Os jornais e os blogues

A posição dos jornais em relação aos blogues tem sido bastante ambígua e hesitante. São mais frequentes as notícias que dão conta de problemas do que aquelas que transmitem experiências positivas.

O estudo de um aluno da escola de jornalismo da Universidade da Carolina do Norte argumenta que os blogues associados a um jornal criam com o público desse jornal um sentido de comunidade que acaba por reverter em mais leitura e visitas ao site (o PDF pode ser descarregado aqui).

Mas isso não é pacífico, e levou Robert Niles, da Online Journalism Review, a fazer a pergunta: será que os jornais são capazes de fazer blogues? Como seria de esperar, as respostas são díspares e estão longe de esgotar o interesse da questão.

Na maior parte dos casos, os media tradicionais encaram os blogues como uma ameaça por várias razões. 1. porque lhes rouba audiência. 2. porque ocupa demasiado tempo dos jornalistas. 3. porque abre um canal não controlado do público para o medium.

Os casos de enquadramento "oficial" de blogues resultam na maior parte das vezes da situação que as direcções encontram de terem vários jornalistas que já blogam (nalguns casos intensamente e com bons resultados). Postas perante esse facto consumado, as direcções procuram colocar os vários blogues sob um "guarda-chuva" que permita congregar audiências.

Outra estratégia consiste em criar alguns blogues temáticos que veiculam numa pequena parte de informação que já circula no medium "tradicional" e muita informação complementar ou conexa que não "coube" naquele.

Ambas as estratégias são respostas insuficientes ao desafio que os blogues (e os fóruns) colocam aos media tradicionais. Podem servir de paliativos, mas não vão ao essencial da questão, que resulta sobretudo da alteração de paradigma comunicativo: os media tradicionais operam num modo "nós falamos, vocês ouvem"; os novos media funcionam segundo o princípio "qualquer um fala, qualquer um ouve", muito próximo do "todos falam, todos ouvem"

Basta acompanhar as zonas de comentários às notícias dos jornais online (ex: Record, Correio da Manha, Expresso) para perceber que há muita gente interessada em participar no que é o "complemento" das notícias. Se juntarmos os blogues e os fóruns, temos um desejo de participação que deseja, antes de tudo, não ser institucional. É por isso que as tentativas de integração dos blogues nos meios tradicionais não parece que tem sido bem sucedida.

A questão fundamental é portanto esta: pode um meio de comunicação one-way ser um meio two-way? Ou evoluir para two-way? Ou integrar dispositivos two-way suficientemente atraentes para a participação das pessoas? Creio hoje que as respostas são não, não e sim. Mas obviamente faltam estudos (que eu coonheça) que fundamentam isto e, sobretudo, falta coragem aos media tradicionais para "experimentarem" nesta matéria.

Tudo isto para ir dar à motivação inicial deste post. Os blogues do Público são o primeiro exemplo que eu conheço em Portugal de tentativa (muito ténue) de integração dos blogues no medium tradicional. Há blogues temáticos como o Fait Divers, o Em revista, o Gadgeto dilo, o Provedor dos leitores, o Moblog, blogues Ad Hoc como o Caso Afinsa e blogues independentes convidados como o Ponto Media.

Alguns dos blogues são muito interessantes e no seu conjunto constituem um primeiro passo na direcção certa. Mas há ainda um longo caminho (minado) a percorrer. Assim haja coragem para dar  os passos seguintes.

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