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O ovo ou a galinha?

egg

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

A pergunta é mil vezes repetida como se não tivesse resposta. Mas, na realidade tem uma resposta muito simples. É tão óbvio que, antes que saiba qual a resposta que a Scientific Amercian dá à questão na sua edição de Setembro, divulgo a minha visão do “problema”.

Quem nasceu primeiro foi obviamente o ovo. E porquê? Porque o método de reprodução é anterior ao animal reproduzido. É claro! Aliás, é tão claro que custa a perceber porque é que a pergunta acima continua a ser usada como se fosse um paradoxo.

Em abstracto, já existiam animais que nasciam por meio daquilo que nós sem dúvida consideraríamos um “ovo”, antes de existir qualquer animal que nós considerássemos uma “galinha”. Isso quer dizer que, na história da evolução, terá havido muito ovos que deram origem a muitos seres antes que surgisse a galinha. O que quer dizer que necessariamente o ovo existiu antes da galinha.

O paradoxo só existe em concreto. É verdade que para existir “uma” galinha terá que ter existido “um” ovo do qual ela tenha nascido. Mas, se “essa” galinha teria que nascer “desse” ovo, então teria que haver “uma” galinha anterior para pôr o ovo.

Ou seja, o paradoxo na realidade é uma falácia porque só pode existir no concreto. A partir do momento que lhe aplicamos o pensamento abstracto ele deixa de fazer sentido e a resposta é tão óbvia como 2+2 serem 4: quem nasceu primeiro foi o ovo!

O dia de relexão tem destas coisas: damos por nós a pensar em futilidades interessantes…

A nossa cultura, o que resta dela

“Our Culture, what’s left of it”

de Theodore Dalrymple

Descobri este interessante livro na edição original em inglês da Ivan R. Dee  numa loja FNAC.

Theodore Dalrymple é o pseudónimo de Anthony Daniels, um psiquiatra inglês que, motivado pelos ensinamentos da sua profissão,  deu por si a meditar sobre o sentido da vida e os grandes problemas das sociedades modernas. O seu pensamento é profundamente conservador e – talvez  por isso mesmo – é em muitos pontos bastante inovador. Andrew Keen, se não conhece, devia conhecer. Na página da wikipedia há um link para uma interessante entrevista a uma televisão holandesa.

 Vai comigo para férias!

O que é a felicidade?

Daniel Gilbert, autor do livro “Stumbling on Happiness” vai ser um dos oradores numa conferência sobre o assunto a realizar na Culturgest de 31 de Maio a 2 de Junho, juntamente com outras “estrelas” como Darrin McMahon, Ruut Veenhoven, Gilles Lipovetsky e Eva Illouz.  Um elenco fenomenal para  um evento no qual a entrada é gratuita.

Segundo o Público, que publicou um extenso trabalho sobre Daniel Gilbert no P2 de sábado, o livro será em breve editado em Portugal com o título “Tropeçar na Felicidade”, pela Estrela Polar, da Oficina do Livro. Tem sem dúvida todo o  perfil de um best-seller (embora, segundo o autor, este não seja um livro de auto-ajuda, mas um livro para o qual as pessoas se virarão “quando tiverem comprado um livro de auto-ajuda, feito tudo o que esse livro aconselha e continuarem a sentir-se infelizes” – do referido artigo do Público)

Dan Gilbert foi um dos participantes na TED Condeference de 2004, com uma apresentação que naturalmente já abordava o tema em moldes semelhantes àqueles que será lícito esperar da conferência de Lisboa. Em jeito de antecipação, aqui está o video dessa TED Talk.

Recomendação literária

A propósito da esquizofrenia do olhar dos portugueses sobre si próprios: 

“Para o verdadeiro patriotismo, em suma, uma pátria não é apenas um legado que se recebe passivamente, mas também algo que nele se recusa, divergindo e reformulando-o. Ele é amor ao que os nossos majores, os nossos antepassados, os nossos pais constituíram e nos deixaram como legado, mas aceitá-lo é partilhar criticamente , com escolha lúcida e radical  a partir desse património de valores e pedras, de acções e modelos de vida, de feitos e de projectos, de sonhos e de tentames possa haver de vivo, de realmente futurante e de melhor do que somos, de generosamente aberto ao mundo – mau grado os defeitos, as taras, os crimes e as incapacidade patenteadas por dirigentes cegos que, no passado remoto ou presente, conduziram outros cegos – tendo inclusive a coragem de divergir, recusar, enfrentar o erro santificado e inveterado pelo tempo e pelo costume. (…) A questão do patriotismo só tem sentido nesta perspectiva de vivência duma cidadania esclarecida, actuante, aberta ao mundo, generosa na inclusão dos Outros, uma concepção solidária  e universal que se articule com os projectos de paz e de posperidade que a ideia da Europa pós-Estado-Nação eseencialmente contém. Só conhecendo, valorizando e praticando o ‘melhor de nós mesmos’ (…) podemos ter uma cidadania esclarecida, ancorada no melhor do nosso passado como povo, como comunidade particular integrada na unicidade do género humano, projectada para um futuro de progresso, prosperidade e harmonia.”

João Medina, Portuguesismos, página 304

Morreu o Capitão América

capitainamerica.jpgMorreu o Capitão América, vítima de uma atiradora furtiva. Tinha 66 anos e ainda lutava pela justiça no Mundo.

Também morreu Jean Baudrillard, ensaista e pensador francês.

Eram amigos.

As grandes questões

A conferência TED2007, que se realiza entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, em Monterey, California, terá como tema As Grandes Questões:

  • Who are We?
  • What is our place in the Universe?
  • What is Art? – is beauty just a human invention?
  • What is Love – and why are we so bad at it?
  • What is Evil? – and how do we fight it?
  • What are the most Gorgeous New Things being created in our world?
  • Are we inadvertently creating New Forms of Life?
  • What are today’s most significant Cultural Trends?
  • What will the Future be like?
  • What are the Problems I should be most worried about?
  • Who will be the next President? 
  • What will be my Legacy?
  • Inputs para uma teoria sobre a economia da abundância

    A ideia foi expressa por Chris Anderson numa conferência Poptech e suscitou o interesse da blogosfera: aqui, aqui, aqui aqui e mais ainda aqui (e, já agora, também aqui). Anderson afirma que no mundo moderno nos aproximamos de um estado de abundância de recursos que altera o paradigma em que funciona a ciência económica. A questão que se coloca é se as leis da economia servem para um estado de abundância da mesma forma que servem para um estado de escassez de recursos. Esta é para mim uma questão em aberto, à qual certamente voltarei, uma vez que me parece crucial para entender o funcionamento moderno da indústria da informação e entretenimento. Este post destina-se, para já, a fixar (e partilhar) os contributos acima. Outros inputs são bem vindos.

    Espírito hegeliano

    Metcalfe’s Law says that value of a networks grows with the square of the number of nodes. Today’s Web, which is as much about contributing as it is consuming — two-way links, as opposed to the old one-way networks of broadcast and traditional media — allows the same to apply to people. Connecting minds allows our collective intelligence to grow with each person who joins the global conversation. This information propagation process, which was once found in just a few cultures of shared knowledge, such as academic science, is now seen online in everything from hobbies to history. The result, I think, will be the fastest increasing in human knowledge in history.”

    Chris Anderson, no Edge World Question Center

    Se isto não é hegeliano…

    Economia da abundância

    Quase uma contradição nos termos, a “economia da abundância” é algo sobre que Chris Anderson escreveu neste post e promete continuar a desenvolver no seu The Long Tail.

    A ideia é interessante. Em termos convencionais, só tem valor económico aquilo que é escasso, não aquilo que é abundante, o que obriga a repensar todo o enquadramento económico da nova vaga de aplicações, produtos e manifestações da internet, onde a abundância prevalece sobre a escassez.

    Se continuar a desenvolver a sua “economia da abundância”, Chris Anderson encontrar-se-á, a determinado ponto, à procura do modelo de negócio para a web 3.0. E isso é a verdadeira one million dollar question a que toda a gente quer dar uma resposta.

    Um assunto a acompanhar com atenção…

    A propósito do aborto

    1. Porque é que a lei fala em 10 semanas e não em 12? Ou em 10? ou em 8 ou 16? Quando é que começa a vida? Do meu ponto de vista, há dois momentos decisivos: a concepção e o nascimento. Atribuir o começo da vida ao momento da concepção é estabelecê-lo demasiado cedo para que permita resolver o problema social. Fixá-lo no nascimento é demasiado tarde para que seja compatível com os valores éticos em que fundamentamos a nossa vida individual e colectiva. O “problema” é que a medicina permite-nos “ver” aquilo que está dentro da barriga. “Antes da medicina” (ou num mundo sem medicina, o exercício é igualmente irreal), a vida humana começava sem dúvida no momento do nascimento e tudo o que se passava antes disso era relativo à  saúde da mãe. Mas a evolução da ciência e da técnica (e portanto da medicina), “obrigou-nos” a criar novos padrões éticos. É por isso que a concepção é demasiado cedo e o nascimento é demasiado tarde e é daí­ que resulta esta discussão.

    2. “Não matarás!” é talvez o mais importante valor ético do mundo ocidental. Mas não está generalizado em todo o mundo nem mesmo no ocidente (o Irão e os EUA, por exemplo, não o respeitam). O que prova que os valores éticos, embora devam “presidir” à sociedade, dependem da realidade social em que surgem e a que se dirigem. E portanto dependem também da evolução da ciência e da técnica.

    3. O progresso da ciência e da técnica não é independente da forma de organização das sociedades humanas, mas é em boa parte autónomo em relação a ela. Ou seja, a investigação científica e técnica produz resultados que nem sempre correspondem exactamente àquilo que se desejava. De cada vez que se lança uma semente, nasce uma planta diferente. É verdade que num determinado momento e local históricos se investiga sobretudo aquilo que interessa à sociedade conhecer ou resolver. Mas a investigação científica e técnica produz mais resultados e mais inesperados do que os inicialmente pedidos. É a evolução da ciência e da técnica que nos permite hoje conhecer melhor o feto humano e estabelecer em relação a ele padrões éticos que não existiam no passado. Mas é também a evolução da ciência e da técnica que nos permite ser capazes de “determinar” a existência de vida, seja através de inseminação artificial, seja através de clonagem, seja através de suspensão criogénica, seja através da… interrupção voluntária da gravidez. De uma coisa não podemos ter dúvidas: a evolução da ciência e da técnica vai continuar a colocar-nos este tipo de problemas e vai-nos confrontar com questões bem mais complexas do que a do aborto. 

    4 . Por isso, no debate do aborto (como em muitos outros debates), parece-me que de um lado estão  os progressistas e do outro estão os conservadores.  De um lado estão os que acreditam que é a evolução da ciência e da técnica (ou seja, do conhecimento tout court) que ilumina o caminho e não só nos coloca desafios como também nos dá respostas; do outro estão os que resistem e acham que o progresso da ciência e a técnica deve ser submetido à vontade colectiva e deve ser limitado pela nossa ética colectiva. Nesta equação – e portanto também na questão do aborto – os progressistas têm sempre razão. Quando não a têm hoje, tê-la-ão amanhã!