“Povo sem medo do mar não tem medo de lutar”

“Povo sem medo do mar não tem medo de lutar”

A frase – de autor desconhecido -serviu a um dos cartazes de apoio à recente greve geral de 1 de Maio. A construção gráfica é muito feliz: veicula uma ideia clara, com muito “lastro” histórico e um apelo claro à acção.

E, de facto, quando pensamos na aventura marítima de 1500, não podemos deixar de nos assombrar com a aparente coragem com que os navegadores portugueses de então se lançavam rumo ao desconhecido, não em sentido figurado mas literalmente real. À primeira vista pareceria haver aqui um fundo de coragem nacional a que o cartaz apela para resolver os problemas do presente. Mas esse pode ser, afinal um dos grades erros de percepção da nossa própria história.

A reflexão resultou – curiosamente! – da polémica sobre essa “espécie cultural em vias de extinção” que são as touradas e da análise das semelhanças e diferenças entre a Festa Brava em Portugal e em Espanha. Recordo-me que, ainda na faculdade, e inspirados pelo trabalho do professor Jorge Dias (e dos seus “Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa“) fizemos um trabalho sobre touradas em que entrevistámos, entre outros, o matador Diamantino Vizeu.

Obviamente falámos sobre as características do toureio a pé espanhol face ao toureio a cavalo português. A determinado ponto da conversa eu disse qualquer coisa como: “sim, mas os forcados, por exemplo, revelam uma enorme coragem ao enfrentarem o touro como o fazem!

Coragem nenhuma!” – retorquiu ele – “Eles são é completamente loucos! E isso não é coragem, porque a coragem implica a consciência perfeita do perigo que se corre!” Referia-se, obviamente, ao toureio a pé, em que o toureiro domina o touro ao seu nível, quase olhando-o olhos nos olhos, em pontas, um-para-um.

Esta ideia anda comigo desde então e volta-não-volta emerge a propósito deste ou daquele assunto. Agora foi a propósito da crise e da nossa atitude colectiva perante ela.

Aliás é curioso notar as características peculiares do toureio português – com nobres cavaleiros dominando a “festa” do alto da sua montada e os pobres “moços de forcados”, assim são adequadamente chamados, autorizados a dar uma volta com o “nobre” quando a coisa corre bem – por oposição ao toureio espanhol, com os nobres lá em baixo a lutarem pela vida e a dominarem a besta. É toda uma parábola que parece reflectir a história de ambos os países e também – é aqui que eu quero chegar – as suas diferentes atitudes perante a encruzilhada histórica em que ambos se encontram.

Ou seja: é bem possível que a tão famosa coragem portuguesa – aquela que nos levou a embarcar em 1500 e ainda nos leva a enfrentar uma besta de 500 quilos – não seja afinal mais do que inocente inconsciência. E que os nossos nobres, na vida como na tourada, se mantenham higienicamente distantes de maneira a não sujarem os seus punhos de renda.

O cartaz era bom. Mas se calhar partiu de uma premissa completamente errada. Isso é, pelo menos, aquilo que  a realidade vai dizendo…

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