o de qualquer meios de comunicação social no passado (o assunto foi objecto de uma tese de mestrado que pode ser lida aqui). O que isso significa é que: a) o Facebook precisa ser comercialmente agressivo na monetização das suas audiências se quiser ficar à frente da concorrência; e b) precisa da escala global para o conseguir. Ou seja, para o Facebook a escala global na qual opera não é apenas uma característica da sua tecnologia; é também uma condição dos eu modelo de negócio. E, portanto, enquanto for assim – e tudo indica que continuará a ser – o Facebook depende do próprio ecossistema que produz as “fake news”, o “clickbait” e o sensacionalismo que a sociedade deseja regular.

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O que tudo isto significa é que o Facebook não pode ser regulado como uma empresa normal. Porque não é uma empresa normal. É uma plataforma, é global e depende dessa escala global para funcionar e ser rentável. A sua regulação tem que ter em consideração o facto de que o Facebook deve ser capaz de proporcionar determinadas funcionalidades para os seus utilizadores sejam eles individuais ou coletivos, mais instruídos ou menos instruídos e localizados em Silicon Valley ou no Bangladesh. Cada tipo de conteúdo ou funcionalidade que um utilizador valoriza poderá não ser o mesmo ou a mesma a que outro utilizador dá valor. Por isso, regular esse tipo de conteúdo pode ser positivo para um utilizador, mas també pode ser uma forma de censura para outros.

Tal como a Alphabet, a  Amazon, a Tencent ou a Alibaba, o Facebook é um tipo de empresa diferente das que nós conhecíamos e opera em premissas distintas (opera segundo um paradigma diferente, para ser preciso). Doc Searls acertou em cheio num episódio recente do poscast “The Gillmor Gang”. Eis o excerto:

A maior parte da tentativas para regular o Facebook  e outras plataformas de informação semelhantes abordam a questão como se estas empresas fossem a NBC ou a Philip Morris, ignorando o facto de que se trata de plataformas (nas quais a agência dos utilizadores deve ser preservada), que são globais (e portanto devem servir diferentes culturas e legislações) e, sobretudo, que funcionam num ecossistema de distribuição de informação que é também um ecossistema de distribuição de valor e que, portanto, deve gerar lucro para as empresas que nele operam e para as próprias plataformas. É por não considerarem um ou mais destes fatores que a maioria dessas tentativas de regulação acabam por falhar.

No entanto, a questão subsiste: Como devemos fazer a regulação de entidades como o Google ou o Facebook, tendo em consideração que alguma forma de regulação é necessária?

Bem, de momento estamos apenas a começar a pensar no assunto. O Facebook, tal como outras plataformas de distribuição de informação, tem algo de valioso a oferecer aos seus utilizadores em termos de ferramentas e recursos sociais. Se não tivesse, não teria a massiva quantidade de utilizadores que reúne hoje em dia. Se quisermos regular o seu funcionamento sem pôr em causa as suas potencialidades, temos que ter em conta as suas características e a sua função social. Há três aspetos que, como já deve ter ficado claro, devem ser tomados em consideração nessa regulação:

a) Primeiro que tudo, a instância de regulação do Facebook tem que ser global ou tendencialmente global. Não faz sentido o Congresso dos Estados Unidos pretender regular o Facebook (ou a Google ou o Twitter) quando a maior parte dos seus utilizadores não vive nos Estados Unidos e muitos nem sequer falam inglês. Se uma plataforma como o Facebook existe e opera na maior parte dos países no mundo, então tem que ser uma instância transnacional correspondente a fazer a respetiva regulação. O problema é que não parece existir uma entidade ou instância supranacional que esteja legitimada ou mandatada para o fazer. Temos que criar essa legitimação supranacional.

b) Em segundo lugar, numa rede com a dimensão e o fluxo de informação que hoje passa pelo Facebook, não é de todo possível implementar controlos humanos para todos os conteúdos, sob pena de tornar a plataforma inoperativa. Ou seja, se muitos dos comportamentos “desviantes” dentro do Facebook são iniciados ou propagados através de automatismos de rede, então têm que ser implementados os mesmos tipos de automatismos para fazer o respetivo “policiamento”. Isso significa permitir ou autorizar que a inteligência artificial por detrás de sistemas como o Facebook possa tomar decisões em nome dos utilizadores e segundo algoritmos de policiamento funcionando autonomamente e automaticamente. Por mais assustadora que a ideia possa parecer, ela é a única compatível com uma rede com a complexidade do Facebook.

c) Por fim – “the last but not the least” – o modelo económico em que o Facebook funciona (assim como outras plataformas) também é parte do problema mais do que parte da solução. Se for verdade que o Facebook reduz o valor económico da informação – confirmando assim a tese de que, em situação de abundância digital, o valor da informação, enquanto bem económico, tende para zero – então o modelo económico no qual se baseia não pode deixar de ser considerado insustentável no futuro e em termos teóricos. A manifestação prática disso é a forma como já hoje o Facebook depende da escala global e da sua exploração comercial agressiva para ser lucrativo. Ou seja, estamos perante uma dissonância entre o valor social óbvio de uma plataforma de comunicação e interação social como o Facebook (que incrementa o capital social dos indivíduos e dos grupos) e a apropriação privada dos seus benefícios económicos. Essa dissonância precisa ser resolvida com um modelo económico diferente para o Facebook e para as plataformas globais de distribuição de informação semelhantes a ele. Que tipo de modelo económico é esse? Isso permanece uma incógnita. Mas esta é, obviamente, a questão mais complexa das três aqui enunciadas e aquela que, de certa forma, ainda nem sequer começou realmente a ser discutida.

O Facebook é provavelmente a mais visível e a mais questionada das novas plataformas globais de distribuição de informação. Mas não é a única. As soluções que forem encontradas para o Facebook serão certamente também implementadas nas outras plataformas semelhantes, como a Google ou o Twitter. Mas, mais uma vez, não devemos esperar que as soluções de regulação do passado nos sirvam neste caso e – de certa maneira – é um desperdício perder tempo com elas. Não produzirão os efeitos desejados e até poderão pôr em causa aquilo que de bom estas plataformas têm para nos oferecer enquanto comunidade. Por isso, temos que ter a coragem de perceber que precisamos de soluções novas para problemas novos.

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A polémica tomou de assalto a internet desde que a Google anunciou para Março a alteração das suas politicas da privacidade. De repente, não se fala de outra coisa nos podcasts que costumo seguir – as últimas edições do This Week in Google e do Gillmor Gang são disso exemplo – e nos blogues de referência.

Em geral, a discussão acaba sempre com a pergunta: será que a Google se tornou maléfica? O que não é uma maneira lá muito correcta de colocar a questão. Primeiro porque os conceitos de Bem e de Mal não se aplicam necessariamente (ou pelo menos não da mesma forma) aos negócios e às empresas. E depois porque – parece-me – por detrás deste movimento da Google, há uma reflexão mais profunda e importante que é preciso fazer.

Em primeiro lugar, convém perceber porque é que a Google decidiu unificar todas as políticas de privacidade dos seus variados produtos, permitindo assim gerar sinergias entre eles. Na minha opinião, a Google está assustada -muito assustada – com o sucesso do Facebook. Porque não o esperava. É óbvio que o modelo publicitário associado à pesquisa parecia à partida mais eficaz do que o mesmo modelo associado a uma rede social. Porque quem usa a pesquisa procura algo – e portanto a publicidade é altamente relevante – e quem se diverte numa rede social não procura senão estar com os amigos. São dois contextos muito diferentes e – parecia – com um potencial comercial muito díspar. Por isso é que a Google não se preocupou muito – de certa forma até desdenhou – os primeiros tempos de crescimento do Facebook. As primeiras redes sociais da Google (o Buzz, o Wave) pareciam mais instrumentos de trabalho do que de lazer.

Acontece que – com a chegada das marcas ao Facebook – Mark Zuckerberg criou um ecossistema comercial altamente atractivo quando combinado com os seus agora mais de 800 milhões de utilizadores (845 milhões, anunciado hoje). E de repente a Google percebeu que aquela conversa fiada do social pr’aqui e dos social pr’ali afinal… não era conversa fiada. E nesse momento o Google+ já estava demasiado atrasado em relação ao Facebook para poder ser “a” plataforma social tal como o You Tube é “a” plataforma de videos ou o Google Search é “o” motor de busca. Aliás, o atraso da Google no lançamento do Google+ é bem a imagem das suas hesitações nesta matéria.

Por isso, o que a Google pretende agora é utilizar o único trunfo que – olhando para a mão – lhe parece ainda ter: o potencial de integração do Google+ com os seus restantes serviços e sobretudo com a força do Google Search. Não é uma atitude de ataque; é uma atitude de defesa. A Google não quer conquistar algo; quer é não perder o que tem. E, por isso, vai favorecer os seus produtos na integração com o G+ e o Search. Tal como faria qualquer outra empresa na mesma situação.

Será que – tornando-se menos “neutra” – a pesquisa do Google se vai tornar menos “inteligente”? É uma boa questão. E suspeito que pensá-lo foi precisamente o erro da Google. De certa forma, todos os produtos da Google – dentro do espírito do motor de busca original – são manifestações de “inteligência”, ao contrário de uma rede social, que é (ou era vista), de certa maneira, como uma “coisa menor”. Se aplicarmos ao desenvolvimento das tecnologias de informação este quadro de análise – mais informação na rede e mais gestão dessa informação é mais inteligência colectiva – então podemos ter uma de duas opiniões: ou consideramos que o “social” fica fora desse quadro de análise (que foi o que pensaram os tipos da Google); ou achamos que a “inteligência social” de um programa como o Facebook é também uma forma de inteligência (que foi o que percebeu – se é que percebeu! – Mark Zuckerberg). O Facebook lembra-me quando é que os meus amigos fazem anos, diz-me que livros estão a ler, que filmes foram ver, como estão os filhos, etc. E isso é, provavelmente, muito mais importante do que saber que figuras históricas nasceram nesta data e quais os livros mais vendidos ou os filmes mais vistos. Porque nós somos sociais antes de sermos racionais. Na verdade – pensado no paradoxo da galinha e do ovo – de certa maneira já éramos sociais antes de sermos racionais.

Mas há outro aspecto – completamente separado deste – em que este alvoroço em torno da Google suscita reflexões interessantes. Que é este: para mim é sempre muito curioso ver a agressividade com que estas empresas – Google, Facebook, Twitter – procuram manter ou conquistar territórios negociais. Como se não soubessem muito bem o que é que na realidade fazem ou estarão a fazer daqui a 5 anos. E na verdade é isso mesmo que acontece. A Google é utilizada universalmente, o Facebook tem mais de 800 milhões de utilizadores e o Twitter está presente em todos os continentes e em todas as latitudes. No entanto, nenhuma as 3 empresas parece ter um modelo de negócio seguro (na verdade, o Twitter ainda está à procura dele). O Facebook, por exemplo, só hoje entrou em bolsa. E todas as valorizações incrementais que ao longo dos últimos anos lhe foram sendo atribuídas não eram mais afinal do que “expectativas de valor”, tal como, de certa forma, ainda são hoje, mesmo com a cotação em bolsa. Ou seja: percebe-se que qualquer destas empresas tem um potencial enorme, mas percebe-se pior qual é realmente o seu negócio do dia-a-dia, por comparação com essa expectativa. Mesmo no caso da Google. Claro que a Google faz milhões em publicidade, mas faz esses milhões com biliões de utilizadores e triliões de utilizações. Como sabe bem quem explora um media tradicional e o respectivo website, ganha-se mais dinheiro por cada “eyeball” no papel, por exemplo, do que com 100 na web. O que isso significa é que só a escala salva a Google (e o Facebook, que tem o mesmo modelo de negócio). Se não fosse a escala enorme em que estas empresas se movimentam – Google, Facebook, Twitter, etc – qualquer delas seria um insucesso económico. Porque é que não há concorrentes (reais) da Google ou do Facebook ou do Twitter? Já pensaram? É por isso mesmo: porque concorrentes mais pequenos não têm escala para serem rentáveis! Para termos uma noção da situação basta imaginarmos o que seria uma BP ou um Wal-Mart com mais de 800 milhões de clientes! É esta a escala a que operam estes gigantes com pés de barro!

Por isso é um erro dizer que estas empresas estão a mudar o modelo de negócio. Wrong! Elas estão a “pulverizar” o modelo de negócio! Isso sim! Como aliás os media tradicionais sabem muito bem.  É óbvio que elas estão a “desregular” algo, mas não é claro que estejam a “regular” o que quer que seja! Provavelmente ainda iremos descobrir que no futuro os negócios estarão organizados de uma maneira muito diferente. Ou até que não haverá negócios, apenas serviços sem fins lucrativos! Não sabemos como será o futuro. Mas sabemos que provavelmente não é isto que hoje temos: um gigante em cada sector, com uma escala enormíssima e uma rentabilidade minúscula.

O que parece – hoje – é que estes gigantes – Google, Facebook, Twitter — são mais plataformas do que empresas; são mais um serviço público do que um negócio. E é por isso – só por isso! – que esperamos que elas estejam do lado do Bem e não do lado do Mal! E é por isso que tantas vezes nos incomodamos e revoltamos com os seus “termos de serviço” e as suas “políticas de privacidade”. Alguém alguma vez procurou saber quais são os Termos de Serviço e a Política de Privacidade do Pingo Doce?

Isto está mesmo a mudar. Muito e depressa. Não sabemos é para onde!

Facebook is watching you!

Num artigo recente publicado no Expresso online e no Arrastão, com o título “Facebook is watching you“, Daniel Oliveira faz um paralelo entre as modernas redes sociais e o estado totalitário de George Orwell. O thread de comentários no Facebook também tem pontos de interesse.

Eu leio sempre com muita atenção o Daniel Oliveira, normalmente concordo com ele e muitas vezes fico surpreendido pelo perspicácia e criatividade das suas opiniões. É, provavelmente, no panorama comentarista nacional, a voz que acompanho com mais assiduidade e atenção. Mas este texto suscita-me alguma reflexões:

1. Em primeiro lugar é surpreendente que um analista e comentador normalmente tão arrojado do ponto de vista das ideias como o Daniel Oliveira seja neste aspecto tão conservador. Isso, de certa forma, não é atípico. A maior parte das pessoas olha para estes fenómenos novos com um olhar fixado nas categorias de análise habituais, que claramente são insuficientes para os explicar ou analisar. Por outro lado, é também interessante notar como, neste aspecto, a extrema-esquerda consegue ser tão conservadora como a extrema-direita. Isso dá bem uma imagem da magnitude das transformações que estão a ocorrer na paisagem mediática e social.

2. Descartemos primeiro a questão da legalidade face aos termos de uso do Facebook. Toda a gente tem direito a reaver os seus dados e apagar a sua conta do Facebook. Se no caso em concreto tal não aconteceu, isso é contrário às regras da própria rede social. Isso para mim é muito claro.

3. Depois descartemos a informação – recorrentemente repetida – de que o Facebook “vende” as informações aos estados ou às empresas sem autorização dos utilizadores. Há muitos rumores sobre essas acusações e “está na cara” que isso é uma tentação para qualquer rede social desta dimensão. Mas eu ainda não vi isso provado ou demonstrado com clareza. Suponho que isso está acautelado nos termos de uso e que estes são respeitados, mas nem disso tenho a certeza. Mudarei de opinião se me o demonstrarem. Outra coisa diferente é se isso se refere à publicidade que surge nas páginas do Facebook e que obviamente, é contextualizada em função dos dados pessoais de cada um. Esses dados foram de facto usados no “targeting” dessa publicidade, mas foram-no nos mesmos termos (mais ou menos…) em que a publicidade da Google é contextualizada. Ou seja, isso é algo bastante diferente e muito, muito mais complexo. Mas inevitável como manifestação de inteligência artificial. Resistir a essa contextualização da informação seria mais uma forma de conservadorismo.

4. Passemos então à “matéria de facto”. Na minha opinião, as redes sociais, tal como hoje existem são incompatíveis com as nossas leis em termos de bases de dados e protecção da privacidade. Podemos mudar as leis ou mudar as redes sociais, mas suspeito bem que vamos ter que mudar as leis. Não é possível, em termos práticos, usar uma rede como o Facebook e ao mesmo tempo cumprir todos os formalismos da lei portuguesa em termos de protecção de dados e autorização de divulgação dos mesmos. Pensem só neste acto tão simples que é eu partilhar com todos os meus amigos o post em que alguém diz que foi ao cinema e gostou do filme. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais à luz de um novo conceito de privacidade.

5. Por outro lado, há a questão do copyright em sentido lato. Os dados, informações e opiniões que nós veiculamos no Facebook são nossos, não são do Facebook. Se quisermos podemos retirar toda a nossa informação. Mas que sentido faz isso numa rede que vive da partilha dessa informação? Como eu comentei no post do Daniel Oliveira , os meus comentários a um post, por exemplo, são meus. Coloco-os de livre vontade e de certa forma dizem algo sobre mim a qualquer pessoa que os leia. Se eu amanhã decidir deixar o Facebook, devo levá-los comigo? Se sim, isso torna o post onde eles surgiram mais pobre porque torna o  diálogo irracional. Se não, é uma violação óbvia do meu direito a dispor dos meus dados. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais com um conceito diferente de copyright.

6. Como todos os paradoxos acima demonstram, o problema é bastante mais vasto e mais profundo do que o mero cumprimento da lei nacional (já para não falar do facto de o Facebook, o mesmo Facebook, operar em praticamente todos os países do mundo). A abundância e instantaneidade de informação nos dias que correm não pode senão deixar de ter consequências, tanto a nível do nosso entendimento da privacidade e do copyright como da forma como os enquadramos politicamente (as leis que protegem ambas as coisas). Para a maior parte dos jovens dos nossos dias o conceito de privacidade e de propriedade já é profundamente diferente do nosso. E sê-lo-á ainda mais no futuro. Aliás, nenhum dos conceitos foi alguma vez fixo no tempo, mesmo quando plasmado em lei. Basta pensar que há 50 anos seria considerado inadequado – do ponto de vista da sua privacidade – que um casal de namorados se beijasse  em público e hoje estamos no ponto de aceitar que duas pessoas do mesmo sexo o façam! Aliás, há 50 anos o casal de namorados seria provavelmente sancionado por conduta imprópria e hoje nem isso se pode apontar a um casal do mesmo sexo, mesmo que a muitos apetecesse fazê-lo.

7. O que isto quer dizer é que os nossos conceitos de privacidade e copyright (em sentido lato, mas também em sentido estrito) estão a transformar-se rapidamente e as nossas leis não os estão a acompanhar. Para mim, pessoalmente, do ponto de vista prático, o Facebook não é uma empresa. Não é sequer um serviço. É uma espécie de praça ou café onde encontro gente conhecida e gente conhecida de quem eu conheço. O que digo ou escrevo no Facebook esgota-se no momento. E não tenho qualquer interesse – a não ser por curiosidade – em saber o que pensei ou afirmei há 6 meses atrás. Claro que, se eu escrever que odeio o José Sócrates e depois o José Sócrates aparecer morto, isso provavelmente vai-se voltar contra mim (bem, talvez não porque nesse caso haveria muitos suspeitos…). Mas isso não é muito diferente de eu dizer no café da  vila que odeio o Zé Barnabé e depois ele aparecer morto. A diferença – significativa! – é que as apalavras leva-as o vento ou morrem com as testemunhas e aquilo que escrevo numa rede social é perene e dura para sempre.

8. Por isso é que eu acho fundamentalmente conservadoras as posições como aquela que foi acima expressa pelo “revolucionário” Daniel Oliveira. Nós não sabemos de que forma a transformação que está a ocorrer nas tecnologias de transmissão e acumulação de informação vai modificar a sociedade, as leis, a política ou até a psique do ser humano. Mas podemos ter a certeza que vai impactar todos esses aspectos. A nossa responsabilidade intelectual é – penso eu – sermos capazes de olhar para estes fenómenos com uma mente aberta e tentarmos perceber para onde eles nos levam e não de onde eles nos trazem!

The social network

Acabei de vir da ante-estreia do “The Social Network” – “A Rede Social” (Obrigado, Espadinha!), a aguardada “história” não autorizada do Facebook e de Mark Zuckerberg. E há dois ou três aspectos que gostaria de destacar:

1. Gostei do emaranhado da narrativa e da forma como os diálogos, os planos e a trama vão evoluindo de rápidos para lentos. Começa com um ritmo tão frenético que quase custa a acompanhar e termina, simbolicamente, com um longo plano de Zukerberg frente ao computador. É uma espécie de desconstrução e decomposição do ritmo acelerado da realidade de forma a permitir-nos focar-mo-nos nos seus componentes de base. Bom.

2. Uma das mensagens fortes do filme – mais uma vez simbolizada no plano final – é a enésima representação do aforismo “it’s lonely at the top”.  Não é o primeiro nem será o último filme a fazê-lo. Tantos acontecimentos depois, Zuckerberg acaba tão sozinho como começou e a pedir amizade à ex-namorada em nome de quem tudo começou. O vencedor está sempre sozinho, mesmo quando está rodeado de gente. Essa é a grande ironia do sucesso.

3. Outra das mensagens fortes do filme é esta: o sucesso só é atingível com persistência. Uma ideia realmente boa merece antes de tudo o respeito de nela persistirmos.  No filme, Zuckerberg perde namoradas, amigos e até ídolos para conseguir materializar aquilo que ao longo de boa parte do filme não passa de uma “boa ideia”. Mas consegue! Uma lição para todos nós.

4. Este é um filme sobre “nerdness”. Afinal o que é um “nerd” informático? A resposta está no filme. É preciso perceber – para quem ainda não percebeu -que um “nerd” da informática programa (digo eu que não sei código…) com o mesmo envolvimento com que um poeta escreve poemas ou um pintor pinta quadros. Não sei se o episódio é verídico, mas é por isso que Zuckerberg diz que criou um programa para a Microsoft ainda na adolescência e que fez o respectivo upload “porque sim”.  Um poeta escreve poemas mesmo que ninguém os publique. Um programador programa mesmo que seja só pelo gozo de fazer coisas. É esse “gozo” que transparece no filme e dá a mais completa definição do que é um “nerd”. É preciso perceber isso para perceber o estado actual da indústria informática.

5. É impressão minha ou a determinado ponto traduziram “Linux” por “Linus”? Daah!

(adenda) Outra coisa: É interessante (não disse significativo, disse apenas interessante) que a maior rede social do nosso tempo tenha sido inventada por um inepto social. É incontornável que isso diga algo sobre a sua rede (mais precisamente que está “em vez de”, a maior crítica que lhe é feita, e que aliás o filme também veicula), mas, sobretudo, questiona-nos sobre a natureza destas redes sociais face às redes cara-a-cara e sobre a relação entre as duas. Estes é um fenómeno que – parece-me – ainda está por compreender na sua plenitude.