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João Marcelino, director do Record

“O Correio da Manhã é o título que faz o melhor jornalismo em Portugal.”

“Não queremos ser um jornal de referência, mas sim de preferência.”

“Nós não podemos ser um desses jornais ‘ditos de referência’, porque esse é o tipo de jornal mais fácil de fazer. Eu fá-lo-ia muito facilmente e provavelmente até venderia mais.”

in Meios & Publicidade, 27 Maio 2005

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Sócrates vs. Défice

As medidas apresentadas por José Sócrates para combater o défice no curto prazo e lançar as bases de uma política que o corrija no médio prazo suscitam várias reflexões:

1. Ao contrário do que seria de supor num conjunto de medidas tão decisivo e potencialmente divisor, vi mais economistas a elogiarem do que a criticarem. É verdade que muitos disseram “sim, mas“. Mas a verdade às vezes esquecida é que “sim, mas” também é “sim“…

2. Tal como seria de supor vi vários parceiros sociais – sobretudo os ligados aos sindicatos – a reagirem negativamente às medidas anunciadas. E isso é bom. Porque não há qualquer medida efectiva de correcção do défice que não afecte alguns ou vários sectores da sociedade. Que eles reajam é um indício claro de que as medidas anunciadas podem de facto ter os efeitos pretendidos;

3. O enunciado de medidas de José Sócrates tem ainda, à boa maneira socialista, mais palavras do que decisões. O anunciado aumento de impostos terá reflexos no curto prazo (sendo que também pode “arrefecer” ainda mais a economia) mas apenas no plano da receita. A maior parte dos enunciados relativos ao corte de despesa – que, como todos os economistas reafirmam, é o que verdadeiramente importa – correspondem tão só a palavras (com excepção da questão das reformas). E as palavras, como se sabe, leva-as o vento. Este enunciado de medidas abre portanto uma janela de esperança nesse sentido, mas não convence totalmente da capacidade de Sócrates para levar o combate ao défice para o “nível” seguinte;

4. Sócrates teve coragem para se desdizer na questão da subida de impostos, e isso, ao contrário do que pensa a maior parte dos jornalistas, é um facto a elogiar e não a censurar. É fácil justificar essa mudança perante a opinião pública com o montante do défice (alegando, mesmo de forma “forçada”, que o seu montante não era inteiramente conhecido) e assim aproveitar um mecanismo capaz de gerar resultados a curto prazo. Não o aproveitar por causa de declarações proferidas em campanha eleitoral, isso sim seria um “crime” de lesa-pátria que dificilmente se aceitaria;

5. As Scuts ficaram de fora das medidas anunciadas pelo Governo por razões puramente políticas, uma vez que toda a gente percebe que não há qualquer justificação económica que as sustente, sobretudo num quadro orçamental como aquele que vivemos. E essas razões políticas não se prendem, sequer, sobretudo, com a necessidade de manter uma promessa eleitoral tão repetida. Se fosse isso, Sócrates até poderia – e deveria – desdizer-se. As Scuts foram mantidas à margem das medidas de controle orçamental de forma a controlar os danos gerados por esse conjunto de medidas na opinião pública e para não criar focos de contestação regional a pouco tempo das eleições autárquicas. Se for inteligente, Sócrates encomenda um estudo “independente” (na verdade nem precisaria de aspas pois qualquer estudo lhe daria os mesmos resultados) que lhe dê argumentos para, senão acabar com as Scuts, pelo menos “inventar” uma forma de as tornar menos onerosas, logo após as autárquicas;

6. A melhor prova de que estas medidas vão no sentido certo é o facto de o próprio PSD e Marques Mendes terem reagido com um “sim, mas” próprio de quem sabe que não tem muito por onde pegar. O “mas” do PSD é precisamente aquele que deveria ser: a falta de coragem política para mexer nas Scuts. Mas, no resto, o PSD sabe que o caminho anunciado é o correcto. E por isso – o elogio é merecido – fica-lhe bem e revela sentido de estado responder “sim, mas” às medidas agora anunciadas pelo Governo;

7. E, por fim, o mais importante. O problema é o mesmo (e está pior), mas esta é uma maneira bastante diferente de o enfrentar daquela que foi protagonizada por Manuela Ferreira Leite e Durão Barroso (já nem sequer se fala de Santana e Bagão…). É verdade que um acréscimo de IVA é uma receita tão extraordinária como as extraordinárias receitas de Ferreira Leite. Mas neste conjunto de medidas não há só medidas-travão, há também medidas-acelerador e várias promessas de reais medidas de fundo. Se estas vão ou não ser cumpridas só o saberemos mais para a frente. Mas, para já, esta parece ser uma maneira mais construtiva de enfrentar o problema. Por isso, ao contrário do que já vi escrito algures, não me parece que aqui tenha acabado o estado de graças de Sócrates. O que me parece, isso sim, é que, contra todas as expectativas e previsões, Sócrates conseguiu apresentar um completo pacote de contenção orçamental sem afectar significativamente a sua imagem e a do seu governo junto da opinião pública. E isso é um resultado político admirável.

A blogosfera e a imprensa desportiva

O balanço da Superliga feito pelo Terceiro Anel corresponde mais ou menos a uma das coisas que eu acho que os jornais diários desportivos deviam fazer e não fazem, ocupados com ninharias e “informação” popular. Normalmente consultava um ou outro site dos diários desportivos para saber as novidades da “bola”, mas de há alguns meses para cá só vou ao Terceiro Anel, onde encontro as informações que realmente importam, as crónicas de jogos que conseguem ver a realidade sem o prisma deformador da clubite (ou das audiências) e as análises que, como esta, realmente vão ao fundo das questões.
Não conheço os autores do blogue e reconheço que posso estar equivocado quanto à solidez profissional e deontológica da sua proposta informativa. Mas, como consumidor de notícias – de todas as notícias, incluindo desportivas – encontro ali mais qualidade e profundidade que nos jornais em papel. Na verdade, parece-me que o Terceiro Anel preenche um espaço que se encontra desocupado, seja por inépcia ou distração, seja por desinteresse comercial dos grandes jornais. E que um blogue seja alternativo ou concorrente dos jornais (e não apenas complementar) é ao mesmo tempo o melhor elogio ao blogue e a maior crítica aos jornais.

Fico a saber pelo Abnegado que a Piaggio criou, nos EUA, um blogue sobre estilos de vida associados ao produto que será escrito pelos seus proprietários. Os autores do blogue não serão pagos, mas terão acesso a material promocional da marca assim como aos eventos por ela organizados.
A ideia é interessante e consigo imaginar numerosos usos na Europa para uma miríade de produtos de todo o tipo. Mas demonstra que a realidade dos blogues está ainda em integração na sociedade. Neste caso em integração com o mundo dos negócios. Como facilmente se compreende isto é a blogosfera a ser “domesticada”.

No extremo oposto, o Abnegado também cita um blogue que reúne tudo o que seja pouco abonatório para a Starbucks, apresentando como lema “monitoring America’s favorite drug dealer“. Mais vale um blogue destes do que dez dos outros, mas suspeito que nos anos mais próximos veremos nascer dez dos outros por cada um destes.

Passe curto

Para provar que as boas crónicas não se medem aos palmos, três exemplos do que escreve Ferreira Fernandes no Record todos os dias.

Depois de uma vida de aventura, Buffalo Bill montou um circo. Ele que cavalgou ‘mustangs’ do Pony Express, conduziu diligências no Oeste, lutou contra índios, ele, que fez coisas boas e más, mas autênticas, armado em fiteiro! No circo, até a Rainha Victoria o aplaudiu, mas que decadência!
Bufallo Bill tinha uma desculpa: a vida de aventura não lhe dera dinheiro. Mas custa ver heróis acabar assim. É por isso que eu suspiro de alívio ao saber que o Urawa Reds Diamonds, um circo japonês, que passa por ser clube de futebol, não pensa contratar Figo.”
Sexta-Feira, 13 de Maio

“Talvez um duelo, no próximo sábado. O encontro de dois jogadores fundamentais. O retomar dos embates épicos do futebol: Vicente contra Pelé, Eusébio contra Bobby Moore, Cruyff contra Passarella… E, porque se trata de um Benfica-Sporting, lembro Humberto Coelho contra Jordão!
Na Luz, o duelo vai repetir-se. Um, lutando vigorosamente para que as avançadas do Benfica surtam efeito. O outro, colocando todo o seu talento para que a defesa do Sporting seja muro inviolado. Nem durmo, esperando o duelo de sábado: Hugo, pelo Benfica, Karadas, pelo Sporting!”
Quarta-Feira, 11 de Maio

“Então, Deus pensou fazer Liedson. No primeiro dia, caprichou: fez-lhe um pé direito celestial. No segundo dia, já não foi tão perfeito mas ainda fez um maravilhoso pé esquerdo, quem dera muitos dextros tê-lo assim. O terceiro dia Deus dedicou-o às duas pernas, fê-las para arranques irresistíveis.
No quarto dia, Deus atirou-se à bacia, permitindo-lhe rotações quase impossíveis. Subindo sempre, no quinto dia, Deus ocupou-se dos pulmões, pujantes. Antes de chegar à cabeça, o sexto dia foi todo para um dedicado coração. Ao sétimo dia, Deus descansou.”
Terca-Feira, 10 de Maio de 2005

“Lembro-me da velha frase: “uuu bdc UUU!”. No dias de hoje é uma frase que se entende mal. E não se entende mal só porque tem de ser decifrada e lida com a pronúncia da minha terra (angolana): “Os piqueno bedece os gránde!”
Quer dizer, “os pequenos obedecem aos grandes!”. Isto entende-se mal sobretudo por outra razão: é porque é uma frase muito, muito antiga.
Do tempo em que o Benfica não perdia tão naturalmente com o Penafiel nem o Porto empatava tão naturalmente com o Moreirense. Hoje, uma frase moderna seria assim: “UUU?!!!” Sim, o que é isso?”
Segunda-Feira, 9 de Maio

Dizer que o facto de haver um período de tempo demasiado longo entre as eleições e a tomada de posse de um novo governo é um convite às decisões ilegitimas de última hora do governo cessante é o mesmo que dizer que a ocasião faz o ladrão. Não faz. O roubo é que faz o ladrão. A ocasião não tem nada que ver com isso.
Por toda uma série de razões, uma maior rapidez na tomada de posse de um novo governo era de todo recomendável para o nosso sistema político. Mas essa razão não é uma delas. Não pode ser.

O financiamento dos partidos

Toda a gente afirma sem problemas que os partidos vivem acima das suas posses e recolhem fundos para as campanhas de formas senão ilícitas, pelo menos dúbias. Ricardo Costa, da SIC Notícias afirmou (eu vi) que PS, PSD e PP, nenhum deles respeitava as limitações impostas ao financiamento partidário e estava pronto a afirmá-lo em qualquer barra de tribunal.
Mas, se assim é, quem bloqueia a mudança? Os próprios partidos? E será que não há quem nos partidos tenha a visão suficiente para perceber que esta é a hora de dar o passo em frente na credibilização do sistema partidário? Os partidos políticos já são hoje farrapos de credibilidade. Mas ficarão tanto mais “irrecuperáves” quanto mais for o tempo que passe sem que sejam capazes de se pôr a si próprios no banco dos réus pelos financiamentos ilegitimos do passado e de legislar no sentido de isso não voltar a acontecer no futuro.

Paulo Portas precisa de tempo?

Paulo Portas precisa de tempo para formar uma opinião sobre o caso?

Este não é certamente o Portas que nós conhecemos. O Portas que nós conhecemos normalmente tinha opinião formada sobre os eventos muito antes de estes acontecerem…

Pode haver duas explicações para esta cautela. Ou o fumo traz fogo e os PP (os dois…) podem ser envolvidos (afinal já há muito tempo que se está à espera que estoure a bomba dos financiamentos partidários); ou então Portas já percebeu que, como sempre reclamou no caso Moderna, está a ser alvo de uma perseguição política (pessoal ou partidária?) de dimensões e perseverança tais que impõem o recato de uma estratégia de defesa bem ponderada.

Através do ContraFactos & Argumentos, descobri esta pequena história da blogosfera portuguesa, bem apresenteda, concisa e eficazmente linkada. Tinha ideia de que tinha chegado há pouco, mas percebo que já passaram pelos meus olhos a maior parte dos momentos considerados marcantes. Mesmo assim não passou mais de meia dúzia de anos. Ou seja, tudo está a andar muito depressa. E cada vez mais depressa. Isso tem que ser tido em conta em todas as análises. E haverá muitas a fazer. Em contínuo porque a acção está decorrer.
Citada pelo Aviz, Million Dollar Kiss diz que os blogues “não são um ‘fenômeno’, seria como chamar o celular de ‘fenômeno’. É apenas tecnologia” O que verdadeiramente importa é o que está por detrás deles.

A revolta dos dinossauros

É uma profunda desilusão que a possibilidade de candidaturas independentes às autarquias esteja apenas a gerar efeitos contrários aos pretendidos.
Se o que se pretendia com essa reforma era aproximar o poder dos cidadãos, o seu resultado ameaça converter-se numa fragilização dos partidos, não para trazer para fora deles aquilo que eles têm de melhor, mas aquilo que eles têm de pior. Tendo como pano de fundo a limitação de mandatos que está no horizonte, Valentim Loureiro, Isaltino Morais e Alfredo Barroso (provando que este não é um problema de um partido) podem nesta eleição abrir o caminho a uma vaga de candidaturas autárquicas à revelia dos partidos. Se ganharem provam que o problema não está nos partidos: está nos eleitores. E demonstram que por isso mesmo não basta uma boa lei para se obter uma boa cidadania. Funciona precisamente em contrário e tem ainda um corolário lógico: se não houver uma boa cidadania é indiferente que haja boas leis.

P.S. (iniciais de post scriptum…)
Quem a esta hora deve estar a meditar nisto tudo é PSL, que provavelmente nem se lembrou desta possibilidade.