Recomendação musical

Descobri os múm através da Islândia e dos Sigur Rós. O primeiro disco que ouvi foi o último - Go Go  Smear the Poison Ivy – editado em 2007, mas face aos três discos editados anteriomente é difícil dizer qual é o melhor. São todos os excelentes, com aquela mistura de géneros e o tom contemplativo que faz da música da Islândia algo de verdadeiramente especial.

Os múm, fundados em 1997 por Gunnar Örn Tynes e Örvar Smárason, a que se juntam vários outros membros em digressão, têm um site próprio,  recente, mas também podemos ouvir a sua música no MySpace, no site da Fat Cat Records ou no Last FM. A sua página na Wikipedia também tem algumas informações. No YouTube há vários videos. O Bruno Nogueira é fã. Para quem não conhece, vale a pena descobrir.

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Este parece-me um exemplo bem português daquela vontade nacional de tudo regulamentar ao mais pequeno detalhe, o que normalmente acaba no mais risível dos ridículos.

A maior parte das pessoas não saberá, mas quem teve um filho recentemente (foi o meu caso!) poderá ter descoberto que em Portugal existe uma lista dos nomes que são admitidos e não admitidos como nomes próprios no registo de recém-nascidos. A lista é da autoria do Instituto de Registos e Notariado, um organismo dependente do Ministério da Justiça.

Claro que talvez (de certeza…?) algumas regras sejam necessárias para impedir excessos. Mas, como uma consulta à lista de nomes ou (para quem não se quiser dar ao trabalho) uma pesquisa entre sites e blogues nacionais torna imediatamente evidente, esta lista está cheia de exemplos incongruentes, aberrantes ou simplesmente risíveis. Há nomes tradicionais portugueses que não são permitidos, assim como outros estrangeiros, com as grafias mais estranhas, que são autorizados. Há também nomes que só servem parao sexo masculino e outros para o sexo feminino. “Ana Rosário” não é permitido. Para ter “Ana” e “Rosário” no nome tem que ser “Ana do Rosário“. “Kevin” não é permitido. Por causa do “K“, dir-se-ia. Mas não, porque “Kó-Ló“, um nome muito mais comum, já é permitido. “Ana Mar” sim, mas “Ana Lua” não.

Trata-se claramente deum excesso de zelo que só se compreende num país como o nosso: terceiro-mundista e pouco habituado a confiar no bom senso dos cidadãos. Não o tenho confirmado, mas, ao que parece, na Alemanha, “Adolfo” é o único nome proibido. Por razões óbvias e mesmo assim discutíveis (“Salazar” é permitido…).

Pela parte que me toca, “Dinis” é permitido, mas “Diniz” não. Na verdade não tínhamos – a mãe e eu – uma preferência particularmente forte por qualquer das grafias. Mas, ainda assim, porque não entendo porque é que uma é permitida e outra não, resolvi perguntar isso mesmo. Enviei um e-mail para o Portal da Justiça e para o referido Instiuto a dizer mais ou menos isto:

Exmos. Senhores,

 

Venho por este meio solicitar um esclarecimento relativo aos nomes admitidos e não admitidos para o registo civil de recém-nascidos no âmbito  do Instituto dos Registos e Notariado.

 

Recentemente procedi ao registo do meu filho recém-nascido junto da 2ª Conservatória de Registo Civil e descobri nessa altura que podia usar o nome “Dinis” nesse registo, mas não podia usar a grafia “Diniz”. Posteriormente confirmei a correcção da informação dada pela funcionária através da consulta das listas de nomes admitidos e não admitidos publicadas no site do Instituto dos Registos e Notariado. Consultei igualmente a Lei nº 33/99, de 18 de Maio (com as alterações do Decreto-Lei nº 323/2001, de 17 de Dezembro e do Decreto-Lei nº 194/2003, de 23 de Agosto), onde se estipula que os nomes próprios devem respeitar a ortografia oficial.

 

Na sequência dessas consultas, gostaria de obter de V.Exas, se possível, o esclarecimento às duas questões seguintes:

 

1. Porque razão “Dinis” é uma grafia admitida e “Diniz” é uma grafia não admitida?

 

2. Que procedimentos devo adoptar para poder usar “Diniz” como nome próprio do meu filho caso seja essa vontade dos pais?

 

Agradecendo desde já a atenção dispensada, coloco-me ao Vosso dispor para qualquer esclarecimento adicional. 

 

Com os melhores cumprimentos,

 

Claro que não espero qualquer resposta e ficaria surpreendido se a recebesse. Mas acharia muito interessante descobrir qual a justificação para “Dinis” ser permitido e “Diniz” não. Consigo entender muita coisa no mundo. Mas essa não é uma delas.

Como se deve calcular, o Fado não é a minha música. Mas há uma ligação profundamente cultural que faz com que ele não me seja completamente estranho.

Sempre achei interessante a figura de Camané. Não é de agora, este interesse, já tem uns anos. Mas agora que o começam a apontar como “a nova Amália” dou comigo a achar que é uma boa escolha. Pontualmente, aqui e ali (aproveitem para ouvir a entrevista a Carlos Vaz MarquesI, II, III), sem exuberância,  Camané tem revelado sempre muita “alma”. Isso, e uma boa voz.

Não conheço o suficiente de Fado para opinar sobre a voz ou as interpretações de Camané do ponto de vista técnico ou mesmo histórico. Mas estou profundamente convencido que, o que quer que o Fado seja, é sobretudo “alma”. É 90 por cento de emoção e 10 por cento de transpiração. É muito mais estética do que técnica. A comparação com Mariza não podia ser mais clara; estão nos antípodas um do outro. Um é sobretudo “alma”, o outro é sobretudo “voz”. Se amanhã, por uma travessura do destino (ia dizer fado…) ambos ficassem sem carreira, Mariza regressaria à loja do centro comercial de onde saiu e Camané iria trabalhar para uma marcenaria em Alfama e poderíamos vê-lo às sextas à noite na tasca a cantar. É essa a diferença!

Ao ouvir Camané, recordei conversas antigas com um amigo quando ambos dávamos os primeiros passos na descoberta da música e das grandes questões que ela suscita. Ele, músico por vocação e intuição, vibrava com o brilhantismo técnico dos executantes. Tirava malhas de guitarra, ritmos de bateria, e exultava com a dificuldade de os executar. Eu sempre achei isso um desperdício de talento.  O propósito de um artista não pode ser técnico; tem que ser estético. Um artista tem que viver mergulhado em emoções, tem que ter alguma dor de alma, é expectável ou mesmo desejável que seja até um pouco desequilibrado. Naquela justa medida em que isso lhe permita ter um pé neste mundo e o outro… noutro.

Poucos estilos musicais tornam esta distinção tão clara como o Fado e poucos artistas a corporizam tão cristalinamente como Mariza e Camané. Por isso, concordo, está descoberta a “nova Amália”!

“Essa velocidade [de circulação da informação na internet] vai provocar a perda de memória. E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.”

Umberto Eco, à Folha de S.Paulo, citado pelo A Informação 

 

Sobre a Feira do Livro

Sobre a polémica da Feira do Livro tenho apena duas dúvidas: um pequena e uma grande.

Uma pequena dúvida: Porque razão é que a CML se pôs do lado da Leya? Foi apenas por “respeito” por uma grande “empresa” ou foi por algo mais. Foi apenas porque não quis afrontar um major player económico, ou foi por alguma das outras razões que costumam ligar as empresas e a política.

Uma grande dúvida: Que raio leva um empresário como Pais do Amaral a decidir investir nos livros? Nos livros???  Por favor… Os negócios de Pais do Amaral antes eram na televisão!!! Fazia sentido que ele investisse no futebol, na medicina privada,  no turismo para a terceira idade, nos telemóveis, etc. Mas… nos livros? Não entendo. Percebo que tem havido alguma recomposição da paisagem da edição no nosso país (a “modernidade” chegou com os livros de Cristiano Ronaldo, Carolina, Bobona e afins) e não percebo porque razão é que os livros não hão-de ser um negócio como qualquer outro. Mas serão mesmo um negócio de futuro? Pelos vistos Pais do Amaral acha que sim e eu continuo  convencido que não.  Se calhar é por isso que ele é empresário e eu sou assalariado…

Sobre a Feira do Livro propriamente dita, se finalmente se realizar, claro que vou visitar,  como todos os anos. Mas vou fazer questão de não ir aos stands do grupo Leya. Por causa da prepotência!

Manuela Ferreira Leite e o problema da verdade

O PSD, como partido, está  hoje em dia mais ou menos na mesma situação que o Benfica, como clube de futebol. Aquilo de que mais precisa é que alguém tenha a coragem de dizer: “não podemos ganhar, primeiro temos que limpar a casa e isso ainda vai demorar uns aninhos”; mas acontece que as bases/adeptos não o aceitam. Por isso é que podem bem votar em Santana como votariam em Menezes ou no Palhaço. E é por isso que, mesmo que ganhe, Ferreira Leite vai levar um partido que não a quer.

Manuela Ferreira Leite tem espírito de missão e creio que já percebeu – como Pacheco Pereira -que o partido precisa que parar para reflectir no que pretende ser, mesmo que nesse processo corra o risco de se cindir. Por isso, a menos que a inépcia socialista seja tanta que lhe joge o poder no colo (como aconteceu com Sócrates), o PSD não vai ganhar em 2009 e vai arrastar-se pelo meio. Isto é o que ela sabe que tem que dizer ao partido. Mas também sabe que não é isto que o partido pretende ouvir. A história do “não-esperem-que-eu-mude-de-imagem-porque-eu-sou-como-sou” é apenas um epifenómeno deste finca-pé que Manuela Ferreira Leite sabe que tem que fazer para “dobrar” o partido. Terá mais ou menos condições para o conseguir consoante a votação que traga das directas Pedro Santana Lopes. Se vier fraco talvez se cale, se vier forte vai fazer-lhe a vida negra. E o partido está com ele.

Mais ainda que o PS, o PSD, nestes 34 anos de democracia, deixou-se  enredar na politiquice ao ponto de esquecer qual é a sua matriz política. Com a agravante de as matrizes políticas serem hoje uma coisa muito fora de moda. Por isso, precisa de se refundar. Precisa de se voltar para dentro e fazer uma reflexão profunda sobre qual o projecto político que pretende apresentar aos portugueses antes de poder aspirar a ganhar o poder.  No quadro da actual eleição, Passos Coelho é o único que apresenta uma proposta (vagamente liberal), Ferreira Leite sabe que a reflexão tem que ser feita, mas hesita em apontar um caminho (porque sabe que a sua voz “pesa” mais que a de Passos Coelho, o que impõe responsabilidade) e Santana, por ele, não mudava nada e caminhava alegremente para o abismo.

O que Manuela Ferreira Leite espera é ganhar o país para poder ganhar o partido. Apresenta-se com o sentido de Estado e aquela maneira “séria” de fazer política (um pouco asceta, mesmo) na esperança de que bons números nas sondagens lhe valham como trunfo junto dos militantes. Porque não há nada de que os militantes do PSD gostem mais do que do cheiro a poder. Com isso, Manuela Ferreira Leite espera ganhar o partido. E espera ganhá-lo com números (grandes os seus, pequenos os de Santana) que lhe permitam dizer: “meus amigos, hoje não vamos ganhar; hoje vamos reflectir”. Uma missão impossível, portanto. Pelo menos até prova em contrário…

O fim da periodicidade

Em mais um dos seus lançamentos de extensão de marca, a Visão anunciou a edição da Visão Link, que será distribuída pela primeira vez com a Visão do próximo dia 21 de Maio.

A publicação em si é interessante, mas o que despertou a minha atenção foi o facto de – apesar de a primeira capa trazer a inscrição ”Maio 2008″ – os seus responsáveis afirmarem que a nova publicação não tem uma periocidade fixa.

Não sei até que ponto isto é uma estratégia ou apenas uma forma de defesa, mas suscita uma reflexão: que sentido faz hoje em dia a periodicidade dos media?

É fácil perceber que, desde que existem jornais e revistas, a periodicidade não é mais do que a marcação dadata e hora de um encontro entre o media e o leitor num lugar específico, o quiosque. É por causa da periodicidade que sabemos que devemos is buscar a revista mensal no final do mês (ou no meio ou mesmo início do mês…), a semanal num dado dia da semana e o diário pela manhã ou  pela tarde, consoante seja um matutino ou um vespertino.  Isso, naturalmente, faz sentido num mundo de informação escassa, mas faz muito menos sentido num mundo de informação abundante. Se, na paisagem de media clássica o máximo a que podíamos aspirar era um jornal diário, talvez complementado por uma revista semanal ou mensal, hoje temos inúmeros canais de informação em fluxo permanente (ou ou informação permanentemente disponível), na maior parte dos casos em luta feroz pela nossa atenção. Neste quadro, a periodicidade dos media não é mais do que um resquício do passado, um daqueles elementos estruturantes da paisagem dos media que temos que nos habituar que vai desaparecer em breve, como a relação jornalista-leitor e outros. Tal como não faz qualquer sentido colocar informações num site de internet a horas ou dias específicos, também não é razoável, no mundo de hoje, esperar por um dia certo do mês para lançar um revista. O que faz sentido, sobretudo nas periodicidades mais espaçadas, é lançar um novo suporte quendo há condições para o fazer rentavelmente (equilibrando produção de informação para fazer o número de páginas suficiente e retorno suficiente para pagar os respectivos custos). Dificilmente isso acontece a uma cadência mensal regular ao longo de todo o ano (aliás, há muitas revistas que não são lançadas em Agosto, por exemplo), ou mesmo a uma cadência regular na semana. Quantas vezes terá uma newsmagazine tido “vontade” de publicar um novo número a meio da sua semana por causa de um acontecimento extraórdinário? Como de resto foi feito muitas vezes. Hoje isso faz mais sentido do que nunca e deve ser regra em vez de excepção.

Não sei se subjacente à a-periodicidade da Visão Linke está um raciocíonio deste tipo (duvido…), mas suspeito que tenderemos conviver com mais casos deste no futuro.