Sobre o discurso de Cavaco

Poderá dar-se o caso de Cavaco achar que este governo está a governar BEM!?

Cavaco tinha todas as razões para fazer um discurso crítico. O seu programa eleitoral, a sua base social de apoio, a sua base política de apoio, a conjugação de vários relatórios internacionais, a contestação social, todas as “pontas soltas” teriam podido servir a Cavaco para “mandar recados” ao Governo. No entanto, ele nada fez, quando toda a gente achava que era hoje, 25 de Abril, que ele se ia “assumir”. Se houvesse um verdadeiro jornal de direita em Portugal ele amanhã devia titular, com toda propriedade, “A Desilusão Cavaco”.

Pode-se especular sobre as razões para o mutismo do Presidente (na verdade, de relevante o longo discurso nada disse). Haverá explicações mais ou menos complexas e elaboradas, tanto da esquerda como da direita. Mas há uma terceira hipótese, centrista: que é a de Cavaco estar intimamente convencido de que, dadas as circunstâncias, este governo está a governar bem.

E o que faria Cavaco se estivesse intimamente convencido disso? Faria um discurso crítico do Governo para agradar à sua base eleitoral, ao centro-direita que o elegeu, aos partidos que o apoiam? Claro que não. Self-righteous como sempre foi e sempre será, Cavaco é incapaz de contrariar as suas convicções profundas. Por isso não criticou o Governo neste 25 de Abril. Como já muita gente tinha dito, Sócrates pode ter ganho um aliado. Mas, ainda mais interessante, se Sócrates governar bem, Cavaco pode ter ganho um problema: como estar de bem, ao mesmo tempo, com a sua consciência e com a sua base de apoio?

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A MTV alemã vai transmitir a partir de 3 de Maio a série de animação Popetown (em que contracenam um Papa excêntrico e um Cardeal corrupto) considerada pelos católicos “um ataque directo à crença cristã“, “uma provocação“, “uma ofensa“, “uma infâmia“, “uma blasfémia” (onde é que eu já ouvi isto…?).

Adenda 1. O Comunicar a Direito tem ums série de posts narrando a polémica sobre esta matéria: 1, 2, 3, 4, 5, 6.
Adenda 2: No final de 2004 esta mesma série esteve programada para a BBC3, mas a direcção da estação recuou face aos protestos dos católicos. Ver aqui e aqui.

Os media segundo Ramonet

Mais vale tarde que nunca.

Vi o debate do Clube de Jornalistas na passada quarta-feira, dia 12, e o que mais destaco são as citações de Ignácio Ramonet numa conferência realizada em Lisboa. Destaco esta porque me parece muito pertinente, mas recomendo a leitura integral das citações, em boa hora compiladas pelo Comunicar a Direito, aqui, aqui, aqui e aqui.

No decurso dos últimos quinze anos temos vindo a assistir à chegada de gigantes empresariais à comunicação social, juntando-se a isto, com todas as consequências, a globalização.
E o que é a globalização? É essencialmente uma fase da história económica onde as empresas tendem a tornar-se mais importantes do que os Estados.
Enquanto as empresas estão por todo planeta, os Estados estão limitados ao seu território.
A globalização é o privado contra o público. É o mercado contra o Estado. É a empresa privada contra o serviço público e é esse o papel principal das empresas no domínio económico.
Essas empresas, hoje, são sobretudo empresas dos grandes grupos mediáticos.
No seio desses gigantes grupos mediáticos, a parte da comunicação social é reduzida.
Se tomarmos como exemplo o grupo Murdoch, o aspecto realmente jornalístico, de informação, é extremamente reduzido naquele grupo, em comparação com a produção de filmes, de televisão, música, séries de televisão, livros, grandes séries, etc.…
”.

Ignacio Ramonet
…..
P.S. Se alguém souber como ter acesso ao conteúdo integral da conferência, sou todo ouvidos…

Uma boa ideia

Uma boa ideia de Tiago Barbosa Ribeiro no Kontratempos:

Sugiro por isso que os leitores colaborem, por e-mail (t.b.ribeiro@sapo.pt) ou na caixa de comentários, indicando outras tarefas administrativas que podem perfeitamente ser desburocratizadas e assim simplificar o nosso dia-a-dia. Daqui a uns dias publicarei um post onde constarão todos esses actos que podem ser eliminados. E quem sabe o governo não aceitará mesmo as sugestões.

Mãos à obra! Todos sabemos que matéria não falta.

Gravuras de corpo inteiro

Agora são gravuras de corpo inteiro: o lançamento da edição indonésia da Playboy está a ser recebido com manifestações e ameaças.

A polícia indonésia pediu aos editores para não lançarem o segundo número da revista, que, ao contrário das suas multiplas congéneres, não inclui corpos nus (uma manifesta discriminação dos indonésios…).

Do outro lado, já existe uma petição online com mais de 7000 assinaturas pedindo a manutenção da edição local da revista (se eu percebi bem o indonésio…).

Expresso em podcast

Já sabia (através do Radio.com), mas só agora estou a utilizar pela primeira vez:

O Expresso é o primeiro jornal português a disponibilizar para os seus leitores entrevistas em podcast. A técnica é cada vez mais frequente no estrangeiro e aplica-se não só a entrevistas como a todo o tipo de artigos. No caso do Expresso destaco sobretudo a disponibilização dos podcasts relativos ao programa da SIC e do próprio jornal, “Expresso da meia-noite” (feed aqui).

Berlusconi = Bush

Berlusconi é o George Bush da Europa. Com tudo o que se sabe, disse e se pôs a circular sobre ele, é de todo supreendente que tenha conseguido metade dos votos nas eleições italianas. Longe de nos afrontar, isso deve-nos desafiar a perceber melhor o que leva tantas pessoas a votar em alguém que nenhuma pessoa de bem recomendaria. Tanto no caso de Bush como no de Berlusconi, parece-me que, mais do que a divisão esquerda-direita (e para quem delas se conseguir abstrair…), o que é intelectualmente estimulante é analisar as diferenças entre quem os denigre e quem neles vota. Intuo que, em boa parte, essa divisão ajuda a explicar o funcionamento das sociedades modernas.

Cavaco vs. Sócrates

Sobre esta notícia do Independente, que ainda não li, o que eu gostaria de saber é quem é que deu ao jornal as cartas que a fundamentam. Porque a resposta a essa pergunta é politicamente definidora: embora o subtítulo apologético tente fazer crer que a questão é embaraçosa para ambos, a iniciativa terá vindo de algum lado. Se tiver vindo do lado de Sócrates, é uma forma de defesa prévia face ao “papão” Cavaco; se tiver vindo do lado do Presidente é uma declaração de guerra política, abrindo as hostilidades. Espero que a leitura da notícia seja esclarecedora.

A forma como as potências ocidentais estão a abordar a questão do Irão revela inteligência e capacidade de aprendizagem. É claro que uma intervenção militar é altamente provável senão mesmo inevitável. Parece que já se percebeu que os EUA já tomaram essa decisão. Portanto a questão é (1) quando e (2) com que aliados. Lenta mas notoriamente, os restantes países ocidentais colocam-se moderadamente em posição de poderem vir a apoiar essa acção.

Após os ataques de 2001 e subsequentes intervenções no Afeganistão e Iraque, julgo que boa parte da divisão ocidental resultou do efeito-surpresa da ameaça terrorista, que verdadeiramente só nessa altura se revelou na sua verdadeira magnitude. O Ocidente não estava preparado para lidar com essa situação e foi isso que gerou a sua divisão. Os países ocidentais, todos, perceberam então que a sua divisão era (foi) uma fraqueza e impõe a mais evidente inteligência geoestratégica que isso não se repita no Irão. É por isso que moderadamente, toda a gente se coloca a jeito para uma intervenção militar. Ou seja, a comunidade internacional percebeu depois do Afeganistão e do Iraque, que está perante uma realidade mundial nova e está a adaptar-se a ela. Uma das maneiras de o fazer é percorrer um caminho diplomático anterior à guerra cuja função é justamente preparar para a guerra. A visita de El-Baradei não será o último, mas é um passo decisivo nesse sentido.

Empolamento jornalístico

Esta questão do acórdão do Supremo Tribinal de Justiça a propósito dos maus tratos (versão integral aqui, via blasfémias), suscita algumas reacções rápidas:

1. Ouvi a notícia pela manhã na TSF e desde logo me pareceu um excesso interpretativo. O que em si mesmo é significativo;
2. Neste caso, como noutros, os media foram claramente uns atrás dos outros. O Público estabeleceu a agenda e a rapidez com que vários outros meios abordaram o assunto demonstra, na prática, que não o aprofundaram devidamente. A procura do sensionalismo está para os media como o populismo está para a política. O que impressiona é a abrangência dos media neste sensacionalismo em particular. Espera-se da TVI, do CM ou do 24 Horas, mas não se espera o Público, do Expresso ou da TSF.
3. A substância do acórdão é altamente discutível e dá um debate muito pertinente. Mas não nestes termos, naturalmente;
4. Como exemplo negativo, eis a formulação do Portugal Diário:
O acórdão diz “Qual é o bom pai de família que, por uma ou duas vezes, não dá palmadas no rabo dum filho“. O Portugal Diário escreve “(…) E considera que ‘o bom pai de família’ dá palmadas no rabo do filho‘.” A deturpação é evidente.