Facebook is watching you! (II)

Além disso, em adição ao post anterior, há uma análise fundamental que é preciso fazer: é que tudo o que escrevemos, dizemos ou fazemos no Facebook é publico, não é privado! A empresa Facebook só permite o acesso e mesmo a destruição desses dados e informação para respeitar “the ways of the past”. Mas tenho a certeza que, para a maior parte dos autores do Facebook, isso não faz sentido porque é contrário à própria natureza da rede social. Aquilo que dizemos ou escrevemos no Facebook é tão privado e tão nosso como aquilo que dizemos e fazemos no espaço público, uma praça, um café ou outro lugar qualquer. A diferença é que este espaço publico tem potencialmente 800 milhões de pessoas.

Jeff Jarvis, jornalista da velha guarda e um dos analistas dos new media que sigo com mais atenção, partilhou informações muito privadas acerca do seu cancro do cólon à media que o ia tratando. E, depois, escreveu o livro “Public Parts” sobre as novas configurações da privacidade. Esta é a abordagem correcta. Algo está a mudar profundamente; temos que perceber o quê e como.

A este propósito talvez seja interessante também seguir esta entrevista recente de Eric Schmidt no LeWeb2011 (sobretudo a partir do min. 19). Ela retoma – está sempre em fundo em várias partes da entrevista – um tema recorrente entre os “geeks” e “não -geek” que é o da “digital divide“. E a “divide”, aqui, não é entre as populações pobres sem acesso às novas tecnologias e as populações ricas com acesso a ela; é entre as pessoas “antigas” que não as entendem e entre as pessoas “modernas” que as entendem. Vejam o video porque não é só por isso que ele é interessante.

Anúncios

Facebook is watching you!

Num artigo recente publicado no Expresso online e no Arrastão, com o título “Facebook is watching you“, Daniel Oliveira faz um paralelo entre as modernas redes sociais e o estado totalitário de George Orwell. O thread de comentários no Facebook também tem pontos de interesse.

Eu leio sempre com muita atenção o Daniel Oliveira, normalmente concordo com ele e muitas vezes fico surpreendido pelo perspicácia e criatividade das suas opiniões. É, provavelmente, no panorama comentarista nacional, a voz que acompanho com mais assiduidade e atenção. Mas este texto suscita-me alguma reflexões:

1. Em primeiro lugar é surpreendente que um analista e comentador normalmente tão arrojado do ponto de vista das ideias como o Daniel Oliveira seja neste aspecto tão conservador. Isso, de certa forma, não é atípico. A maior parte das pessoas olha para estes fenómenos novos com um olhar fixado nas categorias de análise habituais, que claramente são insuficientes para os explicar ou analisar. Por outro lado, é também interessante notar como, neste aspecto, a extrema-esquerda consegue ser tão conservadora como a extrema-direita. Isso dá bem uma imagem da magnitude das transformações que estão a ocorrer na paisagem mediática e social.

2. Descartemos primeiro a questão da legalidade face aos termos de uso do Facebook. Toda a gente tem direito a reaver os seus dados e apagar a sua conta do Facebook. Se no caso em concreto tal não aconteceu, isso é contrário às regras da própria rede social. Isso para mim é muito claro.

3. Depois descartemos a informação – recorrentemente repetida – de que o Facebook “vende” as informações aos estados ou às empresas sem autorização dos utilizadores. Há muitos rumores sobre essas acusações e “está na cara” que isso é uma tentação para qualquer rede social desta dimensão. Mas eu ainda não vi isso provado ou demonstrado com clareza. Suponho que isso está acautelado nos termos de uso e que estes são respeitados, mas nem disso tenho a certeza. Mudarei de opinião se me o demonstrarem. Outra coisa diferente é se isso se refere à publicidade que surge nas páginas do Facebook e que obviamente, é contextualizada em função dos dados pessoais de cada um. Esses dados foram de facto usados no “targeting” dessa publicidade, mas foram-no nos mesmos termos (mais ou menos…) em que a publicidade da Google é contextualizada. Ou seja, isso é algo bastante diferente e muito, muito mais complexo. Mas inevitável como manifestação de inteligência artificial. Resistir a essa contextualização da informação seria mais uma forma de conservadorismo.

4. Passemos então à “matéria de facto”. Na minha opinião, as redes sociais, tal como hoje existem são incompatíveis com as nossas leis em termos de bases de dados e protecção da privacidade. Podemos mudar as leis ou mudar as redes sociais, mas suspeito bem que vamos ter que mudar as leis. Não é possível, em termos práticos, usar uma rede como o Facebook e ao mesmo tempo cumprir todos os formalismos da lei portuguesa em termos de protecção de dados e autorização de divulgação dos mesmos. Pensem só neste acto tão simples que é eu partilhar com todos os meus amigos o post em que alguém diz que foi ao cinema e gostou do filme. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais à luz de um novo conceito de privacidade.

5. Por outro lado, há a questão do copyright em sentido lato. Os dados, informações e opiniões que nós veiculamos no Facebook são nossos, não são do Facebook. Se quisermos podemos retirar toda a nossa informação. Mas que sentido faz isso numa rede que vive da partilha dessa informação? Como eu comentei no post do Daniel Oliveira , os meus comentários a um post, por exemplo, são meus. Coloco-os de livre vontade e de certa forma dizem algo sobre mim a qualquer pessoa que os leia. Se eu amanhã decidir deixar o Facebook, devo levá-los comigo? Se sim, isso torna o post onde eles surgiram mais pobre porque torna o  diálogo irracional. Se não, é uma violação óbvia do meu direito a dispor dos meus dados. Ou seja, precisamos de olhar para as redes sociais com um conceito diferente de copyright.

6. Como todos os paradoxos acima demonstram, o problema é bastante mais vasto e mais profundo do que o mero cumprimento da lei nacional (já para não falar do facto de o Facebook, o mesmo Facebook, operar em praticamente todos os países do mundo). A abundância e instantaneidade de informação nos dias que correm não pode senão deixar de ter consequências, tanto a nível do nosso entendimento da privacidade e do copyright como da forma como os enquadramos politicamente (as leis que protegem ambas as coisas). Para a maior parte dos jovens dos nossos dias o conceito de privacidade e de propriedade já é profundamente diferente do nosso. E sê-lo-á ainda mais no futuro. Aliás, nenhum dos conceitos foi alguma vez fixo no tempo, mesmo quando plasmado em lei. Basta pensar que há 50 anos seria considerado inadequado – do ponto de vista da sua privacidade – que um casal de namorados se beijasse  em público e hoje estamos no ponto de aceitar que duas pessoas do mesmo sexo o façam! Aliás, há 50 anos o casal de namorados seria provavelmente sancionado por conduta imprópria e hoje nem isso se pode apontar a um casal do mesmo sexo, mesmo que a muitos apetecesse fazê-lo.

7. O que isto quer dizer é que os nossos conceitos de privacidade e copyright (em sentido lato, mas também em sentido estrito) estão a transformar-se rapidamente e as nossas leis não os estão a acompanhar. Para mim, pessoalmente, do ponto de vista prático, o Facebook não é uma empresa. Não é sequer um serviço. É uma espécie de praça ou café onde encontro gente conhecida e gente conhecida de quem eu conheço. O que digo ou escrevo no Facebook esgota-se no momento. E não tenho qualquer interesse – a não ser por curiosidade – em saber o que pensei ou afirmei há 6 meses atrás. Claro que, se eu escrever que odeio o José Sócrates e depois o José Sócrates aparecer morto, isso provavelmente vai-se voltar contra mim (bem, talvez não porque nesse caso haveria muitos suspeitos…). Mas isso não é muito diferente de eu dizer no café da  vila que odeio o Zé Barnabé e depois ele aparecer morto. A diferença – significativa! – é que as apalavras leva-as o vento ou morrem com as testemunhas e aquilo que escrevo numa rede social é perene e dura para sempre.

8. Por isso é que eu acho fundamentalmente conservadoras as posições como aquela que foi acima expressa pelo “revolucionário” Daniel Oliveira. Nós não sabemos de que forma a transformação que está a ocorrer nas tecnologias de transmissão e acumulação de informação vai modificar a sociedade, as leis, a política ou até a psique do ser humano. Mas podemos ter a certeza que vai impactar todos esses aspectos. A nossa responsabilidade intelectual é – penso eu – sermos capazes de olhar para estes fenómenos com uma mente aberta e tentarmos perceber para onde eles nos levam e não de onde eles nos trazem!

O problema do euro, do PIB, da Europa e da democracia europeia.

Quando ouvirem falar de “crise do euro” ou “crise das dívidas soberanas” (e vão ouvir falar muito nas próxima horas!) mudem de canal! Quem falar de qualquer dessas coisas nos media demonstra que não sabe do que está a falar.

Esta crise é política antes de ser geopolítica, é geopolítica antes de ser económica e é económica antes de ser financeira.

A crise é política porque a integração europeia esbarrou na insuficiência das instituições europeias para a aprofundar. A ideia europeia estava correcta quando nasceu e continua correcta hoje. O mundo globalizado não “pede” instâncias de governação supra-nacionais. Ele “impõe” essas instâncias! Elas surgiram ao longo dos anos e vão continuar a surgir, independentemente de a União Europeia se conseguir ou não materializar como tal. Infelizmente, a Europa não soube aprofundar-se do ponto de vista democrático. Não soube oferecer ao europeus algo mais do que burocracia para contrapor às suas democracias nacionais. É óbvio que foram sempre os europeus – em referendos e eleições – que resistiram (e ainda hoje resistem) ao aprofundamento da Europa. Mas nunca saberemos qual seria o envolvimento das populações no projecto europeu se ele tivesse sido mais democrático. Mais “de baixo para cima” do que “de cima para baixo”.

Aliás, do ponto de vista político, quando se fala tantas vezes de uma possível Europa a duas velocidades, quase sempre esquecemos que essa Europa a duas velocidades já existe há muito tempo, materializada nos países do euro, por um lado, e nos que continuaram com as suas moedas nacionais, por outro lado. Do ponto de vista da integração política (já nem falo da integração económica e financeira) não faz qualquer sentido que haja países que usam uma moeda única e outros que não a usam. Esse foi, de certo modo, o primeiro pecado capital da integração política europeia. Foi o primeiro momento de insuficiência. Foi o precedente.

A crise é geopolítica porque a ascensão das novas potências (os BRIC, mas não só) se fez – como inevitavelmente se faria – à custa das velhas potências, sobretudo Europa e Estados Unidos. O fim da guerra fria e a expansão livre da globalização trouxe esta realidade absolutamente nova: as potências médias ascenderam ao primeiro plano do concerto das nações. Num quadro de desregulação política (fim dos blocos) e económica (que necessariamente se lhe segue) era de esperar que a China, a Índia, o Brasil, a Rússia, etc, países com recursos importantes, se modernizassem e crescessem do ponto de vista económico. E crescimento económico significa peso geopolítico. Quando temos países cuja riqueza cresce a dois dígitos por ano ao longo de mais de uma década e outros cujo produto cresce em média 1 ou 2% no mesmo período, inevitavelmente os primeiros ficam mais e importantes e os segundos tornam-se menos importantes. A Europa podia evitar isto? Não podia. Mas podia fazer duas coisas: crescer mais para defender a sua posição económica no mundo e tornar-se mais forte para conter com diplomacia política e económica o peso geopolítico dos novos actores. Foi isso que os EUA fizeram com a Índia, por exemplo. O falhanço da Europa em se integrar politicamente tornou-se mais fraca, tanto do do ponto de vista político como económico. Por isso é que o problema é político antes de ser geopolítico.

Mas a crise também é económica. O problema não está apenas no facto de as economias europeia e americana crescerem muito menos que as economias emergentes. Está também no facto de os mercados tradicionais dos países desenvolvidos encolherem enquanto os mercados dos países emergentes se expandem, tanto do ponto de vista demográfico como do ponto de vista de acesso ao consumo. Também isso era inevitável. Mas uma Europa com mais peso geopolítico teria conseguido impor mais restrições à expansão dos países emergentes  e sobretudo teria imposto um acesso mais fácil aos seus mercados emergentes. Por isso é que a crise é geopolítica antes de ser económica.

É claro que a crise também é financeira. Mas é muitas outras coisas antes de ser financeira. E é-o devido a essas outras coisas. Os “mercados” necessariamente ilustram em números aquilo que os políticos decidem nos gabinetes e as populações escolhem nas eleições. Os políticos e as populações “escolheram” uma Europa politicamente fraca e economicamente débil; os mercados limitam-se a expressar esse “desejo” em números, com o rating das dívidas e o consequente aumentos dos juros. Perante países em dificuldades, os “mercados” têm a mesma candura que um predador perante o antílope!

É aqui – e só aqui – que a crise se torna a “crise do euro” ou “das dívidas soberanas”. Mas torna-se isso em consequência do fraco crescimento económico, por causa da emergência de novas potências mundiais e devido ao beco sem saída em que se meteu a construção política europeia. Falar da “crise do euro” ou “das dívidas soberanas” e ignorar tudo o que está para trás é ignorar o essencial. E, na realidade, duvido muito que a resolução da “crise do euro” ou “das dívidas soberanas” resolva realmente o problema. Ou, melhor dito, os problemas.

Pode até acontecer que os dirigentes europeus saiam da cimeira de amanhã com decisões importantes para defender a sua moeda e proteger as dívidas dos seus países, talvez a criação de um ministério das finanças federal, talvez a emissão de dívida ou outras medidas que se têm falado. Mas estarão mal se essa for a sua única ambição. Porque, mesmo que essas medidas resultem – o que em si já é muito duvidoso – não tocarão nas causas profundas da decadência europeia. O problema seria melhor resolvido ao contrário, começando pelas causas e não pelas consequências!

Aproveitando que há amanhã uma cimeira europeia, deixo aqui a minha sugestão para a solução da crise na Europa.

Os chefes de estado e de governo reúnem-se e, no final, o presidente da comissão europeia ou o presidente da Europa, com os chefes de estado e de governo atrás, comunicam as seguintes decisões:

1. Vai haver eleições europeias no dia 31 de Janeiro para eleição de uma assembleia constituinte. Essa assembleia terá como funções únicas redigir a constituição da Europa, com duas câmaras, uma de representação política, outra de representação regional, e empossar um governo de transição;
2. Os países que não participarem nesta eleição não farão parte da Europa unida;
3. O inglês será a língua oficial da Europa, as restantes línguas nacionais serão a 2ª língua de cada região;
4. Para proteger o euro, que será a única moeda da Europa, ficam proibidos todos os fluxos financeiros para fora da zona euro até à posse do primeiro governo eleito da Europa.

É muito simples, não?

(publicado originalmente no Facebook)

Henrique Monteiro partilhou este artigo de Jan-Werner Mueller publicado no diário Público acerca da crise europeia, da história do século XX e do que pode ser o futuro da democracia.

O artigo é muito interessante e tem a coragem de ter mais perguntas que respostas. Mais dúvidas do que certezas.  Esse é um bom princípio. O futuro da política permanece uma grande incógnita. Fazer perguntas é a primeira condição para sobre ela fazer luz.

Sobre este artigo isto foi o que comentei:

Eu sempre achei muito interessante o conceito de “fim da história” de Fukuyama e sempre me pareceu que ele foi tomado demasiado literalmente. O que acabou quando Fukuyama disse que tinha acabado não foi “a história” mas sim um paradigma histórico. A geopolítica mudou muito desde que deixaram de existir dois blocos com capacidade de aniquilação mútua. A emergência de novas potências intermédias foi uma das (muitas) coisas que o “fim da história” tornou possível. E o nosso mundo, hoje, é em boa parte uma decorrência disso. Até a crise económica euro-americana.
Mas o mundo ocidental debate-se com problemas próprios que não decorrem do “fim” dessa história, mas – parece-me – do “princípio” da próxima. É muito pouco provável que as mudanças tecnológicas que se têm registado no nosso mundo – nomeadamente em termos abundância e instantaneidade de informação – não tenham consequências no processo de mediação e representação política. E é isso que verdadeiramente este artigo aborda, nas entrelinhas. Nós achamos que não nos sentimos representados pelos actuais políticos, mas na realidade não nos sentimos representados é pela actual política, entendida como o conjunto de mecanismos e instituições que definem o nosso caminho colectivo.
Eu já li vários livros à procura de uma resposta para essa questão, mas ainda não encontrei um único cuja resposta, sinceramente, me pareça satisfatória. Neste aspecto, acho que estamos todos apenas a arranhar a superfície do problema. Mas é uma questão desarmante e desafiante. E muito pertinente(…)!

Alô povo que gosta de música:

Deixem de adorar esse dinossauros – Bruce Springsteen, Rolling Stones, Queen, Pink Floyd,  REM, Yes, Bryan Adams, Gloria Gaynor, entre muitos outros – e prestem atenção ao que trazem os ovos novos que estalam. Às vezes são pérolas!

A evolução da música não parou no jurássico!

(via Queremos ver Bon Iver em Portugal)

Por uma estranha coincidência, a Zon e a Meo lançaram quase ao mesmo tempo um novo serviço que permite aos assinantes ver os canais contratados no seu computador, no seu tablet ou no seu smartphone. Ao que parece, num caso gratuitamente, no outro com um custo residual só cobrado a partir de 2012.

A ideia parece interessante, mas a pergunta que se impõe pode ser incómoda: se, tecnicamente, tanto a Meo como a Zon podem permitir a visualização dos seus canais no PC, porque não o inverso? Porque não permitir que qualquer conteúdo escolhido no PC seja transmitido no televisor da sala?

Eu respondo: a questão não tem nenhuma limitação técnica e é puramente comercial. As operadoras não o permitem porque não lhes convém! Permitir ver os canais de TV no PC já é em si mesmo uma forma de defesa (e não de ataque, como parece), porque a realidade é que quem quer já vê a maior parte dos canais que interessam no PC.

Mas, mais significativo ainda, a Meo e a Zon não permitem o inverso da sua mais recente proposta comercial porque isso alteraria radicalmente o seu modelo de negócio. Mais precisamente, tornaria abundante aquilo que actualmente é escasso. Só podemos ver nos écrãs “da Zon” ou “da Meo” aquilo que a Zon ou a Meo querem. Se pudéssemos ligar lá os nossos portáteis (eu sei que podemos, mas quero dizer como serviço), poderíamos ver nos “nossos” ecrãs aquilo que nós quiséssemos. E isso seria – será! – uma revolução!

Isso não interessa à Zon nem à Meo. À Zon e à Meo interessa que aquilo que distribuem continue a parecer um bem escasso, porque só sendo escasso poderão por ele cobrar um preço. É claro que essa é uma luta votada ao fracasso, mas enquanto não fracassa, vai-lhes permitindo ganhar dinheiro, muito dinheiro! Pensem assim: o que era a Zon há 20 anos?

Manuel Falcão, através do twitter, alertou-me para esta frase de Adriano Moreira:

“Parece ter-se trocado o valor das coisas pelo preço das coisas”

A frase está aqui, mas a tese que a sustenta está, entre outros sítios, neste artigo de opinião publicado no DN com o tí­tulo “O relativismo e a decadência”.

Duas observações acessórias antes de chegar ao essencial: 1) A lucidez do professor Adriano Moreira (posso – e devo! – tratá-lo assim porque foi meu professor) é espantosa e põe-me sempre a pensar que, ao contrário do que acontecia nas sociedades tradicionais, damos aos nossos anciãos menos atenção do que deví­amos; 2) Adriano Moreira é um conservador de direita de corpo inteiro. Não existem muitos conservadores de direita em Portugal (provavelmente menos que liberais de direita), mas Adriano Moreira é-o com uma verticalidade e uma coerência de princí­pios e valores que muitas vezes me recorda – imagine-se! – Álvaro Cunhal. Estão (estavam) nos antí­podas em termos das ideias que defendem, mas são (eram) parecidos na coerência, verticalidade e atá generosidade com que o fazem. Até fisicamente são parecidos!

Mas o essencial é esta ideia de que, nas nossas sociedades, o preço das coisas está a tomar o lugar do valor das coisas. E que muitas das nossas perplexidades resultam desse facto. É uma ideia brilhante porque, se pensarmos bem, vale para muitos dos fenómenos que aparentemente não conseguimos explicar: desde a compra e venda da dignidade individual nos reality shows televisivos até à cedência de soberania nacional em troco de “tranches” de crédito, passando pela ocupação do espaço público por interessas privados, entre muitas outras coisas. O último destes fenómenos é provavelmente criticado pela esquerda, o segundo obviamente pela direita conservadora e o primeiro por ambas, por razões diferentes. E, no entanto, estamos provavelmente perante causas comuns. Os jovens que expõem a sua intimidade e vendem a sua dignidade a troco de dinheiro (ou de fama seguida de dinheiro, o que vai dar ao mesmo) nos reality shows televisivos, acabaram de dar um preço a uma coisa que dantes tinha valor e não tinha preço. A maneira como aceitamos que nos dêem crédito a troco de mandarem nas nossas decisões políticas não é mais do que uma forma de atribuir um preço a algo que nunca antes tínhamos ousado sequer quantificar: a soberania nacional. Dantes tinha um valor, agora tem um preço. Por fim, quando vemos uma praça, um jardim ou um equipamento social comum – um parque de diversões, por exemplo (sim, estou a pensar na Feira Popular)  - definitiva ou temporariamente ocupado por um produto ou empresa privada, isso significa que uma parte do nosso espaço comum de convivência social foi “vendido”. Ou seja, tinha um valor para todos, mas passou a ter um preço para as entidades envolvidas na transacção. Basta olharmos para as cidades com esta perspectiva nos olhos para percebermos o quanto temos transferido espaço público para o domínio privado. Todo o espaço público que tem valor acaba mais cedo ou mais tarde por ter um preço. Exemplo, que – repito – ilustra apenas uma tendência que poderia ser ilustrada por muitos outros.

Esta é a visão conservadora do problema. Conservadora de direita, de esquerda, ou de direita e de esquerda, consoante cada uma dos exemplos. Mas há outra visão possível, menos “política”, menos próxima da realidade, mas mais capaz – parece-me – de a explicar integralmente.

Essa tese sobre “o valor das coisas” versus “o preço das coisas” parte de uma distinção básica entre “valor” e “preço”: tem valor aquilo que não é mensurável e tem um preço aquilo que é mensurável. Como se mede o preço de um bem comum primário, como um quilo de batatas, por exemplo? Mede-se, obviamente, com uma balança, carregando batatas até chegar ao quilo,  e cobrando pouco mais de um euro, o “preço” de um quilo de batatas. Um preço de um bem secundário- um televisor por exemplo – é obtido somando as matérias-primas empregues, a depreciação das máquinas que o produzem e o tempo gasto pelos operários. Um serviço, por fim, tem um preço calculado em função de pouco mais do que o tempo empregue pelo “servidor” para prestar o serviço.

Nos exemplos anteriores, é muito provável que haja muitos jovens na casa dos 20 anos que acham intolerável a exposição e mercantilização da dignidade nos reality shows televisivos. Para eles a dignidade tem valor, mas não tem preço. No entanto, já existe um preço de referência para dignidade. Se os produtores desse tipo de programas tivessem a coragem de falar abertamente sobre eles saberíamos que resulta – provavelmente – do cruzamento entre o mais recente preço praticado para a mesma transacção (o mais recente reality show) e as audiências, medidas em share, previsivelmente conseguidas com esse “produto”. Os jovens aludidos no início do parágrafo podem continuar a recusar vender a sua dignidade, seja qual for o preço. Mas sabem – não poderão não saber – que no dia em que decidirem vender haverá um preço para isso. Aliás, há uma nota curiosa a destacar sobre este assunto em particular: quanto mais gente estiver disposta a vender a sua dignidade, menor é o preço unitário de cada uma. Curioso, não é?

Também há muitas pessoas – o professor Adriano Moreira, por exemplo- que acham intolerável que se venda a Pátria por 70 mil milhões de euros. Para elas, a independência e soberania nacional não têm preço. Mas têm! E esse preço expressa-se num conjunto complexo de indicadores financeiros e económicos (PIB, dívida externa, dívida pública, etc), mediados pelos chamados “mercados” (especialistas na “mensurabilidade” dos indicadores economico-financeiros) dando origem a conceitos estranhos como “dívida soberana” ou “default”. É estranho ouvir dizer que a China comprou X% da nossa dívida soberana porque nos parece que isso significa que comprou X% de Portugal. E o facto é que comprou mesmo! Por isso é que nos parece estranho!

A Feira Popular, por exemplo, era um conjunto de equipamentos de lazer disponíveis ao público localizados numa zona geográfica da cidade onde o metro quadrado de edificação comercial tem um alto preço médio. Para os habitantes da cidade, a existência daquele parque tinha certamente algum “valor” (nota: não estou a falar da relação individual de cada utilizador com cada divertimento do parque; essa é uma relação comercial individual que tinha um preço. Estou falar do espaço em si). Mas esse valor não era facilmente mensurável. Era tão mensurável como o valor atribuído à existência da um jardim. É coisa que tem valor, mas não é coisa que tenha preço. É priceless! Mas, para os edificadores imobiliários privados, tem certamente um preço muito mensurável. E por isso é que, como em tantos outros lugares da cidade, o espaço público com valor acabou por dar lugar a empreendimentos privados com preço.

Ou seja: de um lado temos sempre um valor não mensurável e do outro um preço bem mensurável. Talvez a correspondência não seja totalmente exacta, mas, à primeira vista, até se pode dizer que todo o valor que puder ser medido se transforma num preço.

O que nos traz – finalmente! – ao ponto essencial da minha tese: a quantificação do valor das coisas é uma consequência fatal do manto de inteligência com que o ser humano cobre toda a realidade que o circunda. Ou seja, não é uma escolha; é uma fatalidade determinística. O ser humano usa a sua inteligência sempre e a todo o tempo. E ao fazê-lo torna a realidade que o rodeia coerente com a sua inteligência. O que significa quantificar tudo o que puder e quiser quantificar. Incluindo coisas – “valores”, por exemplo – que dantes não eram quantificadas. A diferença entre o passado e o presente, portanto, não é que dantes era tudo bom e agora é tudo mau. A diferença é que há coisas que dantes não conseguíamos medir e agora – devido ao avanço do conhecimento acumulado, da ciência e das tecnologias – já conseguimos. Aparentemente, a dignidade, a soberania e o espaço público (e repito que os exemplos poderiam ser muitos outros…)  são três dessas coisas.

Seria concebível um programa como a “Casa dos Segredos” se não houvesse aparelhos para medir as audiências? Ser-nos-ia possível aceitar que um qualquer grupo de funcionários estrangeiros nos impusesse um programa de austeridade se não houvesse o complexo sistema de contabilidade pública que hoje existe? Seria possível tornar o espaço público em espaço privado se não houvesse um mercado imobiliário a funcionar? Quantificação é matemática. A quantificação faz parte da inteligência e hoje quantificamos – cobrimos de inteligência – muitas coisas que antes não quantificávamos. Isso muitas vezes parece-nos um problema e torna-nos a todos conservadores, sejamos de direita ou de esquerda. É aliás muito significativo que o fenómeno afecte igualmente a esquerda e a direita. Isso só prova que ele é verdadeiro.

Temos tendência a resistir ao futuro. Mas, quando olhamos para o passado, vemos que o futuro nunca nos foi prejudicial. A crescente interdependência económica e financeira entre muitos países diferentes – que tem tudo a ver com a chamada “crise das dívidas soberanas” por exemplo – é apenas mais uma manifestação da globalização, ou seja, o movimento de integração dos fluxos de mercadorias, de trabalho, de informação e de dinheiro a nível mundial, um movimento que – naturalmente – é todo ele alimentado pela ciência, a acumulação de conhecimentos e a tecnologia. A resposta não é – não pode ser! – resistir. A resposta só pode ser encontrar mecanismos de organização social e colectiva que sejam transnacionais ou internacionais. A União Europeia é isso.

Jeff Jarvis, um dos melhores jornalistas que eu conheço a acompanhar a questão dos novos media, publicou recentemente um livro chamado “Public Parts” no qual analisa os problemas da privacidade no mundo moderno e que surge na sequência da extensa descrição que Jarvis  foi fazendo – por vezes com detalhes mesmo muito “privados” – da sua própria experiência de um cancro do cólon. Uma das teses do livro é que precisamos de novos conceitos de privacidade. E – digo eu – precisamos de olhar também para outros conceitos que – presunçosos – achávamos que eram imutáveis, como o de “dignidade”. Nenhum conceito é imutável e portanto, por definição, nenhum valor o é também. Aliás, basta olharmos à nossa volta para o percebermos. Há 100 anos seria impensável – para os próprios! – que um casal de namorados se beijasse em público. Hoje estamos no ponto de aceitar que sejam do mesmo sexo!

Por fim, o problema do espaço público face ao espaço privado. Basta olhar para trás para perceber que desde as primeiras terras atribuídas pelos reis aos senhores feudais vimos percorrendo um caminho sempre no mesmo sentido. O espaço público vai ganhando preço e tornando-se privado. Há duas visões possíveis para conjugar esse movimento com o interesse público: salvaguardar mecanismos de utilização pública de bens privados; ou – que me parece mais promissor – encontrar outras formas mais evoluídas de medir o valor das coisas, que venham a respeitar a ideia – que nos parece tão clara – de que o interesse público tem tanto ou mais “valor” que o interesse privado. O mundo dá muitas voltas…

Ou seja, a primeira tentação que temos é sempre a de reagirmos de forma conservadora a esta oposição dinâmica entre o preço das coisas e o valor das coisas. Mas essa pode não ser a reacção mais correcta. Temos que nos pôr no ponto correcto da escala do tempo – o nosso minúsculo pontinho – e percebermos que se há muito tempo para trás, há ainda mais para frente. E que se muita coisa mudou – e sempre para melhor – atrás de nós, ainda mais coisas haverão de mudar para a frente de nós. E tudo leva a crer que para melhor!

“UM POST POR DIA, DÁ SAÚDE E ALEGRIA!”

Este é um ditado muito antigo – e verdadeiro – que eu esqueci durante algum tempo, por causa da vertigem do twiiter, facebook e afins, mas que agora redescobri.

Stay tuned.