Mourinho: anatomy of a winner

Não sei se o livro presta para alguma coisa, mas esta recensão de Daniel Runciman, professor de ciência política em Cambridge, publicada na London Review of Books merece uma leitura.
(via Margens de Erro, via Bem Haja)

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Eleição Betandwin

Embora com algum atraso (Natal oblige), cinco observações sobre a polémica das apostas online sobre as eleições presidenciais portuguesas:

1. O presidente da república é a mais importante figura da nação e representa todos os portugueses. Ele está para o regime republicano como o rei esteve durante muitos anos para a monarquia. Na verdade, na sui-generis configuração constitucional portuguesa, ele é o nosso rei em república. Por isso a sua dignidade deve ser preservada. O mesmo em relação ao acto eleitoral que o elege, não só por eleger quem elege, mas antes de tudo simplesmente por ser um acto eleitoral. É uma coisa séria e importante que, mais uma vez, deve estar a coberto deste tipo de utilizações.

2. Por isso, entende-se a reacção dos políticos e em primeiro lugar dos candidatos presidenciais, porque, como diz o povo “quem não se sente não é filho de boa gente”. Mas, aceitando-se essa reacção, estranha-se que ela nunca tenha surgido a propósito de outras apostas relacionadas com eleições ou outros temas igualmente polémicos. Nessa medida, a reacção da classe política a este caso, integra um mecanismo corporativo que não faz nada para prestigiar a função, algo que os candidatos – até pelo alto cargo a que se candidatam – deviam ter percebido e integrado nas suas declarações sobre a matéria.

3. Já não se entente muito bem, por revelar excesso de zelo, a reacção do porta-voz da Comissão Nacional de Eleições. Em primeiro lugar porque introduz uma nova cambiante jurídica – o “qualquer-coisa-mente ilegal -, em segundo lugar porque configura uma reacção do porta-voz de um órgão colegial antes da reunião do órgão que lhe dá voz, e em terceiro lugar, sobretudo, porque revela medo dos políticos. E isso é um mau indício.

4. Também se entende mal que a Betandwin tenha retirado o jogo de apostas assim que percebeu o que estava a acontecer. Porque, das duas uma: ou a empresa tinha noção do que estava a fazer, tanto do ponto de vista comercial como do ponto de vista jurídico, e nesse caso devia manter as apostas: ou fê-lo sem a noção clara daquilo em que estava “a mexer” e tentando apenas ganhar alguns cêntimos “à socapa”, na esperança de que ninguém desse por isso. Ao meter de imediato o “rabo entre as pernas” a empresa revelou a natureza sinuosa com que se move no mundo dos negócios e, mais uma vez, um receio da classe política que é tão mau indício como o anterior.

5. O problema das apostas online (que, recorde-se, se segue a uma polémica anterior sobre se a Betandwin pode ou não publicitar os seus jogos em território nacional) é apenas uma das milhentas manifestações da globalização e torna clara a crescente dificuldade dos estados em manterem o controlo das fronteiras nacionais na sociedade de informação globalizada. É altamente improvável que qualquer mecanismo legal português pudesse sancionar a empresa sediada na Áustria e seria grandemente exagerado recorrer aos canais diplomáticos para resolver uma questão deste calibre. Infelizmente, o recuo imediato da Betandwin transformou esta questão em mais um fait-divers eleitoral que será rapidamente esquecido. A questão que suscita, no entanto, veio para ficar e estou certo que mais cedo ou mais tarde, sob este ou outro pretexto, voltaremos a discuti-la. Mais valia que o tivéssemos feito já.

Citador

Do Mau Tempo no Canil, vale a pena transcrever este post sobre o debate:

«Não foi D. Afonso Henriques escolhido pessoalmente por Deus para o extraordinário desígnio da reconquista? Não foi este o país que deu mundos ao mundo? Não somos, pelo menos na pena do Padre António Vieira, os inventores do V Império? Não somos os sempre afortunados que gastaram a herança brasileira no palácio de Mafra? E não somos ainda os filhos de Salazar e das suas prometidas e vãs glórias ultramarinas? Não somos também os pontas de lança do marxismo e do capitalismo, ora hesitando entre cumprir o desígnio de ser Moscovo à beira-tejo ou, agora, o de ser a nova Califórnia da Europa? Infelizmente, somos também o país que perdeu o império, que recebeu os espanhois aliviado, fugiu dos franceses e foi ultimado pelos ingleses. Somos o país do ditador que quase morreu de velho e dos cravos que murcharam. Somos o país dos que esperam D. Sebastião. O Portugal bipolar que não quer, nem sabe, sair do seu labirinto da saudade.»

Chapeau!

A fuga ao fisco

São compreensíveis os receios relativos à possibilidade de o fisco aproveitar os mecanismos que lhe coloquem ao dispor para en trar em excesso de zelo. Mas o nosso problema não é o excesso de zelo da máquina fiscal; é a sua ineficácia. Por isso, preocupemo-nos com esse problema quando e se esse problema surgir. E preocupemo-nos hoje com o problema que manifestamente hoje temos: a fuga ao fisco (e não é problema de somenos; juntamente com a ineficácia da justiça é certamente um dos granes problemas nacionais). A defesa dos cidadãos e empresas face ao Estado é um imperativo em países onde o Estado é forte e os cidadãos são fracos. Mas em Portugal, hoje, o Estado é fraco, os cidadãos são ainda mais fracos e só as empresas são fortes. Por isso é à máquina do Estado que urge dar as condições para exercer as suas funções.

Responsabilidade na internet

Na sequência dos ataques recentemente movidos à Wikipedia, foi agora criado um site (www.wikipediaclassaction.com) especificamente destinado a recolher e dar seguimento judicial a queixas de particulares e empresas em relação a informações erradas ou difamatórias publicadas naquela enciclopédia aberta.

A defesa da Wikipedia é certamente uma causa nobre. Mas, como o site também releva, há demasiado material anónimo e inimputável na internet para que as coisas realmente boas que nela existem possam ter a credibilidade que merecem. Por isso, pedir mais responsabilização é defender a internet e os sites como a Wikipedia. Podemos escrever panfletos com aquilo que quisermos, mas sabemos que podemos ser resposabnilizados por isso. Nos posts, mensagens ou e-mails com que comunicamos na internet não deve ser diferente.

O momento do debate

O momento do debate, ainda não devidamente salientado:

Soares: “Quando eu era primeiro-ministro reuni com um grupo de economistas para perguntar se devíamos aderir à então C.E.E. E eles disseram-me que não. Mas nós decidimos aderir. Porque tínhamos essa visão estratégica para o país; achámos que devíamos virar-nos para a Europa depois do fim das colónias.” (citação aproximada)

As grandes decisões de política estratégica são influenciadas pela economia, mas não são determinadas pela economia. Muitas vezes, como se prova, podem até ser contrárias à economia. Um ministro das finanças tem que ser proficiente em economia; um primeiro-ministro deve ser profundamente sensível às questões económicas; mas um presidente da república tem sobretudo que ter uma visão estratégica para o país. Soares não mostrou nenhuma, mas com aquela frase pôs cada um dos candidatos no seu devido lugar. E isso é tudo o que pretende de momento.

Citador

Não é habitual neste blogue. Mas, por me parecer extraordinariamente perspicaz, reproduzo na íntegra este post do Jumento sobre as eleições presidenciais:

“QUERO UM DEMOCRATA SINCERO EM BELÉM

O que me faz desconfiar de Cavaco não é o facto de ser candidato da direita, é querer ser candidato da direita da esquerda, não é o que ele diz mas tudo quanto não diz, não é querer colocar o PSD no governo mas querer transformar o PSD num Partido Justicialista, à semelhança do mexicano, não é ele vestir na perfeição o fato de um presidente autoritário mas o facto de revelar falhas graves num discurso onde tropeça nos valores democráticos com excessiva frequência.
Fosse o candidato alguém como Sá Carneiro e muitas outras personalidades da direita e, face ao espectáculo triste que o PS decidiu proporcionar-nos, quase olharia estas presidenciais com alguma indiferença. Mas com Cavaco não, é necessário evitá-lo.
Alguém de direita afirma-se como sendo de direita, faz um discurso de direita e tem capacidade de se afastar de alguma direita, mas Cavaco porta-se nesta campanha como se não houvesse ideologias, como se fosse possível governar à margem de opções políticas, como se a política fosse um exercício desnecessário perante a certeza da sua competência. Se Cavaco não é herdeiro de Salazar, poderia ser muito bem o sucessor de Marcelo, pois recupera os valores do corporativismo, até na forma como marginaliza os partidos que o apoiam.
Cavaco promete o que não pode, com a situação económica da Europa nem ele nem ninguém conseguiria transformar Portugal na Andaluzia, quanto mais na Califórnia. Mas Cavaco sabe que tem um bode expiatório, afinal de contas quando a desilusão e a crise política se instalarem basta-lhe dizer que a culpa foi de José Sócrates, porque o presidente não governa.
Cavaco veio para terminar o seu projecto e só ele conhece os contornos desse projecto, até porque Cavaco nunca teve dimensão política para ter qualquer projecto. Cavaco até pode ser um democrata, embora nunca tenha dado muitos sinais nesse sentido, mas da forma como se apresenta esta sua candidatura oferece poucas garantias de respeitar os valores democráticos.
Não quero na Presidência da República alguém que me parece ser um democrata por conveniência. De direita ou de esquerda, gostaria de ver em Belém alguém cujas formação democrática não oferecesse tantas dúvidas como sucede com este Cavaco Silva.”

Lógica

Não de estranhar que Soares passe o tempo a falar de Cavaco e tentar provocá-lo: é o que lhe compete.

Não é de estranhar que Cavaco passe o tempo a tentar falar e polemizar o mínimo possível: é o que lhe compete.

Não é de estranhar que Alegre não tenha nada para dizer: é o que acontece a quem se candidata por razões pessoais.

Irracional brutalidade

O caso da bebé de Viseu agredida e violentada pelos próprios pais lembra-nos, na sua irracional brutalidade, que o ser humano está, ainda hoje, perigosamente próximo da mais abjecta animalidade. E demonstra-nos também que a vida em sociedade pode não ser capaz de identificar todos estes problemas antes de eles se consumarem desta forma.
Claro que haverá responsabilidades a apurar, nomeadamente por omissão. Um caso tão grave não pode deixar de ter responsáveis, provavelmente com diferentes graus de responsabilidade e a diferentes níveis. Mas pode ser redutor e simplista acusar as delegadas que deviam ter identificado os maus tratos e não o fizeram. Claramente elas deviam ter visto algo que não viram. Mas resta saber porque razão não viram (falta de formação?) e resta identificar todas as outras razões pelas quais um caso tão limite passou por todos os check-points que a sociedade tem sem que ninguém fizesse nada. Que grau de miséria humana pode engendrar tamanha violência? Quantas vezes quantas pessoas terão olhado para o lado? Quantas famílias haverá neste país (e neste mundo) em condições semelhantes? A animalidade está tão próxima da civilidade…

O racismo no futebol

O racismo no futebol é o racismo na sociedade, nem mais nem menos. E, como seria de esperar, é muitas vezes instigado – ou estimulado – pelos próprios intervenientes no jogo. Paolo Di Canio, jogador da Lazio, faz da saudação fascista o seu modo de relacionamento com a claque. Mesmo já multado pelo facto, repete a “graça” sempre que pode e transformou o gesto na sua “imagem de marca”. Uma parte da história pode ser acompanhada no blogue Megafone, sobretudo aqui e aqui.