A Feira do Relógio, em Lisboa, é (como qualquer outra do género) um impagável laboratório sociológico. Os finalistas de sociologia deviam ser obrigados a fazer ali parte do estágio. Na Feira do Relógio pulsa o país real (o.k., 95% dele!) e uma visita diz-nos muito sobre o que somos como povo e como país.
Hoje de manhã três agentes da PSP circulavam calmamente, vigilando a ordem pública por entre feirantes que, bancada sim, bancada não, comerciavam artigos de contrafacção ou simplesmente roubados. Os artigos obviamente não lhes interessavam, nem a eles nem aos agentes da polícia municipal que por lá andavam.
Desta vez como todas as outras em que já tinha presenciado a cena, achara estranho que a polícia pudesse estar presente e não fazer nada. Mas hoje vislumbrei parte da resposta quando vi uma fiscal da câmara, devidamente identificada, a conversar com uma feirante sobre o que julgei ter percebido ser algo relacionado com os documentos que é preciso ter para ali poder estar. A polícia olha para o lado porque a câmara olha para as licenças, porque os compradores olham para o bolso. É uma cadeia económica devidamente montada que só tem um detalhe estranho: é ilegal. Mas isso que importa. Aparentemente todos ganham menos as multinacionais lesadas (sim, isso é redentor!). Para refinar a ironia, até a fiscal que verificava a condição de feirantes dos feirantes ia pelo meio fazendo as suas compras da manhã: uma camisola da Gant, uma camisa Lacoste, uns sapatos Timberland, etc.
Se isto não é a imagem de um povo…
ADENDA: O Telejornal da RTP acaba de emitir uma reportagem feita na Feira do Relógio com o teor popularucho habitual, sobre o Natal dos pobres. A contrafacção e os artigos roubados não despertaram a atenção do jornalista. Mais um personagem para esta farsa nacional?