Há muito tempo que não me sentia tão dramaticamente dividido como nestas eleições do Sporting. No fundo, gostaria de poder ter feito um mix das várias coisas boas menos as várias coisas más que vejo em cada candidatura. Mas isso não é possível.

Cheguei a pensar em votar em branco, porque, na verdade, acho que nenhuma das candidaturas tem a “estatura” que o SCP merece. Mas o voto é fundamental. Sempre e sobretudo nesta fase da vida do clube, do MEU clube.

Fiz um “mais” e “menos” daquilo que me pareceu realmente  importante em cada candidatura (detalhado abaixo) e decidi que vou votar Dias Ferreira para a direcção, na lista da AAS para o Conselho Leonino e na lista independente de Frederico Abreu (lista F) para o Conselho Fiscal. Porque me parece importante que, qualquer que seja o presidente eleito, os sócios tenham uma voz autónoma e independente nestes órgãos. Porque foram os sócios – ninguém mais – que deixaram sitiar o clube nos últimos anos.

DIAS FERREIRA (5-2)

+ Trazer o futebol para dentro do clube; + Paulo Futre = “catedrático” do futebol; + Rijkaard e Van der Gaag; + Reforços anunciados (Taiwo); + Tarimba no “sistema” do futebol português

– Paulo Futre espampanante; – Não se conhece a proveniência do dinheiro para reforços.

PEDRO BALTAZAR (5-3)

+ Percebe mais de futebol do que seria de esperar de um “engravatado”; + Tem dinheiro e contactos; + Tem classe; + Bons reforços anunciados; + Fechar o fosso com nova bancada

– É gago; – Falta gente do futebol; – Pode descambar em mais um “bando do croquete”, ele e os vices.

BRUNO DE CARVALHO (3-3)

+ Corte radical com o passado; + Aposta na dinamização dos sócios para atrair novos investidores; + Dar papel mais importante aos núcleos e filiais.

– Fecham-se as torneiras dos bancos e sponsors no dia seguinte; – Possibilidade de salários em atraso; – Inácio/Virgílio/Couceiro não têm estaleca para o cargo.

GODINHO LOPES (2-6)

+ Dupla Duque/Freitas; + Carlos Barbosa no marketing.

– Continuidade encapotada = enganar os sócios; – Saco de gatos (demasiados interesses pessoais na lista); – Clube nas mãos dos bancos; – “Açambarcar” de velhas glórias (estratégia eleitoral cozinhada pela banca); – Mais dinheiro da banca (reforços) = mais endividamento.

Claro que tudo isto pode ser muito discutível, tanto em relevância para as eleições como em substância da própria apreciação. Mas são as minhas opiniões sobre a matéria. E o voto, afinal, é o meu voto!

ADENDA: Faltou dizer uma coisa importante: quem que seja eleito será a partir de hoje o MEU presidente. E espero que todos os sportinguistas digam – e façam! – o mesmo.

 

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O que vai acontecer?

Eis o que vai acontecer:

  1. A oposição em bloco chumba o PEC do Governo
  2. O Primeiro-Ministro pede demissão
  3. O Presidente convoca eleições antecipadas
  4. José Sócrates concorre às eleições
  5. O PSD ganha com maioria (muito) relativa
  6. PSD + PP juntos não têm maioria no parlamento
  7. Sócrates demite-se do PS por causa dos resultados
  8. António Costa, António José Seguro ou Francisco Assis, um deles é eleito para a liderança do PS
  9. O Presidente sugere um entendimento de salvação nacional entre PSD, PS e PP
  10. O líder do PS aceita.

NOTA: Este é um exercício de pura adivinhação política usando o conhecido método de “dedo no ar”.

Eu sempre trabalhei nos media, do lado da produção de informação, e sempre tive muito respeito pela função social dos jornais e dos jornalistas, em sentido lato. Creio que essa função social não é menor nos dias que correm, embora deva ser reavaliada.

Mas também olhei sempre com muita atenção – e alguma participação – para os novos media: os blogues, as plataformas de video, as redes sociais, etc. E desde cedo me pareceu que havia aqui um potencial de revolução e desregulação enorme, com o qual os media, os jornalistas e a função social dos meios de comunicação social teriam que lidar.

Esses são os antecedentes longínquos desta reflexão. Os antecedentes próximos são uma participação num congresso da WAN-IFRA realizado em Madrid em que o assunto foi aflorado, as reflexões sobre o assunto difícil mas interessante da neutralidade da rede e o frenesim das apps, que ainda decorre.

O que proponho nesta reflexão é um novo modelo de negócio para os media. Um modelo de negócio que permita conciliar os conteúdos “gratuitos” na internet, tal como actualmente os temos, com a remuneração dos conteúdos de qualidade que associamos aos media profissionais e que – muita gente o diz e eu concordo – é necessário para o funcionamento democrático das sociedades complexas.

No modelo de negócios tradicional dos jornais e revistas, o preço pago pelos consumidores pelo jornal ou revista em suporte físico alimentava toda a cadeia de produção: a distribuidora, os transportadores, o papel e, obviamente, os produtores de informação. No modelo de negócios actualmente praticado na internet, as fornecedoras de acesso cobram aos seus clientes uma tarifa assinalável por esse acesso, mas não partilham essas receitas com quem fornece os conteúdos, nomeadamente quando eles são produzidos por estruturas empresariais e profissionais qualificados que não podem subsistir essa remuneração.  Este modelo de negócio explica como é que essa remuneração pode ser feita, por acordo directo entre os media e os fornecedores de acesso, sem que a navegação seja afectada e sem que o consumidor tenha que pagar mais por qualquer conteúdo  (e muito menos negociá-lo caso a caso com cada um dos media que pretende “consumir”).

Subjacente ao modelo de negócio proposto está esta ideia base fundamental: falta inteligência na rede! Com os sistemas de monitorização de que dispomos actualmente não há nenhuma razão para que a rede de distribuição digital não seja suficientemente inteligente para “perceber” que tipo de conteúdos estão a ser processados, em que quantidade e que remuneração lhes deve ser atribuída.

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“The empathic civilization”, por Jeremy Rifkin

Ora aqui está um livro que me deixou muito surpreendido (foi uma compra por impulso…) e que vai certamente ficar na lista reduzida dos mais importantes que li nos últimos anos.

Hoje em dia há muita coisa a mudar muito rapidamente e este livro (não é pequeno, são 600 páginas) fornece explicações para quase tudo. Eu sempre gostei de explicações holistas (desde Hegel…) e não concebo a realidade explicada de outra forma que não seja em todas as suas interdependências.

Claro que, como em todas as explicações holistas, a “civilização empática” de Rifkin tende a ser apresentada como o estado final de evolução da espécie humana (o autor nunca o diz, mas “sente-se” em vários pontos do livro), esquecendo todas as “explicações” anteriores que cometeram o mesmo erro.

A tese fundamental de Jeremy Rifkin (elegantemente explicada neste video aqui em baixo) é que estamos no início de um novo estádio da civilização humana, a que ele chama “civilização empática” e que se caracteriza pela comunhão entre todos os seres humanos, o ambiente e a bioesfera em geral. Argumenta que isso se deve à conjugação de revoluções combinadas nos subsistemas de comunicação (a internet…) e de energia (o fim dos combustíveis fósseis). E que essas mudanças terão consequências a todos os níveis da nossa vida, da sociabilidade à psicologia, da organização política à organização económica, etc. E este é o ponto mais profícuo do livro. Porque o que se sente, ao ler este “The empathic civilization”, é que estamos apenas a começar a vislumbrar todas as formas pelas quais o nosso mundo está a mudar radicalmente. E que todas as coisas que nos deixam perplexos no mundo actual (da manifestação “à rasca” de dia 12 aos movimentos de libertação do Norte de África) já têm ser explicadas à luz de quadros de análise profundamente diferentes (em que o Estado-Nação, por exemplo, desempenha um papel fundamentalmente diferente, mas as estruturas de representação política estão fundamentalmente iguais).

Enfim, este é um livro muito “food for thought” que recomendo a quem se interessa por explicações do mundo que não deixam nada de fora.

O Público anunciou a intenção de passar a cobrar pelos conteúdos online e o comentário de Henrique Monteiro (ex-director do Expresso e actual responsável pelas novas plataformas do grupo Impresa) no Facebook foi: “Não há outro caminho…

Ora, eu tenho sérias dúvidas que dizer que não há outro caminho seja a melhor forma de apontar um caminho… Por razões óbvias! Essa é uma posição essencialmente conservadora em que os jornalistas caem frequentemente quando abordam esta temática. A posição típica dos jornalistas neste debate dá-nos mais uma razão para alimentar a ideia fundamentalmente revolucionária de que não se pode prever o futuro olhando para o passado e que, pelo contrário, provavelmente a melhor forma de compreender o passado (e o fugaz presente, já agora) é olhando para o futuro.

Henrique Monteiro e António Granado estiveram recentemente num interessante debate online organizado pelo Contraditório sobre “O futuro dos jornais – os conteúdos online devem ser pagos pelo leitor?“. Obviamente, o “não” de António Granado ganhou. Mas esse é o resultado óbvio independente da argumentação. Aqui, a posição difícil era – é – a do Henrique Monteiro.

Nesse debate eu contribui com duas ideias:

1. A informação – ao contrário de um peça de fruta ou qualquer outro bem material – não pode ser roubada, pela simples razão de que o conceito de roubo implica que a pessoa roubada seja privada do bem roubado. O que não acontece no caso da informação. É o “princípio wikileaks” e o raciocínio fundamental que está na base dos movimentos anti-copyright (“information wants to be free”, lembram-se…). Ora, se a informação não pode ser roubada, também não pode ser vendida, pelas mesmíssimas razões. Portanto, quando estamos a falar de pagar pela informação online, não estamos a falar de um produto, provavelmente nem sequer de um conteúdo (que tenha uma existência física autónoma); estamos a falar de direitos de autor, ou seja, de copyright. Essa é a razão técnica pela qual não é possível, hoje, implementar uma estratégia paga online com condições de sucesso.

2. Ao contrário do que possa custar a aceitar aos jornalistas, é possível que uma boa parte do seu “valor” tradicional não seja resultado do seu trabalho, mas mero efeito de “gate-keeping”. Na paisagem media pré-digital, o efeito de “gate-keeper” (que está relacionado com a “escassez” do suporte físico jornal) explicava uma boa parte da proposta de valor do jornalismo. Hoje, no mundo digital, a abundância tomou o lugar da escassez e o “gate-keeping” foi… pulverizado. É por isso que vemos tantos “utilizadores” da internet a dizerem que não pagam por informação online. Não pagam porque a informação é abundante (na realidade é até excessivamente abundante, “pedindo” mecanismos de enquadramento e filtragem que, ironicamente, era o que os jornais deviam estar a fazer…) e há um número infinito de canais com um número infinito de solicitações informativas simultâneas. Essa é a razão de mercado para que só em casos muito específicos seja viável cobrar por conteúdos online.

Obviamente, ambas as coisas – as razões técnicas e as razões de mercado – se ligam com a ideia de que há apenas “um único caminho”. Contradizem-na, mais precisamente! Não há apenas um caminho e parece cada vez menos que seja esse!

Moral da história: o jornalismo é um elemento fundamental do funcionamento das sociedades modernas e, provavelmente, a abundância informativa em que vivemos torna-o ainda mais necessário e não menos. Mas o conservadorismo fundamental (para não dizer fundamentalista) da maioria dos jornalistas tende a cegá-los perante a revolução em curso que desfila à sua frente. É inútil pensar que podemos continuar a fazer, daqui a 5 anos, aquilo que fazemos hoje mas num suporte diferente. Isto não é apenas uma mudança de suporte. Isto é uma revolução! E quanto mais depressa o percebermos, mais depressa seremos capazes de “inventar” o papel essencial do jornalismo no admirável mundo novo que aí vem.

Carta aberta ao jovem Hugo

Há alguns dias, depois da derrota com o Benfica e da eliminação frente ao Glasgow Rangers, o jovem Hugo escreveu no seu Facebook: “O Sporting é uma vergonha.”

Eu conheço o jovem Hugo. É um miúdo divertido, responsável e amigo dos seus amigos. É um grande sportinguista e um excelente guarda-redes. Espero vê-lo um dia na baliza que foi de Vítor Damas.

Mas a descrença que o jovem Hugo revelou naquele momento em concreto – e que vemos actualmente em tantos e tantos sportinguistas – foi o que levou a responder-lhe nestes termos. Senti a obrigação moral de o fazer.

“Tens razão, Hugo: isto é uma vergonha!
Acontece que isto não é o Sporting!

O Sporting é Esforço, Dedicação, Devoção e Glória!

O Sporting é Manuel Fernandes, Jordão, Balakov, Hilário, José Carlos, Dinis, Schmeichel, Jordanov, Oceano, Peyroteo e Vitor Damas.

O Sporting é Carlos Lopes, Livramento, Lisboa ou Andorinho.

O Sporting é o Paulinho e a Fundação Aragão Pinto.

“Isto” NÃO É o Sporting!

Esta “vergonha” é aquilo em que uns senhores engravatados transformaram o Sporting ao longo das últimas décadas.

E é por ti e por jovens como tu que nós, Sportinguistas adultos e com direito de voto, temos a OBRIGAÇÃO MORAL de resgatar o Sporting do beco sem saída em que o meteram. Oxalá sejamos capazes de o fazer! Para que possamos um dia devolver-te o verdadeiro Sporting, o GRANDE Sporting! Aquele de que te poderás orgulhar!”