O Público anunciou a intenção de passar a cobrar pelos conteúdos online e o comentário de Henrique Monteiro (ex-director do Expresso e actual responsável pelas novas plataformas do grupo Impresa) no Facebook foi: “Não há outro caminho…

Ora, eu tenho sérias dúvidas que dizer que não há outro caminho seja a melhor forma de apontar um caminho… Por razões óbvias! Essa é uma posição essencialmente conservadora em que os jornalistas caem frequentemente quando abordam esta temática. A posição típica dos jornalistas neste debate dá-nos mais uma razão para alimentar a ideia fundamentalmente revolucionária de que não se pode prever o futuro olhando para o passado e que, pelo contrário, provavelmente a melhor forma de compreender o passado (e o fugaz presente, já agora) é olhando para o futuro.

Henrique Monteiro e António Granado estiveram recentemente num interessante debate online organizado pelo Contraditório sobre “O futuro dos jornais – os conteúdos online devem ser pagos pelo leitor?“. Obviamente, o “não” de António Granado ganhou. Mas esse é o resultado óbvio independente da argumentação. Aqui, a posição difícil era – é – a do Henrique Monteiro.

Nesse debate eu contribui com duas ideias:

1. A informação – ao contrário de um peça de fruta ou qualquer outro bem material – não pode ser roubada, pela simples razão de que o conceito de roubo implica que a pessoa roubada seja privada do bem roubado. O que não acontece no caso da informação. É o “princípio wikileaks” e o raciocínio fundamental que está na base dos movimentos anti-copyright (“information wants to be free”, lembram-se…). Ora, se a informação não pode ser roubada, também não pode ser vendida, pelas mesmíssimas razões. Portanto, quando estamos a falar de pagar pela informação online, não estamos a falar de um produto, provavelmente nem sequer de um conteúdo (que tenha uma existência física autónoma); estamos a falar de direitos de autor, ou seja, de copyright. Essa é a razão técnica pela qual não é possível, hoje, implementar uma estratégia paga online com condições de sucesso.

2. Ao contrário do que possa custar a aceitar aos jornalistas, é possível que uma boa parte do seu “valor” tradicional não seja resultado do seu trabalho, mas mero efeito de “gate-keeping”. Na paisagem media pré-digital, o efeito de “gate-keeper” (que está relacionado com a “escassez” do suporte físico jornal) explicava uma boa parte da proposta de valor do jornalismo. Hoje, no mundo digital, a abundância tomou o lugar da escassez e o “gate-keeping” foi… pulverizado. É por isso que vemos tantos “utilizadores” da internet a dizerem que não pagam por informação online. Não pagam porque a informação é abundante (na realidade é até excessivamente abundante, “pedindo” mecanismos de enquadramento e filtragem que, ironicamente, era o que os jornais deviam estar a fazer…) e há um número infinito de canais com um número infinito de solicitações informativas simultâneas. Essa é a razão de mercado para que só em casos muito específicos seja viável cobrar por conteúdos online.

Obviamente, ambas as coisas – as razões técnicas e as razões de mercado – se ligam com a ideia de que há apenas “um único caminho”. Contradizem-na, mais precisamente! Não há apenas um caminho e parece cada vez menos que seja esse!

Moral da história: o jornalismo é um elemento fundamental do funcionamento das sociedades modernas e, provavelmente, a abundância informativa em que vivemos torna-o ainda mais necessário e não menos. Mas o conservadorismo fundamental (para não dizer fundamentalista) da maioria dos jornalistas tende a cegá-los perante a revolução em curso que desfila à sua frente. É inútil pensar que podemos continuar a fazer, daqui a 5 anos, aquilo que fazemos hoje mas num suporte diferente. Isto não é apenas uma mudança de suporte. Isto é uma revolução! E quanto mais depressa o percebermos, mais depressa seremos capazes de “inventar” o papel essencial do jornalismo no admirável mundo novo que aí vem.

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