Em declarações recentes a uma rádio, Ribeiro e Castro, deputado do CDS-PP, acusou o governo de ter uma “estratégia” louca que visa provocar eleições antecipadas na janela de oportunidade de Abril-Junho e aconselhou o Partido Socialista a mudar a liderança do Governo.

A primeira parte não é nova e tem sido repetida várias vezes pelos partidos da oposição e repetidamente pelo CDS-PP. Mas a segunda parte é que é realmente interessante e traz uma ideia nova para o debate.

Há duas linhas de pensamento  considerar quando olhamos para a situação política actual com a intenção de tentar perceber se Sócrates faz parte da solução ou faz parte do problema. A primeira tem a ver com a sua credibilidade, a segunda com a sua personalidade. E nenhuma das coisas é dispiscienda do ponto de vista político, como se verá.

Goste-se ou não do personagem, Sócrates tem sido o Primeiro-Ministro da nossa história democrática mais assolado por suspeições resultantes de processos judiciais ou ameaças de processos judiciais que eclodem à sua volta mas que nunca o chegam a atingir verdadeiramente. Na verdade, do ponto de vista formal, o Primeiro-Ministro está até hoje impoluto e tem todas as condições para governar. Mas, do ponto de vista político, é impensável negar que a sucessão de “casos” associados ao seu nome não afectem a sua margem de manobra política, em eleições ou fora delas. Os defensores de Sócrates há muito vêm dizendo que está em curso um campanha de assassinato de carácter para derrubar o Primeiro-Ministro e acusam a oposição, alguns media e opinadores, e até o Presidente, de “manobrarem” nesse sentido. Muitas vezes essa acusação é exagerada, mas muitas outras vezes, provavelmente ainda mais, não o é. E não custa a nenhum de nós apontar vários agentes (nos media e não só) cuja sistemática obsessão por Sócrates faz suspeitar de algo escondido. Os acusadores de Sócrates, naturalmente dizem que “não há fumo sem fogo” e que a repetição constante de “casos” (quase) envolvendo o Primeiro-Ministro são prova mais do que suficiente. Ou seja, existe suspeição de ambos os lados: se há, para alguns, matéria suficiente para suspeitar da honorabilidade de Sócrates, há, para outros, dados que justificam a suspeita de que estamos perante uma campanha de difamação pessoal inaceitável num estado democrático.  Tanto uma suspeição como outra fazem parte dos dados da situação política actual. Ou seja, devem ser levados em conta por quem analise a situação do ponto de vista estritamente político.

Não sabemos se esses dados foram tidos em conta nas reuniões internas nas quais o Partido Socialista escolheu o seu candidato a Primeiro-Ministro nas eleições legislativas. Pode parecer uma tolice pensar que o PS pudesse pensar em ter outro candidato a primeiro-ministro que não José Sócrates. Em primeiro lugar porque o PM devia defender a sua obra, em segundo porque não havia ninguém dentro do PS capaz de lhe disputar a liderança. Mas uma “vozinha” ou duas “vozinhas” que se tivessem levantado no interior do partido seriam úteis e dariam um sinal de que o partido não estava “morto” do ponto de vista da análise política. É aliás estranho que, ao longo de todos estes meses, com tantos “casos” politicamente “às costas”, Sócrates não tenha sido discutido sequer por uma só voz no interior do partido.

Por maioria de razão, o mesmo se pode dizer nos dias de hoje. Se a credibilidade de Sócrates já estava diminuída à partida para as eleições legislativas (e resta saber o quanto essa credibilidade diminuída é responsável pelos resultados eleitorais), agora, num quadro de maioria relativa, é a sua personalidade que salta também para o primeiro plano da actualidade política.  Claro que a personalidade de cada um é com cada um, mas, no plano político, ela é relevante somente na medida em que facilite ou dificulte o processo político. E é nesse sentido que as oposições têm levantado a questão: alegam que, em parte porque está habituado a governar em maioria, em parte porque tem pouca predisposição pessoal para dialogar e partilhar, José Sócrates não é capaz de governar em minoria. Aquilo que conhecemos de José Sócrates é aquilo que conhecemos de José Sócrates. Ou seja, podemos presumir que a pessoa José Sócrates não é capaz de diálogo, mas não o podemos saber com certeza.  O que significa que terá que ser  a realidade a prová-lo. O que, mais uma vez, aconselharia que alguma voz dentro do PS fosse capaz de levantar a questão, mesmo que apenas formulando-a sem a responder. Estará José Sócrates em condições de continuar a Governar? Terá ele, hoje, a margem de credibilidade e os traços de personalidade necessários para governar em minoria? Foi a porta para esta reflexão que a sugestão de Ribeiro e Castro discretamente abriu. Resta saber se alguém dentro do PS tem a coragem de a escancarar.

A situação política que vivemos actualmente é muito complexa. De diversos pontos de vista: pelo alinhamento estranho de forças no parlamento (minoria de um, maioria de esquerda a três, maioria de bloco central, maioria de direita contra o partido de governo, etc); pelo facto de haver eleições presidenciais a um ano de distância; por causa da janela de oportunidade de Abril-Junho; pelo facto de tanto o Presidente como o Primeiro-Ministro estarem diminuídos; por causa da urgência da crise económica e respectivas terapêuticas, etc. Por ser tão complexa, a situação política poderá ter várias formas de ser resolvida, todas elas com implicações políticas significativas: a demissão do Governo na janela de oportunidade de Abril-Junho, com convocação de novas eleições; o prolongar do actual “pântano” até 2011 na esperança de que seja eleito um presidente de esquerda “amigo” do PS; um governo de iniciativa governamental para dar estabilidade neste tempos difíceis; a “imposição” presidencial de um entendimento PS-PSD; etc. A ideia de substituição de José Sócrates por outro alto dirigente socialista mais preparado para governar nas novas circunstâncias políticas é apenas mais uma das muitas soluções possíveis ( e nem é das mais complexas do ponto de vista político). Basta que surja um oportuno convite internacional para qualquer coisa, o que até nem seria inédito…

Seria verdadeiro, mas simplista, dizer, em apoio desta solução, que o PS deve manter os interesses do país acima dos do partido. Mas na realidade a questão nem deve ser vista assim. O primeiro dever de um partido político é conquistar e manter o poder. Se o PS for capaz de fazer a reflexão sobre se Sócrates é parte da solução ou parte do problema, estará nesse mesmo momento a perguntar a si próprio se os interesses de Sócrates e do PS são hoje coincidentes; e quais deve preservar. Compete ao PS dar uma resposta. Mas para isso é preciso que alguém formule a pergunta.

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