A Alemanha está à rasca!

Hoje a Grécia enfrenta um momento histórico em que tem que decidir o seu futuro. Mas, bem vistas as coisas, isso pode ser apenas um detalhe – facilmente ultrapassável – no quadro geral das coisas. Como aliás tem acontecido desde sempre, na Europa, com todas as “manifestações de vontade” nacionais.

Desde o início desta crise sempre me perguntei porque razão a Alemanha recusava tão terminantemente desvalorizar a moeda europeia e as razões históricas sempre me pareceram insuficientes para o explicar. Por outro lado, não é plausível que o governo alemão aja por critérios não racionais. Muito pelo contrário: talvez seja difícil de os encontrar ou de os perceber, mas DE CERTEZA de há motivos racionais para a política europeia da Alemanha.

Há algumas semanas li um artigo de opinião num grande jornal europeu – não me lembro de quem nem em que jornal, sorry! – que dizia mais ou menos isto: a razão pela qual a Alemanha quer impor medidas de austeridade nos países do sul é para forçar a redução de salários nesses países e dessa forma aumentar a competitividade do espaço económico europeu face aos países emergentes. Uma espécie de – não “um país, dois sistemas” – mas sim “uma união, várias economias”. Ou, se quisermos, uma Europa a várias velocidades. Claro que se pode dizer que isso não é possível porque não há fronteiras financeiras – a moeda é a mesma e portanto a tendência para o nivelamento de preços e salários é inevitável – ou porque não há fronteiras demográficas – as pessoas podem migrar de um país para outro. Mas, mais uma vez, isso são apenas detalhes, que se resolvem quando e se o problema surgir. Vincular um país a um plano da austeridade que o obriga a pagar regularmente uma dívida monstruosa num prazo de 10 ou 15 anos é garantir que durante esse tempo esse país – a comunidade eleitoral – terá que aceitar politicamente um quadro de excepção com salários mais baixos. É esse o “frame of mind” actualmente vigente em Portugal. Não o é, obviamente, na Grécia. Manter um país dentro da união política mas fora da união monetária – que é o que a Europa vai fazer com a Grécia – é uma “pequena-grande” variante desta estratégia.

Esta parece-me de longe a melhor explicação até hoje para o comportamento aparentemente estranho da Alemanha no quadro europeu. Mas é apenas uma parte da explicação.

Se há coisa que os alemães sabem é que os países emergentes estão e vão continuar a  crescer muito acima média europeia e que isso prejudica a competitividade alemã.  Tradicionalmente, repunha-se a competitividade de um país através da desvalorização da sua moeda, que não é mais do que uma forma de reduzir todos os custos de produção, incluindo os salários. Acontece que, no quadro europeu, isso afectaria também os salários dos trabalhadores alemães. Com os planos de austeridade desenhados para os países do sul da Europa (que, parecendo diferentes são no essencial a mesma coisa: como reduzir massivamente os salários tentando manter a moeda única) a Alemanha procura preservar a competitividade alemã (e europeia!) sem afectar os seus próprios salários.

Mas – e esta é para mim a questão mais interessante – embora pareça uma manobra de ataque às economias do sul, esta é na verdade uma manobra de defesa por parte da Alemanha! Primeiro, é uma manobra de defesa dos salários dos alemães. E, depois, é uma manobra de defesa da integridade da própria Alemanha. Ou seja, a Alemanha está à rasca e  a sua obsessão com os planos de austeridade dos países do sul demonstra-o claramente.

Todos nós suspeitamos o que é que aconteceria se a crise (ou seja, redução de salários) chegasse à Alemanha nos mesmos termos em que chegou à Grécia ou está a chegar a Portugal. Penso que os próprios alemães têm medo disso. Aliás, devemos meditar se o que preservou a democracia e a a paz na Europa foi mesmo a união económica entre os vários países, como tantas vezes é repetido, ou foi afinal o período longo de prosperidade que ela permitiu e cuja factura agora pagamos. Os cínicos dirão que é sempre assim: a paz e a democracia não emergem por si e são sempre fruto da prosperidade. E vice-versa, naturalmente!

É disso que os alemães têm medo! E os outros povos também!

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