A propósito da crise grega, voltei a ouvir uma expressão que já não ouvia há anos: “a esquerda democrática”. O tempo é outro e o contexto é certamente diferente, mas a expressão – curiosamente – é a mesma.

Lembro-me bem de qual era o sentido com que era usada há 20 ou 30 anos em Portugal. Falava-se da “esquerda democrática” por oposição a uma esquerda que implicitamente (implicitamente na expressão e explicitamente no discurso) se considerava “não democrática”. Claro que sempre me fez confusão a forma como esse “nós-vs.-eles” impunha uma definição de democracia. Como se esta fosse uma palavra monossémica, quando na realidade é uma da palavras mais polissémicas que existe. Isso sempre me pareceu injusto e intelectualmente abusivo, mesmo quando a acepção de “democracia” era aquela com que eu concordava. Não há uma “democracia”; há vários tipos de “democracia” porque há muitas acepções diferentes da palavra “democracia”.

Curiosamente, a expressão “esquerda democrática” quase desapareceu do discurso político durante os últimos 15 a 20 anos. De certa forma porque o discurso político em Portugal interiorizou que os partidos à esquerda do PS , do PCP “para lá”, não contavam para aquilo que muitas vezes se chamava “o arco da governação” (que incluía, naturalmente, a tal “esquerda democrática”). De certa forma gerou-se um consenso, a que os próprios certamente chamariam “consenso democrático” (lá está!), sobre o modelo de sociedade que estava a ser construído e no qual as regras do “jogo democrático” (algumas regras formais mas muitas informais) desempenhavam um papel conciliador e unificador. Durante anos discutimos a política dentro do contexto desse consenso e raramente saindo dele.

Por isso é que torna irónico que a expressão regresse agora a propósito da situação na Grécia e das aritméticas eleitorais dela resultantes. Já ouvi a expressão “esquerda democrática” em notícias , comentários e análises. Ainda não percebi muito bem quais são os partidos da esquerda grega que estão dentro ou fora da chamada “esquerda democrática”. Mas já deu para perceber que, subitamente, a esquerda “não democrática” (o que quer que seja que isso significa; é um vocábulo pelo menos tão polissémico como o seu oposto…) é ou pode ser maioritária. Ou pelo menos tão numerosa ao ponto de impedir o tal consenso que aparentemente vigorava lá como cá. E isso é uma situação nova. De repente o consenso dentro do qual a sociedade política grega evoluiu nas últimas décadas quebrou-se ao ponto de voltar a ser necessário usar a dicotomia “esquerda democrática”/”não democrática”.

E isso, em si mesmo, pode ser um indicador muito interessante. Pode significar – é apenas uma hipótese! – que o arco temporal que medeia entre esse tempo e o que hoje vivemos se fechou. E que o processo de construção social que então se iniciou, com participação de todas as forças políticas (não apenas partidos…) da “área democrática”, falhou! Falhou, ao ponto de voltar a ser necessário contar com  forças consideradas “não democráticas” e portanto não passíveis de consensos.

Deste ponto de vista, Grécia e Portugal (como de resto outros países da periferia europeia) têm percursos históricos muito semelhantes. E o que isto pode significar, no fundo, é que o movimento histórico profundo de aproximação ao norte da Europa (por aglutinação) terá falhado para os dois países (e outros em situação semelhante). E que o sonho de uma Europa homogénea terá ruído definitivamente. E isso é uma má notícia. Porque uma Europa desunida é uma Europa mais fraca. Hoje ainda e muito mais do que há 50 anos atrás.

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A eleições de 5 de Junho serão certamente as eleições menos democráticas de sempre na história da democracia portuguesa.

Porquê? Por duas razões. A primeira é que já existe um programa de governo mesmo antes da realização das eleições.  Quem quer que seja eleito para o próximo governo, não vai fazer nem mais nem menos do que aplicar o programa da “troika”. Ou seja, tudo aquilo que os candidatos disserem em campanha eleitoral é irrelevante. As ideias são despropositadas e os programas não podem ser outros do que aqueles que estão escritos no documento da “troika”. Não há posições mais à esquerda ou mais à direita; aquelas que forem esgrimidas em campanha são “areia para os olhos” dos eleitores. Não vai haver uma governo tendencialmente mais à direita ou um governo mais à esquerda, seja liderado pelo PSD ou pelo PS. O que vamos eleger no dia 5 de Junho são os “funcionários” que vão executar um plano que já está traçado. E mesmo que alguns candidatos falem em medidas “alternativas” ou “adicionais”, isso não passa de falácias: aquilo que interessa está decidido e o que não está incluído no acordo só será permitido se não o beliscar. Ou seja, se for… irrelevante.

Mas há outra razão pela qual a próxima eleição será a menos democrática de sempre da história democrática portuguesa. É que temos esta circunstância original de três partidos concorrentes às eleições – PS, PSD e PP – já terem dado o seu acordo ao programa de governo, contra outros que se recusaram a fazê-lo – nomeadamente o BE e o PCP. Isto significa que também já sabemos, em parte, quem é que vai ser governo. Só não sabemos se sozinho ou acompanhado, por um ou por dois outros partidos.

Tudo isto é muito pouco para votar numas eleições legislativas!

Na verdade, bem vistas as coisas, só há – de facto! – dois partidos concorrentes às próximas eleições: o partido do FMI e o partido contra o FMI. Qualquer voto num dos 3 partidos do chamado “arco governativo” é um voto a favor do FMI e é irrelevante na sua distribuição, pelas razões expostas acima. E qualquer voto em qualquer dos restantes partidos será um voto contra o FMI e igualmente irrelevante na sua distribuição. Esta será, de certa forma, a única escolha democrática que está realmente em causa. O “partido do FMI” conseguirá um bom resultado se conseguir uma maioria estável, qualquer que seja a combinação partidária. O “partido anti-FMI”, por seu lado, terá um bom resultado se conseguir impedir essa maioria. O primeiro objectivo é fácil; o segundo é quase impossível. Mas é, realmente, o único que é politicamente relevante.