E a música?

Alguém sabe se os filhos dos U2 fazem música? Se os filhos de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen têm alguma criatividade musical? E se realmente tiverem uma vocação musical, como aliás é muito comum nos filhos de músicos, será que conseguiram desenvolver uma carreira? Será que os papás deixaram? Não me parece…

A pergunta é retórica, mas o que está por detrás dela não é.

O concerto dos U2 em Coimbra foi um dos momentos altos do ano em termos de espectáculos, com directos das televisões, bilhetes caros há muito esgotados, vários patrocínios importantes, comboios especiais, milhares de watts de som e de luz e um palco gigantesco com vários ecrãs e todas a últimas tecnologias disponíveis. Até houve um congresso sobre branding U2 nos dias anteriores ao espectáculo. A lista poderia continuar indefinidamente. E poderia continuar a não falar de… música.

Acompanhei algum do buzz gerado no twitter e no facebook. Com uma curiosidade: a determinado ponto, alguém linkou via tweet aquilo a que chamou “uma prenda para os fãs dos U2”. E a “prenda” eram vários sets de espectaculares fotos dos concertos, alojados no Flickr. Ou seja: a prenda para os fãs dos U2, um grupo musical, não era música; eram imagens. Como parábola, não está mal…

Sobre concertos como os dos U2 costuma dizer-se que estão “para além da música”. Eu não sei se estão “para além da música”, “aquém da música” ou “em vez da música”, mas não tenho dúvidas de que a música desempenha afinal aqui um pequeno papel.

Musicalmente, os U2 acabaram em “The Joshua Tree”. Basta ver “Sunday Bloody Sunday” (ou qualquer outra canção do início de carreira) no You Tube para perceber que a energia e criatividade daqueles tempos nunca mais esteve presente na sua música a não ser em pontuais fogachos. Dir-se-á que a idade não perdoa, mas na realidade não tem nada a ver com idade: é simples esgotamento criativo. Há quem pense que cada um de nós traz dentro de si uma música, um livro ou um quadro. Quando muito dois ou três. Mas não mais do que isso! A tensão psicológica que dá origem às obras artísticas realmente criativas é simplesmente insustentável por muito tempo. É uma pulsão interior de tal magnitude psicológica que não pode ser sustentada indefinidamente. É uma força que irrompe, imparável, alheia à vontade do seu autor. É isso que contam os artistas sobre o seu próprio processo criativo.

São raríssimos os músicos que sabem envelhecer com dignidade. E, muitas das vezes, isso passa por experimentar outros estilos, outra parcerias, fazer coisas diferentes. Na maior parte dos casos – pelo contrário – limitam-se a colher os frutos da sua juventude e não resistem à tentação do caminho mais fácil e mais lucrativo. Tal como fazem os U2. A grande parte dos fãs que vai aos concertos não quer saber das novas músicas; quer é ouvir os velhos êxitos da sua própria juventude. É impossível que os U2 gostem da imagem que projectam no espelho ao final da noite, quando tiram a maquilhagem. É deprimente para os próprios e não é bonito de se ver.

Por isso, pela minha parte, lamento imenso não ter estado em Vilar de Mouros em 82 para ouvir os U2 tocarem temas como “Gloria”, “Sunday Bloody Sunday” ou “New Year’s Day” – é um dos grandes arrependimentos que tenho na vida – mas não tenho pena nenhuma de não ter estado em Coimbra neste fim de semana! Continuarei a ouvir com o mesmo deslumbramento de sempre a música dos primeiros anos dos U2, mas ocuparei o resto do meu tempo a descobrir novas músicas e novos músicos. Quem sabe, talvez descubra um dia destes que algum dos quatro filhos de Bono herdou realmente o talento do pai…

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