A vida dá muitas voltas e às vezes até nos faz verdadeiras reviengas…

Depois da decisão de suspensão de publicação da Automagazine e da perspectiva de desemprego, eis que surgiu a possibilidade de abraçar um novo projecto dentro da empresa: a sub-direcção do departamento de multimédia. O departamento de multimédia, tem a seu cargo a gestão das plataformas  de toda a presença online das publicações da Motorpres Lisboa. Ou seja, sites, fóruns, blogues, redes sociais, mobile, etc. É todo um mundo que agora vou começar a explorar.

Quem me conhece (e quem me acompanha no facebook…) já percebeu que esta é uma área de trabalho que me interessa muito e que me tem vindo a interessar cada vez mais. E, sinceramente, estou convencido que o futuro dos media passa por aqui. Por isso, o convite da Motorpress para participar na direcção do departamento tornou-se… irrecusável.

Obrigado a todos os que nesta fase conturbada elogiaram a Automagazine e mostraram preocupação pelo futuro profissional dos respectivos trabalhadores. Pela minha parte o futuro está assegurado e continua a passar… pela Motorpress.

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Eu voto Obama!

A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama tem suscitado os maiores equívocos e – muito sinceramente (mas não humildemente…) – parece-me que ainda ninguém percebeu verdadeiramente o que é que está em causa!

A escolha da Academia do Nobel é uma espécie de ponto culminante de um namoro entre os europeus e Obama que começou muito antes da sua eleição e que na verdade já tem antecedentes remotos na simpatia que os europeus nutriam por Clinton ou até por Kennedy. E que, pelo oposto, se manifestou também na ridicularização de Bush.

As épocas são diferentes, as políticas são diferentes e até as pessoas são diferentes, mas o que une Kennedy, Clinton e Obama é a esperança com que cada um foi olhado, no seu tempo (e até depois do seu tempo…), pelos europeus. Esperança em quê? Num mundo melhor, naturalmente! Parece um script de Hollywood (protagonizado por Kevin Costner…), mas não é! A aspiração de “um mundo melhor” é, provavelmente, a primeira e mais profunda aspiração dos europeus. E é tudo menos banal ou romântica. Na realidade é resultado de um entendimento muito preciso – e correcto, digo eu – da realidade global com que hoje somos confrontados.

Os europeus são o povo culturalmente mais evoluído à face da terra. E, provavelmente, são o povo com maior consciência de que o nosso mundo é hoje um mundo global. Não só porque os problemas, quaisquer que eles sejam, têm hoje consequências à escala global, mas também porque, consequentemente,  a solução dos problemas do mundo tem que passar pelo equilíbrio de uma racionalidade global. Não necessariamente (nem desejavelmente)  de um poder factual, sustentando em força militar, mas antes de uma ideia de coexistência pacífica, sustentada numa nova forma – positiva – de dialogar com todos os povos. Foi a mensagem positiva que os Europeus valorizaram em Kennedy ou Clinton e hoje os leva idolatrarem Obama mais ainda que os norte-americanos. A aspiração é difusa – muito difusa – mas não podia ser mais acertada: todos os europeus de bom senso  (e muitos americanos, bastantes asiáticos,  alguns africanos, etc) já perceberam que o futuro do planeta precisa urgentemente de uma racionalidade global. E que os acordos globais (de clima, de comércio, etc) andam muito devagar e não tocam sequer ao de leve na política (na realidade até são quase sempre condicionados e limitados por ela).  E a política – todos o sabemos – é o busílis da questão.

Quando Obama foi eleito pela larga maioria dos norte-americanos, percebeu-se que, se a eleição tivesse ocorrido aqui, teria sido eleito por uma ainda mais larga maioria dos europeus. O que os europeus quiseram dizer com esse engagement foi que gostariam de ter votado na eleição americana e que, humildemente, a consideram o acto democrático decisivo para o futuro da humanidade. Pois bem, o Prémio Nobel da Paz é o voto dos europeus em Obama. É, portanto, o meu voto!

“O Vara”

Fico preocupado quando ouço uma jornalista da direcção de um jornal de referênca referir-se a alguém como “o Vara”.

Na forma de tratar os políticos, os jornais seguem o livro de estilo de cada um, mas obviamente nunca o fazem por “tu”. Não escrevem “o Armando Vara”, nem “o Sócrates” ou “a Manuela Ferreira Leite”. Escrevem – e bem – “Armando Vara”, “José Sócrates” ou “Manuela Ferreira Leite”.

Mas é quando estão fora do seu aquário – fora da redacção e dos seus constrangimentos estilísticos – que os jornalistas tendem a revelar o seu verdadeiro “self”. Nos debates, nos comentários na rádio ou na TV, nos blogues e no twitter. E, quanto à forma de tratar os políticos nestes fóruns, há pelo menos 3 comportamentos típicos da”espécie”:

1. Os institucionalistas. Tratam todos os políticos na terceira pessoa. Nunca dizem “o Sócrates” ou “o Cavaco”, mas sempre e só “Sócrates” ou “Cavaco”. Mesmo que estejam a falar de Mendes Bota! Ou seja, mantêm em relação aos objectos dos seus comentários, posts ou twits a distância institucional devida e que, afinal, é a mesma que se materializa no código estilístico do jornal.

2. Os populistas. Tratam todos os políticos por tu. Para estes jornalistas, não há grande distância entre a conversa de café e o debate político e portanto também não deve haver grande distância entre o café e o parlamento ou os gabinetes ministerias. Todos são “o” qualquer-coisa: “o Manel do talho” ou “o Cavaco e Silva”. Nas redacções aprenderam a seguir o livro de estilo, mas nas conversas mais informais, foge-lhes o discurso para o povo.

3. Os selectivos. São de longe os mais perigosos e tratam alguns políticos por “tu” e outros por “você”. São capazes de dizer “o Vara” como de dizer “Manuela Ferreira Leite” ou “António Vitorino”.  Às vezes na mesma frase. E essa escolha é todo um tratado. Nalguns casos essa familiaridade é elogiosa (“o Soares)”, mas na maior parte dos casos é desdém (“o Vara”). E é por isso que este comportamento é perigoso: porque implica uma ideia pré-concebida sobre uma personagem de que parece que nem o próprio tem consciência. E é isso mesmo que é muito preocupante do ponto de vista da nossa “confiabilidade” nas notícias, opiniões e decisões editoriais dos jornalistas.

Era de esperar que, no quadro de um governo de minoria, no Parlamento se vivesse em instabilidade política. E desde logo parecia um exercício difícil para um governo ex-maioritário efectivar o “jogo de cintura ” necessário a estar bem com Deus e com  o diabo, a célebre “coligação” económica à direita e social à esquerda.

Mas o que se tem passado na Assembleia da República desde que este Governo tomou posse ultrapassas todas as piores expectativas.  É fácil falar de irresponsabilidades da oposição, como aliás o PS tem feito repetidamente, aproveitando o facto de a mesma se “pôr a jeito”. É óbvio que o país não pode ser governado a partir da oposição, algo que certamente até a própria oposição percebe. Mas, se seria admissível que os partidos dos extremos agissem no parlamento com o grau de irresponsabilidade com que o têm feito, era igualmente expectável que o PSD, um partido com aspirações de governo, tivesse uma postura institucionalmente mais fundamentada. A sua falta é o resultado de um partido que  neste momento não tem rumo nem liderança (“Afinal quem manda no PSD?” é hoje uma pergunta muito pertinente).

Mas a irresponsabilidade vai ainda mais longe. Com uma oposição em roda livre, um PSD à deriva e um Presidente diminuído, Sócrates teria todas as condições para passar para as costas da oposição o ónus da “não-governação” e capitalizar descontentamento para ganhar as próximas eleições intercalares. E essa continua certamente a ser a sua estratégia. Mas, num quadro em que tem sido insistentemente acusado de prepotência e “asfixia democrática”, aconselhar ao actual líder da oposição, em pleno parlamento, que tenha “juizinho”, está longe de ser algo que se possa considerar inteligente. Quanto muito, aconselhar-se-ia a Sócrates que mandasse os seus “generais” fazerem esse papel; e que os aconselhasse a não agirem como “soldados de infantaria”, que foi o que fez Vieira da Silva com as acusações de “espionagem política”. Ou seja, o Governo , contra todas as expectativas e condicionalismos da governação, tem agido com o mesmo grau de irresponsabilidade da oposição, começando no Primeiro-Ministro, passando pelos seus ministros e acabando nos dirigentes do partido.

Obviamente, os portugueses de bom senso (ainda há alguns…) olham para este quadro com preocupação. Mas, manda o mesmo bom senso que se diga que foram os portugueses, precisamente, que escolheram esta solução em eleições livres. E mais: foram os mesmos portugueses que, sucessivamente alertados nos últimos anos para a dificuldade de gerar maiorias de governo estáveis, não souberam ou não quiseram exigir dos seus partidos a correspondente alteração do sistema eleitoral. Dir-se-á, com razão, que a instabilidade – e irresponsabilidade – actual manifesta o pior que o nosso sistema eleitoral pode gerar, mas que é possível governar em minoria com um mínimo de estabilidade, como diversos exemplos no passado provam. Ou seja, o estado “minoritário” de governo permite uma amplitude política que depende menos da aritmética eleitoral do que da maturidade e sentido de responsabilidade dos agentes políticos. É isso que faz desta conjuntura um verdadeiro  “worst case scenario” com lições importantes para o nosso presente e futuro coletivos: é que, no actual quadro macroeconómico, a última coisa de que o País precisava era da cultura de irresponsabilidade que une praticamente todos os agentes políticos. A única coisa responsável que cada um de nós pode fazer, na verdade, é pedir-lhes – exigir-lhes – que sejam responsáveis! E isso já não é pouco!