“Indústria do jornalismo: é ordenhar a

“Indústria do jornalismo: é ordenhar a vaca até ao fim e adeus”, um interessante artigo de @PauloQuerido do http://ow.ly/1rCZG

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Sobre a “lei da rolha”

Sobre a “lei da rolha”, alguns considerandos antes da questão de substância.

1. Este congresso é a imagem de Santana Lopes. Primeiro, com a tenacidade e perspicácia que se lhe reconhece, Santana forçou um congresso para aquilo que o partido mais precisa: discutir o próprio partido. Começou sozinho, contra o PSD, e acabou por conquistar primeiro a opinião pública e depois, atrás dela, a opinião partidária. Mas, no final, como faz habitualmente, Santana borrou uma excelente pintura com a óbvia confusão entre ressentimentos pessoais e política partidária. Santana é um daqueles personagens que vive a política tão intensamente que se chega a convencer que a política faz parte da sua vida. Alguém lhe devia explicar que são duas coisas diferentes.

2. É impressionante que agora toda a gente seja contra a “lei da rolha”, mas na altura ninguém tenha levantado a voz contra ela. O que se terá passado? Estavam todos a dormir? Já ouvi reclamar da constitucionalidade da coisa, já ouvi ameaças de recurso para o conselho jurisdicional, mas ainda não ouvi ninguém que se tenha pronunciado contra no próprio congresso. Ou que tenha abandonado a sala nesse momento. Ou que tenha ameaçado sair do partido por causa disso. Se há coisa que o PSD sempre foi, é um partido de Liberdade. Está no seu ADN. Por isso, como alguém disse (PML, creio), esta “lei da rolha” é uma vergonha para o partido. Por muito menos já se rasgaram cartões de partido.

3. Mas nada disso vai à questão de substância: afinal, porque é que a maioria dos congressistas aprovaram a “lei da rolha”? É óbvia a psicologia que levou Santana a propô-la; é também evidente que a maioria dos notáveis estava demasiado entretida nos jogos florais eleitorais para perceber o que estava a acontecer; mas o que não é tão claro é porque razão o colectivo social-democrata se permitiu tamanha burrice. A explicação, parece-me, prende-se com a percepção de uma diferença fundamental entre o PSD e o PS.

Perante a quantidade de ferimentos políticos de que Sócrates já foi alvo, o facto de ter o partido unido atrás de si é notável e estabelece um contraponto óbvio em relação ao PSD. Para o bem e para o mal, nunca por nunca, no PSD, um líder com as fraquezas de Sócrates poderia subsistir sem críticas internas. E isso não é bom; é mau.

Um partido político não é uma representação da sociedade. O parlamento é que é uma representação da sociedade. Um partido é um exército político. Deve marchar em sintonia para ser vitorioso. E alimenta essa  unidade, primeiro que tudo, na mundivisão que resulta da sua ideologia de base, e, depois, na estratégia escolhida para a pôr em prática.

Ora, acontece que o PS é um partido mais sólido do ponto de vista ideológico do que o PSD. É mais fácil unificar as “tropas” no PS do que no PSD.  Aliás, em condições normais (e em Portugal), é mais unificador um projecto de esquerda do que um projecto de direita. O PSD é um partido de interesses. E os interesses não federam interesses. O que federa os interesses é a ideologia.

Por isso é que os congressistas sociais-democratas aprovaram a “lei da rolha”. Porque quiseram criar por decreto o que lhes falta como substrato. O PSD está cansado de correr atrás do PS com armas diferentes. Sente como um lastro as divergências internas de que não se consegue livrar. E olha para o lado, admirado, para um PS que parece imune às divergências. É esse sentimento profundo dos sociais-democratas que dá origem à “lei da rolha”. Mas é obviamente uma tontaria que o partido vai pagar caro.

Noiserv – “one hundred miles from thoughtlessness”

Este disco – “one hundred miles from thoughtlessness”, primeiro de originais do  português Noiserv, nome artístico de David Santos, foi uma recomendação do Vidro Azul de Ricardo Mariano e é muito, muito interessante em vários aspectos:

Em 1º lugar, é um excelente disco. Intimista, minimalista e ao mesmo tempo sofisticado. Já não surpreende que os músicos portugueses nos surpreendam, mas ainda conseguimos ficar surpreendidos por lhes ser dada tão pouca atenção. A música de Noiserv tem todas as características para fazer carreira lá fora, entre quem acompanha com alguma atenção a “cena” alternativa. Quem gosta de Sigur Ros ou Amiina, também vai gostar disto.

Em 2º lugar, é uma edição de autor sujeita a uma licença Creative Commons. Aliás basta ver alguns dos videos que se encontram no YouTube ou no MySpace do artista para perceber que estamos perante um músico que “caga” no star system. “Pequenos” artistas como Noiserv, um pouco por todo o mundo e um pouco por todos os estilos, estão a redescobrir o que é viver a música em vez de viver da música. Não digo que Bob Dylan não tivesse qualidade; o que digo é que, olhando à nossa volta nos tempos que correm, para artistas como Noiserv, não podemos deixar de nos perguntar quantos artistas de qualidade não “secámos” com o nosso milionário star system, que vigorou durante anos (e que na verdade ainda não morreu de todo). Eu, pela minha parte já contribui para a bolsa de David Santos. Com todo o gosto, em todos os sentidos!

Em 3º lugar, é um objecto de um requinte extraordinário. Várias folhas brancas com desenhos a lápis de Diana Mascarenhas, rodeados pelas letras em inglês, unidas por umas argolas pretas. O detalhe final é dado por um pequeno lápis de quatro cores num suporte próprio. Já agora, o lápis tem inscrito o site do artista mas é da portuguesa Viarco. Viva a Viarco!  Quando se ouve o artista não se imagina que é português; e quando se vê o disco também não. Este é sem dúvida um dos três CD mais elegantes que tenho na minha colecção. Claro que já fiz uma cópia para andar na rua. O original fica guardadinho lá em casa e só sai quando fizer bom tempo. Para não se constipar.

Era isto que queria dizer sobre “one hundred miles from thoughtlessness”, de Noiserv. A música, essa tem mesmo que ser ouvida…