Nuclear? Onde???

Faço minhas as palavras de Carlos Medina Ribeiro no Sorumbático. Este cartoon de Bandeira publicado no DN de ontem diz tudo: para quê discutir a energia nuclear se nunca chegaremos a consenso sobre onde a instalar. Pura perda de tempo.

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Vai ser um belo fim de tarde

Agora sim, refastelado olhando para o clássico.
Raramente temos um jogo em que os resultados possíveis variem entre o bom e o excelente:
Vitória do Porto: Bom. É sempre bom ver o Benfica perder, seja contra quem for, seja em que circunstâncias for.
Vitória do Benfica: muito bom. Benfica a três pontos e Porto ao alcançe de uma mão.
Empate: excelente. Quatro pontos ganhos numa só jornada aos competidores directos.

Haverá melhor programa para um fim de tarde?

Sobre o incidente de recusa de juíz no processo Casa Pia:

Se uma manobra processual, real ou possivelmente dilatória, pode pôr em causa um julgamento com a relevância pública deste, compete ao poder político assegurar-se que não é pelos prazos – uma formalidade – que a justiça – em substância – falha a sua aplicação. Nomeadamente, compete à organização e funcionamento do sistema judicial, um subproduto do poder político, garantir que os prazos em causa não são ultrapassados. Se o governo não tem competências directas para o fazer, se calhar devia ter. E devia ter porque, se é verdade que o poder político não pode administrar a justiça ou interferir na sua administração, tem o dever de garantir que ela funciona. E isso é manifestamente o que está em causa.

Que toda a gente ache que o governo não pode intervir nesta matéria porque é do foro da Justiça é algo que dá muito jeito ao governo, que, naturalmente, a última coisa que deseja é ter que tomar decisões com relevância nesta matéria tão complexa. Daí que não tenha havido, até ao momento, qualquer reacção governamental a este respeito.

Mas a ideia de que a Justiça é terreno proibido para o governo só parcialmente é verdadeira. É certo que o poder político não pode interferir na substância da Justiça. Mas tem o dever de grantir que os seus formalismos a servem em vez de a prejudicarem. Ou seja, a Política prevalece sobre a Justiça. O julgamento judicial depende da avaliação do juíz, o julgamento político depende da comunidade no seu todo. O juíz regula o seu julgamento pelas leis, a comunidade faz os seus julgamentos a partir daquilo que observa à sua volta. A economia, a televisão, o emprego, as obras, o trânsito, a criminalidade, o aborto, o casamento homossexual, a segurança social, mas também a justiça. E ninguém compreenderia que o processo Casa Pia fosse anulado por uma razão processual. Não faz qualquer sentido e só pode ter um julgamento político: inépcia. Se não dispõe dos meios ou instrumentos para solucionar a questão, o Governo deve reuni-los rapidamente e tornar claro que não será por uma razão processual – ainda para mais relacionada com os prazos dilatados em que a justiça funciona (mais de um mês para avaliar a imparcialidade de um juíz?) – que o caso deixará de ser competentemente julgado.

Gripe das aves

Será o alarmismo a expressão social da hipocondria (uma “doença” da civilização ocidental)?

As far as I can read it, the flu strain known as H5N1 has taken eight years to spread from east Asia to Europe. In that time, it has killed just 91 people who have been in intimate contact with diseased birds. Roughly 200 people are ill at present, with a 60% chance of recovery. Short of eating infected bird faeces, humans seem close to immune. As world diseases go, this is trivial, yet it currently consumes more time and column inches than MRSA, malaria or Aids.
Simon Jenkins, The Guardian
(via Bicho Carpinteiro)

Opinion (des)maker

Sobre o excesso de opiniões da blogosfera, subescrevo (já que não consigo escrever assim…) este excelente post de Afonso Bívar no Bombyx Mori:

Não é que haja em excesso; nem que as pessoas, escudadas no seu carácter sacrossanto, falem com ligeireza e fast thinking do que não sabem; nem sequer que, através da colagem da livre expressão à opinião, esta tenda a colonizar a esfera pública prensando outras modalidades de expressão a ponto da microscopização. O meu problema com a opinião é que ela encerra uma gramática assertiva, afirmativa, categórica que se coaduna mal com inquietações, perplexidades, dúvidas, interrogações. Quem opina por regra define, assevera, firma-se, toma posição, situa-se em contraditório com outrem igualmente assertivo, procura o veredicto, ter razão, quer dizer: beneficiar do reconhecimento de possuir a razão do seu lado. Um discurso que não apresente essas propriedades centrais da opinião (auto-)condena-se ao esoterismo, ao objecto excêntrico, quando não estapafúrdio e caprichoso. Para mim opinar é de facto uma violência (à qual cedo de quando em vez). É-o não por causa do esforço de construção de argumento mais ou menos complexo mas sim por ser constrangido a adoptar uma nomologia que encana o logos dentro de limites insatisfatórios, demasiado estreitos, obstruindo a reflexividade que quer rasgar além do mero esgrimir tantas vezes auto-complacente e narcísico de pré-conceitos. Eu tenho sempre muito mais dúvidas e enigmas por resolver que certezas e convicções, essas pautas de ordem que nos levam à certa, por mais tranquilizantes e reconfortantes, diria anestesiantes que estas sejam. Aliás, interessa-me mais o trabalho de enigmatização que o decifração. Não havendo enigma não há lugar à revelação, à descoberta, a abrir a arte do entendimento, apenas à confirmação, à reiteração de ponto de vista. À lógica da opinião falta essa curiosidade fundamental, pueril no melhor sentido do termo, ou seja como a que (só) se observa nas crianças e ainda mais nos bebés, singularmente (con)genial.
Contrapor-se-á que este texto é uma contradição nos termos. Uma opinião sobre a opinião, que por isso replica todos os vícios que a opinião – tal como aqui é paradigmatizada – apresenta. Não contesto. Mas o mundo não é só complexo, é também contraditório – aspecto que a Razão Providencial tem dificuldade em aceitar. Nem este texto nem eu próprio estamos fora do mundo(…).”

Citizen Journalism em Espanha

O jornal espanhol El Correo passou a integrar duas páginas de uma nova secção – EnlaCe – integralmente dedicadas ao citizen journalism.
(via Obercom, vias Editors Weblog, via Periodistas 21; o que também é um bom exemplo de como a informação flui)

P.S. (Post Scriptum) Um dia destes temos que traduzir Citizen Journalism, embora não goste muito do castllhano periodismo ciudadano. Aceitam-se ideias.

Pequenos detalhes

Pequenos detalhes de linguagem que nos ensinam coisas:

…Cerca de 200 mil euros enquanto primeira proposta
José Sá Fernandes, sobre a tentativa de suborno da BragaParques (audio aqui). O detalhe está no sublinhado. Será esta uma “transacção” tão banal que já tem um processo negocial habitual? Como quando vendemos ou compramos um carro usado? Aparentemente sim.

As 10 leis da blogosfera

Estas são oito das 10 leis da Blogosfera segundo o Abrupto, aqui e aqui. Uma nova versão está anunciada para breve.

1. Evitar discutir a Posição, procurar atacar a Contradição.
2. A ferocidade dos comentários está em relação directa com o seu anonimato mais o número de comentários produzidos por metro quadrado de ecrã / dia.
3. A esmagadora maioria dos temas, comentários, reacções, alinhamentos, posições é absolutamente previsível.
4. A blogosfera tem horror ao vazio.
5. O carácter lúdico dos blogues diminui à medida que a importância da blogosfera aumenta na atmosfera.
6. O tribalismo é a doença infantil da blogosfera.
7. O que vale na blogosfera tem que valer na atmosfera.
8. Na blogosfera o lixo atrai o lixo, não sendo a inversa verdadeira.

Ficamos ansiosamente à espera das restantes duas.

Freitas do Amaral

Freitas do Amaral é o Santana Lopes do governo PS, é o José António Saraiva da actual política portuguesa. Claro que pôs-se a jeito com uma declaração em que faltava metade do que lá devia estar (a condenação dos tumultos) e uma ideia risível que se calhar até era uma boa ideia. Mas isso não chega para explicar tamanha unanimidade em torno da figura. Como SL ou JAS, Freitas conseguiu unir contra si toda a intelligentsia nacional. E todos sabemos como a unanimidade gera unanimismo. Hoje em dia toda a gente “bate” em Freitas porque… toda a gente “bate” em Freitas. É isso o unanimismo. Há muitas figuras nacionais que separam opiniões, mas apenas umas poucas que as congregam. Freitas é uma delas. E como o que é normal é as opiniões divergirem, e não convergirem, talvez nos devamos perguntar porque será assim neste caso. Será que a intelligentsia nacional precisa do seu saco de porrada para compensar a angústia da divergência de opiniões? Será que FA, como SL ou JAS, têm afinal a função reflexiva de nos assegurar que também nós fazemos parte dessa elite em que nos projectamos? Procurar a unanimidade em figuras como Freitas é, para os espíritos livres, o mesmo que para os pobres de espírito é procurar em Deus a explicação do mundo. Na verdade, nem uma nem outro existem. Por angustiante que seja, é mesmo assim. E disso Freitas não tem culpa.

Uma reflexão rápida (falta tempo…) sobre o escândalo público que provocaram as imagens de soldados britânicos espancando jovens civis no Iraque:

Claro que a atitude dos militares é condenável. Mas a reacção ocidental (declarações do primeiro-ministro, primeiras páginas de jornais, inquéritos, prisões, etc..), não sendo desproporcionada, evidencia uma falha de perspectiva que é particularmente grave e explica boa parte dos sucessivos equívocos ocidentais em relação ao Iraque.

Com declaração formal ou sem ela, os militares ocidentais estão no Iraque em situação de guerra (guerra de guerrilha, mais precisamente). E a única diferença entre esta cena que nós vimos e muitas outras que se passam naquela ou em qualquer outra guerra é que esta foi filmada. Nada mais. Há de certeza nesta e noutras guerras episódios ainda mais repugnantes (de ambos os lados da barricada…) de que nunca chegamos a ter conhecimento porque não estamos lá e ninguém os filma.

O que nos deve escandalizar é a guerra em si (isso ninguém discute, claro) ou a presença de militares ocidentais no Iraque (isso jé é mais discutível…). Mas, uma vez assumida essa opção, devemos tomar consciência que os “nossos” militares estão no Iraque em situação de guerra. Achar que eles passariam por lá incólumes à violência, seja como vítimas seja como agentes, é – de duas uma – ou uma risível ingenuidade; ou uma preocupante manifestação de má-consciência, permitindo-nos dormir descansados em relação às restantes atrocidades que todos os dias acontecem no Iraque, perpetradas pelos “nossos” ou sofridas por eles. Como em todas as guerras.

Estando nós no lado mais “iluminado” do mundo, seria de supor que fôssemos capazes de não ser ingénuos ou de superar essa má-consciência, senão com o conhecimento de tudo o que se passa, pelo menos com a noção de que, de certeza, se passam coisas que não podemos julgar (sem o fazer levianamente) confortavelmente sentados no nosso sofá.

Eu apoio!

COMUNICADO – CONVITE

Na próxima 5ª feira, 9 de Fevereiro, pelas 15 horas, um grupo de cidadãos portugueses irá manifestar a sua solidariedade para com os cidadãos dinamarqueses (cartoonistas e não-cartoonistas), na Embaixada da Dinamarca, na Rua Castilho nº 14, em Lisboa.

Convidamos desde já todos os concidadãos a participarem neste acto cívico em nome de uma pedra basilar da nossa existência: a liberdade de expressão.

Não nos move ódio ou ressentimento contra nenhuma religião ou causa. Mas não podemos aceitar que o medo domine a agenda do século XXI.

Cidadãos livres, de um país livre que integra uma comunidade de Estados livres chamada União Europeia, publicaram num jornal privado desenhos cómicos.

Não discutimos o direito de alguém a considerar esses desenhos de mau gosto. Não discutimos o direito de alguém a sentir-se ofendido. Mas consideramos inaceitável que um suposto ofendido se permita ameaçar, agredir e atentar contra a integridade física e o bom nome de quem apenas o ofendeu com palavras e desenhos num meio de comunicação livre.

Não esqueçamos que a sátira – os romanos diziam mesmo “Satura quidem tota nostra est” – é um género particularmente querido a mais de dois milénios de cultura europeia, e que todas as ditaduras começam sempre por censurar os livros “de gosto duvidoso”, “má moral”, “blasfemos”, “ofensivos à moral e aos bons costumes”.

Apelamos ainda ao governo da república portuguesa para que se solidarize com um país europeu que partilha connosco um projecto de união que, a par do progresso económico, pretende assegurar aos seus membros, Estados e Cidadãos, a liberdade de expressão e os valores democráticos a que sentimos ter direito.

Pela liberdade de expressão, nos subscrevemos

Rui Zink
Manuel João Ramos
Luísa Jacobetty