Pobre Ricardinho…

Não, Não é perseguição. É só porque a combinação do carácter eminentemente “pimba” do Benfica com o famoso “jornalismo criativo” do Record gera momentos verdadeiramente hilariantes. Não resisto…

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Ontem, a edição do Record noticiava de Ricardinho, estrela de futsal da equipa, ia tentar a sua sorte na pré-época do Benfica. Ricardinho, note-se, é um menino bonito do clube da Luz, adorado pelo adeptos, excelente na sua profissão e que, como milhões de jovens encarnados por esse país fora, tem um sonho de criança: jogar na primeira equipa do Benfica. Por isso, embora qualquer pessoa de bom senso percebesse logo a irracionalidade de tudo isto, não tenho dúvidas que esta manchete vendeu jornais, não duvido que tocou bem fundo na alma de milhões de benfiquistas, e acredito- porque o diz o Record… – que o próprio Ricardinho ficou convencido (!!) de que isso era possível.

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Hoje, o Record, claro, desmente a notícia com base num comunicado emitido pelo Benfica (teve que chegar a este ponto…). A manchete diz “Desculpa lá, Ricardinho” e refere o detalhe dramático: até as botas já estavam escolhidas. A notícia que online acompanha a manchete tem detalhes deliciosos:

Ricardinho sonha e Benfica recua
OBJECTIVO DE TESTAR RELVADOS MAIS UMA VEZ ADIADO

(…) O Benfica desmentiu ontem, em comunicado, sequer ter sido discutida a possibilidade de Ricardinho ser testado no estágio de pré-época. O nosso jornal, contudo, apurou que o assunto esteve em cima da mesa nos últimos dias, tanto na liderança da SAD como das modalidades. Ao jogador foi transmitido que o seu sonho de criança poderia estar próximo de realizar-se e, segundo informações recolhidas, a marca de equipamentos desportivos que patrocina o atleta até já tinha uma encomenda de calçado especial para relva, necessário para os treinos no Seixal.

O Benfica, no entanto, recuou. (…) fê-lo depois de o esquerdino ter comentado com alguns familiares que podia vir a ter a possibilidade de resolver a frustração nascida da dispensa do FC Porto.  

Vingança e raiva. Foi depois de 15 dias à experiência nos iniciados dos dragões que Ricardinho acabou dispensado. “Ficou frustrado, foi o desabar de um sonho mas acabou por ser uma forma de se ligar ao futsal, por vingança, por raiva”, disse-nos Carolina Silva, treinadora que o levou às Antas. “Se calhar não o devia ter feito, na altura não se apostava tanto na formação e só pensavam em ganhar; foi dispensado por ser pequeno.”

O que resulta disto? Os humores de Ricardinho é o que aqui menos me interessa. É um homem adulto e o seu caso pessoal é seu. O Record, claro, vendeu jornais à conta da história e, mais uma vez, conseguiu voltar a ser “criativo”. Quanto aos adeptos benfiquistas, de certeza que simpatizaram e se comoveram com o “sonho de criança” que por breves e empolgantes momentos esteve prestes a ser concretizado. Depois disto, por um silencioso mecanismo de indentificação, ficaram certamente ainda mais admiradores de Ricardinho e, no seu íntimo, ainda mais “benfiquistas” do que já eram. Ou seja, mais predispostos a golpadas destas. Coitados.

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Encontrei este livro de Joel Neto exposto em grande destaque na FNAC.

Como os sportinguistas “são poucos“, o destaque deve ser para os benfiquistas o comprarem por engano…

O cúmulo da ironia é não entender uma ironia!

O futuro das revistas

O futuro dos media impressos é incerto, mas, passe por onde passar, estes são dois bons exemplos de estratégias interessantes, que não conhecia e descobri recentemente numa visita a França. Não sei quais os resultados reais de cada uma destas estratégias, mas parecem-me dois passos no caminho certo.

attitude.jpg A Attitude Rugby é uma revista mensal dedicada ao Rugby, na qual o lado estético e emocional do jogo é o que mais interessa. As fotos são muito cuidadas, as reportagens são extremamente elaboradas e a abordagem é sempre pelo lado humano. Há imagens de acção, claro, mas são uma minoria. Assim, a Attitude Rugby consegue levar ao leitor fiel de Rugby um “pacote” diferente daquele a que ele tem acesso nos sites de internet, ou nos jornais desportivos ou mesmo nos semanários sobre o tema. Aqui a actualidade é residual, e o que importa é a abordagem criativa dos assuntos e o aprofundamento das matérias. O papel é de alta qualidade e o site cumpre os mínimos (é discutível que tenha que fazer mais do que isso).

Não conheço nada da realidade do Rugby em França nem sou particularmente adepto do desporto, mas depois de folhear a Attitude fiquei com vontade de o ser. Se existisse uma revista destas em Portugal não tenho dúvidas de que seria comprador esporádico. Imagino o gesto cool que seria abrir e folhear a Attitude na esplana do clube antes de um jogo importante. Diz algo sobre quem lê. E isso é talvez o mais importante.

Perante a crise da imprensa alguém disse há pouco tempo que, provavelmente, “the last print media standing will be a magazine“. A Attitude Rugby ilustra bem essa previsão.

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O outro exemplo é a Sport, uma revista semanal de distribuição gratuita sobre todos os desportos. Trata de actualidades, com uma leitura leve, mas o desenho típico de uma revista, com muitas infografias e leitura fácil. O papel é reciclado para ser barato e a distribuição é nacional.

Mas o que realmente se destaca nesta revista é o facto de estar associada a um supersite – myfreesport - com várias ligações com a edição em papel. Neste site há notícias na hora, há videos, há complementos à edição de papel, há todas as informações úteis, há temáticas de lazer (como na revista), há uma comunidade bem construída onde os próprios leitores podem criar os seus blogues. Enfim, tudo para que na realidade a edição de papel seja… um complemento do site. Além disso há também a possibilidade de descarregar em PDF a edição corrente assim como todas as anteriores (Pauleta já foi capa). Não tem vendas em banca, é certo, mas no conjunto do site e da edição em papel vive inteiramente de uma facturação publicitária que deve ser  importante.

Não acompanho a realidade desportiva francesa e não conheço a maior parte das pessoas e assuntos que são notícia na edição que folheei (excepto Zidane), mas se uma revista/site semelhante existissem em Portugal, certamente seria cliente e – à borla – era capaz de estacionar o carro de manhã de propósito para ir buscar um exemplar da Sport. Depois, quando chegasse ao emprego, quase de certeza que quereria ver online o video do tema que me despertou interesse ou comentá-lo no meu blogue desportivo. Eis como se faz um semanário temático na era da web 2.0!