O problema do futebol

futebolO problema do futebol é que há muita gente a ver futebol que realmente NÃO GOSTA de futebol!

Na empresa onde trabalho há um tipo de que toda a gente gosta, que é correctíssimo e muito educado no trato com os colegas e que seria incapaz de fazer mal a uma mosca. E, no entanto, sendo adepto de um clube, alinha e faz piadas, algumas delas bastante rasteiras, sobre os adeptos do clube rival como todos os outros,  e  com uma satisfação e gozo evidentes. Eu não sou psicanalista, mas suspeito que, para este meu colega, o futebol tem uma função social e psicológica que está para lá do próprio jogo.  O que o leva a mandar um piada ao vizinho que não mandaria se a piada não fosse sobre futebol está  para lá do próprio futebol.

Suspeito também que á isso que explica que o futebol tantas vezes emerja em reuniões de empresa ou atá em encontros de Estado quando se está a tratar de assuntos muito mais importantes que o futebol. Há algo de social e de psicológico no futebol que o leva a ter um peso anormal na sociedade. Isso nota-se em todo lado, a todo o momento. Basta abrir os olhos ou folhear um jornal. Exemplo: três diários desportivos que tratam sobretudo de futebol; futebol dia sim dia não nas primeiras páginas dos diários generalistas; vários programas de TV em que várias pessoas falam – só falam! – de futebol; etc; etc; etc.

Porque é que o futebol não tem o peso social que tem o andebol ou o atletismo? Porque á que o futebol se transformou neste fenómeno estranho que tudo e todos submerge? Quem olhar para o mapa-mundo do futebol não pode deixar de reparar que, no “mundo cultural”  em que o futebol como desporto está mais implantado, os países mais pobres e atrasados (na América do Sul) são aqueles em que o futebol tem uma relevância social maior, e os países mais desenvolvidos (norte da Europa) são aqueles onde tem menos, onde o futebol  é mais reduzido à  sua significância. Eu tenho uma explicação para isso, mas não é agradável: o futebol tende a assumir uma relevância social parecida com a dos outros desportos (o andebol ou o atletismo, por exemplo), nos paíes onde a racionalidade está mais presente no processo social e, inversamente, tende a ser mais relevante nos países onde a irracionalidade tem mais peso no funcionamento da sociedade. Por isso é que o futebol é o que é na Argentina ou no Brasil; e é o que é na Dinamarca ou na Noruega. Deste ponto de vista Portugal é, provavelmente, o mais sul-americano dos países europeus. Ou seja, o mais irracional!

E chegamos finalmente ao ponto essencial. Nesses países, onde grassa a irracionalidade social e reina o futebol, aquilo que se passa dentro das quatro linhas é apenas uma pequeníssima parte do fenómeno. Nesses países, o futebol tem muitas funções sociais (colectivas) e psicológicas (individuais) que estão para além do futebol. Num país perfeito, o futebol teria a mesma relevância que o andebol ou o xadrês. Claro que esse país não existe, mas…  se existisse seria assim!

Num país imperfeito, o futebol serve para um tipo mandar umas piadolas rasteiras ao parceiro do lado que, por boa educação, não mandaria se o assunto não fosse futebol. Serve também para uns grupos de jovens se juntarem para atirar pedras a outros grupos de jovens em vez de estarem num laboratório a fazer uma experiência de química. Serve ainda para dois ou três trabalhadores das obras falarem à  mesa de café e assim evitarem a evidência psicológica – que é dura… -  de que na realidade não entendem nada do que se está a falar a propósito eleiçoes em quem vão votar no domingo seguinte!

Nem o tipo que diz a piadola, nem os bandos de jovens, nem o grupo de trabalhadores das obras realmente gostam de futebol. Aquilo de que eles gostam é do que o futebol lhes proporciona para lá do futebol. Se fossem colocados na bancada a ver um jogo de veteranos entre o Desportivo da Carris e o Grupo Cultural da EDP ou um jogo de infantis entre o Alverca e o UDAL, quantos ficariam até ao final? Nenhum, provavelmente. E no entanto… é futebol.

Todas as coisas más que rodeiam o futebol – a violência física e verbal, as falcatruas, a falta de ética, os conflitos entre dirigentes, o excesso de protagonismo dos seus actores, a aparente inimputabilidade de tudo e de todos, etc, etc etc (são muitas as coisas más…) – derivam do que, no futebol, está para lá do futebol. O jogo em si mesmo não tem culta disso.

Por isso é que o grande problema do futebol – na minha opinião – é que há muita gente a ver futebol que na realidade NÃO GOSTA  de futebol e que, se tivesse que assistir a um jogo no qual não tivesse qualquer outro envolvimento – emocional, psicológico, social, etc – desistiria e iria fazer outra coisa. Sei lá, ver andebol ou jogar xadrês…

Mas, por outro lado, é também óbvio que é essa mesmo a grande riqueza do futebol: o facto de haver tanta gente – milhões! – a gravitar à  sua volta. É por isso que o futebol é o que é e tem a relevância social – e económica! – que tem. É o “desporto-rei”; é o “maior espectáculo do mundo”; etc. Se não fosse assim o futebol teria, em média, tantos adeptos como o andebol ou o xadrês. Seria perfeito…

[declaração de interesses: eu ADORO futebol, vou todos os domingos ao estádio e também mando a minha piadola de vez em quando. Mas não mando pedras… Bom, pelo menos nunca mandei… Ou seja, sou parte do problema]

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