Na edição desta semana da revista Sábado, João Marcelino fala do "caso Carrilho". Na ausência versão online (que vergonha!), eis duas citações comentadas:

1. "Quanto ao problema de fundo, que parece de ética e deontologia mas pode vir a ser de polícia, entregava-o eu à Ordem dos Jornalistas, que tarda. Mas está aqui uma boa oportunidade para um regulador empenhado em ganhar força moral mostrar que vem por bem."

Inteiramente de acordo. Nas duas coisas.

2. "Quando o nome de Daniel Proença de Carvalho é apontado para suceder a Souto Moura na Procuradoria-Geral da República, isso ppode ser uma notícia fora de tempo, uma adivinhação ppura e simples ou parte da negociação política que conduzirá à indicação do nome do homem que o Presidente Cavaco Silva, sob indicação o Governo de José Sócrates há-de fazer quando chegar a hora. (…) Podemos estar perante uma verdade que se tornou mentira porque a publicitação extemporânea exige o rápido desmentido (..) como podemos estar na presença de uma mentira que se tornou verdade durante um período fugaz porque alguém apostou em acreditar no que não foi nem podia ser confirmado ou em dar força a um hipotético cenário de equação política.

A informação e a contra-infomação vivem assim de mãos dadas nos órgãos de comunicação social (…) O mundo informativo é mais complexo do que parece. ´´E intermediado por jornalistas, mas compreende "fontes" individuais, assessores, agências organizadas, empresários, políticos e dirigentes sociodesportivos, homens de boa vontade e enganadores profissionais, gente inteligente e desprovida, seniores e juniores, interesses vários e lóbis organizados.

Passava pela cabeça de alguém que o mundo, tal qual o conhecemos, não estivesse espelhado na comunicação social? Ou, dito de outra forma, há por aí algum ingénuo, oou hipócrita, tanto faz, disponível para defender a existência de bolsas de actividade humana onde não entrem nem o interesse nem o lucro pessoal?"

Eis então o fundamental da questão, numa formulação com qual certamente Ricardo Costa concordaria. Embora não saiba bem o que são 'bolsas de actividade humana', nesta como em muitas – todas? – outras matérias, a distinção fundamental, filosófica, é entre aqueles que acham que "o mundo é como é" e os que acham que "o mundo é como nós o fazemos". João Marcelino (cujas ideias são sempre desarmantemente simples e corajosas) e Ricardo Costa estão no primeiro grupo. Eles são os "realistas" por oposição aos "idealistas". Os verdadeiros jornalistas, penso eu, nunca deixam de ser pelo menos um pouco idealistas. No momento em que perdem de vista essa utopia, nesse momento deixam de ser jornalistas plenos. O "caso Carrilho" também é sobre isto.

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