Voto em branco

No âmbito da polémica criada a propósito do mais recente romance de José Saramago houve opiniões e tomadas de posição que claramente misturaram coisas que não deveriam ser misturadas e assim tornaram confuso um debate de ideias que – como qualquer um – seria tanto mais produtivo quando menos confuso fosse.
Pelo que julgo ter percebido José Saramago romanceou uma situação hipotética em que o voto em branco se torna numa arma política para uma maioria da população descontente com o sistema de partidos que rege a democracia em que vivem. Depois, na explicação da sua própria obra literária, Saramago parece ter ido mais além e ter sugerido a validade dessa prática para além da ficção. Não vi declarações suas claras nesse sentido, mas também não as vi em sentido contrário. E qualquer modo, se sim ou não o escritor transformou uma obra de ficção numa proposta política real, é importante mas irrelevante para aquilo que em toda esta polémica me parece mais interessante: a maneira como o pensamento pode ser toldado por ideias preconcebidas.
A ideia de uma população descrente na política que maioritariamente vota em branco e assim cria um problema político de difícil solução é original e criativa. Original porque ninguém se tinha lembrado dela antes e criativa porque abre linhas de reflexão interessantes (se não mesmo de acção: e se de repente aumentasse significativamente a percentagem de votos em branco nas eleições europeias?). É uma ideia que levanta mais questões do que dá respostas e por isso tem todos os atributos de poder gerar à sua volta um interessante debate. Por isso, o pior que se lhe pode fazer é descartá-la em nome de ideias preconcebidas acerca do autor da proposta ou das suas supostas intenções ao fazê-la. A partir do momento em que é lançada, a ideia do voto em branco como arma política significativa pode e deve ser discutida por si mesma, independentemente do autor.
Houve pessoas que claramente minimizaram a ideia como um esoterismo de um conhecido comunista; outras entenderam-na como uma manobra de promoção de mais um best-seller; outras ainda como o devaneio de um intelectual pró-cubano. Como se o facto e ele ser comunista, o facto de haver um livro ou de Saramago ser pró-cubano fosse parte da ideia. Não é. A ideia subsiste por si e só não é espontaneamente gerada porque necessita de um intelecto para nascer. Mas uma vez nascida é propriedade de todos os intelectos que com ela se desejem ocupar.
E é desgostoso ver homens brilhantes na arte de exercitar o intelecto a deixarem as suas predisposições anti-Saramago, quaisquer que elas sejam, interporem-se no caminho entre eles e uma ideia tão potencialmente rica como esta. É sobretudo desgostoso para quem espera ansiosamente que eles se pronunciem. Eu senti esse tipo particular de desilusão a propósito de Pacheco Pereira e de Vasco Pulido Valente. Bem sei que ambos se posicionam bastante à direita de Saramago. Mas esperava que conseguissem pronunciar-se sobre a ideia em si sem se deixarem toldar pelas suas opiniões políticas ou literárias sobre Saramago, que o acaso fez autor da ideia. Como espectador atento, acho um desperdício dos seus intelectos. Um verdadeiro voto em branco…

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