Facebook is watching you!

Num artigo recente publicado no Expresso online e no Arrasto, com o ttulo “Facebook is watching you“, Daniel Oliveira faz um paralelo entre as modernas redes sociais e o estado totalitrio de George Orwell. O thread de comentrios no Facebook tambm tem pontos de interesse.

Eu leio sempre com muita ateno o Daniel Oliveira, normalmente concordo com ele e muitas vezes fico surpreendido pelo perspiccia e criatividade das suas opinies. , provavelmente, no panorama comentarista nacional, a voz que acompanho com mais assiduidade e ateno. Mas este texto suscita-me alguma reflexes:

1. Em primeiro lugar surpreendenteque um analista e comentador normalmente to arrojado do ponto de vista das ideias como o Daniel Oliveira seja neste aspecto to conservador. Isso, de certa forma, no atpico. A maior parte das pessoas olha para estes fenmenos novos com um olhar fixado nas categorias de anlise habituais, que claramente so insuficientes para os explicar ou analisar. Por outro lado, tambm interessante notar como, neste aspecto, a extrema-esquerda consegue ser to conservadora como a extrema-direita. Isso d bem uma imagem da magnitude das transformaes que esto a ocorrer na paisagem meditica e social.

2. Descartemos primeiro a questo da legalidade face aos termos de uso do Facebook. Toda a gente tem direito a reaver os seus dados e apagar a sua conta do Facebook. Se no caso em concreto tal no aconteceu, isso contrrio s regras da prpria rede social. Isso para mim muito claro.

3. Depois descartemos a informao – recorrentemente repetida – de que o Facebook “vende” as informaes aos estados ou s empresas sem autorizao dos utilizadores. H muitos rumores sobre essas acusaes e “est na cara” que isso uma tentao para qualquer rede social desta dimenso. Mas eu ainda no vi isso provado ou demonstrado com clareza. Suponho que isso est acautelado nos termos de uso e que estes so respeitados, mas nem disso tenho a certeza. Mudarei de opinio se me o demonstrarem. Outra coisa diferente se isso se refere publicidade que surge nas pginas do Facebook e que obviamente, contextualizada em funo dos dados pessoais de cada um. Esses dados foram de facto usados no “targeting” dessa publicidade, mas foram-no nos mesmos termos (mais ou menos…) em que a publicidade da Google contextualizada. Ou seja, isso algo bastante diferente e muito, muito mais complexo. Mas inevitvel como manifestao de inteligncia artificial. Resistir a essa contextualizao da informao seria mais uma forma de conservadorismo.

4. Passemos ento “matria de facto”. Na minha opinio, as redes sociais, tal como hoje existem so incompatveis com as nossas leis em termos de bases de dados e proteco da privacidade. Podemos mudar as leis ou mudar as redes sociais, mas suspeito bem que vamos ter que mudar as leis. No possvel, em termos prticos, usar uma rede como o Facebook e ao mesmo tempo cumprir todos os formalismos da lei portuguesa em termos de proteco de dados e autorizao de divulgao dos mesmos. Pensem s neste acto to simples que eu partilhar com todos os meus amigos o post em que algum diz que foi ao cinema e gostou do filme. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais luz de um novo conceito de privacidade.

5. Por outro lado, h a questo do copyright em sentido lato. Os dados, informaes e opinies que ns veiculamos no Facebook so nossos, no so do Facebook. Se quisermos podemos retirar toda a nossa informao. Mas que sentido faz isso numa rede que vive da partilha dessa informao? Como eu comentei no post do Daniel Oliveira , os meus comentrios a um post, por exemplo, so meus. Coloco-os de livre vontade e de certa forma dizem algo sobre mim a qualquer pessoa que os leia. Se eu amanh decidir deixar o Facebook, devo lev-los comigo?Se sim, isso torna o post onde eles surgiram mais pobre porque torna o dilogo irracional. Se no, uma violao bvia do meu direito a dispor dos meus dados. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais com um conceito diferente de copyright.

6. Como todos os paradoxos acima demonstram, oproblema bastante mais vasto e mais profundo do que o mero cumprimento da lei nacional (j para no falar do facto de o Facebook, omesmoFacebook, operar em praticamente todos os pases do mundo). A abundncia e instantaneidade de informao nos dias que correm no pode seno deixar de ter consequncias, tanto a nvel do nosso entendimento da privacidade e do copyright como da forma como os enquadramos politicamente (as leis que protegem ambas as coisas). Para a maior parte dos jovens dos nossos dias o conceito de privacidade e de propriedade j profundamente diferente do nosso. E s-lo- ainda mais no futuro. Alis, nenhum dos conceitos foi alguma vez fixo no tempo,mesmoquando plasmado em lei. Basta pensar que h 50 anos seria considerado inadequado – do ponto de vista da sua privacidade – que um casal de namorados se beijasse em pblico e hoje estamos no ponto de aceitar que duas pessoas do mesmo sexo o faam! Alis, h 50 anos o casal de namorados seria provavelmente sancionado por conduta imprpria e hoje nem isso se pode apontar a um casal do mesmo sexo, mesmo que a muitos apetecesse faz-lo.

7. O que isto quer dizer que os nossos conceitos de privacidade e copyright (em sentido lato, mas tambm em sentido estrito) esto a transformar-se rapidamente e as nossas leis no os esto a acompanhar. Para mim, pessoalmente, do ponto de vista prtico, o Facebook no uma empresa. No sequer um servio. uma espcie de praa ou caf onde encontro gente conhecida e gente conhecida de quem eu conheo. O que digo ou escrevo no Facebook esgota-se no momento. E no tenho qualquer interesse – a no ser por curiosidade – em saber o que pensei ou afirmei h 6 meses atrs. Claro que, se eu escrever que odeio o Jos Scrates e depois o Jos Scrates aparecer morto, isso provavelmente vai-se voltar contra mim (bem, talvez no porque nesse caso haveria muitos suspeitos…). Mas isso no muito diferente de eu dizer no caf da vila que odeio o Z Barnab e depois ele aparecer morto. A diferena – significativa! – que as apalavras leva-as o vento ou morrem com as testemunhas e aquilo que escrevo numa rede social perene e dura para sempre.

8. Por isso que eu acho fundamentalmente conservadoras as posies como aquela que foi acima expressa pelo “revolucionrio” Daniel Oliveira. Ns no sabemos de que forma a transformao que est a ocorrer nas tecnologias de transmisso e acumulao de informao vai modificar a sociedade, as leis, a poltica ou at a psique do ser humano. Mas podemos ter a certeza que vai impactar todos esses aspectos. A nossa responsabilidade intelectual – penso eu – sermos capazes de olhar para estes fenmenos com uma mente aberta e tentarmos perceber para onde eles nos levam e no de onde eles nos trazem!

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2 respostas a Facebook is watching you!

  1. Francesco diz:

    Caro Jos,
    embora concorde com a filosofia de fundo, que as Leis no acompanham a evoluo da sociedade e vem a regulamentar coisas quando j a sociedade evoluiu noutro sentido (tpico da Lei intervir Ex-post e no ex antes), no posso evitar de comentar que o FB, embora parea uma praa publica (como escreves) e sempre uma plataforma privada, onde as “regras” so ditadas pelos promotores, que no sempre podero ser independente.
    Com a entrada em bolsa prxima, muitas “regras” e cumprimentos e tica que FB cumpre em favor do os consumidor, embora aparentemente podero aparecer os mesmo, na realidade houvera mudanas. Assim se passou com o Google, que para entrar na China (visto o potencial do mercado), h tempo abdicou a princpios inspiradores.
    Abrao

  2. Ol Francesco!
    A minha observao ia mais no sentido terico. bvio que uma empresa com a quantidade de dados que o Facebook tem, est sentada num pote de ouro. E por isso a tentao de o explorar, mesmo contornando vrias legislaes nacionais, deve ser fortssima. Mas acredito que isso no ir acontecer. Em primeiro lugar porque o Facebook deve ser uma empresa inteligente (que alis tem outras fontes potenciais de monetizao bem mais interessantes); e em segundo lugar porque a internet tambm um excelente watchdog e qualquer movimentao do Facebook nesse sentido seria imediatamente denunciada (como alis tem acontecido no passado) e as pessoas mudariam para uma rede alternativa (Google+, por exemplo).
    Pelo que sei, a Google actualmente no est a operar na China (as pesquisas dirigidas a http://www.google.cn so redireccionadas para o site de Hong-Kong http://www.google.com.hk) justamente porque no lhe era permitido apresentar resultados no censurados. Este no um assunto encerrado, mas isso significa que a Google manteve a sua tica e sobretudo o seu mote “don’t be evil”.
    Ou seja, o sistema da internet livre tem mecanismos de controle para se manter livre (isso tem sido demonstrado em vrias ditaduras recentemente). A tentao totalitria – seja ela dos estados ou das empresas – esbarra na arquitectura fundamentalmente livre da internet (“information wants to be free”). E por isso que debates como o da net neutrality so to importantes. Quem ache que fcil limitar a liberdade da internet – seja o Facebook ou a Repblica Popular da China – est profundamente enganado.
    Creio que estamos perante algo fundamentalmente novo. E muitas vezes temos tendncia a olhar para as coisas novas que esto a acontecer – as alteraes ao conceito de propriedade da informao ou ao conceito de privacidade, por exemplo – luz dos nossos quadros de anlise antigos. E isso que nos torna conservadores. No sabemos como vai ser o futuro destes e de outros valores semelhantes, mas sabemos que no vai ser como agora. A minha tese no fundo era esta. Completamente terica, portanto.
    Um abrao, Francesco!

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