Responsabilidade da minoria

Há uma reflexão associada ao conceito de governação em minoria que não tem passado muito para a opinião pública, mas que é incontornável e ajudará a moldar os próximos meses.

Uma maioria contrária ao Governo só se faz com o PSD. Tem-se falado muito das responsabilidades dos partidos da oposição na estabilidade governativa – inteligentemente, o PS tem-no repetido insistentemente – mas convém não esquecer que, quaisquer que sejam as circunstâncias, o Governo só pode ser derrubado com os votos do PSD. Esta é uma realidade aritmética, com importantes consequências políticas.

O CDS, o PCP e o BE gozam de uma margem de irresponsabilidade muito maior que o PSD. O que significa que podem dizer e fazer em termos políticos aquilo que entenderem. O PSD não. O PSD tem que ter em conta o resultado das suas acções.

Para o maior partido da oposição, qualquer que ele seja (vale agora para o PSD como valeu noutras alturas para o PS), não há nada mais confortável do que fazer oposição a uma maioria. É muito mais difícil fazer oposição a uma minoria. Porque a oposição a uma minoria  pode implicar responsabilidades políticas imediatas e abre a porta às “queixas” do Governo (lembram-se do “deixem-nos trabalhar” de Cavaco, de longe um dos slogans mais fortes do Portugal democrático; o slogan não é forte por causa da sua sintaxe, tornou-se forte porque era profundamente “real”).

É isso que o próximo líder do PSD tem que entender.  A tarefa que terá pela frente é tudo menos fácil. Em minoria, o Governo andará no fio da navalha. Mas o maior partido da oposição também.

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PSD

Se alguém me tivesse perguntado, depois das eleições, quem ia viabilizar uma solução governativa com o PS, eu teria dito que seria o PP. Por três razões:

1. O PP é um partido que precisa de estar no poder de tempos a tempos para distribuir cargos pelos seus militantes. O PP precisa de passar pelo poder  tanto quanto os partidos simétricos da esquerda precisam de permanecer afastados dele.  O cimento do PP é a distribuição de poder; o cimentos dos partidos de esquerda é a reivindicação face aos poderes instalados;

2. Um partido na posição que o PP ocupa no espectro partidário pode, em condições normais, valer entre 5 e 15 por cento dos votos. Com uma votação de mais de 10 por cento, o PP de Paulo Portas está mais perto do seu limite máximo do que do seu patamar inferior.

3. Por fim, o CDS teve uma das suas melhores votações de sempre no quadro de um enfraquecimento correspondente do PSD. O que quer dizer que , se o Governo PS porventura caísse nos meses mais próximos, seria muito difícil o PP repetir um resultado tão bom; em primeiro lugar porque este já está no patamar superior (independentemente de tudo o resto é mais provável que desça do que que suba); e em segundo lugar porque, previsivelmente, o PSD vai lamber as suas feridas, fazer as mudanças internas necessárias, e aparecer mais forte daqui a alguns meses.

Por todas estas razões, esperar-se-ia que Paulo Portas – que é suficientemente inteligente e frio para o perceber – fosse o primeiro a querer chegar-se ao poder, usando aliás como trunfo o facto de ser o único que está em condições para o fazer!

Mas não foi isso que Paulo Portas fez! O que O terá levado a agir assim. Será possível que Paulo Portas ache que pode tornar o CDS/PP maior que o PSD? Será que Paulo Portas quer transformar o PP no grande partido liberal de direita que o PSD nunca ousou ser?

Não devemos esquecer que Paulo Portas é um resistente. Já sofreu bastante à frente do CDS/PP e no seu íntimo, estava provavelmente convencido que o partido já não podia chegar ao patamar eleitoral que agora atingiu. Com mais de 10 por cento dos votos no seu regaço, Portas deve ter sentido que era a altura do “vai ou racha”. Olhou para o lado, viu um PSD em frangalhos e ter-se-á convencido que isso era mesmo possível.

E é… se o PSD deixar. Por isso é que esta reflexão é sobre o PSD.

O Partido Social Democrata esteve no poder dois anos nos últimos 20, “queima” dirigentes como os clubes de futebol “queimam” treinadores e está ameaçado de desagregação por múltiplas facções, entre as quais o PSD e o PPD são as únicas que fazem sentido. E, mesmo assim, não juntas.

O Partido Social Democrata está numa encruzilhada. Se passar a ser dirigido por Passos Coelho (e se este confirmar o sentido liberal de algumas das suas intervenções) podemos ter um “novo” PSD (talvez finalmente um PPD…) depois das directas. Provavelmente pode perder o centro (já o perdeu!), mas será uma ameaça ao PP. Se continuar a ser dirigido pelos “velhos”  do costume ou por “novos velhos” com a mesma estratégia de sempre, a sua recuperação irá depender muito da capacidade e visão do  líder que escolher.  Como aconteceu com Manuela Ferreira Leite. O PSD não mudou com Manuela Ferreira Leite; o PSD foi aquilo que Manuela Ferreira Leite conseguiu fazer dele dentro do mesmo quadro estratégico. Ou seja, ignorando o choque essencial entre liberais e sociais-democratas dentro do PSD. O PSD não terá futuro – e provavelmente também não terá presente – enquanto não suplantar ou resolver esse conflito. Suplantar, “inventando” uma proposta política global que integre as duas pulsões, uma espécie de “terceira via”  da direita; ou resolvendo, através de uma cisão ou da vitória definitiva do PPD sobre o PSD. O que não faz sentido é que não exista, em Portugal, um grande partido liberal. É óbvio que, olhando para os eleitores portugueses actualmente – ainda muito posicionados à esquerda – não parece que um partido liberal pudesse ganhar eleições. Mas criá-lo seria um daqueles actos políticos definidores, tanto para o líder que o fizesse como para o quadro político que desse acto emergeria.

A aposta de Paulo Portas é que o PSD continue no rame-rame do costume e que passe por aí o crescimento do CDS/PP. Eu não acredito que o PSD definhe ao ponto de deixar que o partido à sua direita o suplante na representação dessa mesma direita. Mas acredito que Paulo Portas acredite!

Esta crónica de Pacheco Pereira publicada no jornal Público- o já famoso TDACHSR, Transtorno do Déficit de Atenção Cívica com Hiperactividade Social – é obviamente uma cortina de fumo. José Pacheco Pereira empenhou-se fortemente neste ciclo de eleições e desenhou uma estratégia ganhadora que até tinha uma líder com o “perfil” certo para a levar por diante. Mas,ao que parece, a “actriz” não esteve à altura do argumento (um plot à volta da um PM autoritário e asfixiante) e até os realizadores eram fracos. Se Manuela Ferreira Leite saiu queimada, JPP saiu pelo menos muito chamuscado. Esta é uma forma de desviar as atenções e tentar reconquistar o seu prestígio de “analista” (e como a palavra se adequa neste caso…).

Por isso, analisar a substância do que ele escreve é um exercício enganador. Mas não é fútil. JPP olha a questão como um problema de política nacional, mas é claro que o problema é muito mais do que isso. Como sabe qualquer especialista em novos media, há muitas consequências dúbias e alguma perigosas destas novas plataformas de comunicação. Levantaram-no pessoas 1.0 ou mesmo 0.0, mas até alguns analistas “de dentro” do sistema, como Andrew Keen. É nesse plano que a questão se coloca (não é um problema nacional e muito menos de política nacional, como sugere JPP).

O mais curioso é que a crónica de JPP surge no mesmo jornal em cujo editorial @JMF1957 critica – e com razão! – a forma irracional e inexplicável como uma futilidade como um video feito há 2 anos por Maitê Proença entrou no topo da agenda e até no mainstream media. Aparentemente, esse seria o melhor exemplo para sustentar a tese de JPP.

Talvez… Mas a mim parece–me que este video – e a forma como ele se propagou – não tem na realidade uma função informativa, mas sim uma função fática: propagou-se porque através dele uma comunidade “testou” os seus laços comunicativos e assegurou-se de que todos falam da mesma coisa. É um “está lá?”; “Está.” colectivo. As pessoas não falam do video da Maitê por acharem que isso é importante; falam nele para confirmarem que continuam a falar umas com as outras e que continuam a falar todas do mesmo.

O problema com a tese de JPP é que isso já acontecia muita antes do Twitter, do Facebook ou até dos sms. Há anos recordo-me perfeitamente de as conversas de manhã no trabalhos serem o concurso ou o programa de humor de prime time da noite anterior. Também aí a primeira função da discussão era a própria discussão, ou seja, a partilha. E os temas não eram menos “alienados” nem “alienantes” que o video da Maitê.

Talvez essa necessidade seja mais premente agora que cada pessoa tem ao seu dispor um leque muito mais alargado de canais de informação e temas de interesse. Talvez isso torne mais necessário exercer a função fática da colectividade com mais frequência (ou com menos frequência mas – por isso mesmo – de uma forma mais visível). Talvez…

Mas isso não é o que JPP escreveu. E não tem nada a ver com política nacional…

P.S. À atenção de JPP: esta “reflexão” foi suscitada pelo, escrita no e distribuída através do twitter…

O problema do futebol

futebolO problema do futebol é que há muita gente a ver futebol que realmente NÃO GOSTA de futebol!

Na empresa onde trabalho há um tipo de que toda a gente gosta, que é correctíssimo e muito educado no trato com os colegas e que seria incapaz de fazer mal a uma mosca. E, no entanto, sendo adepto de um clube, alinha e faz piadas, algumas delas bastante rasteiras, sobre os adeptos do clube rival como todos os outros,  e  com uma satisfação e gozo evidentes. Eu não sou psicanalista, mas suspeito que, para este meu colega, o futebol tem uma função social e psicológica que está para lá do próprio jogo.  O que o leva a mandar um piada ao vizinho que não mandaria se a piada não fosse sobre futebol está  para lá do próprio futebol.

Suspeito também que á isso que explica que o futebol tantas vezes emerja em reuniões de empresa ou atá em encontros de Estado quando se está a tratar de assuntos muito mais importantes que o futebol. Há algo de social e de psicológico no futebol que o leva a ter um peso anormal na sociedade. Isso nota-se em todo lado, a todo o momento. Basta abrir os olhos ou folhear um jornal. Exemplo: três diários desportivos que tratam sobretudo de futebol; futebol dia sim dia não nas primeiras páginas dos diários generalistas; vários programas de TV em que várias pessoas falam – só falam! – de futebol; etc; etc; etc.

Porque é que o futebol não tem o peso social que tem o andebol ou o atletismo? Porque á que o futebol se transformou neste fenómeno estranho que tudo e todos submerge? Quem olhar para o mapa-mundo do futebol não pode deixar de reparar que, no “mundo cultural”  em que o futebol como desporto está mais implantado, os países mais pobres e atrasados (na América do Sul) são aqueles em que o futebol tem uma relevância social maior, e os países mais desenvolvidos (norte da Europa) são aqueles onde tem menos, onde o futebol  é mais reduzido à  sua significância. Eu tenho uma explicação para isso, mas não é agradável: o futebol tende a assumir uma relevância social parecida com a dos outros desportos (o andebol ou o atletismo, por exemplo), nos paíes onde a racionalidade está mais presente no processo social e, inversamente, tende a ser mais relevante nos países onde a irracionalidade tem mais peso no funcionamento da sociedade. Por isso é que o futebol é o que é na Argentina ou no Brasil; e é o que é na Dinamarca ou na Noruega. Deste ponto de vista Portugal é, provavelmente, o mais sul-americano dos países europeus. Ou seja, o mais irracional!

E chegamos finalmente ao ponto essencial. Nesses países, onde grassa a irracionalidade social e reina o futebol, aquilo que se passa dentro das quatro linhas é apenas uma pequeníssima parte do fenómeno. Nesses países, o futebol tem muitas funções sociais (colectivas) e psicológicas (individuais) que estão para além do futebol. Num país perfeito, o futebol teria a mesma relevância que o andebol ou o xadrês. Claro que esse país não existe, mas…  se existisse seria assim!

Num país imperfeito, o futebol serve para um tipo mandar umas piadolas rasteiras ao parceiro do lado que, por boa educação, não mandaria se o assunto não fosse futebol. Serve também para uns grupos de jovens se juntarem para atirar pedras a outros grupos de jovens em vez de estarem num laboratório a fazer uma experiência de química. Serve ainda para dois ou três trabalhadores das obras falarem à  mesa de café e assim evitarem a evidência psicológica – que é dura… -  de que na realidade não entendem nada do que se está a falar a propósito eleiçoes em quem vão votar no domingo seguinte!

Nem o tipo que diz a piadola, nem os bandos de jovens, nem o grupo de trabalhadores das obras realmente gostam de futebol. Aquilo de que eles gostam é do que o futebol lhes proporciona para lá do futebol. Se fossem colocados na bancada a ver um jogo de veteranos entre o Desportivo da Carris e o Grupo Cultural da EDP ou um jogo de infantis entre o Alverca e o UDAL, quantos ficariam até ao final? Nenhum, provavelmente. E no entanto… é futebol.

Todas as coisas más que rodeiam o futebol – a violência física e verbal, as falcatruas, a falta de ética, os conflitos entre dirigentes, o excesso de protagonismo dos seus actores, a aparente inimputabilidade de tudo e de todos, etc, etc etc (são muitas as coisas más…) – derivam do que, no futebol, está para lá do futebol. O jogo em si mesmo não tem culta disso.

Por isso é que o grande problema do futebol – na minha opinião – é que há muita gente a ver futebol que na realidade NÃO GOSTA  de futebol e que, se tivesse que assistir a um jogo no qual não tivesse qualquer outro envolvimento – emocional, psicológico, social, etc – desistiria e iria fazer outra coisa. Sei lá, ver andebol ou jogar xadrês…

Mas, por outro lado, é também óbvio que é essa mesmo a grande riqueza do futebol: o facto de haver tanta gente – milhões! – a gravitar à  sua volta. É por isso que o futebol é o que é e tem a relevância social – e económica! – que tem. É o “desporto-rei”; é o “maior espectáculo do mundo”; etc. Se não fosse assim o futebol teria, em média, tantos adeptos como o andebol ou o xadrês. Seria perfeito…

[declaração de interesses: eu ADORO futebol, vou todos os domingos ao estádio e também mando a minha piadola de vez em quando. Mas não mando pedras… Bom, pelo menos nunca mandei… Ou seja, sou parte do problema]

Este spot de promoção da SIC Noticias é de uma beleza e profundidade inesperadas. Ao que parece (não confirmado…) as palavras – fortes! -  são de Reinaldo Serrano, as imagens são da estação e a música é de Michael Nyman. No conjunto, são um grande elogio do jornalismo, das suas forças e fraquezas  e revelam uma grande paixão pela profissão. A todos os envolvidos, e em particular ao Reinaldo Serrano, os meus parabéns!

“O quarto poder é um quarto. Com vista sobre a cidade que já não o é; sobre as ruas que já o foram; sobre as casas que deixaram de o ser.

O quarto poder é um pai; e um filho tornado órfão por uma bala certeira; errada no alvo, errada na hora, errada no tempo que faz do lugar a morada última de um quotidiano que se extingue.

O quarto poder é um fogo; ingrato nos modos, ousado na fuga, intenso na cor, injusto nas vítimas.

O quarto poder é um mar; um oceano de raiva, um elemento à deriva, uma ausência de razão, um lamento inconsolável, um ímpeto de sobrevivência.

O quarto poder é um sopro; de espada em forma de pena, de penas em forma de espadas, de imperfeitos pretéritos, de distorcidos desejos, de ódios e iras e túmulos, e vidas e mortes e destinos, e estilhaços e condições desumanas.

O quarto poder é um berço; a inocência do dia primeiro, segundo a segundo; o choro e o riso, o siso e o norte, o sol e o sul, o leste e o oeste, os cardeais preciosos que guiam, precisos, o começo da nova vida.

O quarto poder é um voto; um desejo dobrado em quatro, a esperança feita num oito. Promessas, palavras vãs, ínvios caminhos, passos perdidos, leis e normas e regras e o melhor dos países e os oásis e os pântanos, e a pose a pensar na posse, no quero, no tudo, no mando.

O quarto poder é um piano; as teclas o prolongamento do tacto; a pauta a serenidade literária, a mão, silhueta temerária, e a mente, suavemente brilhante, tem na partitura o efeito, e na causa cheia o aplauso.

O quarto poder é um golo; um passe em profundidade; um drible, um truque, um remate, uma falta como se pecado fosse, um alento, um país, uma forma de vitória, a outra forma da derrota.

O quarto poder é uma luta; um jeito de desespero; a tábua do náufrago, os argumentos do facto, o mais dos que têm menos, o menos quando são demais.

O quarto poder é um acto; as horas que dele decorrem, as vidas que nele se perdem, as incertezas do dia e a inevitabilidade da noite.

O quarto poder é um arbítrio; um acaso disfarçado, um fogo-fátuo do nada, de tudo a fatalidade, de todos a provação, de muitos a privação, de quem a responsabilidade?

O quarto poder é pergunta; e resposta e mais pergunta, e tese e antítese e síntese; e os dias que hão-de vir, a nobreza do dever, a missão de não esconder, de mostrar, de saber, de fazer saber, de saber fazer, olhar e explicar.

O quarto poder é um quarto. Um quarto revisitado, um pai que é baleado, um fogo inacabado, um mar assim tresloucado, um sopro sentenciado, um berço de novo ocupado, um voto mais uma vez escrutinado, um piano a ser tocado, um golo que é celebrado, uma luta que dá brado, um acto premeditado, um arbítrio incontrolado, uma pergunta no estrado.

O quarto poder é um nome: SIC. O orgulho de poder dizer.”