Sobre a racionalidade no futebol

A propósito do Benfica-Barcelona gerou-se uma (bem disposta) polémica sobre a racionalidade no futebol, aqui, aqui e aqui.

Não só não é racional apoiar o Benfica contra o Barcelona como, para qualquer adepto do Sporting ou do Porto, é racional o contrário:
– o sucesso do Benfica dá pontos e possibilita que daqui a alguns anos haja mais vagas europeias para 18 equipas disputarem, entre elas o Porto e o Sporting;
– mas esse mesmo sucesso também lhe dá receitas que para o ano vão permitir não vender os jogadores que tem, comprar melhores jogadores e ficar com uma equipa mais forte, para confrontar sobretudo o Porto e o Sporting.

Haverá algo mais racional do que desejar a derrota do Benfica?
É que nem é preciso apelar às razões emocionais…

Anúncios

Em destaque

Sobre as quotas:

“Começou com as mulheres, mas não há razão para que, a prazo, outras quotas não se venham a impor, por cor da pele, religião, orientação sexual, região ou classe social de origem. Para quem tenha uma concepção liberal da política, na velha tradição da liberdade, há uma perda de qualidade da naturalidade democrática a favor do artificialismo, da engenharia utópica da sociedade.”
Pacheco Pereira, no Abrupto

Para reflexão

Como subproduto do interessante debate sobre liberdade de expressão organizado pelo DN, eis uma ideia profícua de Pacheco Pereira:

Em Portugal, devíamos estudar com muita atenção a censura. Com excepção da União Soviética, somos o país da Europa em que a censura durante mais tempo moldou a maneira de pensar: 48 anos sem um único dia de interregno. Na Turquia, Grécia ou Espanha, houve dias sem censura. Em Portugal foram 48 anos seguidos sem interrupções.

E os nossos coronéis tinham uma enorme sensibilidade para aquilo que era importante na censura: a autoridade. A censura prévia em Portugal cortava tudo o que pudesse ser entendido como crítica à autoridade. Há cortes da censura a críticas à maneira se vestir do Príncipe de Gales, às críticas à actuação dos árbitros. Os censores percebiam muito bem quando estava em causa aquilo a que eles chamavam o ‘desrespeito’.

O mais importante na nossa censura nem era a censura do político mas sim a censura da conflitualidade. Tínhamos uma censura em Portugal que proibia notícias de suicídios. Eram sempre ‘acidentes com armas de fogo’. As mortes e os assassinatos violentos também não existiam. Tudo aquilo que pudesse implicar uma ideia de conflito social era cortado.

Se quisermos estudar os nossos problemas de liberdade em 2006, não podemos ignorar uma tradição longuíssima de uma censura que combatia essencialmente o conflito social. Esta ideia é algo que ficou na nossa mentalidade e que tem muito a ver com o retorno do sr. Bom e do sr. Senso. Acho que este debate sobre as caricaturas a incorporou: nós temos uma enorme facilidade em integrar o sr. Bom e o sr. Senso no nosso quotidiano. O Sr. senso tem sucesso em Portugal porque nós temos uma mentalidade que não gosta do conflito. Nós não gostamos do conflito. Nós somos socialmente avessos ao conflito.

Why China scares the US

“Why China scares Russia”
Newsweek

Porque será que não consigo deixar de ver este título da Newsweek como um indício de que – manifesta projecção – os americanos estão cheios de medo da China? O poder real e (sobretudo) potencial da China está envolto em incógnitas, mas o receio que ele desperta nos EUA é o melhor indício de que “não há fumo sem fogo”.

À escala cósmica, a água é mais rara do que o ouro.
Hubert Reeves, citado por Fernando Alves nos Sinais de ontem.

A multiplicação das iniciativas e estratégias relacionadas com o aproveitamenteracional da água, faz pensar nos elementos fundamentais dos gregos e na forma como eles explicam boa parte do quadro de fundo da história do ser humano.
Por volta de 1500 a Terra ainda era um bem não escasso e a descoberta de “nova terra” era possível. Hoje, a terra é disputada ao centímetro, há poucas zonas no mundo “livres de humanos” e as que há têm que ser deles protegidas. A Terra transformou-se num recurso escasso, passou a a valer dinheiro e por isso foi tomada pela propriedade privada.
A água é nos dias que correm objecto de acordos e convenções internacionais quando não de disputas veladas entre países (Portugal e Espanha, por exemplo). Ainda é um bem livre e não escasso, mas está a tornar-se em algo com valor económico, primeiro numa perspectiva nacional, mas depois também numa perspectiva particular. Neste momento a discussão ainda permanece no primeiro desses planos, mas vai evoluir para o segundo.
Por fim, o Ar. O que significam acordos como o de Qioto senão a assunção de que tembám o Ar, o mais abundante dos elementos, é afinal limitado e tem que ser “gerido”? A pergunta que se coloca então é: se hoje em dia fosse tecnicamente possível criar e manter ar puro em zonas controladas, isso não teria imediatamente um enorme mercado potencial em muitos países ocidentais? Aliás, partindo da crença no progresso inelutável da técnica, a pergunta não deve ser “e se”; deve ser “e quando” isso for possível?
A muliplicação dos seres humanos gera pressão sobre os recursos todos. Primeiro a Terra, agora a Água, no futuro o Ar. E na medida em que essa pressão cresce, cresce o valor económico dos elementos e portanto a sua atractividade para a propriedade privada.

Cenas da vida real

Numa cervejaria de Lisboa peço uma palhinha para a coca-cola do meu filho. O empregado traz uma palhinha às listas vermelhas e brancas e diz: “Aqui está a palhinha. É do Benfica. O momento não é o melhor, mas ainda assim…
A cor da palhinha era irrelevante, mas a observação não. Por isso peguei na palhinha e respondi: “Não tem em verde. Não leve a mal, mas nós preferimos.

O resto do almoço decorreu na maior normalidade, mas a reflexão impôs-se-me:
Que grau de clubite poderá ser necessário para um empregado de mesa aborbar dois clientes perfeitamente desconhecidos desta forma? Mais: que tipo de ideias povoam a mente daquela criatura para ver “Benfica” numa palhinha para a coca-cola? Quantas sinapses, Dr.Damásio?

“Acho ridículo que para certas pessoas o jazz tenha uma conotação elitista.”
Marta Hugon, cantora de jazz, numa reportagem da NS (sem link)

E eu acho ridículo que alguém não perceba o rídiculo de que se reveste quando deseja que o mundo seja como ela deseja.