Pela sua inesperada violência, este é um Orçamento com duas margens:

1. Tem margem para um acordo de viabilização com o PSD, mediante abstenção em troca com uma ou duas concessões;

2. Tem margem para, em Maio, aliviar ligeiramente o torniquete (quando os mercados já estiverem mais “calmos”) e permitir ao PS voltar a ganhar as eleições.

É politicamente brilhante e coloca mais uma vez o PSD de Passos Coelho perante um dilema indesejável: ou vota contra e perde; ou viabiliza o orçamento… e perde! Mais uma vez, Sócrates dá “15 a 0” a Passos Coelho em política pura. O homem está para durar!

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Duas expressões cunhadas por Miguel Sousa Tavares no Expresso de ontem que devem ser registadas para referência futura:

1. “prostiuição moral”, a propósito do programa “Casa dos Segredos”, da TVI;
2. “arteriosclerose ideológica”, a propósito da reacção do PCP ao Nobel da Paz.

A imprensa desportiva em Portugal

Debatendo o estado da imprensa desportiva em Portugal, já por várias vezes me tenho lembrado deste episódio sem conseguir exactamente identificar a época, o contexto ou o mesmo a identificação do director em causa.

Felizmente, José Diogo Quintela, numa crónica no jornal A Bola de hoje, recupera a história e permite fazer o respectivo enquadramento. Refere-se a umas semanas durante 2006 em que os jornais generalistas traziam todos os dias notícias relativas ao processo Apito Dourado (nalguns casos com referências às escutas) e os jornais desportivos não lhe dedicavam nem uma linha. Obviamente, toda gente achava isso muito estranho e atribuía o facto à promiscuidade existente entre os jornais desportivos e o sistema “futebol”.

Eis como José Diogo Quintela recupera o episódio:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“AP” é Alexandre Pais, director do Record nessa altura e ainda hoje. E o que ele disse, em editorial do jornal, foi que o Record não podia morder a mão que lhe dá de comer. Obviamente nesse dia a imprensa desportiva morreu em Portugal. Bateu no fundo.

Para que não me volte a falhar a memória em algo tão importante, aqui fica o respectivo registo histórico. Tenho pena de não ter guardado esse jornal. É verdade que na época já não lia jornais desportivos porque pressentia o que o director do Record (e que é extensível aos outros jornais desportivos, sem excepção) viria a pôr preto no branco, mas ainda assim gostaria de ter guardado o jornal. Ultrapassando a morbidez do acto em nome da memória histórica do mesmo. Aqui fica.

E a música?

Alguém sabe se os filhos dos U2 fazem música? Se os filhos de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen têm alguma criatividade musical? E se realmente tiverem uma vocação musical, como aliás é muito comum nos filhos de músicos, será que conseguiram desenvolver uma carreira? Será que os papás deixaram? Não me parece…

A pergunta é retórica, mas o que está por detrás dela não é.

O concerto dos U2 em Coimbra foi um dos momentos altos do ano em termos de espectáculos, com directos das televisões, bilhetes caros há muito esgotados, vários patrocínios importantes, comboios especiais, milhares de watts de som e de luz e um palco gigantesco com vários ecrãs e todas a últimas tecnologias disponíveis. Até houve um congresso sobre branding U2 nos dias anteriores ao espectáculo. A lista poderia continuar indefinidamente. E poderia continuar a não falar de… música.

Acompanhei algum do buzz gerado no twitter e no facebook. Com uma curiosidade: a determinado ponto, alguém linkou via tweet aquilo a que chamou “uma prenda para os fãs dos U2”. E a “prenda” eram vários sets de espectaculares fotos dos concertos, alojados no Flickr. Ou seja: a prenda para os fãs dos U2, um grupo musical, não era música; eram imagens. Como parábola, não está mal…

Sobre concertos como os dos U2 costuma dizer-se que estão “para além da música”. Eu não sei se estão “para além da música”, “aquém da música” ou “em vez da música”, mas não tenho dúvidas de que a música desempenha afinal aqui um pequeno papel.

Musicalmente, os U2 acabaram em “The Joshua Tree”. Basta ver “Sunday Bloody Sunday” (ou qualquer outra canção do início de carreira) no You Tube para perceber que a energia e criatividade daqueles tempos nunca mais esteve presente na sua música a não ser em pontuais fogachos. Dir-se-á que a idade não perdoa, mas na realidade não tem nada a ver com idade: é simples esgotamento criativo. Há quem pense que cada um de nós traz dentro de si uma música, um livro ou um quadro. Quando muito dois ou três. Mas não mais do que isso! A tensão psicológica que dá origem às obras artísticas realmente criativas é simplesmente insustentável por muito tempo. É uma pulsão interior de tal magnitude psicológica que não pode ser sustentada indefinidamente. É uma força que irrompe, imparável, alheia à vontade do seu autor. É isso que contam os artistas sobre o seu próprio processo criativo.

São raríssimos os músicos que sabem envelhecer com dignidade. E, muitas das vezes, isso passa por experimentar outros estilos, outra parcerias, fazer coisas diferentes. Na maior parte dos casos – pelo contrário – limitam-se a colher os frutos da sua juventude e não resistem à tentação do caminho mais fácil e mais lucrativo. Tal como fazem os U2. A grande parte dos fãs que vai aos concertos não quer saber das novas músicas; quer é ouvir os velhos êxitos da sua própria juventude. É impossível que os U2 gostem da imagem que projectam no espelho ao final da noite, quando tiram a maquilhagem. É deprimente para os próprios e não é bonito de se ver.

Por isso, pela minha parte, lamento imenso não ter estado em Vilar de Mouros em 82 para ouvir os U2 tocarem temas como “Gloria”, “Sunday Bloody Sunday” ou “New Year’s Day” – é um dos grandes arrependimentos que tenho na vida – mas não tenho pena nenhuma de não ter estado em Coimbra neste fim de semana! Continuarei a ouvir com o mesmo deslumbramento de sempre a música dos primeiros anos dos U2, mas ocuparei o resto do meu tempo a descobrir novas músicas e novos músicos. Quem sabe, talvez descubra um dia destes que algum dos quatro filhos de Bono herdou realmente o talento do pai…

Monarquia e República

Nos últimos anos temos assistido um pouco por toda a sociedade portuguesa ao renascimento do ideal monárquico, que culminou com várias manifestações a propósito do centenário da República e com a discussão latente sobre as vantagens e desvantagens da República e da Monarquia como formas de governo. O assunto, obviamente, é interessante, mas a respectiva discussão tem estado deslocada do essencial da questão e – creio – por detrás dela está mais uma forma de desresponsabilização colectiva.

A primeira grande crítica que se faz à República é que a sua instauração se fez de uma forma violenta e sanguinária. Esta crítica é fundamentalmente fútil, uma vez que é regra (e raras são as excepções) que as grandes mudanças sociais e políticas se façam precisamente de forma violenta e sanguinária. E a mudança de uma sociedade monárquica para uma sociedade republicana é uma das grandes mudanças sociais e políticas que atravessou todas as nações do ocidente, quase sempre com violência e sangue.

A outra grande crítica que se faz à nossa centenária República é o seu rotundo e evidente falhanço em corresponder aos anseios de desenvolvimento do povo português. Olhando para trás, encontramo-nos hoje numa situação colectiva assustadoramente parecida com aquela que se viveu na instável primeira República. Como se, 100 anos depois, tivéssemos dado uma volta de 360 graus para voltarmos ao ponto de partida. Isso em parte é verdade. Mas, tão ou mais assustadora que a análise da situação social e política actual por paralelo à de há um século atrás, é a releitura do diagnóstico do “ser português” que vários anos antes já tinha sido feita pela “Geração de 70”. O que essa releitura revela é um povo cujos traços de personalidade colectiva pouco mudaram em 100 anos. Os nossos defeitos colectivos são hoje os mesmos que eram há um século e são aqueles que permitiram que aceitássemos impavidamente que nos guiassem como um dócil rebanho na maior parte destes últimos 100 anos (durante toda a ditadura, obviamente, mas também no tempo da “Europa”, com raríssimas excepções na primeira república, no PREC e, talvez, nos anos de ouro cavaquistas).

O problema não está na República. Porque o que verdadeira e essencialmente distingue a República da Monarquia – e aqui chegamos ao centro do debate – é o “peso” que cada um dos regimes coloca sobre os ombros dos cidadãos. Numa Monarquia o poder emana de Deus e é atribuído divinamente a um cidadão. Por isso é que existe uma linha sucessória. Numa República, o poder emana do Povo e é atribuído aos seus representantes durante o período de tempo do mandato e segundo esse mandato. Por isso, numa Monarquia, os cidadãos são essencialmente irresponsáveis perante o caminho da sociedade (compete ao Rei decidir), enquanto que numa República os cidadãos são – todos – solidariamente responsáveis pelas escolhas feitas (se não o forem, a consequência lógica é a guerra civil ou a formação de partidos). A República é portanto – logicamente – um estágio evolutivo superior da organização colectiva da espécie humana. Regressar da República à Monarquia seria um retrocesso histórico contrário a toda a evolução recente das sociedades humanas.

Claro que – dirão os apoiantes da Monarquia – o que se pretende não é o regresso às formas tradicionais de Monarquia, mas sim a uma Monarquia constitucional, com partidos, eleições e representantes temporalmente mandatados. Uma Monarquia “moderna”. Esse é outro erro de perspectiva subjacente a este debate. Desde logo, porque uma “monarquia constitucional” já é em si mesma uma conjugação de termos difícil de conceber. De onde emana a legitimidade de poder nesse caso? Do “monarca” ou da “constituição”? “De ambos”, naturalmente, só é uma resposta aceitável, enquanto eles não forem contraditórios…

Depois, porque uma Monarquia em que todos os representantes executivos são eleitos excepto o Rei não é verdadeiramente uma Monarquia. É uma República com um cargo de chefe de Estado não electivo. O que significa que, na realidade, não existem verdadeiras monarquias no mundo ocidental. O que bate certo com a já referida evolução das sociedades humanas: não existem monarquias no mundo ocidental porque é uma fatalidade da evolução histórica que não existam monarquias no mundo ocidental. É tão simples quanto isso. E é por isso que a proposta de regresso à Monarquia é tão… irracional.

Aliás, se me é permitia a opinião (republicana), as monarquias que conhecemos no mundo ocidental (nomeadamente na Europa), fazem muito pouco jus à nobreza (a palavra adequa-se particularmente neste contexto) tradicional da Monarquia. Escândalos nas revistas do social, plebeus em matrimónios reais, divórcios… nada disto está à altura do legado histórico da Monarquia, o qual, até um republicano o admite, nos deu bastantes exemplos de grandeza. Aliás, é disso também que se faz a nossa história! Essas tristes figuras das monarquias europeias não são epifenómenos; são, precisamente, manifestações de como a instituição monárquica está desfasada do mundo moderno. Toleram-se porque na verdade pouco importam. Quem decide – tal como deve ser – são os cidadãos através dos seus representantes eleitos.

Os partidários da causa monárquica em Portugal podem dividir-se em dois grandes grupos. Um deles é o dos intelectuais que, à maneira de Vasco Pulido Valente, encontram no advogar da Monarquia uma forma de apresentarem ideias “originais”, diferentes das dos outros intelectuais. O outro é o dos cidadãos comuns que colocam uma bandeira azul e branca no carro ou mudam a sua imagem de perfil no Facebook em dia de centenário da República; esses fazem-no porque é chique, tem classe e a bandeira até é bonita. Mas isso não tem nada a ver com a Monarquia.

O problema é que uns e outros procuram externamente as respostas que deviam procurar dentro de si próprios, colectivamente falando. Não foi a República que nos colocou onde nós estamos. Fomos nós que nos colocámos lá e não há monarca que nos salve! Temos que ser nós próprios a fazê-lo. Dificilmente poderia fechar com uma afirmação mais republicana!