Como se deve calcular, o Fado não é a minha música. Mas há uma ligação profundamente cultural que faz com que ele não me seja completamente estranho.

Sempre achei interessante a figura de Camané. Não é de agora, este interesse, já tem uns anos. Mas agora que o começam a apontar como “a nova Amália” dou comigo a achar que é uma boa escolha. Pontualmente, aqui e ali (aproveitem para ouvir a entrevista a Carlos Vaz MarquesI, II, III), sem exuberância,  Camané tem revelado sempre muita “alma”. Isso, e uma boa voz.

Não conheço o suficiente de Fado para opinar sobre a voz ou as interpretações de Camané do ponto de vista técnico ou mesmo histórico. Mas estou profundamente convencido que, o que quer que o Fado seja, é sobretudo “alma”. É 90 por cento de emoção e 10 por cento de transpiração. É muito mais estética do que técnica. A comparação com Mariza não podia ser mais clara; estão nos antípodas um do outro. Um é sobretudo “alma”, o outro é sobretudo “voz”. Se amanhã, por uma travessura do destino (ia dizer fado…) ambos ficassem sem carreira, Mariza regressaria à loja do centro comercial de onde saiu e Camané iria trabalhar para uma marcenaria em Alfama e poderíamos vê-lo às sextas à noite na tasca a cantar. É essa a diferença!

Ao ouvir Camané, recordei conversas antigas com um amigo quando ambos dávamos os primeiros passos na descoberta da música e das grandes questões que ela suscita. Ele, músico por vocação e intuição, vibrava com o brilhantismo técnico dos executantes. Tirava malhas de guitarra, ritmos de bateria, e exultava com a dificuldade de os executar. Eu sempre achei isso um desperdício de talento.  O propósito de um artista não pode ser técnico; tem que ser estético. Um artista tem que viver mergulhado em emoções, tem que ter alguma dor de alma, é expectável ou mesmo desejável que seja até um pouco desequilibrado. Naquela justa medida em que isso lhe permita ter um pé neste mundo e o outro… noutro.

Poucos estilos musicais tornam esta distinção tão clara como o Fado e poucos artistas a corporizam tão cristalinamente como Mariza e Camané. Por isso, concordo, está descoberta a “nova Amália”!

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