marques_mendes De tempos a tempos, Marques Mendes regressa à ribalta política com o crédito de ter sido, provavelmente, o único líder político recente que teve a coragem de ser consequente em nome da ética na política.

Claro que no estado actual da política ninguém chega a líder partidário sem ter que fazer, por várias vezes, compromissos éticos em nome de resultados políticos. Sócrates e Manuela Ferreira Leite (que perdeu, no “caso Santana”, uma excelente oportunidade de ser eticamente consequente) incluídos. Marques Mendes agarrou-se a essa centelha de capital político como a uma tábua de salvação e sempre que pode vem a tona mostrar que está vivo. Isso de pouco lhe serve, como é óbvio, mas contribui para relançar o debate sobre a relação entre a ética e a política.

A ideia mais comum e mais repetida sobre essa relação é que aos políticos são pedidos padrões éticos mais exigentes (ou exigíveis a eles em primeiro lugar) porque é suposto eles “darem o exemplo”. Daí a proposta esotérica de criar uma lei que imponha padrões éticos no exercício da política, nomeadamente no quadro de candidatos acusados ou arguidos em processos judiciais.

Essa ideia é completamente descabida. Em primeiro lugar, porque a ética está acima da política e não o inverso. É a ética que enforma a feitura das leis e não o contrário. De certa forma, é até a ética que condiciona a política e não o oposto (a tabuazinha de Marques Mendes demonstra isso mesmo). O problema da ética resolve-se com ética e não com política. E muito menos com leis!

Em segundo lugar, essa ideia de uma lei impondo ética aos nossos políticos é errada porque o raciocínio que lhe serve de sustentação é errado.  O nosso grande problema como comunidade é que exigimos de outros o que não somos capazes de exigir de nós próprios. Os políticos não têm que ser “mais” éticos (o que quer que isso seja…) do que qualquer um de nós; nós é que temos que ser “tão” éticos como exigimos deles. É uma inversão de perspectiva e – parece-me – implica uma inversão de valores!

Obviamente, os políticos são uma emanação da sociedade. Que eles sejam “pouco” éticos é coisa que – humildemente – não nos devia surpreender. Porque a comunidade em que vivemos – sejamos honestos – pratica muito pouco essa coisa da ética. O exemplo da Sisa, há uns anos, obviamente é clássico: era eticamente inadmissível que um político não pagasse a Sisa, mas a realidade social é que só a pagava quem era tanso. Obviamente que o problema da fuga à Sisa não estava nos políticos, estava nos cidadãos; e obviamente que esse não era um problema fiscal, era um problema profunda e inapelavelmente ético. A Sisa mudou, entretanto, mas a ética evoluiu pouco ou nada.

Pensar que podemos exigir dos políticos algo de diferente do que exigimos de nós próprios resulta da ideia altamente falaciosa de que os políticos são uma classe (como os motoristas de taxi e os padeiros) a que nós, cidadãos, pagamos para tratarem da política. Os políticos somos nós! Na verdade, “a política” somos nós! Ou nós, ou alguém que nós mandatamos! Achar que podemos “contratar” umas pessoas para fazerem política por nós, e que podemos impôr-lhes regras para esse desempenho, éticas ou outras, é uma forma de nos livrarmos da nossas responsabilidades. E isso não é nada “ético”!

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5 respostas a

  1. Ana diz:

    Caro escritor,
    Procurando sobre a ética na política encontrei sua matéria.
    Apesar de ela não responder as minhas perguntas e percebendo que, de certa forma, ela discordou do que eu procurava sobre “Ética na política” achei interessante sua argumentação.
    Você defendeu que a presença da ética está acima da política e nós não devemos exigir que os políticos sejam éticos, e sim, promovermos a ética por nós mesmos. [?]
    Um pouco confuso, não? Mas interessante.. seria mais relevante se você pudesse citar mais possibilidades às pessoas que lêem sua matéria.. porque de certa forma a informação fica superficial quando dizemos que as pessoas estão erradas e não falamos o que elas devem fazer.
    Infelizmente o ser humano vem perdendo essa habilidade de formular estratégias contra o que nos bate de frente.

    Mas.. falando sobre ética.. NÃO ACREDITO que a ÉTICA esteja ACIMA da POLÍTICA.
    Ética, segundo Aristóteles (salvo engano) representa um conjunto de atividades que um determinado grupo regula como certo..
    O Conselho de Ética do Senado nada mais faz do que dizer o que os senadores devem fazer para responder ao seu grupo de mafiosos políticos.. Isso é ética
    Não para nós, mas para esse grupo.
    Portanto, a política deve estar acima da ética
    Deve estar acima de interesses de pessoas que participam de grupos fechados.
    A política tem que ser social.. humana.. que responde às necessidades dos que precisam e se preocupa com eles..

    Talvez a mensagem não tenha ficado de forma clara, mas.. se consegui fazer alguém me entender, já ficarei feliz
    Tem gente que faz correntes de emails milagrosos que realizam pedidos.
    Comecem a procurar uma corrente que realmente mude algo para vocês.
    Podemos ter vergonha das melecas que acontecem no Senado.. mas isso não nos torna menos brasileiros e um povo que teve seu passado sujo, seu presente vergonhoso e que terá seu futuro caminhando para o fracasso.
    Mude isso!
    Mexa-se!
    Faça algo que trará benefícios a você.. aos seus filhos e futuros netos…
    Pois seria lamentável nascer em um caos onde nem seus pais lutaram para mudá-lo.. que exemplo incentivador seria esse?
    Pensemos bem..
    Se temos a oportinidade de fazer algo agora, então façamos!

    • sintese diz:

      Bom dia, Ana,

      Obrigado pelo comentário.

      A minha observação referia-se a Portugal; não conheço a realidade brasileira e portanto não sei se isso se aplica.

      Respondendo à sua interrogação: eu não acho que não devemos exigir dos políticos sejam éticos; o que não podemos é exigi-lo deles e não exigi-lo de nós próprios. E isso é uma coisa que acontece muito em Portugal. Exigimos dos políticos que tenham um comportamento ético irrepreensível, mas não procuramos nós próprios ter esse comportamento. Isto é errado, do meu ponto de vista. E é desresponsabilizador.

      Não sei se isso também acontece no Brasil, mas em Portugal é recorrente.

  2. dado diz:

    Concordo com a Ana, ao dizer que os grupos sociais tem suas políticas e éticas “particulares”, como algo que os regulamenta. Também não acredito que a ética esteja acima da política, e é bem aí que há uma ambiguidade no seu comentário.
    A verdade é que ha uma nececidade geral de reeducar a própria ética.

  3. Jose diz:

    Digo que, na minha opinião, a ética está acima da política porque é dos princípios éticos de deriva a legislação de cuja produção se ocupa a política. Um exemplo: o princípio “não matarás” é tanto um mandamento religioso como um mandamento ético. Em princípio espera-se que todas as pessoas se regulem por esse mandamento ético. Por isso é que existe uma lei penal que proíbe matar outros cidadãos. O mandamento ético é anterior À regulamentação política. O mesmo em relação aos Estados: os Estados onde a vasta maioria dos cidadãos respeitam esse mandamento tende a plasmar isso na sua legislação proibindo a pena de morte, como a maioria dos estados europeus (juro que não faço a menor ideia de qual é a situação no Brasil). Noutros Estados, como os EUA, a questão é disputada justamente porque muitos cidadãos começam a tomar esse mandamento ético como válido e começam a exigir que isso seja reflectivo na legislação comum. No Iraque, obviamente, a questão nem se coloca, porque o Iraque e os seus habitantes estão num estágio de desenvolvimento moral diferente. É nesse sentido que digo que a Ética está acima da Política.

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