O barnabé é frequentemente superficial e algumas vezes gratuitamente agressivo, mas gostaria de elogiar este post de Rui Tavares a propósito da tragédia no sudeste asiático. Às vezes a única forma de lidarmos com uma tragédia desta dimensão é reflectir sobre ela em termos absolutos. E a reflexão só nos pode levar à perplexidade.

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Vinicius 90 anos

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito

Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história…

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo

Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante

Sem saber que é a minha mais nova namorada.

A voz de Vinicius de Moraes no CD comemorativo Vinicius 90 anos

Não encontrei um link para a mais recente crónica de Manuel António Pina na Visão, mas porque a acho particularmente desgostosa e acertada, não resisto a reproduzi-la na íntegra. À atenção de Vasco Pulido Valente, cujo nihilismo lusitano Manuel António Pina aqui partilha:

«Não é novidade para ninguém que o sistema representativo, principalmente por culpa da maior parte dos políticos (e das políticas) que temos tido em 30 anos de democracia, foi progressivamente perdendo a confiança dos cidadãos. A situação não é muito diferente em outras democracias, onde é cada vez maior o divórcio entre cidadãos e profissionais da política, mas onde, apesar de tudo, existe um património democrático mais ou menos antigo, que vai constituindo uma espécie de almofada ideológica, capaz de amortecer os efeitos devastadores da frustração das esperanças colectivas. Mas a nossa democracia é recente, caiu do céu aos trambolhões por acção de um grupo de militares que não faziam a mínima ideia da caixa de Pandora que abriam. Os mais ingénuos foram trucidados logo no dia seguinte e os restantes, mesmo os que revelaram insuspeitadas capacidades de adaptação, acabaram consumados no fogo dos acontecimentos até saírem de palco transformados, como Conh-Bendit disse, em “cornudos da história” ou feitos patéticas figuras de museu. A lição é de Carlyle (só que os militares não são habitualmente gente muito dada a leituras): “As revolução são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, mas quem delas se aproveita são sempre os oportunista de todas as espécies”.

De há 30 anos para cá, após a explosão da esperança, primeiro na rua, depois nas urnas (a participação nas primeiras eleições após o 25 de Abril ultrapassou os 90%), foram-se queimando etapas até se ultrapassar pela direita tudo o que de pior o sistema democrático pode, mantendo-se democrático, produzir. Hoje, com excepção dos que votam por clubismo partidário, os portugueses que se dão ainda ao trabalho de votar (que são, como se sabe, cada vez menos) votam principalmente contra: umas vezes contra o PSD, outras contra o PS, outras contra o PSD e o CDS, outras ainda contra o PSD, o PS e o CDS ou contra o PSD, o PS, o CDS e o PCP (o BE não tem relevância suficiente para alguém se incomodar a votar contra o BE), ou, abstendo-se, contra todos eles. Até porque os portugueses foram aprendendo com a experiência que é inútil votar por programas eleitorais visto que os programas eleitorais são letra morta depois das eleições e que é inútil votar por listas eleitorais porque muitos dos que nelas figuram nunca exercerão os lugares para que forem eleitos ou figuram nelas por todos os motivos (alguns deles bem singulares…) menos pela competência. Dito de outro modo: o sistema representativo tem funcionado perfeitamente.

Nos últimos tempos, contudo, a coisa transformou-se num libreto de opereta: um primeiro-ministro eleito que arranja melhor emprego e abandona o barco, um presidente da República que empossa um primeiro-ministro não-eleito em nome de uma mirífica estabilidade que só ele antevê e que, quatro meses de instabilidade depois, em lugar de demitir o Governo, dissolve o Parlamento, e um Governo que, dissolvido o Parlamento, se demite…

Os portugueses irão, tudo o indica, votar agora contra o PSD e o CDS. Mas a maior parte deles ficará, como de costume, em casa. Poderia votar em branco; só que ninguém acredita que isso pudesse ter, como na fábula de Saramago, alguma consequência.»

Cavaco no papel de messias

Pacheco Pereira (30-11-04) é que tem razão. Estou convencido que o melhor que podia acontecer ao país era Cavaco concluir que os constrangimentos macroeconómicos e as exigências de rigor orçamental que esperam o novo governo exigem uma atitude verdadeiramente messiânica e decidir candidatar-se a primeiro-ministro em vez de Presidente.

A situação económica externa não dá sinais de melhorar, a situação interna exige espírito de rigor e a verdade é que nenhum dos putativos governantes – Santana ou Sócrates – parece capaz de implantar as medidas que o país exige. O primeiro porque é congenitamente populista e só assim sabe viver a política (vai prometer tudo a todos durante a campanha e vai cumprir mais do que devia se chegar ao governo). O segundo porque emana de um partido com vocação de big spender, ainda para mais “estimulado” por um Bloco de Esquerda mediaticamente acutilante ou formalmente interveniente (conforme os resultados eleitorais).

Cavaco é insuportavelmente self-righteous e provou quando foi primeiro-ministro, que tinha mais vocação para os primeiros mandatos do que para os seguintes. Deve vir com “prazo de validade”. Mas, talvez devido ao seu auto-conceito messiânico, parece estar, na sua verticalidade e empertigamento, a anos-luz dos invertebrados políticos de hoje, qualquer que seja o quadrante partidário para que olhemos.

Cavaco, Sá Carneiro, Soares, Cunhal, Eanes, Amaro da Costa, Freitas do Amaral: estes foram os nomes que, puxando cada um para seu lado, confrontando-se e digladiando-se, estruturaram a democracia portuguesa. É verdade que os tempos eram outros, mas compará-los hoje com os políticos que temos não pode deixar de ser deprimente. Com a agravante de os dois líderes partidários longamente forjados na sombra de cada um dos respectivos partidos – Guterres e Durão – terem ambos fugido e abandonado o país à sua sorte. Quase como se tivessem combinado.

Não admira por isso que quer o PSD quer o PS olhem com saudade os seus líderes históricos, ao ponto de Soares se ver obrigado a dizer “basta!” e Cavaco ser reclamado por mais do que alguns barões (sim, Pacheco Pereira já se pode considerar politicamente brasonado). O PS aprovou Sócrates por falta de alternativas mas na realidade não o tem em muito boa conta; e o PSD votou maciçamente em Santana, mas dar-lhe-ia um pipanote assim que Cavaco surgisse do nevoeiro. Se surgisse.

De Soares já sabemos que está cansado e mais interessado nas suas palestras. Mas Cavaco vacila. O PSD ficaria de pantanas, mas o país só teria a ganhar. Pelo menos nos primeiros anos, por causa do já referido “prazo de validade”.

De que serve um acordo de governo pós-eleitoral senão para contrariar todas as razões que desaconselham uma coligação pré-eleitoral?

Para o PP, ir sozinho às urnas é ir livre às urnas, livre de “constrangimentos” para elogiar os ministros populares por oposição aos ministros sociais-democratas e para criticar a errância do primeiro-ministro, os dois temas principais que os populares vão usar na campanha. Com a existência prévia de um acordo de governo em caso de vitória da direita, Portas tem que ponderar um pouco melhor aquilo que diz sobre Santana e o PSD do que se não houvesse acordo algum. Mantém-se livre, mas dentro de uma certa latitude de comportamento.

Poderia dizer-se que assim Santana garante ter uma coligação para governar depois das eleições caso as vença. Mas será que alguém duvida que sempre a teve e sempre a teria? O que poderia impedir Santana e Portas de se confrontarem em campanha na ausência de qualquer tipo de entendimento e entenderem-se depois em nome do “interesse nacional”? Nada.

Na verdade parece-me que a única razão para este acordo está no ponto 3 do mesmo e corresponde a uma astuta jogada política de Santana, daquelas que se esperavam dele e com cuja ausência ele nos desiludiu nestes quatro meses: garantir que o PP não se coliga a mais ninguém em caso de derrota do PSD. Com esta garantia, Santana define a sua política de alianças e “obriga” o PS a depender do BE para uma solução governativa não maioritária. Não me espanta que a partir de hoje, como aliás já começou, a questão de uma eventual coligação com o BE seja posta a Sócrates sempre que este aparecer em actos públicos, entrevistas ou debates. E, com isso, Santana espera afastar do PS o eleitorado de centro que “digere” mal o esquerdismo radical do BE. E esse é, como se sabe, o eleitorado que decide eleições.

Quanto ao PP, Santana pretende apelar ao voto útil em nome de uma bipolarização que, de certa forma, ele próprio ajudou a construir.

Chapeau!

O PS e o Bloco de Esquerda

É de prever que o PS continue a negar qualquer intenção de governar coligado com o BE em caso de maioria relativa. Isso faz parte da estratégia para apontar a uma maioria absoluta. Mas depois das eleições, naturalmente, tal é possível, pelo menos do ponto de vista do PS.

A razão porque me parece que um eventual acordo entre socialistas e bloquistas não passará do parlamento prende-se mais com o BE.
O BE sabe que tem sobretudo um eleitorado urbano e jovem e sabe que ser “do contra” é um elemento constitutivo da relação entre o BE e uma boa parte do seu eleitorado. Por isso, não acredito que o BE “arrisque” fazer parte do Poder. E por isso é que a coligação, a existir, não será de governo, mas apenas de incidência parlamentar. Essa é aliás uma das alternativas para o presidente empossar um governo socialista minoritário mas vencedor, mesmo que uma coligação (pré ou pós-eleitoral) PSD-PP garanta uma maioria, um cenário provável.
Se o programa de governo do PS não ferir nenhuma das bandeiras do BE e este puder obter, em troca da viabilização parlamentar, a consumação de alguma das suas propostas, então o BE ganha respeitabilidade, tem algo para mostrar aos seus apoiantes, mas mantém uma “sanitária” distância em relação ao Poder. Este parece-me de longe o cenário mais provável das próximas eleições.
Se, ao contrário do que Sócrates agora nega, PS e BE se juntarem num governo, então é mais do que provável que os bloquistas serão o elemento instabilizador da maioria, sujeitos às forças contraditórias da pleíade de partidos e grupos que originalmente compõem a plataforma e à tentação de defender as suas bandeiras. O choque do Poder não é traumático só para o eleitorado bloquista, é-o também para os seus dirigentes caso estes decidam aceitar o canto da sereia.

Para qualquer entendendor, meia-palavra basta!

“Carlos Cruz mandou o seu advogado prò c…”

Manchete do 24 Horas de hoje.

Um dia alguém devia fazer a história das mais reles páginas de imprensa publicadas em Portugal. Se alguém tiver isso em projecto, que corra para a banca porque o 24 Horas lançou mais um dos seus contributos para essa história.
Roland Barthes certamente teria muito a discorrer acerca do significante e do significado deste “c…” assim publicado na primeira página de um jornal.
Formalmente, o 24 Horas não escreveu nenhum palavrão. Mas, dos seus muitos milhares de leitores, duvido que haja um único que não tenha entendido a mensagem. Ou seja, o significante é diferente mas o significado é o mesmo. Não é, aliás, exemplo único de mais do que um signifcante que se referem ao mesmo significado. O que conta não é naturalmente a forma mas sim o conteúdo; não importa a construção da mensagem mas sua desconstrução no destinatário: ou seja, a comunicação. Donde se conclui que a mensagem na primeira página do 24 Horas de hoje é, sem formalismos, “Carlos Cruz mandou o seu advogado prò caralho“. Que fique registado a crédito do 24 Horas e da sua contribuição para a história da imprensa em Portugal!

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Duas recomendações para além da espuma dos dias.

Nicola Conte passou pela ESL de Rob Garza e Eric Hilton antes de “assinar” pela Blue Note. O resultado é este belíssimo “Other Directions”.

Virginia Astley aparece pouco pelos escaparates nacionais mas desta vez chegou à FNAC este bucólico “From gardens where we feel secure”. Para fechar os olhos e “ver” o mais profundo english countryside.

Allez, Pinto da Costa, Allez !!

A mais-que-merecida vitória do F.C.Porto na Taça Intercontinental provocou mais uma dedicatória a Pinto da Costa. Nos dias que correm não há vitória portista que lhe não seja dedicada e não há jogo em que o “Allez, Pinto da Costa, allez” não seja cantado. Não sei se há muitos desses, mas se eu fosse portista moderado, estaria seriamente preocupado com a perspectiva, mesmo que seja ainda só a perspectiva, das consequências desportivas da acção em que Pinto da Costa é arguido. Será que lhe vão continuar a dedicar vitórias se o Porto tiver que ir jogar para a segunda liga ou se for suspenso da competição por um determinado período de tempo? É verdade que o Benfica não foi despromovido em consequência de Vale e Azevedo, apesar de os regulamentos o preverem, e isso demonstrou que o futebol é de facto um mundo à parte. Mas o Benfica não é o Porto e, apesar de tudo, os tempos agora são outros. (Aliás, a expulsão é hoje o mínimo que os sócios do Benfica têm para oferecer a um presidente que elegeram a 70%, o que ilustra bem as voltas que o mundo dá)

Independentemente de haver condenação ou não, a acusação a Pinto da Costa serve também de “moral da história” a todos os adeptos de outros clubes que à mesa de café diziam que aquele é que era um presidente a sério! Admiravam-no e invejavam-no por todas as razões erradas, incluindo aquelas que redundaram nesta acusação.

Tanto os primeiros como os segundos podem ainda vir a ter que engolir as suas próprias palavras.

Santana segundo o PP

No quadro do pacto de não agressão que o PP e o PSD acordaram para concorrerem separados às legislativas e mesmo assim conseguirem “suportar-se” depois, o carácter errático de Santana será um dos temas mais glosados pelos populares, o que aliás já começou. Desse ponto de vista Santana e Portas são a noite e o dia, PP sabe-o vai aproveitá-lo em campanha.
Acho no entanto muito improvável que um tal pacto de não agressão resista a uma campanha eleitoral. Provavelmente as primeiras “ofensas” virão do lado social-democrata, mas os populares não deixarão de responder, mais friamente mas não menos “ofensivamente”. E o grau de “agressão” será tanto maior quanto mais improvável parecer a vitória. No caso de esta acabar por acontecer, veremos se sobre as vergastadas de um e de outro não ficam feridas por cicatrizar

Agora é finalmente a vez do PS. Depois de quatro meses de autoflagelação do PSD, período durante o qual os socialistas tiveram tempo de eleger um líder e deixá-lo sentado, de braços cruzados, a ver o triste espectáculo santanista do enterro da maioria, agora o PS tem que fazer algo. E vamos ver se sabe o que tem que fazer. Essa é incógnita que encerra o resultado das próximas eleições e esconde o rosto do próximo governo. Na certeza porém de que Santana Lopes é muito mais forte a fazer campanha do que a governar. É por isso improvável que alguém consiga maioria absoluta, o que permite antever uma de duas coisas: um governo de coligação PSD/PP (seria curioso ver Sampaio a empossar Santana outra vez); ou um acordo de incidência parlamentar entre o PS e o BE.
Isto é tudo o que permite um exercício de mera futurologia gratuita.

E agora, como fica o referendo?

Com o Governo demitido, a Assembleia dissolvia e as eleições marcadas para Fevereiro, como fica a questão o referendo sobre a Europa? Não será esta uma porta aberta à inclusão da questão nos programas dos partidos, tornando assim “desncessária” uma consulta popular pouco tempo depois da eleição? Não seria esta uma solução perfeita para um arco partidário que, manifestamente, preferia não consultar o povo por ter medo da sua reacção? Isto parece-me muito provável.
Outra questão interessante é a posição que o PP adoptará na campanha eleitoral sobre o referendo e sobre a Constituição Europeia, sabendo que esse é um dos pontos-chave na sua distinção face ao PSD mas pode também comprometê-lo quando voltar ao Governo, como o partido espera que aconteça.