Uma novela com final infeliz

Esta história (citada pelo Comunicar a Direito) merece ser contada em detalhe:

1. Ferreira Fernandes assina no Record uma crónica, irónica, como sempre, sobre a viagem de Luis Filipe Vieira a Cabo Verde:
“LFV telefona à mulher: “Cabo Verde deu-me a volta à cabeça!” Um homem parte para umas ilhas tropicais, deixa a mulher em casa e telefona-lhe: “Não posso abandonar esta gente!” Que pensa a mulher? Que ele a vai deixar, que o maganão até já tem uma caterva de bastardos, que há que contratar advogados…Mas LFV explica-se. Que vai continuar a ser presidente do Benfica porque a euforia popular dos cabo-verdianos o convenceu do destino. E que pensa a mulher, ela, que até queria que ele largasse os futebóis? Suspira de alívio. LFV é um ganda psicólogo.”

2. LFV escreve uma longa carta ao jornal, misturando queixas pessoais (relativas à sua pessoa e à mulher), insitucionais (relativas ao Benfica) e até internacionais (relativas ao prestígio de Cabo Verde). Destaco as seguintes passagens:
“Venho pela presente expressar de forma sucinta os meus sentimentos quanto a uma coluna publicada na edição da passada segunda-feira no V/ jornal(…). Julgo, também, expressar os sentimentos de uma larguíssima maioria de Sócios e Simpatizantes do Sport Lisboa e Benfica(…).
Cheguei esta madrugada de Cabo Verde onde estive durante três dias a convite de entidades oficiais (…). Merecem-me, pois, povo de Cabo Verde e seus dirigentes a maior das considerações. (…) tenho perfeita consciência que o acolhimento que tive não foi dado ao Luís Filipe Vieira. Foi dado ao Presidente do Benfica (…). Não é, pois, de ofensas pessoais a razão da minha mágoa. Não o é porque (…) só me ofende quem eu quero. (…) A razão da minha mágoa (…) é o insulto feito ao povo de Cabo Verde na referida coluna. Diz-se, a determinada altura (…) que “? que o maganão até já tem uma caterva de bastardos?”, numa alusão a um possível pensamento que teria ocorrido a minha mulher quando lhe telefonei daquelas Ilhas a comunicar que o meu sentimento de Benfiquista é cada vez mais profundo e que a minha gratidão pelos momentos de felicidade que o Benfica me está a permitir viver é infinda. Não é, volto a dizer, o gracejo com a minha mulher – injustificadamente – metida ao barulho que me ofende. (…) Não posso, contudo, aceitar que uma “embaixada” de Portugal seja recebida pelo Povo e autoridades de Cabo Verde como foi a pequena delegação do Benfica que liderei e que um qualquer cronista com pose de engraçadinho ofenda aquelas gentes (…). Dizer que fui a Cabo Verde e que lá tenho uma caterva de bastardos é ofender a dignidade das mulheres cabo-verdianas e todo o Povo daquele país. (…) só me faz pensar que alguns portugueses ainda não ultrapassaram tentações coloniais a roçar o racismo mais primário.”

3. Ferreira Fernandes, contrariado, responde a LFV:
“(…) Na crónica “Passe Curto” que assino diariamente no Record (…) pretendo escrever com ironia. Mas, admito, esta corre sempre o risco de não ser entendida. Se eu tenho de explicar o meu “Passe Curto” de segunda-feira passada, e parece que tenho, eu explico: admiro como Luís Filipe Vieira descalçou a bota de ter ameaçado deixar a presidência do Benfica se não tiver os 300 mil sócios, aproveitando a emocionante recepção que teve em Cabo Verde. A sério que admiro, é de mestre, inclusivamente ao dar o toque pessoal invocando o telefonema que fez à sua mulher. É a explicação que tenho para dar.(…)”

4. O director do jornal, Alexandre Pais, pede desculpa a Luis Filipe Vieira:
“O ilustre presidente do Benfica leu na diagonal uma crónica de Ferreira Fernandes e não captou o tom irónico que é próprio dos textos do nosso colaborador. (…)Mas as “ofensas pessoais” a que se reporta o líder encarnado são dores que o director de Record deve tomar para si. (…) gostaria que não ficassem dúvidas de que a direcção de Record, assegurando sempre a liberdade de expressão a todos os seus jornalistas e colaboradores, jamais toleraria, viesse de quem viesse, uma atitude dessas. (…) é o ofendido – real ou supostamente, com intenção ou sem ela – e apenas ele, quem sabe se se sente ou não magoado. Luís Filipe Vieira acha que sim, pelo que mais não me cabe, em nome do jornal que me orgulho de dirigir, do que lhe apresentar o pedido de desculpas.”

5. Ferreira Fernandes, obviamente, demite-se. O que é um final infeliz para quem gosta de ler bons textos.

MORAL DA HISTÓRIA: Podemos esperar do Record ou dos seus jornalistas que publiquem o que quer que seja sem atender ao que o presidente de um clube vai achar disso? Alguém de bom senso pode continuar a comprar aquele jornal para ler “notícias”? Se é para entreter, para quê trabalharem lá jornalistas?

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As pessoas têm de ser exigentes. A cultura da irresponsabilidade tem de acabar porque só há cuidado quando há responsabilidade. A sociedade é o grande motor da mudança.
José Pires, membro da direcção do Observatório de Segurança das Estradas e Cidades, a propósito da queixa apresentada na PGR na sequência do estudo que detectou no IP4 e no Eixo Norte-Sul curvas perigosas (e mortais) que não respeitam a lei nesta matéria.

Ética e política

A polémica que se gerou no Reino Unido a propósito da criação de um Bilhete de Identidade nacional serve de exemplo para relativizar a discussão das matérias políticas. Todas as matérias políticas. Para um britânico dificilmente existirá uma matéria mais eminentemente política do que esta, pelas questões que levanta em termos de liberdades cívicas. Aliás, se os britânicos fossem portugueses decerto já estariam a pedir um referendo sobre a matéria. No entanto, para os portugueses, semelhante discussão parece no mínimo esotérica e no máximo inócua. Qualquer um de nós concorda que há matérias mais importantes para debater e questões mais substancias para separar politicamente as pessoas.
Ou seja: em qualquer comunidade social politicamente organizada (e não as há não politicamente organizadas) as matérias de debate político, ao contrário da moral, são relativas. A moral não tem quaquer relativismo; move-se no âmbito da filosofia e portanto é semelhante em qualquer homem que possua um intelecto. Mas, embora seja uma das fontes da nossa organização política (uma das principais), a moral não pode ser confundida com ela. A forma como nos organizamos politicamente é alimentada pelos valores éticos que partilhamos e tende para um estado de respeito absoluto pelos mesmos. Mas, por mais que concordemos nos valores éticos, iremos sempre discordar na forma de os manifestar politicamente (na forma como fazemos as nossas instituições políticas respeitá-los e na forma como pomos a nossa acção colectiva ao seu serviço).
Os valores éticos de um britânico não são diferentes dos de um português (pelo menos se ambos os definirem segundo a “moral vazia” de Kant). Mas a forma de os materializar politicamente em leis é bastante diversa. Concretizando: ambos partilham a o valor ético de que o Estado não deve subjugar o indivíduo. Mas para um português a existência de um cartão de identidade não ameaça isso e para um britânico sim. É por isso que a questão não se coloca em Portugal e é profundamente polémica no Reino Unido.
Claro que esta distinção entre valores éticos e organização política se pode aplicar a praticamente todas as linhas de discussão no seio de uma comunidade organizada, justamente porque a ética está sempre a enformar a política e a política está sempre a tender para a ética. Um exemplo: a questão do aborto. Qualquer espírito racional adopta como valor ético o respeito pela vida humana. Mas a forma de pôr em lei esse valor no caso de uma mulher grávida depende do nosso entendimento do que é “vida humana” e isso é politicamente determinado. Ou seja, são os princípios políticos pelos quais cada um de nós se norteia que determinam a nossa posição nesta matéria. Daí a polémica (que curiosamente quase não existe no Reino Unido) e daí o referendo.

Xerxes na Jukebox

Inauguro a Jokebox deste blogue com Xerxes, o “nome artístico” de um produtor norueguês chamado Klaus Lunde cuja música merece ser divulgada. Está em fundo para que se possa apreciar. Quem quiser saber (um pouco) mais sobre o artista deve ir aqui e aqui. Quem quiser fazer o download da sua música pode dirigir-se aqui. Quem souber mais do que aqui está faça favor de me dizer que eu também gostava de saber. Nesta Jukebox vão tocar alternadamente novos sons pouco divulgados (ou de todo não editados, como é o caso) e sons de referência da minha biblioteca musical. Cumprindo uma missão de serviço público, começamos com os primeiros.


A Terra vista do céu deixou de ser um privilégio dos astronautas e dos técnicos da NASA. A versão beta do Google Earth pode ser descarregada gratuitamente aqui para nos permitir “viajar” sem levantar os pés do chão. Mais uma bela surpresa da Google.

(via Comsenso)
O discurso de Blair ao parlamento europeu deve ser lido com atenção. Embora ainda demasiado “preso” às questões económicas, aquele que é talvez o mais “político” dos actuais lideres europeus intui que o futuro, a existir, passa pela política, não pela economia. Destaco as seguintes passagens:

In every crisis there is an opportunity. There is one here for Europe now, if we have the courage to take it.

The issue is not between a “free market” Europe and a social Europe, between those who want to retreat to a common market and those who believe in Europe as a political project.

I am a passionate pro-European. I always have been.

I believe in Europe as a political project. I believe in Europe with a strong and caring social dimension. I would never accept a Europe that was simply an economic market.

If so, it is not a crisis of political institutions, it is a crisis of political leadership. People in Europe are posing hard questions to us.

It is time to give ourselves a reality check. To receive the wake-up call. The people are blowing the trumpets round the city walls. Are we listening? Have we the political will to go out and meet them so that they regard our leadership as part of the solution not the problem?

Don’t let us kid ourselves that this debate is unnecessary; that if only we assume “business as usual”, people will sooner or later relent and acquiesce in Europe as it is, not as they want it to be. In my time as prime minister, I have found that the hard part is not taking the decision, it is spotting when it has to be taken. This is such a moment of decision for Europe.

The people of Europe are speaking to us. They are posing the questions. They are wanting our leadership. It is time we gave it to them.”

Revolução no Barnabé

Estão agitadas as águas no Barnabé que, de blogue de referência da esquerda redical, ameaça tornar-se num blogue de direita moderada com a saída dos fundadores Daniel Oliveira e Rui Tavares.

À parte os restantes afazeres e projectadas intenções de ambos (que é algo que só aos próprios diz respeito) lamento perder a crítica acutilante de ambos (não conheço muitos bloggers pelo nome e estes são certamente dois deles), mas tenho esperança de a reencontrar brevemente noutro lugar.

Mas há duas observações que gostaria de fazer neste momento a propósito deste PREC:
1. É deprimente que menos de uma mão-cheia de intelectuais brilhantes cheios de indomável espírito crítico não consiga conviver numa mesma plataforma de exercício livre de opinião. É deprimente que o tamanho dos seus egos os obrigue a acotovelarem-se no espaço limitado de um blogue ao ponto de um ou dois deles terem que sair. Porque a verdade é que nenhum sai por causa das ideias (suas ou dos outros), mas por causa da reacções (as suas) às ideias próprias e dos outros. E isso é uma pura manifestação do ego.

2. O Barnabé, como outro blogues, sempre pautou a sua “acção” pela falta de respeito por aqueles que eram objecto de crítica, em nome da liberdade e acutilância dessa critíca e em nome do desejo de provocar polémica, mesmo quando os criticados eram os próprio co-bloggers. Verdade seja dita, isso mesmo está inscrito no código genético do blogue. Mas, visitando o Barnabé (como outros blogues que com ele polemizaram), perguntei-me frequentemente por onde andaria a “geração rasca” que há uns anos tinha mostrado os seus universitários rabos à ministra da educação. Pois bem, pelos vistos ela anda a blogar. O resultado está aqui à vista. Vários anos depois, a “geração rasca” não é capaz de exercer uma discussão intelectualmente séria e livre sem se ofender pelo meio, o que também é genético. Quando isso acontece no “espaço” fechado de um blogue, naturalmente alguém tem que sair. Foi o que aconteceu. Mas convém nesta hora recordar que a discussão séria, livre, polémica e em respeito pela opiniões alheias é possível.

A luta continua

Noticiado pelo Corriere della Sera, o relatório de 2005 do Nessuno Tocchi Caino (Hands Off Cain) conta 138 países que deixaram se aplicar a pena de morte. Os que a praticam são ainda 58, contra 61 em 2003 e 64 em 2002.

Não há coisa que melhor nos dê a imagem do progresso civilizacional do que o número de países que optam por, na lei ou na prática, abolir a pena de morte. Felizmente, o número de países que a utilizam tem vindo a diminiur. Infelizmente ainda não acabou. A luta continua.

Há vários confrontos em curso a propósito das próximas eleições autárquicas:

1. O confronto Carrilho-Carmona é o confronto entre o técnico o político. Para uma câmara municipal, mesmo que seja Lisboa, este combate pode vir provar que o político está grandemente sobrevalorizado em relação ao técnico. Pode ser que as pessoas continuem a preferir um presidente competente. Tanto mais que Carrilho devia cavalgar uma onda rosa (minimizada pelo molhe do défice e respectiva cura, mas ainda uma onda). E tanto mais que Carmona podia surgir como o sucedâneo das trapalhadas santanistas.

2. O confronto Carrilho-PS está ao rubro e ameaça o resultado final. Os cartazes de Carrilho parecem os de um independente (com um logozinho discreto do PS no canto superior direito) e por isso o PS de Lisboa responde com outdoors em que o candidato não existe e até a rosa aparece secundada em relação ao punho que já se julgava politicamente extinto. Mas a verdade é que, como estão as coisas estão, Carrilho precisa que o PS lhe cole cartazes e lhe encha comícios e o PS precisa que Carrilho fale para fora e não amue.

3. O confronto Sócrates-PS está em banho-maria até à noite das eleições. Até ao momento, o primeiro-ministro nada fez para “salvar” os autarcas e candidatos autárquicos do seu partido. E com isso demonstrou coragem e subiu mais uns pontos na consideração que merece. Resta saber, primeiro, se consegue manter essa postura até depois das eleições e resistir às pressões do partido. E, segundo, se continua inacessível às fisgadas que lhe vão querer mandar depois em caso de derrota.

Depois de um empresário norte-americano de football ter comprado uma equipa europeia de soccer, chega-me via 5 violinos a notícia de que o Liverpool vaqi defrontar o Total Network Solutions FC na primeira ronda de pré-qualificações para a Liga dos Campeões. Isso mesmo: Total Network Solutions FC é o nome da equipa. A história toda está aqui. Não tarda nada temos o Real Madrid a disputar a final da Liga dos Campeões contra a Microsoft Sports Activities… Acabo por isso a dar razão a Joel Neto a à sua crónica na última Grande Reportagem (sem link): as pessoas só vão perceber que existe um problema quando, em plena guerra Adidas-Nike, uma jornada da Campions League não se disputar por… faltarem as chuteiras. É que, convém recordar, em tempos a F1 também foi um desporto…