Sócrates versus Cavaco

O verdadeiro combate político que neste momento se desenrola, aquele que realmente importa, é o que opõe Sócrates e Cavco.

José Sócrates ganhou a maioria absoluta nas últimas eleições legislativas sem saber como. A maioria caiu-lhe no colo como uma dádiva divina (bem, na realidade era uma dádiva “santanista”…). De então para cá, beneficiou da “pedagogia das dificuldades” que Durão iniciou (via Ferreira Leite), Santana tentou intervalar, mas todos os economistas trataram de continuar até aos nossos dias. E se 99% dos especialistas dizem que Portugal está à beira do precipício, o povo português acredita. Por isso, apesar de na realidade ainda nada ter feito senão anunciar feitos e apesar da hecatombe eleitoral autárquica, José Sócrates (ao contrário de Peseiro…) ainda tem crédito. Mais: com maioria absoluta, com a “pedagogia das dificuldades” solidamente interiorizada pelos portugueses e com um calendário autárquico que lhe permitirá “respirar” durante três anos, José Sócrates tem uma oportunidade única de fazer o que tem que ser feito para “endireitar” o país. Isso exigirá coragem perante a opinião pública e perante as corporações (que ele já provou ter), e perante o partido (ainda não…). O próximo Orçamento de Estado será, como é óbvio, uma peça fulcral para percebermos se Sócrates tem ou não essas coragens.

Mas esta oportunidade, para além de única, pode também ser a última. Sobre a cabeça de Sócrates pende uma espada de Damócles, segurada por Cavaco. O clima está a ser criado (se não está já instituído), para o Presidente assumir as rédeas do país em caso de mais um falhanço dos governantes emanados do quadro político actual e do parlamento. É essa a responsabilidade de Sócrates. Se Cavaco for eleito (como espera e esperam todos os seus apoiantes, ou seja, aqueles que são contra o sistema partidário), vai estar à espera das escorregadelas de Sócrates para lhe tomar o poder. Quanto maior a escorregadela, maior o quinhão de poder informal (e a prazo talvez até formal) que Cavaco tomará. Se Sócrates apresentar um orçamento aquém da unanimidade essa será a primeira e provavelmente mais importnate das suas “escorregadelas”.

Mas se Sócrates apresentar um orçamento que mereça aplausos de generalidade dos especialistas, os portugueses estarão dispostos a renovar-llhe o crédito. E, ao fazê-lo, estarão também a renovar o crédito no sistema partidário e parlamentar. Ou seja, nessas circunstâncias, a própria eleição de Cavaco (cujo único elemento federador é o anti-partidarismo) estará em causa. Por isso, o Orçamento que Sócrates vai apresentar na segunda-feira é, de certa forma, decisivo não só para o próprio Sócrates, como também para Soares e, até, para o parlamentarismo e o sistema partidário. Esse será o primeiro episódio de vários no combate político que, se mesmo assim Cavaco for eleito, o irá opor a Sócrates nos anos mais próximos. É por isso que esse é o combate decisivo nos dias que correm.

Apenas duas notas adicionais:
1. Se Soares for eleito, Sócrates terá um problema diferente, mas não menor, na presidência. O sistema, esse, não estará em risco, muito pelo contrário. Se Cavaco for eleito, as reformas que Sócrates tem que fazer serão mais fáceis, mas as consequências do seu falhanço serão gravosas para o seu futuro político. Se Soares for eleito, as reformas necessárias serão muito mais difíceis, as consequências políticas para Sócrates de um falhanço serão inócuas e as consequências para o país serão dramáticas.
2. O PSD está a ser ingénuo ao apoiar Cavaco nas presidenciais. Cavaco é contra todos os partidos incluindo o próprio PSD. Já o demonstrou exaustivamente na prática e isso depreende-se com a maior facilidade do quadro político em que se candidata, ou seja, contra os partidos. É isso que lhe pode dar a vitória e, se for inteligente (não duvido…), fará disso o tema central (preferencialmente em surdina) da sua campanha. Depois de eleito, Cavaco será tudo menos um presidente do PSD e tratará o PSD com o mesmo desprezo que com trata os restantes partidos.

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