O Expresso e o Sol

Algumas ideias (completamente gratuitas!!!) sobre o Expresso e o Sol:

  1. O Expresso deu um contributo importante para o sucesso do Sol ao preocupar-se demasiado com o seu aparecimento. O Expresso é um “porta-aviões” e não devia ter desviado o seu rumo por causa de um “bote” como o Sol. No Expresso deviam saber que lançar um jornal com aspirações de liderança é muito mais difícil do que parece e dificilmente o sucesso chega antes de passados alguns anos de perseverança (vide Público). Ao assumir uma postura tão defensiva (formato, preço, ofertas, etc), o Expresso reforçou a notoriedade do Sol na altura em que o projecto de Saraiva mais precisava dela. Neste quadro, não é de estranhar que o Sol possa ameaçar a liderança do Expresso muito mais cedo do que seria normal;
  2. É inteligente que o Sol tenha uma componente tablóide no seu conteúdo. Isso pode significar que quem projectou o jornal percebeu que a massa de leitores do Expresso é muito mais heterogénea do que seria normal. Não é normal que o semanário mais lido seja um jornal de referência, tal como não é normal que o diário mais vendido seja um diário de referência. Por isso é que o Correio da Manha vende mais do que o Público e o conjunto CM+24H+JN vende mais que a dupla DN+Público. Os tablóides vendem mais do que os jornais de referência. Ponto final. O volume de vendas do Expresso, que sempre foi um jornal de referência, é atípico e anormal, o que leva a supor que no seu seio estão leitores que o compram por hábito (na verdade isso demonstra que 30 anos depois o mercado editorial português ainda está em estado de “normalização”), mais do que por preferência (porque, bem vistas as coisas, o jornal nada fez para satisfazer estes leitores “tablóides”. Ao apostar numa componente tablóide o Sol pretende seduzir esses leitores e certamente vai consegui-lo, porque, ao fim e ao cabo, é só aí que encontram o que procuram (não há outro tablóide semanal no mercado). Ao proteger-se, até o CM percebeu o alcance da ameaça. Por isso, de certa forma, a componente tablóide do Sol não foi “inventada”; ela já estava no Expresso, só que latente e carente. Bastava olhar para os números de vendas para o perceber;
  3. Não é nornal que um jornal seja, ao mesmo tempo, um jornal de referência e um tablóide. Mas, aparentemente, é isso que o Sol pretende ser, pelo menos para já. Os leitores que buscam informação de referência lidam mal com a informação tablóide (já os leitores “tablóides” toleram melhor a informação de referência política, sobretudo se ela for acutilante). Por isso, penso que, a longo prazo, as duas clientelas tenderão a separar-se o o Sol ficará um tablóide puro (obviamente a liderar o mercado). Nesse processo, assistiremos a uma progressiva tomada do “espaço editorial” do Sol pela componente tablóide em prejuízo das notícias “sérias”, mantendo provavelmente, alguma manchetes “populistas” ocasionais – à maneira do Correio da Manha. Resta saber como reagirão a esse percurso um director e um corpo redactorial (sobretudo este) que me parecem mais “configurados” para uma informação de referência (com uma forte ênfase política) do que para um jornal tablóide (com grande ênfase social). Provavelmente também na redacção se irá assistir a uma progressiva “adaptação” à nova realidade. Os jornalistas que não “aguentarem” saem, os que tiverem estômago para isso continuam. Os accionistas obviamente preferirão o tablóide. E é por isso que o Sol será um tablóide;
  4. Quando o Sol se começou a desenhar no horizonte, parecia um projecto pessoal do arq. Saraiva (concordante com a “dimensão” do seu ego). E em imprensa, os projectos pessoais estão quase sempre condenados ao fracasso. Mas o Sol descobriu, provavelmente no decurso do seu processo de preparação, um espaço de mercado desocupado (ou, melhor, “mal ocupado” pelo Expresso): o dos leitores semanais populares. E nesse momento tornou-se um projecto económico, primeira condição para poder ter sucesso. Se (conseguindo resistir à “tabloidização”) continuar como director (o que é provável), José António Saraiva vai reclamar os louros de uma vitória pessoal. Mas isso será uma falácia: se vingar, o Sol vingará pelo negócio e não pela informação;
  5. O Expresso pode tentar reagir acentuando o carácter mais popular da sua informação para não perder os leitores que agora está a ver fugirem-lhe para o Sol. Mas, se o fizer, irá demasiado tarde e ainda por cima arrisca perder os leitores “sérios” que ainda conseguirá manter. A solução mais “saudável” para o Expresso é provavelmente assumir a derrota, esquecer a liderança e concentrar-se em ser o mais importante dos jornais de referência. O grupo empresarial que ele em parte sustenta provavelmente tentará que o Expresso lute, mas, se o conseguir, essa luta será em vão. Provavelmente um novo título semanal popular teria melhores resultados do que um Expresso “recauchutado”;
  6. Claro que o Sol é um projecto político tanto quanto o é o Expresso. Desse ponto de vista há poucas diferenças entre os dois. Para além dos lucros, é também isso que pretendem os accionistas. Por isso é que, por mais tablóide que se torne, o Sol manterá a sua acutilância política; não é por qualquer sentido de missão, é porque isso permite aos accionistas, e aos interesses políticos e económicos que eles representam, influenciar o poder político. O Expresso, obviamente, continuará também a fazê-lo, independentemente do rumo que tome. É por isso que, tal como antes, continuarei a não comprar o Expresso. Nem o Sol.
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