Isto é tudo um grande equÃvoco: quem nos deu vida nunca pensou que nós fôssemos desenvolver uma consciência.
É impressionante o quanto o pensamento é algo fugidio. Um exercÃcio simples para o comprovar é tentar recuperar ao inverso as últimas associações de ideias. Exemplo: pensei que o pensamento era fugidio depois de me lembrar que o próximo lançamento dos «Filmes DNA» é um filme de Woody Allen, depois de saber que é recomendado por João Lopes, responsável pela única vez que saà do cinema a meio de um filme (o «Indochina»); depois de me lembrar que Paul Shrader, se não estou em erro, escreveu o argumento de Taxi Driver e eu ainda não li (acho que não…) o «Scorcese por Scorcese», que ainda deve estar na estante da sala; tudo isto enquanto em fundo oiço o meu filho a ver o «Monsters, inc» e acabei de folhear o DNA de sexta. Qual é a lógica possÃvel de um percurso de pensamento tão errático? Faltam certamente pedaços pelo meio que explicam as voltas e revoltas do pensamento, provando que este corre bem mais depressa do que a escrita ou até do que a nossa capacidade para memorizar as sua sinapses. E imagino que não seja por falta de espaço, mas sim por falta de tempo.
Mas, mesmo dando de barato que há razões biológicas para não conseguirmos recuperar o percurso do nosso pensamento em mais do que duas ou três associações de ideias, como explicar que não consigamos – por mim falo – estabelecer um percurso, já não verdadeiro, mas apenas e somente verosÃmil. Exemplo: que pedaço de pensamento, que estanha ligação, antinómica ou sinonÃmica, me terá levado do Monsters ao Paul Shrader e ao Taxi Driver, e destes ao Woody Allen e à colecção de filmes DNA. Será que o facto de minutos antes ter lido uma reportagem de Sónia Morais Santos no memso DNA teve algo que ver como assunto. Terá essa “informação†ficado a pairar como uma névoa à espera de influenciar a direcção do pensamento sem nunca verdadeiramente se relevar presente? É possÃvel, mas não passa de pura especulação, como é especulação qualquer outra ligação ou pensamento que agora me ocorra colocar como possÃvel no percurso que tento reconstituir. Simplesmente não é suficientemente verosÃmil, embora seja perfeitamente possÃvel. E não é verosÃmil simplesmente porque não tem o encanto das coisas reais e irrepetÃveis. Não entramos duas vezes na água do mesmo rio. É esse o mistério do pensamento.