Conflito duradouro

Não se sei se ouvi mal a notícia na rádio, mas na sequência do mais recente atentado em Jerusalém fiquei a saber que no governo da Autoridade Palestiniana existe um «ministro para as negociações» e que este afirmou que o conflito só podia melhorar quando houvesse «um processo de negociações sério e duradouro». Será preciso maior prova de que o conflito está para durar? Um ministro cuja pasta são as negociações e um processo negocial duradouro?

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Já agora, no mesmo debate na SIC Notícias em que participou o director do público, participou, entre outros, o director do Correio da Manha. A determinado ponto, esteve quase a acontecer o confronto esperado entre ambos, como representantes dos antípodas do jornalismo (se é que se pode chamar jornalismo ao que faz o CM…). Infelizmente, nem o director do Público nem nenhum dos directores presentes quis avançar nesse sentido, que me pareceria, sinceramente, o mais pertinente de todo o debate. Poderão ter sentido receio de expor os seus próprios «telhados de vidro», algo que sem dúvida todos têm, mas deviam ter tido a coragem de confrontar o director do CM com o que tem sido a sua má prática jornalística, mesmo correndo o risco de lhes verem apontados alguns pecados. Afinal, que relevância teriam estes ao lado dos do CM?
Mais ou menos o mesmo no debate da RTP1 sobre liberdade de imprensa e segredo de justiça. Não sei que sentido fará convidar para este debate o director do 24 Horas se não for para o confrontar com a sua própria prática jornalística. Mas, mais uma vez, ninguém parece ter tido coragem para o fazer.
Quem dirige a equipa que produz o trabalho jornalístico que produzem o CM e o 24 Horas está a pôr-se a jeito quando aceita comparecer publicamente para debater estas matérias. Só falta quem tenha a coragem de lhes dar os açoites.

Quando num recente debate na SIC Notícias sobre liberdade de imprensa, o director do Público disse que para ele o fundamental era distinguir entre o «interesse público» e o «interesse do público» eu concordei imediatamente. Embora o conceito não seja novo, parece-me um bom critério para dirigir as escolhas dos órgãos de informação e segundo a minha opinião, permite distinguir o bom do mau jornalismo. Há e haverá sempre media que regulam a sua acção pelo que pressentem ser o interesse dominante do público ou dos segmentos mais volumosos dessa entidade estatística. Mas deve haver outros que regulem a sua oferta noticiosa por aquilo que acham importante para a sociedade. O que é um papel bem mais honroso: enquanto os primeiros jornalistas não passam de cata-ventos estatísticos sem nenhuma função mediadora que não seja a transformação de um input informativo num output noticioso; os segundos «escolhem», de uma infinidade de informações que lhes chegam, aquelas que se transformam em notícia, e, desse modo, têm um papel activo na construção da nossa sociedade. E a partir do momento em que o façam tomam consciência da responsabilidade que tal função implica. Os outros? Bom, os outros continuarão a ganhar o seu ordenado ao fim do mês.
Mas, provando que no melhor pano cai a nódoa, alguns dias depois desse debate, a primeira página do Público era ocupada a toda a altura e toda a largura pela «Comoção no adeus a Féher», com uma foto de velas, flores e gente a chorar. Também eu fiquei estupefacto com o que aconteceu naquele domingo. Estava a ver o jogo pela televisão e a brutalidade da morte incomodou-me como deve ter incomodado toda a gente que a viu. Mas Féher era um jogador jovem com uma carreira curta e ainda mais curta em Portugal; sem títulos significativos conquistados; de nacionalidade húngara; funcionário do clube desde há apenas dois anos. Não se trata de merecimento ou falta dele. Simplesmente não é uma matéria de interesse público com relevância de primeira página, embora seja, como se provou, matéria de grande interesse do público.