A opinião de um não jornalista:

“La presse quotidienne payante est morte”

 Jaques Atalli, em entrevista ao Médias, transcrita no Leblogmedias.

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Claro que a divulgação da lista de devedores ao fisco pode – usando uma terminologia actual - provocar alguns danos colaterais. Já estou a ver as conversas de café a tirarem conclusões sobre fulano com base na semelhança de apelidos com berltrano. Já estou a ver as empresas a cancelarem contratos, “pelo sim, pelo não” com as empresas que constam da lista, etc.

Mas uma coisa é certa: este é o tipo de medida que é muito improvável em Portugal. Torna-nos mais parecidos com a Finlândia…

Hesitei bastante antes de postar sobre isto aqui. Mas decidi fazê-lo por duas razões. Primeiro, acho que isto vai dar muito que falar. Segundo, penso que se, por um lado, revela dois dos lados mais negros da natureza humana (o exibicionismo e o voyerismo), por outro lado, é uma manifestação do carácter absolutamente livre da Internet e dos “serviços” web 2.0.

Como é sabido, mesmo sendo tão popular como é, o You Tube não permite videos pornográficos. Pois bem, para colmatar essa lacuna já surgiu a versão beta do Porno Tube, onde qualquer pessoa pode fazer o upload ou o download de filmes pornográficos, assim como fotos e ficheiros audio. Há de certeza profissionais por ali, mas não tenho dúvidas que existe e vai existir cada vez mais material genuinamente amador. Aliás, não é difícil antecipar que este serviço tem potencial para suplantar em popularidade até o You Tube. O link está aqui, mas –ATENÇÃOa partir deste ponto cada um está por sua conta. Trata-se de material pornográfico hard-core que só deve ser visualizado por adultos preparados para isso.

Nasce a Internacional Pirata!

Uma das consequências da tentativa de encerramento do Pirate Bay na Suécia (relato aqui) foi a grande notoriedade internacional que este movimento ganhou, Em resultado disso, os “partidos piratas” nascem como cogumelos um pouco por todos o lado, partilhando o manifesto político original do partido pirata sueco. EUA, França, Itália, Bélgica, Polónia, Austrália, Holanda, Espanha e Reino Unido são alguns dos países onde partidos semelhantes se criaram ou estão a ser criados. Dado o património eminentemente político que partilham, esta já uma verdadeira Internacional Pirata.

(via TorrentFreak)

Embora correndo o risco (mínimo…) de contribuir para a promoção da revista Lux, acho pertinente (e não abusivo) reproduzir aqui o e-mail que enviei à directora da revista a propósito da capa da edição nº326, de 31 de Julho:

“Para começar, gostaria de esclarecer dois pontos prévios:

1º Sou jornalista e sigo atentamente o fenómeno dos media, mas não sou leitor habitual da Lux. O exemplar nº326, que motiva este e-mail, chegou-me às mãos, por mero acaso, através um familiar.

2º Não conheço pessoalmente nenhuma das três pessoas referidas na capa dessa edição da Lux nem tenho com elas qualquer ligação profissional, directa ou indirecta. Também só conheço delas aquilo que, mais uma vez por acaso, fui lendo nas capas das revistas como a Lux; e não tenho qualquer desejo de saber mais o que quer que seja sobre elas. Isto para deixar claro que nada de particular me move em sua defesa. Elas motivam este e-mail como quaisquer outras motivariam.

Acho vergonhosa a capa da edição nº326 da Lux, onde se refere a separação de Rita Ferro Rodrigues e o “clima de romance” (sic) entre o seu ex-marido e Clara de Sousa.

A vergonha resulta do facto de, como se torna óbvio no interior, ambas as reportagens se sustentarem em fotografias não autorizadas pelos próprios e relatarem informações que fazem parte da vida privada dos três e que obviamente nenhum deles confirmou à revista.

É uma vergonha para si enquanto directora, não porque fira o código deontológico (está muito para além disso), mas apenas e tão só porque encerra um lamentável abuso em relação aos direitos individuais das pessoas em causa. É uma vergonha para a organização que representa porque fere conscientemente os direitos individuais de três pessoas como forma de obter vendas e lucros. É uma vergonha para os leitores da Lux porque no fundo são os seus 80 cêntimos que alimentam este abuso.  E é uma vergonha para todos nós porque permitimos que isto aconteça sem que façamos algo. Este e-mail é esse algo.

Naturalmente dir-se-á que esta é uma reportagem banal, igual a tantas outras que todas as semanas são publicadas em Portugal e em todos os países do mundo. Mas é isso precisamente que a faz merecedora deste e-mail: o facto de não ter absolutamente nada de especial.

Naturalmente não espero que partilhe este e-mail com os seus leitores, publicando-o, nem sequer que me responda. Para que os objecivos deste e-mail sejam atingidos já seria suficiente que, da próxima vez que estiver perante uma decisão editorial semelhante, tivesse pelo menos uma pontinha mais de escrúpulos.

Cumprimentos,

José Moreno

marcodocorreio@gmail.com

https://teseeantitese.wordpress.com

Onde está Cavaco?

Este estilo “sim, mas…” da presidência de Cavaco é completamente incoerente com tudo o que dele conhecemos. Ou Cavaco mudou muito, ou verdadeiramente ainda não chegou à presidência. E, como se sabe, as pessoas não mudam…

Cavaco é o mais self-righteous de todos os políticos portugueses actuais. Cavaco raramente se engana e nunca tem dúvidas. Nele, isso não é uma estratégia, é uma maneria de ser. Mais: foi por isso que a maioria dos portugueses nele votou mais do que uma vez e, na verdade é isso que maioria dos portugueses dele espera.

Mas Cavaco ansiou longos anos pela presidência e pelo meio teve que enfrentar um derrota muito amarga e uma vitória “à justa” numa eleição que ele julgava fácil (ainda por cima com acusações de presidencialização do regime que, sintomaticamente, foram mais vezes negadas do que assumidas). 

A expectativa era simplesmente demasiado grande. E, por isso, nos dias que correm, Cavaco ainda deve estar pensar: “o que é que eu vou fazer com a presidência?” Cavaco está confuso e o seu estilo “sim, mas…” é prova disso. Cavaco sabe que devia confrontar o Governo, mas na verdade tem receio de o fazer. Não pelo governo, mas, imagino, pela responsabilidade que isso implica. Não é fácil assumir o papel de salvador da pátria.

Por isso, quando Cavaco “acordar para a presidência”, será com estrondo. Simplesmente porque a ânsia de protagonismo contida dentro dele é demasiado grande. Não o protagonismo como um meio (aquele que de resto é o mais habitual na nossa classe política, e não só) – não é isso que Cavaco procura – mas o protagonismo como um fim. É nesse papel que Cavaco verdadeiramente se revê.

Rui Costa

rcosta2.jpgQuando veremos Rui Costa sorrir?

Em todas as imagens que vi dele desde que regressou a Portugal, vi-o sempre de rosto fechado, sem um sorriso. E sei que ele não é assim.

O peso da responsabilidade é demasiado. Rui Costa está a sofrer.

A fabulosa Wikipedia

Escreve Stacy Schiff na New Yorker:

“Porque não tem limites físicos, a Wikipedia pode aspirar a incluir tudo. Está também perfeitamente configurada para ser actual: há entradas detalhadas para cada um dos 12 finalistas do ‘American Idol’ e o artigo relativo ‘Conflito Israel-Líbano de 2006’ foi editado mais de quatro mil vezes desde que foi criado, em 12 de Julho, seis horas depois de militantes do Hezbollah terem aberto as hostilidades como rapto de dois militares israelitas.”

Versão integral aqui.

(via 3quarksdaily)

Podcast com causas

Para quem gosta de nu-jazz, downtempo e trip-hop, há muitos podcasts disponíveis na internet, mas este tem causas: é feito parcialmente com recurso a artistas free to use ou sujeitos a licenças creative commons. O Episode 5 deste podcast (significativamente chamado “Pirates”) integra excertos de declarações de Lawrence Lessig e seus pares da Creative Commons.

Com o desenvolvimento da web não só os media tradicionais que estão em causa, são também os negócios de media que são afectados, nomeadamente a música e (a seu tempo) a televisão. Neste podcast há vários bons argumentos contra um sistema de direitos de autor que limita a criatividade das pessoas num momento da história em que a tecnologia mais faz para libertá-la. É inevitável que esse sistema de direitos de autor vá morrer. A primeira questão é “como” é que vai morrer. A outra questão é como é que os artistas vão viver depois… mas isso já é futurologia!

Para quem quiser comparar…

Esta base de dados do departamento de jornalismo da Universidade de Tampere, na Finlândia, agrupa vários códigos de ética e de conduta dos jornalistas em vários países diferentes. Os códigos variam muito de país para país: na Áustria tem apenas 5 artigos, na Itália ocupa várias páginas e na “legalista” França não passa de um pequeno conjunto tópicos praticamente inalterados desde 1918. O que só vem indiciar que o respeito pelos preceitos éticos e deontológicos não depende do que está escrito, mas sim da prática da classe.

(uma dica Newspaperindex)

O futuro dos media

Depois de falar e escrever repetidamente sobre new media e sobre o fim da “audiência”, Jay Rosen , professor de jornalismo na Universidade de Nova Iorque, anunciou o passo em frente com a criação da plataforma Newassignment.Net, um empreendimento e um site destinados a combinar o citizen journalism com o jornalismo tradicional num funcionamento em rede que se pressente mas na realidade ainda não se sente.

Basicamente, trata-se de uma forma de financiar reportagens, em qualquer meio, através de donativos. O site usa métodos Open Source para criar reportagens que interessem às pessoas e que estas ou instituições estejam dispostas a financiar. Um grupo de editores gere o andamento da reportagem e os jornalistas no terreno trabalham em estreia colaboração com os citizen journalists para, previsivelmente, conseguirem reportar aquilo que os media tradicionais não conseguem, aplicando na prática o princípio de Dan Gillmor: “My readers really do know more than I do… sometimes.” Jay Rosen acredita que a resposta às muitas dúvidas que se levantam em relação ao futuro dos media, ainda pode vir… dos media tradicionais, mas não nas formas habituais. No lançamento da iniciativa, Rosen dá como exemplo de Cris Allbritton, ex-jornalista da AP que foi para o Iraque em 2003 inteiramente financiado por visitantes do site e que conseguiu enormes audiência para as suas reportagens inteiramente independentes.

Quando olhamos a sério para o futuro dos media… não vemos grande futuro. À primeira vista, a resposta de Jay Rosen é mais uma entre tantas que têm surgido - e falhado -  recentemente. Mas, atenção, Jay Rosen não é um qualquer… Como de resto provam os depoimentos de Dan Gillmor, Jeff Jarvis e Doc Searls, que ele inclui no lançamento da iniciativa. Ou seja, vale a pena estar atento a esta plataforma, pois pode muito bem ser a mais séria resposta até hoje à incógnita que é o futuro dos media. I’ll be watching! (and reporting…)

Rendez-vous

Poucas vezes um mito terá sido desconstruído com tamanha elegância!

Durante muitos anos, o filme “Rendez-vous”, de Claude Lelouch, alimentou polémicas atrás de polémicas. Filmado no final da década de 70, sem nenhuma truncagem ou aceleração da imagem, representa uma viagem assombrosa pelas ruas de Paris.

Eis o filme original:

À volta deste filme, certamente um dos mais entusiasmantes filmes de condução alguma vez feitos, foram criadas centenas de histórias mirabolantes: que o condutor seria um piloto de F1 cuja identidade nunca tinha sido revelada; que Claude Lelouch tinha sido preso na sequência da  primeira exibição pública do filme devido ao perigo que tinha criado durante a filmagem; que o carro usado era um Ferrari 275 GTB, ou então o Porsche do próprio Lelouch. Houve quem se desse ao trabalho de medir tempos e distâncias para calcular a velocidade média e verificar se as passagens nos vários pontos da cidade batiam certo. Durante muitos anos, este filme foi um verdadeiro mito urbano, sobretudo para quem gosta de automóveis.

Agora, em 2006, o mito é finalmente desconstruído com uma reportagem pelo mesmo percurso de Paris com o próprio Claude Lelouch:

O resultado final é notável. E o que é curioso é que, quem durante anos viveu com os mitos do “Rendez-vous”, não sai defraudado do seu visionamento. Apenas mais fascinado pela magia do cinema. Não do cinema dos efeitos especiais, mas do cinema das coisas simples que fazem sentido.

Este é sem dúvida um bom epílogo para a história do “Rendez-vous.”

(Obrigado, André, pela dica e pelas informações sobre o filme)

Notícias fulanizadas

Qual o valor de notícia de uma notícia sobre fulano? Depende naturalmente do fulano e da notícia.

Veja-se o caso da polémica – “quentinha” –  acerca da reforma de Manuel Alegre. O Correio da Manha vasculhou as listagens da Caixa Geral de Aposentações e descobriu que o deputado Manuel Alegre ia passar a receber uma pensão de três mil euros, parcialmente fundada nalguns meses que passou como director de programas da RDP.

O interessante nesta notícia (replicável em muitas outras) é o encadeamento do efeito multiplicador da relevência pública da mesma. Como este search no Google News demonstra, o “foco” inicial da informação, no Correio da Manha, deu origem a várias notícias noutros meios, verdade seja dita, todos impecavelmente citadores da fonte inicial: Diário Digital, Portugal Diário, TSF Online, Publico.pt, SICTVI. Pode-se argumentar que o Correio da Manha é o jornal que mais vende em Portugal e portanto não carece de mais para dar relevância pública a uma notícia, mas ainda assim é inegável que a citação de uns pelos outros aumenta e multiplica essa relevância. É esse efeito multiplicador que verdadeiramente coloca uma notícia no topo da agenda, onde não chegaria se continuasse a ser apenas uma notícia do Correio da Manha.

Depois, o que acontece normalmente é que, a existirem negações ou informações adicionais, elas ou não são noticiadas ou são-no menos vezes e com menos efeito multiplicador (com muito menor “orquestração”). Segundo o mesmo search, apenas TVI, TSF Online e Portugal Diário deram a notícia em que o deputado nega as acusações e fazem-no de uma forma mais espaçada no tempo, menos “orquestrada” (uma abordagem mais “científica” carece de um registo mais preciso). Por outro lado, a hora do dia em que as coisas são noticiadas também influi na sua relevância pública. Neste caso em concreto, na minha redacção discutiu-se informalmente o assunto (com as opiniões a formarem-se quase integralmente contra o deputado) logo pela manhã, quando a notícia do Correio da Manha foi reproduzida noutros meios mais imediatos, nomeadamente online. Mas, à tarde, as negações do deputado passaram quase integralmente “ao lado” da “agenda” das pessoas.

Claro que este é um comportamento típico de uma comunidade profissional fortemente ligada nos meios online; o comportamentro será diferente no caso do grande público, para o qual é a televisão, à noite ou durante a hora de almoço, que estabelece a “agenda” do dia e assim constrói a relevência pública de uma notícia. Acontece que, em boa parte, essa “agenda” é determinada por “o que está a dar”, ou seja, o que o conjunto de meios foi noticiando ao longo do dia. Neste caso em particular, a polémica Manuel Alegre tem todos os condimentos – intrínsecos e extrínsecos – para  – aposto – fazer boa parte dos noticiários televisivos de aqui a pouco. Os condimentos intrínsecos são a reforma milionária de um deputado no quadro do emagrecimento do orçamento do Estado e das famílias – isso por si só já é notícia. Os condimentos extrínsecos são a multiplicação da informação em diversos meios: isso, por si só, embora sem qualquer relação com o valor intrínseco da notícia, constitui um factor que leva as televisões a pegar no tema e multiplicar ainda mais a sua relevância pública. Ou seja, os factores extrínsecos à notícia não vivem sem ela, mas podem multiplicá-la muito para além do que ela “merece”

Penso que foi isso que aconteceu neste caso. Independentemente que ser legal ou ilegal, certa ou errada, justa ou injusta (essa é outra questão), a reforma do deputado Manuel Alegre seria, quando muito, uma boa (má…) notícia de segundo nível. Mas não seria um tema do topo da agenda, capaz de fazer manchetes ou abrir telejornais. Catapultou-se ao topo da agenda por mero efeito multiplicador do funcionamento dos media.

Se pensarmos que esta é uma notícia na primeira pessoa (não é uma estatística, não é um grupo de deputados, não é um esquema repetido, é apenas um caso) vemos até que ponto este efeito pode ser susceptível de manipulação. Basta que a informação seja libertada no momento certo ao jornal certo para que se crie uma cadeia multiplicadora que a coloca no topo da agenda e com muito mais relevância pública do que teria em condições normais ou, mais importante, do que merecia em condições normais (repito: independentemente dos factos em concreto deste caso). As notícias fulanizadas são particularmente susceptíveis a este tipo de manipulação e a defesa delas torna-se especialmente difícil.

(ACTUALIZAÇÃO: SIC e Publico.pt também já noticiaram o desmentido do deputado)

O verdadeiro significado do RSS

Este blogue foi citado no Mediashift a propósito de um pequeno ”estudo” levado a cabo por Mark Glaser a propósito do uso de RSS. A citação é a seguinte:

“Blogger Jose Moreno likes FeedDemon for its ease of use and personalization features. He also noted how RSS use changed his reading — and writing — habits.

‘Significantly, ever since I started using an RSS reader, I post a lot more on my blog, but each post is a lot shorter,’ Moreno wrote. ‘Plus, now posts tend to be more directive torwards sources and less opinative. Conclusion: When you use an RSS reader, your information gathering tends to be less intensive and more extensive (and so are your posts). That should mean something about the way we connect to the world. Meaning: An RSS reader is not just a tool; it is a tool that changes the world, in a way.’

Perhaps RSS readers help us gather and swallow up more information, but it gives us less depth both for reading and writing.”