“(…) várias ideias que Cavaco Silva materializou e que incluem: uma preocupação com a governabilidade do sistema político português, de que a procura de maiorias absolutas de um só partido e a tendência para a bipolarização são uma tendência, entre outras; uma ideia sobre a indispensabilidade de cada vez maior integração na União Europeia como instrumento exógeno de pressão para mudanças endógenas; uma governação liberal para a sociedade e keynesiana para o Estado (não, não é contraditório); uma afirmação obsessiva da autonomia do Estado face aos interesses; racionalização “modernizadora” do Estado; utilização dos fundos comunitários com obras estruturais. Foram estas políticas (…) que materializaram uma política de centro entre a esquerda e a direita moderadas. Na realidade, o cavaquismo é o mais próximo do programa social-democrata “à portuguesa” definido por Sá Carneiro. Agora que o cavaquismo se tornou um anátema [nota: este texto foi escrito na sequência do caso do cartaz, em Março de 2005], aqui está o que dele pode ser útil para o futuro.”
José Pacheco Pereira, no Público, em 3/3/2005
Citado em “A agenda de Cavaco Silva”, de Vitor Gonçalves, pp 142/143.
Destaques meus.

Três notas apenas:
1. O “entre outras” do período inicial é significativo, indiciando que existem outras tendências (para além da bipolarização e da procura de maiorias absolutas) que vão no sentido de melhorar a governabilidade do sistema político. Que tendências? A presidencialização?…

2. Este programa político “pode ser útil para o futuro” de que forma? Incoporando-se num projecto de presidencialização do regime? Incorporando-se num programa de um partido existente? De um novo partido? A pergunta merece resposta porque, na realidade – e sem ironias – aquele programa político, assim expresso, é um excelente programa político. E era uma pena que morresse orfão.

3. Como é que se cria uma nova força política? À pressa e sem preparação, como no Eanismo, ou lenta e pacientemente, alimentado carinhosamente uma ideia antes de ela ter materialização prática? No centro do espectro político, como PP o coloca, e herdeiro da “social-democracia à portuguesa” de Sá Carneiro, o cavaquismo é o futuro do PSD e experimenta a vertigem de ocupar aquele espaço político que desde o Eanismo é uma tentação: o centro. É bem possível que Cavaco ganhe as eleições com um programa social-democrata e depois se reclame dessa vitória para moldar o PSD à sua imagem e semelhança (barões não lhe faltam), separando-o do PPD e inaugurando o espectro político a cinco vozes.

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