Breve análise eleitoral

1. Isto não foi um “passeio na Avenida”. Com 0,6% dos votos (60 mil em mais de 9 milhões) acima dos 50 por cento, Cavaco esteve à beira de não ser eleito à primeira. Bastava que à direita tivesse havido outro candidato ou à esquerda não tivesse havido 5 (!!!) para que a história hoje pudesse ser outra. Mas isso em nada belisca a sua legitimidade, que não precisa de mais do que um acima da metade para ser completa;

2. O que se passará na cabeça de Cavaco Silva neste momento? Este é um homem que sonhou durante mais de dez anos com este momento e que pacientemente aguardou uma segunda oportunidade. O que vai ele agora fazer com um troféu tão longamente ansiado? Será que lhe chega “zelar pelo regular funcionamento das instituições”? Será que isso “paga” dez anos de espera e tantos obstáculos pelo caminho? Uma vez eleito, Cavaco é o presidente de todos os portugueses e merece todo o crédito. Mas suspeito que os fantasmas não morreram com esta eleição.

3. Sócrates e Soares são os grandes, os enormes, perdedores destas eleições. Com a diferença de votos registada, os dois podem ser acusados de terem oferecido à direita, de bandeja, o seu primeiro presidente em 31 anos de democracia. O que os eleitores disseram foi que um candidato como Manuel Alegre (ou o próprio Alegre), apoiado “a sério” pelo PS, podia ter ganho esta eleição. E nem sequer colhe a teoria recambolesca de Sócrates querer, no fundo, este resultado. Isso só teria sentido se Sócrates não conseguisse ver para além de 2 ou 3 anos. Cavaco vai ficar na presidência 10 anos e, mesmo que seja um bom parceiro para Sócrates nos tempos mais próximos (o que em si mesmo é duvidoso), será uma força contrária a todos os desígnios que Sócrates possa ter para além disso. A eleição de Cavaco é que marca a abertura de um novo ciclo político: o ciclo político no qual, em Portugal, “reina” um presidente de direita.

4. É verdade que Alegre roubou muitos votos no eleitorado sociológico de Louçã e do BE. Mas não deixa de ser surpreendente que Louçã tenha tido um resultado pior do que o do BE nas legislativas. Apesar de Louçã. O inverso pode ser dito do PCP. É surpreendente que o partido volte a não perder votos numa eleição. Graças a Jerónimo. Ambos os partidos jogaram com os líderes, com resultados diferentes. Mas nem o fenómeno Alegre vai durar muito (uma pergunta no entanto: quanto do eleitorado do BE é anti-sistema, mas de centro?), nem Jerónimo (ou o seu carisma) vai durar para sempre. Por isso, mais cedo ou tarde, se nada mudar, o BE vai continuar a ganhar espaço político ao PCP.

5. As eleições presidenciais são pouco mais do que ideológicas. No essencial, o que deve estar em causa são ideias, grandes ideiais. Desde o rumo para o país até às doutrinas políticas, passando pelo funcionamento ds instituições. Por isso teria sido de todo o interesse que à direita como à esquerda uma clarificação de posições ideológicas. Não sabemos hoje quanto vale o PP ideologicamente. À esquerda pelo contrário há pelo menos quatro espaços ideológicos repartidos por cinco candidatos. Não custa admitir que o PS valha hoje 35 por cento (a soma de Soares e Alegre), mais um quinhão do centro flutuante que desta vez caiu na sua grande parte para o lado de Cavaco.

6. A tentação maior de Cavaco não será confrontar ou desafiar o Governo. A sua tentação maior será influenciar o rumo do PSD. Já várias pessoas alertaram para o facto mesmo antes de ter existido qualquer indício, fazendo fumo antes que verdadeiramente haja fogo. O sorriso amarelo de Marques Mendes, que, inteligente, já fez a leitura política deste resultado (a cuja estratégia, de resto, nada podia opor) também o denuncia. A clarificação de posições era o melhor que lhe podia acontecer (directas, já), embora me pareça que agora Marques Mendes já perderia o partido para um Cavaquista (quantas figuras cavaquistas “renasceram” ontem no Centro Cultural de Belém? Um exemplo? Leonor Beleza…). E quanto mais tempo passar mais o perderá, por influencia presidencial. O cenário no PSD será decerto um dos mais interessantes para acompanhar nos próximos tempos.

7. O que vai fazer Alegre com os inesperados mais de um milhão de votos que lhe cairam no regaço? Eis a grande incógnita destas eleições. Provavelmente nada, é a resposta. Porque, a ser verdade que a maior parte dos votos de Alegre são de eleitores decontentes com o sistema de partidos – e acredito que sim – a questão que se põe é: como se representa esse eleitorado anti-partidos sem ser através de um novo partido (que por pura lógica estaria liquidado à nascença)? Pode essa representação renascer e materializar-se a cada nova eleição com formas diferentes? Pode, mas não terá em cada uma mais votos que na anterior como teria se beneficiasse do efeito de fidelização da filiação partidária. A representação que Alegre conseguiu deste eleitorado anti-sistema esgotou-se no momento de divulgação dos resutados. Na próxima eleição esse eleitorado assumirá novas formas e uma parte dele voltará ao BE e outra ao flutuante centrão. Quanto a Alegre, o máximo que pode é capitalizar o seu resultado na constituição de uma “tendência” dentro do partido socialista, que, suspeito, não o vai receber de braços abertos. Sócrates faz bem em estender um ramo de oliveira, mas creio que será preciso mais do que isso para conter o interior do PS. Que, de resto, também vai ser interessante de observar nos próximos tempos.

Reflectindo…

“Contudo, o que joga nesta eleições não é a vontade de mudança contra a passividade do imobilismo. Toda a gente quer hoje declaradamente a mudança. Mas uma mudança mágica, que salve o país sem a dor do sacrifício.
(…) A extraordinária maioria de que Cavaco goza nas sondagens exprime um fenómeno messiânico de tipo religioso(…): ele surgiu como um santo milagreiro. O povo segue-o com o mesmo espírito com que organiza cortejos e rezas colectivas para que chova, em período de seca.
E não está ele associado à chuva de dinheiro que caiu durante os seus mandatos de primeiro-ministro, sobre Portugal? A confusão abriu as portas à irracionalidade da fé, e atribuiram-se a Cavaco poderes salvíficos que não possui.O messianismo que vai decidir o resultado final, rebateu-se sobre a estratégia de silência do candidato e produziu uma forma inédita de populismo (…).
Estas eleições transformaram-se em legislativas mascaradas sem as clivagens políticas habituais. Joga-se nelas a mudança (daí o seu carácter legislativo), mas sem instabilidade, sem sacrifícios, sem mudança (o que o Presidente é suporto conseguir).”
José Gil, na Visão (sem link)
Sublinhados meus.

Xerxes está volta à jukebox deste blogue a propósito do lançamento do seu primeiro trabalho discográfico. Já aqui tínhamos feito referência a este “som” quando ele ainda era um ilustre desconhecido (que ainda é…), mas agora já tem um site próprio, editou na Hellven, e, o mais curioso e sugnificativo de tudo, permite o download integral do disco, assim como da maior parte da sua criação anterior aqui.

Uma lição para muitos artistas e sobretudo um grande ponto de interrogação sobre o sentido da arte, mesmo que seja popular.

DNa e Grande Reportagem: o fim.

A Grande Reportagem o o DNa publicaram no sábado e na sexta, respectivamente, os seus números de despedida.

A Grande Reportagem publica algumas das suas melhores capas e melhores reportagens aos longo dos anos em que teve periodicidade semanal integrada no DN.

O DNa vem com duas capas – o bebé que ilustrou o primeiro número e o míudo de nove anos que hoje é – e organiza por temas as melhores, mais profundas, mais desafiantes declarações dos grandes, enormes entrevistados que passaram pelas suas páginas.

Já sabia que a Grande Reportagem e o DNa iam acabar. Mas só ao folhear estas últimas edições me dei conta, temporariamente a salvo do afã da internet, que estas duas presenças estiveram comigo, em permanência, ao longo dos últimos anos. Nessa permanência foram coisas sólidas e duráveis, para além da espuma da actualidade. Em parte, eu sou parte delas e elas são parte de mim. Perdê-las é como perder alguém muito próximo, de quem só sentimos a falta quando falta.

O meu tributo à Grande Reportagem, ao DNa e a todos os que trabalharam em ambas. Fizeram coisas dignas de respeito.

Faço minhas as palavras do Francisco: gostava de saber quem cedeu a uma empresa chamada PT os direitos para esta utilização do Hino Nacional:

A mim ninguém me perguntou nada…

Mas, vai daí, a mesma questão pode ser lavantada em relação a este tratamento de photoshop que tem servido a imagem de uma candidatura presidencial:


Ou será que o facto uma utilização ser comercial e a outra ser política faz alguma diferença? Boa pergunta!

P.S. (post scriptum): Lembram-se do João Grosso a “cantar” o hino nacional? O país entretanto mudou um pouco, não?

Foi Cavaco que puxou a questão dos financiamentos apartidários da sua campanha, uma “qualidade” que os apoiantes de Soares, com Jorge Coelho à cabeça, trataram de converter num “espinho” para a campanha do professor. Moral da história: com a vantagem que tem nas sondagens, alguém devia aconselhar Cavaco a não fazer nada, mas nada, para além de defender-se dos ataques. Todo o ataque de Cavaco é meio-caminho para um contra-ataque.

Diferenças…

Acho tão ridiculamente xé-xé Soares acusar os media de “combinarem” apoiar Cavaco (e, ainda mais, pedir um “inquério de rua” para o comprovar!!!) como acho eticamente desonesto e rasteiro Cavaco reclamar que no orçamento de campanha não há dinheiro dos partidos (como se os respectivos apoiantes fossem apolíticos ou gostassem de oferecer almoços…). Entre o xé-xé e o desonesto, prefiro o xé-xé.

Na entrada da Wikipedia relativa a Chumbita Nunes, presidente do Vitória de Setúbal, já não consta aquele articulado eventualmente certo mas claramente parcial e figadal a que aludi anteriormente.

Reflecti sobre o assunto e conclui que um meio aberto como é a Wikipedia está à mercê de utilizações abusivas ou intelectualmente terroristas tanto quanto à mercê do uso correcto e intelectualmente sério. Esse é aliás o melhor mecanismo de defesa dos meios abertos como a Wikipedia: é que se qualquer pessoa pode deturpar o seu conteúdo também qualquer pessoa o pode corrigir e melhorar. E, optimista, acredito que, com a crescente utilização e domínio das ferramentas da sociedade de informação, as pessoas interessadas em melhorar a Wikipedia serão mais do que as que a querem deteriorar. Vai daí, meti mãos à obra. O que agora diz sobre Chumbita Nunes na Wikipedia é isto:

Rui João Soeiro Chumbita Nunes

Presidente da direcção do Vitória Futebol Clube [1], normalmente conhecido como “Vitória de Setúbal”, clube da cidade de Setúbal fundado em 1910, Chumbita Nunes é igualmente presidente do conselho de administração da S.A.D. (Sociedade Anónima Desportiva) na qual se enquadram as equipas de futebol profissional. Sob a gestão de Chumbita Nunes, o Vitória de Setúbal sofreu graves problemas financeiros no final de 2005, com salários em atraso aos jogadores, o que provocou a demissão do treinador Luis Norton de Matos, assim como a ameaça de greve por parte dos jogadores e várias rescisões de contrato.

Não está perfeito e muito menos completo. Por isso, quem tiver algo a acrescentar ou corrigir, faça favor. Afinal é para isso mesmo que serve a Wikipedia.