O problema do euro, do PIB, da Europa e da democracia europeia.

Quando ouvirem falar de “crise do euro” ou “crise das dvidas soberanas” (e vo ouvir falar muito nas prxima horas!) mudem de canal! Quem falar de qualquer dessas coisas nos media demonstra que no sabe do que est a falar.

Esta crise poltica antes de ser geopoltica, geopoltica antes de ser econmica e econmica antes de ser financeira.

A crise poltica porque a integrao europeia esbarrou na insuficincia das instituies europeias para a aprofundar. A ideia europeia estava correcta quando nasceu e continua correcta hoje. O mundo globalizado no “pede” instncias de governao supra-nacionais. Ele “impe” essas instncias! Elas surgiram ao longo dos anos e vo continuar a surgir, independentemente de a Unio Europeia se conseguir ou no materializar como tal. Infelizmente, a Europa no soube aprofundar-se do ponto de vista democrtico. No soube oferecer ao europeus algo mais do que burocracia para contrapor s suas democracias nacionais. bvio que foram sempre os europeus – em referendos e eleies – que resistiram (e ainda hoje resistem) ao aprofundamento da Europa. Mas nunca saberemos qual seria o envolvimento das populaes no projecto europeu se eletivessesido mais democrtico. Mais “de baixo para cima” do que “de cima para baixo”.

Alis, do ponto de vista poltico, quando se fala tantas vezes de uma possvel Europa a duas velocidades, quase sempre esquecemos que essa Europa a duas velocidades j existe h muito tempo, materializada nos pases do euro, por um lado, e nos que continuaram com as suas moedas nacionais, por outro lado. Do ponto de vista da integrao poltica (j nem falo da integrao econmica e financeira) no faz qualquer sentido que haja pases que usam uma moeda nica e outros que no a usam. Esse foi, de certo modo, o primeiro pecado capital da integrao poltica europeia. Foi o primeiro momento de insuficincia. Foi o precedente.

A crise geopoltica porque aascensodas novas potncias (os BRIC, mas no s) se fez – como inevitavelmente se faria – custa das velhas potncias, sobretudo Europa e Estados Unidos. O fim da guerra fria e a expanso livre da globalizao trouxe esta realidade absolutamente nova: as potncias mdias ascenderam ao primeiro plano do concerto das naes. Num quadro de desregulao poltica (fim dos blocos) e econmica (que necessariamente se lhe segue) era de esperar que a China, a ndia, o Brasil, a Rssia, etc, pases com recursosimportantes, se modernizassem e crescessem do ponto de vista econmico. E crescimento econmico significa peso geopoltico. Quando temos pases cuja riqueza cresce a dois dgitos por ano ao longo de mais de uma dcada e outros cujo produto cresce em mdia 1 ou 2% no mesmo perodo, inevitavelmente os primeiros ficam mais eimportantese os segundos tornam-se menosimportantes. A Europa podia evitar isto? No podia. Mas podia fazer duas coisas: crescer mais para defender a sua posio econmica no mundo e tornar-se mais forte para conter com diplomacia poltica e econmica o peso geopoltico dos novos actores. Foi isso que os EUA fizeram com a ndia, por exemplo. O falhano da Europa em se integrar politicamente tornou-se mais fraca, tanto do do ponto de vista poltico como econmico. Por isso que o problema poltico antes de ser geopoltico.

Mas a crise tambm econmica. O problema no est apenas no facto de as economias europeia e americana crescerem muito menos que as economias emergentes. Est tambm no facto de os mercados tradicionais dos pases desenvolvidos encolherem enquanto os mercados dos pasesemergentes se expandem, tanto do ponto de vista demogrfico como do ponto de vista de acesso ao consumo. Tambm isso era inevitvel. Mas uma Europa com mais peso geopoltico teria conseguidoimpormais restries expanso dos pases emergentes e sobretudo teria imposto um acesso mais fcil aos seus mercados emergentes. Por isso que a crise geopoltica antes de ser econmica.

claro que a crise tambm financeira. Mas muitas outras coisas antes de ser financeira. E -o devido a essas outras coisas. Os “mercados” necessariamente ilustram em nmeros aquilo que os polticos decidem nos gabinetes e as populaes escolhem nas eleies. Os polticos e as populaes “escolheram” uma Europa politicamente fraca e economicamente dbil; os mercados limitam-se a expressar esse “desejo” em nmeros, com o rating das dvidas e o consequente aumentos dos juros. Perante pases em dificuldades, os “mercados” tm amesma candura que um predador perante o antlope!

aqui – e s aqui – que a crise se torna a “crise do euro” ou “das dvidas soberanas”. Mas torna-se isso em consequncia do fraco crescimento econmico, por causa da emergncia de novas potncias mundiais e devido ao beco sem sada em que se meteu a construo poltica europeia. Falar da “crise do euro” ou “das dvidas soberanas” e ignorar tudo o que est para trs ignorar o essencial. E, na realidade, duvido muito que a resoluo da “crise do euro” ou “das dvidas soberanas” resolva realmente o problema. Ou, melhor dito, os problemas.

Pode at acontecer que os dirigentes europeus saiam da cimeira de amanh com decisesimportantespara defender a sua moeda e proteger as dvidas dos seus pases, talvez a criao de um ministrio das finanas federal, talvez a emisso de dvida ou outras medidas que se tm falado. Mas estaro mal se essa for a sua nica ambio. Porque, mesmo que essas medidas resultem – o que em si j muito duvidoso – no tocaro nas causas profundas da decadncia europeia.O problema seriamelhorresolvido ao contrrio, comeando pelas causas e no pelas consequncias!

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